Linguagem

BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.

A Linguagem Aberta

1. Enquanto seu livro se tornava tema de conversação filosófica em Cambridge, Wittgenstein permanecia na Áustria, figura solitária em busca de vocação, trabalhando por um tempo como ajudante de jardinagem num seminário, talvez ainda cogitando tornar-se monge.

2. Decidiu depois lecionar como professor rural numa das aldeias mais pobres da Áustria, movido pelo mesmo desejo de servir e sacrificar-se.

3. Segundo relato de sua irmã Hermine, ensinava aos filhos de camponeses com paixão, construindo modelos e máquinas simples, mostrando um genio para inventar exemplos que mais tarde marcaria seus escritos e o colocaria em relação ambígua com a chamada filosofia analítica, já que seu procedimento era sintético e imaginativo, e não o desmembramento tedioso de proposições próprio de um alegato jurídico.

4. Sua irmã, no entanto, considerava esse magistério um desperdício de talento, comparando-o a usar um instrumento de precisão para abrir embrulhos, e a resposta de Wittgenstein sobre a tormenta interior que ela não podia ver revela as tensões vividas nesse período, associadas também aos conflitos de sua homossexualidade.

5. Comentários de Von Wright sobre viver à beira da doença mental podem ser mal interpretados, mas, seguindo o critério jamesiano de que a morbidez religiosa só é patológica quando destrói a vida em vez de concentrá-la, os escritos posteriores de Wittgenstein revelam-se, a seu modo, uma celebração saudável do mundo comum.

6. Convidado em 1929 a ensinar novamente em Cambridge, ali transcorreria o resto de sua vida, ensinando e escrevendo, numa existência austera escolhida deliberadamente, sem mobiliário, sem convívio social, tendo renunciado à fortuna e até às gravatas apenas para simplificar a vida.

7. Sua leitura preferia romances policiais como distração, mantendo entre os autores sérios sua afeição por William James e Kierkegaard, cumprindo assim, de certo modo, seu antigo desejo de tornar-se monge num monastério de uma só pessoa situado em Cambridge.

8. À pergunta se foi uma vida feliz, Norman Malcolm relata tormento perpétuo, mas também a declaração final de Wittgenstein de que sua vida fora maravilhosa, eco da visão redentora dostoievskiana de que, no fundo, todos somos felizes.

9. Como vida religiosa, porém, a sua é de estranha autonegação, silenciando justamente aquilo que considerava mais valioso, à maneira do artista da fome de Kafka, cuja parábola de jejum físico ilustra a negação espiritual de impulsos religiosos não nutridos, fazendo de ambos, Wittgenstein e Kafka, almas gêmeas do espírito modernista.

I

10. O comentário de Picasso sobre a ansiedade por trás das maçãs de Cézanne, embora talvez mal aplicado ao próprio Cézanne, capta bem a intensidade da vida interior que transforma o trivial em matéria de profundo interesse, e assim se aplica às Investigações Filosóficas de Wittgenstein.

11. Um leitor do século XIX se surpreenderia com a importância atribuída a uma obra sem começo, centro ou fim, dedicada a assuntos triviais da linguagem comum, incomparável mesmo aos aforismos de Nietzsche, e ainda assim, como as maçãs de Cézanne, adquire vida monumental própria.

12. As Investigações giram em torno da mesma zona de silêncio total do Tractatus, mas agora sem anúncio, presente apenas por ausência, renunciando por completo a qualquer mundo transcendente, ao contrário até da trascendência confundida dos personagens de Kafka, pois a filosofia deixa o mundo tal como é.

13. Essa ambiciosa renúncia trouxe suas próprias dificuldades, evidentes no atraso de publicação até a morte de Wittgenstein em 1951, já que a estrutura da obra, como certas peças de arte contemporânea sem clímax nem coda, não indica quando concluir.

14. Essa forma perigosa de escrever gerou seguidores menos afortunados, degenerando às vezes em trivialidade, mas o que distingue Wittgenstein, apesar do comentário felino de Russell sobre as necedades da gente necia, é a intensidade da mente que trabalha o material aparentemente trivial e mantém o livro vivo diante da rotina acadêmica.

II

15. A mudança monumental do Tractatus ao Wittgenstein tardio deve-se ao viraje do lenguaje formal da lógica para o lenguaje comum, reconhecendo os múltiplos usos vitais da linguagem além da mera afirmação de proposições, como perguntar, agradecer, maldizer ou rezar.

16. Nosso lenguaje comum revela-se assim uma família de linguagens sobrepostas, introduzindo Wittgenstein sua célebre ideia dos jogos de linguagem, termo adequado por designar tanto atividade vital séria quanto conjunto de regras estabelecidas por seres humanos e passíveis de modificação.

17. Mesmo disciplinas estritas como a lógica e a matemática exibem essa historicidade de regras, como mostram os números irracionais gregos, os infinitesimais de Newton e Leibniz e sua posterior fundamentação por Cauchy e Weierstrass, sempre dentro do contexto mais amplo da atividade humana.

18. Compreende-se assim o viraje de Wittgenstein para o lenguaje cotidiano através de sua imagem do caminhar sobre o gelo, onde a ausência de fricção do lenguaje lógico ideal impede o movimento, exigindo o retorno ao áspero caminho da vida concreta.

19. Sua postura geral revela um pragmatismo radical, cujo axioma fundamental, formas de vida como o dado que deve ser aceito, situa a filosofia não como adjunto da vida mas como atividade vital que desobstrui nosso caminho entre os confusos assuntos cotidianos.

20. Isso derruba a doutrina tradicional dos dois mundos, pois não há realidade final por trás da experiência cotidiana à qual recorrer intelectualmente, originando-se todos os significados dentro do mundo humano e devendo a ele retornar para comprovação.

21. Wittgenstein impõe, contudo, uma curiosa restrição ao proibir que mudemos as regras do lenguaje comum como as de um jogo, talvez para nos guiar pela sabedoria coletiva orgânica desenvolvida ao longo do tempo, ideia que ecoa a observação de Humboldt sobre o indivíduo como afluência de toda a humanidade no lenguaje.

III

22. Aceito esse passo revolucionário, cabe perguntar qual doutrina Wittgenstein nos oferece, e a resposta paradoxal é que não há doutrina alguma a comunicar, apenas a orientação de que a filosofia deixa o mundo tal como é, devolvendo-nos ao que já estava visível.

23. Seu tema limita-se a dois pontos centrais, o problema do significado da linguagem e o problema da relação entre mente e corpo, ambos unidos pela intenção de libertar-se do modelo cartesiano de uma mente como compartimento independente.

24. Esse ênfase claramente conductista, contudo, não permite reduzir totalmente o significado ao uso, pois compreender os usos listados num dicionário já pressupõe significados prévios, retornando sempre a um mundo onde já existem significados, como assinalaria Heidegger.

25. O conductismo pretende reduzir a vida mental à conduta corporal manifesta, e embora Wittgenstein negue querer eliminar a consciência, o peso acumulado de seus exemplos aponta nessa direção redutora.

26. O mais inquietante nesses exemplos é sua simplicidade mental, empobrecendo a vida psicológica ao restringir-se às condutas mais elementares, como ilustra o comentário de Iris Murdoch sobre o mundo achatado de Ryle, onde faltam pecado, amor, oração ou convicção política.

27. Comparado à riqueza da vida interior retratada por grandes romancistas como Dostoiévski ou Henry James, o mundo do conductista revela-se pobre e insignificante diante dessa complexidade psicológica compreendida sem apoio em detalhes comportamentais.

28. A intenção admirável por trás dessa pobreza foi a luta de Ryle e de quase toda a filosofia do século contra o fantasma cartesiano na máquina, luta que unificou escolas diversas e enriqueceu a precisão do discurso filosófico sobre a consciência.

29. A observação de Murdoch, porém, sugere que ao eliminar o fantasma cartesiano excluímos mais do que desejávamos, transformando-nos em organismos com condutas em vez de sujeitos conscientes.

30. Wittgenstein deixa cair, sem desenvolver, a observação de que sua atitude para com o amigo é uma atitude para com uma alma, embora não acredite que ele tenha uma alma no sentido cartesiano, sendo mais correto dizer que ele é uma alma do que que a tem.

31. Já que para Wittgenstein crer é aferrar-se a algo e praticá-lo, agir e pensar em relação ao amigo como se fosse uma alma equivale a crer sinceramente nisso, independentemente de qualquer análise filosófica satisfatória sobre a natureza da alma.

32. Essa observação sobre a alma surge como relâmpago e desaparece abruptamente, contrariando a própria advertência de Wittgenstein contra a dieta filosófica desequilibrada de um único tipo de exemplo, revelando que a marca do positivismo e do simplismo do engenheiro nunca o abandonou completamente.

33. Wittgenstein deveria ter confiado mais na riqueza do próprio lenguaje comum, saturado de interioridade e subjetividade humanas, como demonstram autores por ele admirados, Dostoiévski e Kierkegaard, cuja desesperação um leitor comum compreende sem necessidade de redução conductista.

IV

34. Cabe perguntar onde fica a liberdade dentro desse esquema, tema que Wittgenstein não analisa sistematicamente, deixando apenas observações fragmentárias sobre o intentar e o fazer que devemos desenvolver por conta própria.

35. Sua tese essencial é que a vontade não deve ser considerada entidade substancial paralela às ações do corpo, nem agente independente ou instrumento usado para executar uma ação.

36. A vontade é antes uma abstração de alto nível que assinala um aspecto da rede contínua de transformações chamada ação voluntária, sem corresponder a algo real, como ilustra sua distinção agostiniana entre o corpo desobedecer e a vontade desobedecer a si mesma.

37. Ainda assim existem circunstâncias em que tentamos mudar nossa própria vontade, como no exemplo do médico que recomenda parar de fumar, sendo a motivação a fonte principal da mudança, ainda que o próprio comportamento modificado também retroaja sobre a vontade.

38. Levando essa questão além da mudança de conduta externa, cabe perguntar se o que mais ardentemente desejamos é uma transformação da pessoa interior, dos sentimentos, desejos e atitude fundamental diante do mundo, meta que ritos religiosos e psicanálise buscam alcançar por caminhos distintos.

39. Desviando a atenção de fragmentos isolados de conduta para o tema mais amplo da motivação, abre-se nova perspectiva sobre a liberdade humana, auxiliada não pelos comentários específicos de Wittgenstein sobre vontade, mas pela própria mudança filosófica do Tractatus às Investigações.

40. Essa mudança do lenguaje fechado da lógica formal para o lenguaje aberto do uso comum corresponde a uma passagem de um mundo fechado a um mundo aberto, já que nossa experiência transcorre dentro da linguagem, sendo essa abertura o significado real e concreto da liberdade que buscamos.

41. Devemos, porém, evitar o mal-entendido sensacionalista dessa abertura como a liberdade absoluta sartreana de atos radicais e gratuitos, pois fugir para o Tahiti não nos livra de nós mesmos, situando-se o verdadeiro sentido do mundo aberto em algo mais modesto, ao qual certas rotinas podem inclusive ajudar.

42. Os filósofos erraram ao pôr ênfase excessiva no ato isolado, presos ao jogo de linguagem jurídico que pergunta se o acusado era dono de si no momento do crime, quando a liberdade deveria ser considerada em relação às formas de vida concretas do indivíduo, segundo o axioma de que formas de vida são o dado a aceitar.

43. O exemplo de Kant, cuja caminhada diária pontual regulava os relógios de Königsberg, mostra que mesmo um hábito transformado em compulsão irreprimível não anularia sua liberdade, pois a abertura de sua vida residia no pensamento desenvolvido durante essas caminhadas.

44. A lembrança de um velho dono de uma tabacaria em Nova York, cuja rotina invariável não impedia que cada dia parecesse uma nova aventura, ilustra que não é preciso ser gênio criativo para experimentar o mundo aberto, bastando talvez uma pequena mudança na atitude interior, já que é o ser que dá sentido ao fazer e não o contrário.

45. A liberdade de qualquer vida individual está assim inseparavelmente ligada à presença ou ausência de sentido nessa vida, tornando-se a pergunta pela liberdade humana a pergunta sobre o que confere sentido a uma vida, orientação que guiará as páginas seguintes.

46. Resta ainda seguir Wittgenstein até seu juízo final sobre a técnica da qual partira, para medir a magnitude de sua rebelião contra Russell, que não se reduz a anexar o discurso informal à lógica formal, mas busca derrubar por completo a antiga ditadura da lógica sobre o pensamento filosófico.