Assim, não há nenhuma blasfêmia em considerar o jogo de imagens que o computador nos oferece para simular ou esclarecer nossa mente. A parábola do “espelho-autômato” utilizada por G. Chazal é bastante significativa: “a técnica”, diz ele, “como uso do que fazemos para explicar o que é — o mundo ou o homem —, é um procedimento cognitivo bastante constante, já que a encontramos nos mitos”
3). J.-P. Vernant confirma isso, e o espelho é uma ferramenta cheia de recursos — cheia de perigos também, pois o risco da ilusão de ótica está inscrito no próprio espelho. Entre mito e utopia, o computador pode, sem dúvida melhor do que qualquer outra máquina, dar-se ao luxo de não escolher, de deixar o homem prisioneiro de seu próprio reflexo. Mas a prática técnica da IA não é simplesmente metafórica. Recordando as vocações universais das “máquinas” de Leibniz, da álgebra de Boole, do projeto de Babbage, “parece que se trata hoje de oferecer um duplo computacional de nossa mente”2. Toda intencionalidade é um ato que visa algo, no qual a mente se repercute, se “desdobra”. Vale lembrar que o computador — como Wiener e, sobretudo, von Neumann sabiam — é, em primeiro lugar, um calculador destinado a tarefas militares, cujo desenvolvimento durante o final da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria não é independente desse contexto. Foi, de fato, quando se passou a realizar operações mecânicas sobre símbolos não numéricos (mas analógicos) que o computador se tornou outra máquina lógica, e que suas capacidades de simulação do pensamento também se expandiram para o campo da imagética do real, do símbolo e do corpo, este último também considerado como uma totalidade viva e funcional, e não como uma soma de partes. Os trabalhos de Dreyfus, Ganascia, Quéau, Lévy…
4) testemunham essa nova atitude: A i.a. visa abranger outros setores do real, convencendo-nos, se é que ainda era necessário, de que, do mito à utopia, a tecnicidade então posta em jogo abrange de fato a totalidade do real, incluindo o espírito humano, que também deve “passar pelo corpo” para existir.