Andrógino informacional

BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.

1. Em meados do século XX, o motivo secular da criatura artificial conhece uma renovação de intensidade sem precedentes ao passar a incorporar-se diretamente na inovação científica, sobretudo na inteligência artificial, embora a institucionalização acadêmica desse domínio, seus financiamentos e seus resultados técnicos possam sugerir uma ruptura com as antigas narrativas míticas, literárias e mecânicas de fabricação do humano.

2. A própria legitimidade científica da inteligência artificial permanece controversa, como mostram as críticas de Hubert Dreyfus e Joseph Weizenbaum, que questionam respectivamente a insuficiência do paradigma computacional para reproduzir a inteligência humana e a legitimidade moral do próprio empreendimento.

3. Os resultados efetivamente alcançados pelos pesquisadores da inteligência artificial pertencem principalmente à informática avançada e não constituem o início demonstrável da fabricação de uma inteligência equivalente à humana, produzindo o paradoxo de que toda conquista concreta deixa de funcionar como realização da inteligência artificial propriamente dita e passa a integrar outros setores da computação.

4. A importância histórica da inteligência artificial reside, portanto, menos numa suposta realização da inteligência artificial propriamente dita do que na formulação, desde os anos 1940, de um projeto científico e cultural que renova profundamente a longa genealogia das criaturas artificiais.

5. A especificidade moderna consiste na representação do humano como ser informacional, concebido como uma das possíveis realizações de um modelo mais geral de existência que também poderia encarnar-se no computador inteligente.

** Uma narrativa fundadora **

6. A concepção antropológica da inteligência artificial deve ser procurada nos textos que fundaram o campo antes mesmo de sua denominação oficial, pois inicialmente ela aparece como narrativa científica formulada sobretudo no interior da matemática aplicada por Norbert Wiener, John von Neumann e Alan Turing.

7. Wiener, von Neumann e Turing compartilham a convicção de que um cérebro artificial dotado de capacidades cognitivas equivalentes ou superiores às humanas pode ser construído, embora desempenhem funções distintas na elaboração desse projeto.

8. O núcleo fundador da inteligência artificial e das disciplinas contemporâneas centradas em informação e comunicação consiste numa nova representação do homem, pois a questão decisiva para Turing e von Neumann não é inicialmente o que seria uma máquina inteligente, mas o que é o próprio humano quando considerado a partir do cérebro e da capacidade de trocar informação.

9. A busca dos fundadores dirige-se ao segredo da criação do homem, entendido como mecanismo suscetível de tornar-se inteiramente inteligível e, uma vez conhecido, tecnicamente reproduzível, conferindo aos textos inaugurais uma dimensão comparável à dos relatos de gênese.

10. Os textos científicos fundadores podem ser interpretados pelos mesmos instrumentos utilizados para narrativas antigas ou literárias de criação artificial porque prolongam uma estrutura histórica comum e apenas transferem o antigo relato para o meio de expressão culturalmente mais legítimo do século XX: a ciência avançada.

** Três textos relacionados com a Gênese **

11. A identificação dos fundamentos contemporâneos da criatura artificial exige selecionar, em meio às profundas transformações científicas do século XX, documentos que simultaneamente prolonguem as narrativas anteriores e tenham exercido influência efetiva sobre os projetos modernos de reprodução artificial do homem.

12. A conferência apresentada por Norbert Wiener em 1942 constitui um primeiro texto decisivo por reunir figuras que posteriormente exerceriam grande influência, como John von Neumann e Gregory Bateson, e por formular uma comparação geral entre homem e máquina destinada a fundamentar o futuro paradigma da inteligência artificial.

13. O texto publicado por Alan Turing em 1951 na revista Mind transforma em argumento sistemático a convicção de que máquinas poderão futuramente pensar como seres humanos, introduzindo uma problemática que permanecerá central nas discussões posteriores sobre inteligência artificial.

14. Os planos do computador formulados por John von Neumann constituem o terceiro texto fundamental, pois a arquitetura da nova máquina é concebida menos como simples solução de engenharia do que como consequência de uma investigação acerca do funcionamento essencial do cérebro humano, convergindo com Wiener e Turing na definição do homem como ser informacional cujas propriedades poderiam ser transferidas para máquinas.

** A nova visão de Norbert Wiener **

15. A formulação de Norbert Wiener possui caráter propriamente paradigmático ao instituir uma visão global da realidade em que informação e comunicação deixam de ser fenômenos particulares para tornar-se categorias fundamentais de compreensão do universo.

16. O novo paradigma organiza-se em torno da definição do real e da investigação da diferença entre organismo e máquina, sendo a segunda questão tão central que parece orientar a própria reformulação wieneriana da primeira.

17. Wiener reduz drasticamente a diferença fundamental entre homem e máquina quando ambos apresentam nível suficiente de organização, substituindo uma ontologia fundada na natureza material dos seres por outra centrada nas relações e comportamentos que estabelecem com o ambiente.

** Um novo paradigma **

18. Wiener inicia sua análise mediante categorias deliberadamente gerais — objeto, ambiente, ação e comportamento —, definindo o comportamento como relação entre as modificações produzidas pelo objeto em seu meio e as modificações que o próprio ambiente produz no objeto.

19. A generalidade desse vocabulário possibilita simultaneamente a interdisciplinaridade e uma reconstrução da própria representação do mundo, concebido como conjunto de objetos definidos pelas diferenças e pelas relações que mantêm entre si.

20. A redefinição informacional do real exige uma metodologia igualmente nova, pois os procedimentos tradicionais das ciências são considerados insuficientes para estudar objetos a partir de seus comportamentos e de suas relações com o ambiente.

21. Wiener distingue uma abordagem funcional, voltada para a estrutura e organização interna de um objeto, de uma abordagem comportamental, interessada prioritariamente pelas relações observáveis entre o objeto e seu ambiente.

22. A abordagem comportamental pretende aplicar-se universalmente a todos os objetos, absorvendo e superando metodologicamente as disciplinas tradicionais por meio de uma oposição construída entre uma metodologia clássica unificada retrospectivamente e uma nova metodologia cibernética igualmente universal.

23. A oposição metodológica entre funcional e comportamental reproduz implicitamente uma oposição entre interioridade e exterioridade, pois o primeiro método procura estruturas internas enquanto o segundo restringe-se às relações e modificações externamente observáveis.

** As diferenças entre os homens e as máquinas **

24. A substituição da análise interna pela análise comportamental permite colocar homens, organismos e máquinas numa mesma categoria existencial, porque as diferenças materiais que os separavam deixam de possuir importância decisiva quando todos podem ser avaliados segundo uma escala comum de comportamento.

25. A distinção entre organismos e máquinas permanece somente no nível secundário do suporte material, enquanto no nível superior dos comportamentos ambos podem realizar modelos equivalentes, tornando concebível que um animal sintético seja da mesma natureza comportamental que um animal biologicamente gerado.

26. O paradigma produz uma inversão decisiva na relação entre natural e artificial, pois ambos passam a ser compreendidos como realizações materiais diferentes de um mesmo modelo informacional abstrato.

** Um teste de complexidade **

27. Depois de colocar todos os seres no mesmo plano comportamental, Wiener restaura diferenças internas ao universo por meio de uma hierarquia de complexidade informacional aplicável indistintamente a organismos vivos e máquinas.

28. A oposição tradicional entre vivo e inanimado é substituída pela oposição entre organização informacional e entropia, fazendo com que o valor anteriormente reservado à vida seja transferido para qualquer sistema capaz de sustentar níveis elevados de informação e organização.

29. A identificação dos seres informacionais exige classificar seus comportamentos segundo graus de complexidade, operação para a qual se tornam centrais as noções de entrada, saída e retroação.

30. Os testes de complexidade comportamental tornam possível ordenar organismos e máquinas segundo categorias comuns como previsão, finalidade e teleologia, consolidando uma metodologia uniforme que elimina a necessidade de categorias exclusivas para o vivo e para o artificial.

** Intenção, retroação, entrada e saída **

31. As categorias de entrada e saída descrevem a circulação de ações entre objeto e ambiente, enquanto a retroação introduz a possibilidade de um comportamento orientado por finalidade no qual o próprio resultado modifica as ações subsequentes do sistema.

** Um homem transparente e racional **

32. O paradigma de Wiener repousa sobre a existência informacional dos objetos, a constituição do universo pelas diferenças, a comparabilidade universal dos comportamentos e a ausência de uma fronteira informacional essencial entre homem e demais objetos, produzindo como consequência uma representação do humano como ser fundamentalmente transparente e racional.

33. A transparência significa que todo fenômeno pode, em princípio, tornar-se acessível ao conhecimento porque sua existência informacional é passível de decifração, dissolvendo a oposição entre uma exterioridade observável e uma interioridade essencialmente inacessível.

34. A transparência informacional retoma antigas utopias de uma sociedade em que a harmonia dependeria da visibilidade integral dos comportamentos e associa diretamente conhecer, tornar transparente, dominar e reproduzir um fenômeno.

** Alan Turing e o andrógino **

35. Alan Turing transforma a questão sobre a possibilidade de pensamento das máquinas numa questão experimental de comportamento, partindo da convicção de que máquinas poderão pensar, mas reconhecendo inicialmente o caráter ainda não demonstrado dessa crença.

36. O procedimento proposto por Turing não demonstra a existência de pensamento interior na máquina, mas procura estabelecer que uma máquina pode comportar-se de maneira indistinguível de um ser que pensa, equivalência considerada suficiente diante da impossibilidade de acesso direto à interioridade mental de qualquer outro indivíduo.

37. O posteriormente denominado teste de Turing aparece originalmente como jogo da imitação, dispositivo destinado a substituir uma questão metafísica sobre pensamento por uma comparação operacional entre comportamentos comunicativos.

38. A argumentação de Turing articula três movimentos principais: definição do jogo da imitação e da máquina capaz de participar dele, resposta sistemática às objeções contra a possibilidade do pensamento artificial e explicação da aprendizagem como meio de superar o determinismo inicial da máquina.

** Um texto translúcido **

39. A própria forma argumentativa do texto de Turing exprime o ideal de transparência informacional, procurando apresentar-se como desenvolvimento lógico no qual cada etapa é explicitada e nenhuma opacidade deve impedir a circulação racional do argumento.

40. A argumentação de Turing privilegia a dimensão informacional da linguagem e pode ser relacionada à concepção de sua máquina abstrata de 1936, cujo funcionamento exige descrição exaustiva dos dados, dos estados possíveis e das regras de transformação.

41. O texto funciona retoricamente como uma máquina que procura antecipar todas as objeções possíveis, submetendo-as sucessivamente a procedimentos explícitos de resposta e fazendo da racionalidade formal não apenas um instrumento da argumentação, mas o próprio princípio organizador de sua concepção do humano e da linguagem.

** O jogo da imitação **

42. Turing começa por deslocar a questão semântica sobre os significados comuns de máquina e pensamento, recusando que a pergunta sobre máquinas pensantes possa ser resolvida simplesmente pelo uso ordinário dessas palavras e propondo em seu lugar uma cadeia de reformulações operacionais.

43. A primeira versão do jogo da imitação não compara homem e máquina, mas homem e mulher, colocando um interrogador diante de dois interlocutores invisíveis e exigindo que determine seus sexos exclusivamente por respostas transmitidas linguisticamente.

44. O dispositivo elimina deliberadamente todos os sinais corporais para separar atributos físicos e intelectuais, atribuindo primazia aos últimos e considerando os interlocutores fundamentalmente equivalentes quando suas diferenças não podem ser identificadas no nível da comunicação abstrata.

45. A possibilidade de homens e mulheres imitarem-se de modo convincente no jogo conduz à tese de que a diferença sexual perde caráter essencial quando os atributos físicos são retirados, restando uma equivalência informacional capaz de atravessar a distinção corporal entre os sexos.

46. A presença da diferença sexual no texto fundador da inteligência artificial torna-se compreensível quando o projeto é interpretado como construção de uma representação geral do humano, pois Turing investiga primeiro aquilo que permanece comum entre homens e mulheres antes de aplicar o mesmo princípio de equivalência ao humano e à máquina.

47. Na segunda versão do jogo, a máquina substitui um dos participantes humanos e basta que consiga sustentar uma interação intelectual indistinguível da humana para ser reconhecida como equivalente, tornando desnecessária qualquer reprodução do corpo ou da aparência física.

48. A indistinção entre homem e mulher e aquela entre homem e máquina obedecem à mesma lógica de redução das diferenças aparentes em favor de uma identidade mais profunda, transformando diferença sexual e oposição natural/artificial em distinções secundárias diante da equivalência informacional.

** A questão do andrógino **

49. Wiener e Turing pressupõem níveis hierarquizados de existência nos quais as diferenças materiais permanecem num plano inferior, enquanto o nível superior da organização informacional permite equivalência entre seres biologicamente ou materialmente distintos.

50. O homem passa a ser concebido como combinação entre um ser informacional essencial e um suporte físico secundário, e a mesma divisão aplica-se à máquina, cuja verdadeira identidade também reside na organização informacional mais do que nos componentes materiais que a realizam.

51. O ser informacional assume caráter andrógino porque pode manifestar-se em formas materialmente diferentes — homem e máquina — sem perder a unidade essencial do modelo, embora a máquina permaneça simultaneamente produto da atividade criadora humana.

52. O modelo bíblico da criação oferece uma estrutura análoga ao apresentar inicialmente uma criatura indiferenciada e posteriormente sua divisão em seres sexualmente distintos, permitindo interpretar a relação entre homem e máquina segundo uma lógica de diferenciação posterior de uma unidade originária.

53. A separação bíblica do humano andrógino em homem e mulher oferece o modelo de uma diferença fundada sobre unidade precedente, estrutura que pode ser transposta para homem e máquina como manifestações distintas de uma mesma realidade informacional.

54. A concepção de Wiener e Turing legitima a máquina pensante ao identificar no homem um núcleo informacional transparente e racional que pode ser isolado conceitualmente e realizado novamente em outro suporte.

** A máquina candidata ao jogo da imitação **

55. Turing restringe deliberadamente o jogo da imitação ao computador digital, excluindo formas biológicas de reprodução artificial mesmo quando admite sua possibilidade técnica, porque seu interesse está na construção de uma mente artificial mediante uma arquitetura informacional e não na reprodução orgânica completa de um indivíduo.

56. A capacidade de um computador participar do jogo não deve depender do material eletrônico específico de que é construído, pois Turing reproduz para a máquina a mesma distinção estabelecida para o homem entre suporte físico contingente e capacidade mental essencial.

57. A máquina de Turing constitui um sistema de estados discretos inteiramente descritíveis em que cada etapa conduz, segundo regras determinadas, a um novo estado igualmente explicitável, instituindo um ideal de conhecimento baseado na exaustividade, na previsibilidade e na transparência integral.

58. O computador digital torna-se a realização adequada da máquina abstrata e introduz nova sequência de substituições no jogo da imitação: primeiro homem e mulher, depois humano e computador, finalmente computador e máquina de estados discretos.

59. O jogo da imitação converte-se progressivamente num jogo universal de simulação em que cada nível reproduz outro e conduz da aparência corporal ao mental, do mental ao informacional e deste a uma estrutura racional completamente formalizável.

** As objeções à tese **

60. A fundamentação da inteligência artificial aparece estreitamente associada a uma determinada concepção do homem, e Turing aprofunda essa antropologia ao enfrentar sistematicamente as objeções à possibilidade de máquinas pensantes, embora reconheça que sua previsão de sucesso futuro permanece inicialmente no domínio da crença científica.

61. A defesa da hipótese das máquinas pensantes apoia-se implicitamente no princípio da liberdade de investigação, pelo qual uma possibilidade científica não deveria ser rejeitada previamente apenas porque suas consequências pareçam improváveis, desconfortáveis ou culturalmente perturbadoras.

62. As objeções examinadas por Turing dividem-se entre rejeições de princípio e dificuldades internas à hipótese, recebendo as primeiras respostas frequentemente menos rigorosas e incluindo uma objeção teológica que permite questionar a pretensão humana de ocupar posição absolutamente privilegiada na criação.

63. A objeção teológica segundo a qual somente o homem possuiria alma imortal e, portanto, pensamento é invertida por Turing mediante o argumento de que limitar previamente a possibilidade de Deus conceder alma a animais ou máquinas implicaria restringir a própria onipotência divina.

64. A resposta teológica permite a Turing deslocar novamente as fronteiras entre homem, animal e máquina e introduzir a imagem da máquina como descendente humano que, à semelhança de uma criança, precisa ser posteriormente educada.

65. Turing rejeita também a necessidade psicológica de afirmar uma superioridade necessária do homem sobre toda a criação, especialmente quando essa superioridade é fundamentada na capacidade intelectual, tratando a defesa incondicional da excepcionalidade humana mais como necessidade de consolação do que como argumento demonstrável.

66. A objeção fundada na consciência, segundo a qual uma máquina não pode verdadeiramente pensar porque não experimenta sentimentos nem possui consciência de seu próprio saber, é respondida por Turing mediante a impossibilidade de verificar diretamente a interioridade de qualquer outro ser.

67. A analogia da casca de cebola radicaliza a negação de uma interioridade última ao sugerir que nenhuma essência mental escondida será encontrada pela remoção sucessiva das camadas do homem, reforçando sua representação como ser informacional e preparando a centralidade do computador como nova criatura na qual essa antropologia encontrará sua forma técnica mais completa.