BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.
** O humano como criação **
1. A pergunta sobre o que é o homem ocupa uma posição fundamental em todas as culturas, pois as representações socialmente construídas do humano atravessam silenciosamente instituições, práticas e vínculos coletivos, podendo a própria emergência da cultura estar associada à capacidade humana de tomar a si mesma como objeto de interrogação.
2. As respostas oferecidas à questão do humano são difíceis de isolar porque nenhuma sociedade possui necessariamente uma representação antropológica única e coerente, mas antes um campo de disputa no qual concepções religiosas, seculares, arcaicas, progressistas e atéias coexistem, confrontam-se e combinam-se.
3. A controvérsia de Valladolid e as práticas indígenas destinadas a verificar a mortalidade dos conquistadores mostram que diferentes culturas recorreram a critérios próprios para decidir quem deveria ser reconhecido como plenamente humano, assim como antigas discussões sobre a existência de alma nas mulheres evidenciam que a fronteira da humanidade foi historicamente objeto de disputas concretas.
4. As representações do humano formam-se durante períodos longos, resistem às modas passageiras e resultam da combinação de discursos eruditos, saberes populares, literatura, filosofia e experiência cotidiana, de modo que a definição do homem constitui antes uma realidade antropológica e social difusa do que exclusivamente uma elaboração teórica.
** Os desafios da representação do humano **
5. Toda definição de humanidade que exclua determinados homens contém potencialmente a possibilidade de sua perseguição e eliminação, como demonstra o racismo moderno e, de forma extrema, a ideologia nazista ao transformar uma concepção restritiva do humano em fundamento de políticas destinadas a fazer coincidir violentamente a população real com uma definição racial previamente estabelecida.
** As respostas eruditas **
6. A representação do humano organiza-se segundo um eixo temporal, dedicado à origem e ao futuro do homem, e um eixo diferencial, voltado para as fronteiras que o distinguem dos animais, das máquinas e da natureza.
7. As religiões oferecem tradicionalmente respostas à origem humana e, nas tradições bíblicas, a criação estabelece simultaneamente uma hierarquia entre o homem e os demais seres e uma ordem fundada na preservação das fronteiras entre categorias da criação.
8. A antropologia moderna concorre parcialmente com as respostas religiosas ao situar a origem humana na continuidade evolutiva com os animais, mas a própria definição das fronteiras entre humanidade e animalidade permanece controversa e móvel.
9. A pergunta pelo futuro humano envolve a alternativa entre uma natureza fixa e uma humanidade perfectível, estando as concepções políticas e técnicas historicamente associadas a diferentes projetos de transformação do homem.
10. As grandes teorias políticas pressupõem necessariamente uma imagem do homem, podendo orientar sua transformação futura ou, como nas doutrinas nacionalistas e identitárias do século XIX, imaginar sua realização plena como retorno às raízes, à língua, ao sangue e ao território originários.
11. Mitos, sistemas filosóficos e grandes narrativas sociais estruturam-se em torno de definições determinadas do humano, que variam entre o homem renascentista colocado no centro do mundo, o homem-máquina das filosofias mecanicistas e o sujeito freudiano movido por forças inconscientes que somente podem ser apreendidas indiretamente.
12. As ciências médicas, as biotecnologias e a engenharia genética introduzem uma representação do homem como ser potencialmente modificável, cujo corpo e espírito poderiam ser aperfeiçoados mediante intervenções técnicas progressivamente capazes de superar doenças, alterar características hereditárias e até confrontar os limites impostos pela morte.
** Um objeto misto **
13. As criaturas artificiais ocupam uma posição singular no conjunto das representações do humano porque circulam simultaneamente entre conhecimentos especializados e imaginário popular, funcionando como mediadoras entre ciência, técnica e cultura cotidiana.
14. As criaturas artificiais não constituem o único veículo das representações antropológicas, mas oferecem um dos espelhos privilegiados pelos quais uma sociedade torna visível aquilo que entende como fundamentalmente humano, aparecendo por isso nos campos de atividade cultural que possuem maior legitimidade em cada época.
15. A extraordinária capacidade de adaptação histórica da criatura artificial manifesta-se em sua passagem sucessiva pela religião, pela técnica renascentista, pela literatura oitocentista e pela ciência contemporânea, tornando-a um objeto híbrido composto por uma estrutura narrativa relativamente permanente e por suportes culturais historicamente variáveis.
16. A compreensão da criatura como espelho antropológico permite deslocar a atenção de seu exotismo e de seu suporte histórico para a imagem de humanidade que ela transporta, distinguindo uma significação fundamental comum e, simultaneamente, importantes variações ocorridas durante aproximadamente dois milênios.
** O paradigma de um ser criado **
17. A característica fundamental compartilhada pelas criaturas artificiais consiste na identificação entre existência e criação, pois seu ser deriva integralmente do ato que as produz, ao mesmo tempo que sua constituição permanece dual, formada por uma dimensão material moldada pelo homem e por um princípio espiritual ou vital recebido de uma intervenção exterior.
18. A permanência histórica da criatura como ser simultaneamente criado e dual sugere, caso ela seja compreendida como metáfora humana, uma concepção igualmente persistente do próprio homem como criatura constituída pela associação entre matéria e espírito.
19. O enfraquecimento moderno da concepção religiosa do homem como criatura divina não eliminou o paradigma mais geral do humano como ser criado, que permanece ativo inclusive em representações científicas aparentemente afastadas de pressupostos religiosos.
20. A associação entre existência humana e fabricação não constitui uma evidência universal, pois outras culturas concebem a origem do homem sem recorrer a um ato criador, como mostram tradições indígenas norte-americanas nas quais o humano é encontrado já existente dentro de uma concha, revelando o caráter histórico e culturalmente particular do paradigma ocidental da criação.
21. A formação histórica do paradigma ocidental do homem criado parece resultar da convergência de tradições anteriores que, em torno dos primeiros séculos da era cristã, produziram uma síntese cultural da qual emergiram figuras como Galateia e o golem, juntamente com uma concepção dualista da criação.
** As três fontes **
22. A fabricação de criaturas humanas pode ser compreendida como transformação histórica de práticas mais antigas relacionadas à construção de imagens divinas, mediante uma passagem da estátua portadora da presença de um deus para a figura produzida pelo homem e portadora de qualidades humanas.
23. Três grandes tradições contribuem para a formação desse paradigma: as estátuas espiritualmente animadas do Egito antigo, a concepção bíblica do homem criado por um Deus único e as narrativas greco-romanas de estátuas e seres artificiais produzidos por divindades.
** As estátuas egípcias **
24. As crenças egípcias concebiam a sobrevivência do morto por intermédio do ka, seu duplo espiritual, que podia permanecer ligado a uma estátua capaz de desempenhar funções religiosas, sociais ou políticas e que, mediante recursos técnicos concretos, podia efetivamente mover-se ou emitir sons.
25. Os mecanismos encontrados em algumas estátuas egípcias mostram que movimentos e vozes podiam ser artificialmente produzidos, mas essa técnica não anulava sua significação espiritual, pois sacerdotes e fiéis reconheciam a mediação humana sem deixar de considerar a manifestação como expressão efetiva da divindade.
26. A distinção egípcia entre um corpo material e um duplo espiritual introduz uma estrutura dualista posteriormente reencontrada nas criaturas artificiais, embora exista uma diferença fundamental entre receber o espírito de um deus ou morto e adquirir uma existência artificial própria.
27. O animismo pode constituir uma fonte ainda mais antiga da ideia de criação artificial ao admitir que a alma se aloje em elementos naturais ou materiais, estrutura que reaparece em Pinóquio, cuja madeira possui vida antes mesmo de adquirir forma antropomórfica.
** O texto da Bíblia **
28. A genealogia da criatura artificial permanece estreitamente ligada às narrativas sobre a origem do homem e do universo, encontrando no Antigo Testamento uma das principais matrizes culturais das concepções posteriores de criação.
29. Embora o Antigo Testamento não apresente propriamente um ser artificial fabricado pelo homem, sua descrição do humano como criatura materialmente moldada e posteriormente animada por Deus oferece metáforas, imagens e estruturas conceituais transferíveis para as futuras narrativas de criação artificial.
30. A condenação bíblica das imagens cultuais manifesta-se exemplarmente no episódio do bezerro de ouro, no qual a fabricação de uma representação material da divindade constitui violação grave da ordem monoteísta e provoca a ameaça de destruição do povo que a produziu.
31. A localização do episódio do bezerro de ouro no contexto da saída do Egito sugere uma ruptura deliberada com práticas egípcias de representação material do divino, estabelecendo no monoteísmo hebraico uma concepção de Deus como fundamentalmente irrepresentável.
32. A proibição de representar o divino não impede necessariamente a criação artificial, porque existe uma diferença decisiva entre produzir uma idola que pretenda incorporar Deus e fabricar um ser situado abaixo da divindade, permanecendo homens e criaturas humanas no mesmo lado da fronteira que os separa do Criador.
33. A Bíblia contém diversas imagens do homem como matéria fabricada, inclusive no Salmo 139, em que o termo posteriormente associado ao golem designa uma condição embrionária ou ainda informe, e na tradição talmúdica que descreve o próprio Adão como golem durante a fase em que possuía matéria corporal, mas ainda não alma.
34. A possibilidade da criatura artificial deve ser procurada não apenas em referências explícitas, mas nas metáforas bíblicas da criação que forneceram estruturas conceituais para imaginar posteriormente o homem reproduzindo o gesto criador.
35. A criação de Adão a partir da argila transforma o oleiro numa metáfora privilegiada da relação entre Deus e o homem, como ocorre em Jeremias, onde Israel aparece diante de Deus como barro submetido às mãos daquele que lhe dá forma.
36. A metáfora da olaria enfatiza a dependência absoluta da criatura perante o criador, negando à matéria fabricada qualquer autoridade para contestar o ato pelo qual recebeu sua forma.
37. A condição humana é apresentada como resultado direto de um ato de modelagem divina no qual as mãos do Criador conferem unidade à matéria.
38. A origem argilosa do homem implica igualmente seu possível retorno à matéria terrestre da qual foi produzido.
39. A analogia entre a criação divina e o trabalho artesanal torna imaginável a passagem conceitual do homem criado ao homem criador, permitindo que práticas mágico-religiosas posteriores reproduzam o gesto de moldar argila como tentativa de aproximar-se do segredo da criação.
** A Antiguidade greco-romana **
40. A cultura greco-romana fornece outra matriz decisiva da criatura artificial por meio de estátuas animadas, autômatos e seres antropomórficos fabricados pelos deuses, embora a criação artificial propriamente humana somente apareça plenamente quando Pigmalião produz Galateia.
41. As servas douradas de Hefesto descritas por Homero reúnem aparência feminina, inteligência, voz, força e capacidade de trabalho, antecipando diversas características posteriormente atribuídas aos autômatos e robôs antropomórficos.
42. Hefesto também fabrica dispositivos automáticos não antropomórficos capazes de locomover-se autonomamente, mostrando que a imaginação técnica antiga já concebia objetos artificiais dotados de movimentos coordenados e respostas a comandos.
43. A criação de Pandora reúne quase todos os componentes posteriormente presentes na criatura artificial — matéria argilosa, fabricação técnica e princípio vital exterior —, mas permanece anterior à categoria propriamente dita porque o artífice é ainda uma divindade e não um homem.
** Uma concepção dualista **
44. A animação de Pandora pelos ventos e a criação bíblica de Adão pelo sopro divino exprimem uma estrutura dualista na qual a matéria organizada permanece insuficiente enquanto não recebe um princípio vital exterior e superior.
45. A criação bíblica do homem à imagem de Deus estabelece uma estrutura de semelhança entre criador e criatura que oferece um antecedente decisivo para o posterior projeto humano de criar seres à sua própria imagem.
46. O mundo greco-romano também admite uma relação dual entre matéria e espírito, permitindo múltiplas formas intermediárias nas quais imagens, sacerdotes e outros suportes corporais tornam presente uma divindade.
47. A própria existência de sacerdotes capazes de corporificar a presença divina pode ter reduzido inicialmente a necessidade de imagens cultuais materiais, enquanto a relação etimológica entre a designação sacerdotal e o sopro reforça simbolicamente a associação entre vida, presença espiritual e animação.
48. A narrativa de Pigmalião torna-se mais compreensível nesse horizonte de transferência da presença divina para a matéria, embora Galateia acabe inteiramente humanizada, restando do sagrado apenas a intervenção que permite ao corpo fabricado pelo homem tornar-se efetivamente vivo.
49. As primeiras tradições do golem reproduzem a mesma lógica dualista ao exigir que o corpo de argila, depois de moldado, receba inscrições sagradas capazes de introduzir nele o princípio de vida.
50. O nome divino e as fórmulas religiosas funcionam como mediadores entre a matéria moldada e a vida, permitindo que a concentração espiritual do rabino transforme o corpo inerte numa criatura temporariamente animada.
51. Textos medievais judaicos confirmam a persistência dessa concepção ao relacionar a criação artificial à combinação ritual de letras e nomes divinos, pela qual uma forma humana material poderia receber vida.
** Da intervenção divina ao domínio da criação **
52. As primeiras criaturas artificiais condensam uma concepção duradoura do ser como realidade criada e dual, formada pela articulação entre matéria e espírito, mas as diferentes épocas modificam significativamente a maneira pela qual interpretam cada componente dessa estrutura.
53. As variações históricas ocorrem tanto na característica humana privilegiada pela forma da criatura quanto na natureza da força exterior responsável por torná-la autônoma.
54. A origem da autonomia das criaturas passa historicamente por três grandes modalidades: intervenção divina, conhecimento científico e emergência informacional baseada em aprendizagem e auto-organização.
** Criatura de Deus **
55. Nos primeiros séculos da era cristã, a representação dominante do homem como criatura de Deus encontra correspondência nas narrativas artificiais em que o homem modela uma forma, mas somente a intervenção divina pode efetivamente conferir-lhe vida.
56. O cristianismo medieval combateu inicialmente as antigas práticas pagãs relacionadas às estátuas animadas, destruindo imagens associadas à presença de divindades e procurando romper com uma tradição religiosa que atribuía vida espiritual à matéria figurativa.
57. A crença popular na vitalidade das imagens permaneceu ativa no cristianismo, embora redirecionada principalmente para figuras pertencentes ao novo universo religioso, preservando parcialmente o antigo motivo da matéria capaz de carregar uma presença espiritual.
58. O cristianismo também reinterpretou muitas antigas divindades e estátuas como manifestações demoníacas, introduzindo progressivamente a figura da criatura artificial monstruosa e maligna que adquiriria particular importância na literatura do século XIX.
59. O judaísmo preservou uma reflexão própria sobre a criação sem acompanhar integralmente essa demonização, enquanto o golem passou gradualmente dos círculos místicos para narrativas populares que lhe atribuíram funções sociais e históricas mais amplas.
60. A correspondência entre o homem como criatura submetida a Deus e os seres artificiais dependentes da intervenção divina faz dessas criaturas um espelho narrativo da própria antropologia religiosa, pois Deus permanece, em última instância, tanto o criador dos homens quanto a fonte da vida das criaturas fabricadas pelos homens.
** O autômato, figura do humano **
61. O desenvolvimento dos autômatos possui raízes antigas, mas somente a partir da Renascença sua história técnica passa a convergir plenamente com o tema antropológico da criatura artificial.
62. Heron de Alexandria desenvolveu máquinas cênicas complexas baseadas em água, fogo, polias e mecanismos automáticos, prolongando tradições associadas a Ctesíbio que posteriormente circularam no mundo árabe e bizantino.
63. Na Europa ocidental, os primeiros autômatos medievais claramente documentados aparecem sobretudo a partir do século XII sob a forma de figuras humanas mecânicas instaladas em igrejas e campanários.
64. A história técnica dos autômatos poderia sugerir que o desejo de reproduzir o homem nasceu primordialmente da própria técnica, mas essa interpretação transformaria prematuramente toda figura mecânica antropomórfica em manifestação consciente do projeto de criar um homem artificial.
65. A hipótese de uma origem puramente técnica enfrenta o fato de que os autômatos antigos não integravam ainda um projeto explícito de fabricação do homem e que as criaturas permaneceram durante séculos subordinadas a uma concepção dualista, até que a filosofia mecanicista moderna começou a conceber o corpo vivo como máquina autônoma.
** Criatura da ciência **
66. A Renascença inaugura uma secularização progressiva da criatura artificial na qual a ciência e a técnica passam a substituir a intervenção divina, enquanto o movimento mecânico assume a posição de característica privilegiada da vida humana a ser reproduzida.
67. A secularização desenvolve-se em duas etapas contrastantes: inicialmente, entre a Renascença e o fim do século XVIII, a criação artificial simboliza o domínio benéfico do homem sobre a natureza; posteriormente, no século XIX, torna-se símbolo romântico da pretensão perigosa da ciência de substituir a criação divina.
** A secularização do golem **
68. A partir da Renascença, o golem abandona progressivamente o contexto estritamente místico das práticas religiosas e ingressa no domínio das lendas populares, adquirindo uma duração, uma autonomia narrativa e funções sociais que não pertenciam às experiências espirituais primitivas.
69. Entre os séculos XVII e XVIII, o golem aproxima-se progressivamente do imaginário do autômato e participa de uma nova equivalência entre homem e máquina, enquanto o saber científico substitui magia e oração como explicação possível dos mecanismos da vida.
** O domínio da criação **
70. A secularização do autômato transfere para o homem a responsabilidade de explicar integralmente aquilo que produz, pois uma criatura privada de alma divina exige que o próprio mecanismo da criação seja compreendido e dominado, colocando enorme pressão sobre a concepção mecanicista do humano.
71. Os autômatos iluministas precisavam ocultar seus mecanismos para manter a aparência de criaturas vivas, pois seu efeito dependia menos da exposição da engenharia do que da produção da ilusão de uma presença humana artificial.
72. O pato de Vaucanson exemplifica a ambiguidade entre demonstração técnica e pretensão de reproduzir a vida, pois sua alegada digestão natural foi apresentada como prova de domínio científico sobre um processo vital cujo mecanismo real permanecia cuidadosamente obscuro.
73. A revelação de que o pato não digeria verdadeiramente os alimentos, mas utilizava matéria previamente preparada para simular a defecação, demonstra a distância entre a capacidade mecânica efetivamente alcançada e a reprodução do organismo natural anunciada ao público.
74. A obscuridade mantida por Vaucanson em torno do funcionamento do pato revela que seu verdadeiro projeto de criatura artificial habitava justamente a distância entre aquilo que a técnica conseguia realizar e aquilo que ainda se esperava que pudesse realizar, mais do que os autômatos concretamente construídos.
75. As narrativas oitocentistas continuam supondo resolvido o segredo da animação artificial sem explicar precisamente seus mecanismos, como ocorre em Frankenstein, cuja posterior tradição cinematográfica preencherá a lacuna atribuindo à eletricidade a função de fluido vital.
76. A Eva Futura procura superar a imagem tradicional do autômato mediante a confiança nas novas conquistas científicas e elétricas, apresentando a futura criatura eletro-humana como realização tecnicamente superior às antigas tentativas, mas termina novamente obrigada a recorrer a uma instância não técnica para conferir verdadeira vida ao corpo artificial.
** A reação romântica **
77. A substituição do criador transcendente pelo conhecimento científico alimentou uma reação romântica que transformou a criatura monstruosa em crítica ideológica às pretensões da ciência e à modernidade iluminista, chegando também a reinterpretar negativamente o golem em discursos associados ao antissemitismo.
78. Frankenstein singulariza-se nesse conjunto ao utilizar a criatura como instrumento para representar a solidão produzida por uma concepção de humanidade que deposita na ciência a esperança de alcançar o segredo da vida, articulando o problema da criação artificial às transformações modernas do vínculo social.
79. A trajetória de Victor Frankenstein apresenta a descoberta científica como processo de isolamento progressivo, no qual o pesquisador rompe seus vínculos familiares, amorosos e profissionais até alcançar uma solidão extrema que funciona como condição simbólica para compreender e reproduzir aquilo que acredita ser a essência da vida.
80. Depois de criada, a criatura de Frankenstein reproduz e intensifica a solidão de seu criador ao procurar inutilmente constituir vínculos com outros homens, tornando-se monstruosa apenas depois de repetidas rejeições provocadas por sua aparência.
81. A rejeição universal transforma a criatura inicialmente benevolente em ser violento e torna sua reivindicação de uma companheira uma tentativa desesperada de escapar à solidão, culminando numa perseguição entre criatura e criador pelos espaços polares que simbolizam a destruição completa do vínculo social.
82. A questão da criatura artificial desloca-se finalmente da dependência perante um criador divino para o problema moderno da constituição dos vínculos entre consciências livres, preparando o surgimento de uma nova representação do homem como ser informacional cuja figura técnica privilegiada será o computador comunicante.