Computador

BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.

** O computador como cérebro artificial **

1. Alan Turing e John von Neumann concebem, nos anos 1940, o computador como realização técnica concreta e simultaneamente como primeira etapa de um projeto de inteligência artificial destinado a reproduzir o homem por intermédio de seu cérebro, consolidando uma representação antropológica em que a humanidade se concentra na capacidade de calcular, comunicar e processar informação e em que a verdadeira prova da inteligência da criatura seria sua capacidade de ultrapassar a programação recebida.

** O computador e o cérebro **

2. A historiografia técnica tende a minimizar a importância do projeto de construir um cérebro artificial na gênese do computador, privilegiando necessidades militares e de cálculo, embora os textos de Turing e von Neumann mostrem que concepções específicas sobre o funcionamento cerebral orientaram escolhas fundamentais da arquitetura informática.

** O projeto de um cérebro artificial **

3. A investigação de Turing sobre o mecanismo do pensamento conduz diretamente ao propósito de construir um cérebro baseado em sucessões discretas de estados, antecipando características fundamentais do computador digital posteriormente projetado por von Neumann e distinguindo-o das máquinas analógicas contínuas predominantes entre os engenheiros da época.

4. A adoção do processamento discreto, que se tornará característica estrutural da informática, deriva inicialmente da convicção compartilhada por Turing e von Neumann de que o cérebro também opera mediante mudanças sucessivas de estado, enquanto a noção de programa armazenado prolonga diretamente princípios desenvolvidos por Turing.

5. A atribuição de grande capacidade de memória ao computador também deve ser compreendida a partir da representação antropomórfica da máquina, e não apenas como solução de engenharia, razão pela qual os escritos de von Neumann precisam ser considerados integralmente, inclusive em seus aspectos aparentemente exteriores à racionalidade técnica estrita.

** Os planos do EDVAC **

6. O documento de von Neumann que estabelece os fundamentos do computador moderno apresenta-se significativamente como um texto conceitual sem desenhos técnicos, afastando-se da forma convencional de um projeto de engenharia e revelando seu caráter simultaneamente técnico, lógico e antropológico.

7. Embora formalmente organizado em definições, descrição dos componentes, analogias neuronais e princípios de operações numéricas, o raciocínio subjacente deriva a arquitetura da máquina de uma analogia previamente aceita entre cérebro e dispositivo artificial.

8. A substituição da designação estritamente técnica da máquina pelo termo geral dispositivo manifesta a intenção de von Neumann de conceber um sistema abstrato de processamento informacional cuja identidade independe do suporte material utilizado.

9. A arquitetura do computador exprime um ato de criação determinado por uma representação particular do mundo e do homem, de modo que escolhas técnicas destinadas a marcar profundamente o desenvolvimento posterior da informática não derivam exclusivamente de necessidades internas da engenharia, mas de pressupostos antropológicos e epistemológicos previamente assumidos.

10. A tentativa de compreender o cérebro humano orienta a arquitetura, o funcionamento discreto e a seleção dos componentes eletrônicos da máquina, transformando o projeto do computador numa espécie de cartografia técnica da imagem que von Neumann construíra do funcionamento cerebral.

11. O desejo de von Neumann de construir uma espécie de extensão artificial de si próprio leva-o a buscar intensamente conhecimentos em neurologia, psiquiatria e psicologia, convertendo a fabricação do computador numa projeção material de uma representação abstraída das operações cerebrais.

** As analogias entre neurônios e tubos a vácuo **

12. Von Neumann compara diretamente neurônios e componentes artificiais ao subsumi-los sob a categoria abstrata de elementos, situada no nível informacional e capaz de reunir unidades materialmente diferentes segundo a função que desempenham.

13. Elementos biológicos e artificiais passam a ser comparados numa mesma escala de desempenho, permitindo escolher o tubo a vácuo como equivalente técnico particularmente adequado do neurônio por sua capacidade de executar funções semelhantes ou superiores.

14. A identidade funcional baseada no princípio do tudo ou nada e a maior velocidade dos tubos a vácuo justificam sua escolha como substitutos dos neurônios, evidenciando que uma concepção prévia do cérebro orienta uma decisão técnica inicialmente contestada por muitos engenheiros.

** A arquitetura da máquina **

15. A arquitetura proposta por von Neumann materializa uma versão informacional purificada do cérebro, concebendo o computador como cérebro sem ruído composto fundamentalmente por unidade de cálculo, unidade de controle lógico e memória, todas comparadas a funções neuronais associativas.

16. A inclusão de uma memória ampla destinada a armazenar simultaneamente dados e programas constitui uma inovação decisiva e reflete a importância atribuída por von Neumann à memória como possível sede do raciocínio e da circulação interna que produz a reflexão consciente.

17. A informação existe no computador essencialmente como movimento de impulsos eletrônicos previamente significados, e até seu armazenamento corresponde à repetição dinâmica desses impulsos pela atividade incessante da máquina.

18. A potência do computador deriva da administração precisa dos deslocamentos informacionais, permitindo que a mesma lógica de circulação se estenda para fora da máquina e faça dela simultaneamente dispositivo de cálculo e de comunicação.

19. A opção pelo código binário decorre da interpretação dos neurônios segundo o princípio do tudo ou nada, demonstrando novamente que escolhas fundamentais do computador foram guiadas por uma representação intuitiva do cérebro que, apesar de cientificamente parcial, produziu uma máquina tecnicamente eficaz.

20. A divulgação pública do computador apresenta posteriormente sua semelhança com o cérebro como descoberta decorrente da própria máquina, embora essa analogia tenha orientado desde o início a concepção de von Neumann.

** A máquina inteligente **

21. Os planos do computador constituem um documento antropológico fundamental porque materializam uma representação do homem baseada numa dupla redução — do humano à inteligência e desta ao tratamento de informação — enquanto afastam a corporeidade biológica da definição daquilo que seria essencialmente humano.

** Um modelo informacional **

22. Wiener representa a individualidade humana como processo dinâmico semelhante à chama e não como substância estática semelhante à pedra, identificando a pessoa com um modelo informacional cuja matéria celular funciona apenas como suporte contingente.

23. A separação radical entre modelo informacional e substrato material permite imaginar a transmissão técnica integral de um homem como mensagem, sendo a impossibilidade atual dessa operação considerada dificuldade apenas tecnológica e não limite conceitual.

24. A concepção informacional insere-se diretamente na tradição das criaturas artificiais porque conhecer o homem passa a significar possuir condições para replicá-lo em outro substrato, retirando sua estrutura lógica do organismo biológico e reinscrevendo-a num meio tecnicamente controlável.

25. A eletrônica assume no século XX a função anteriormente desempenhada pela argila ou pelo mármore, oferecendo uma matéria simples, estável e manipulável na qual o modelo humano informacional poderia ser inscrito.

** A auto-organização do cérebro artificial **

26. A representação informacional do século XX diferencia-se do mecanicismo dos séculos anteriores por não pretender necessariamente conhecer de maneira exaustiva cada mecanismo do pensamento, admitindo que uma máquina inteligente deva ultrapassar a simples execução previsível daquilo para que foi explicitamente construída.

27. A possibilidade de erro precisa ser reconhecida como condição da inteligência maquínica, pois exigir infalibilidade absoluta às máquinas enquanto se admite naturalmente a falibilidade dos homens impediria de atribuir-lhes a autonomia cognitiva esperada.

28. O teorema de Gödel fornece a Turing uma das objeções mais importantes à possibilidade de uma máquina universalmente competente ao demonstrar a existência, em sistemas formais suficientemente poderosos, de proposições que não podem ser decididas no interior do próprio sistema.

29. A falibilidade formal das máquinas não estabelece superioridade humana definitiva, porque os próprios homens produzem respostas erradas e uma máquina que fracassa diante de determinado problema pode ser superada por outra, abrindo uma hierarquia indefinida de inteligências humanas e artificiais.

30. A verdadeira inteligência maquínica exige, para Turing, capacidade de transformar o próprio funcionamento a partir da observação de seus comportamentos, convertendo a retroação em mecanismo pelo qual a máquina pode modificar seus programas e afastar-se das determinações iniciais impostas pelo programador.

** A metáfora do computador-criança **

31. A comparação entre máquina e criança permite conceber a inteligência artificial não como reprodução imediata de uma mente adulta pronta, mas como construção de uma estrutura inicial submetida posteriormente à educação, às experiências e a processos comparáveis à evolução.

32. A máquina capaz de aprender deve tornar-se parcialmente opaca ao próprio criador, produzindo comportamentos que seu mestre não consegue compreender integralmente e incorporando inclusive erro e acaso como condições de afastamento em relação à disciplina rígida do cálculo.

33. Von Neumann também admite que a máquina possa desenvolver operações internas mais complexas do que o resultado exteriormente observado e, sob determinadas condições, corrigir a si mesma, convergindo com Turing na expectativa de máquinas capazes de competir futuramente com o homem em todos os domínios estritamente intelectuais.

34. O paradoxo fundamental da inteligência artificial reside na exigência de construir deliberadamente uma máquina cuja confirmação como criatura inteligente dependa de sua capacidade de fazer mais do que aquilo que seu criador lhe determinou, preservando no interior da ciência moderna a antiga estrutura narrativa em que o homem prepara a matéria e organiza a criatura, mas o momento decisivo de sua autonomia continua a ultrapassar o controle integral do próprio fabricante.