Humano

BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.

** Uma representação do humano entre a psicologia e a política **

1. A representação informacional do humano formulada nos primórdios da inteligência artificial suscita simultaneamente a questão de sua origem cultural e a de sua capacidade de difusão social, pois permanece necessário determinar se Wiener e Turing produziram autonomamente essa concepção ou se seus escritos cristalizaram tendências antropológicas já presentes na sociedade.

2. A amplitude dessas questões remete a uma antropologia geral das representações do humano, sendo plausível que os relatos de Wiener e Turing somente tenham adquirido tamanha importância porque correspondiam a disposições culturais já presentes muito além dos ambientes científicos.

3. A anterioridade das formulações informacionais de Wiener e Turing em relação à invenção efetiva do computador impede que a máquina seja considerada causa das concepções que posteriormente simbolizou, pois o computador surge antes como materialização técnica de uma representação cultural previamente constituída.

4. A origem cultural da representação informacional do homem constitui, portanto, uma questão antropológica fundamental que pode ser investigada mediante correspondências entre os textos científicos e outros campos da experiência social.

5. Uma primeira correspondência situa-se no domínio político, pois a definição informacional amplia a humanidade para além dos homens e mulheres biologicamente determinados e pode ser compreendida como inversão universalista das representações racistas que restringem a própria categoria do humano.

6. Uma segunda correspondência situa-se no domínio psicológico, pois a eficácia imaginária das criaturas depende de uma disposição prévia para reconhecer vida e humanidade no artifício, enquanto a fabricação artificial introduz também a possibilidade fantasmática de reproduzir o humano fora das modalidades biológicas e maternas.

** A criatura como figura da mediação **

7. A consideração das funções sociais desempenhadas pelas criaturas artificiais amplia significativamente sua interpretação, revelando que suas narrativas participam reiteradamente de debates políticos e sociais, embora essa dimensão tenha recebido pouca atenção nas análises tradicionais.

8. A criatura funciona frequentemente como figura metafórica por meio da qual problemas políticos contemporâneos são abordados indiretamente, especialmente conflitos relacionados à continuidade social, à exclusão, à proteção coletiva e ao exercício do governo.

9. A problemática da criação e a dimensão política não são concorrentes, pois a finalidade atribuída à criatura — dominá-la, utilizá-la ou perder seu controle — introduz continuamente questões relativas à autoridade, ao poder e à organização coletiva.

10. A função recorrente de auxílio ou substituição do homem permite que as criaturas assumam tarefas sociais e políticas que os próprios humanos seriam incapazes de desempenhar adequadamente.

** O poder do criador **

11. A capacidade de produzir um ser artificial pode aparentemente servir como demonstração do poder de rabinos, sacerdotes, engenheiros ou cientistas, favorecendo a transferência moderna para os técnicos da antiga imagem religiosa do criador dotado de capacidades quase demiúrgicas.

12. A associação entre criatura e poder pessoal permanece, contudo, limitada, pois as tradições do golem proíbem explicitamente sua utilização em benefício privado do rabino e subordinam a capacidade criadora aos interesses coletivos, fazendo com que a sabedoria deva permanecer superior ao poder.

13. A proibição de utilizar o golem para fins privados mostra que a criatura deve servir à comunidade, e sua criação frequentemente implica até um movimento de apagamento do próprio criador, incompatível com a simples afirmação individual de autoridade.

14. A concepção de Turing radicaliza esse apagamento ao imaginar máquinas inteligentes capazes de substituir especialistas intelectuais e reduzir sua autoridade social, assim como a mecanização industrial substituíra anteriormente atividades artesanais.

** A criatura em socorro do homem **

15. O casamento de Pigmalião com a mulher artificial assegura-lhe uma descendência e adquire, por sua condição régia, uma significação política relacionada à sucessão e à prevenção das desordens que poderiam acompanhar uma crise dinástica.

16. O golem introduz de maneira particularmente explícita a criatura artificial no campo dos acontecimentos históricos dramáticos, pois sua transformação em lenda acompanha o agravamento das perseguições contra as comunidades judaicas europeias no final da Idade Média.

17. A finalidade do golem deve ser compreendida a partir da necessidade coletiva de sobrevivência das comunidades judaicas ameaçadas, fazendo da criatura uma resposta artificial a uma situação histórica na qual os recursos humanos disponíveis parecem insuficientes.

18. A lenda situa a criação do golem em 1580, quando novas acusações de crime ritual ameaçavam os judeus, atribuindo-lhe a função de descobrir antecipadamente conspirações e desmascarar provas fraudulentamente fabricadas para incriminar a comunidade.

19. A proteção exercida pelo golem alcança também a segurança material da comunidade, como na narrativa em que prova alimentos suspeitos e sofre os efeitos do envenenamento, evitando uma catástrofe coletiva e contribuindo para a posterior intervenção do imperador Rodolfo II contra acusações de crime ritual.

20. A função essencial do golem não reside, portanto, na caricatura do servo mecânico incapaz de interromper uma tarefa, mas na proteção de uma comunidade ameaçada, sendo a criatura expressão da sobrevivência coletiva e não da ambição pessoal de seu criador.

** O golem como mediador **

21. A necessidade de uma criatura que não pertence nem ao domínio divino nem ao humano, e tampouco às identidades judaica ou cristã, manifesta a impossibilidade de os próprios homens resolverem adequadamente uma situação de conflito em que as posições sociais existentes impedem qualquer mediação eficaz.

22. A criação do golem nasce paradoxalmente do reconhecimento de uma impotência humana originária, pois somente a admissão de uma insuficiência diante da crise torna necessária a produção artificial de um mediador capaz de realizar aquilo que os homens envolvidos não conseguem fazer.

23. A recorrência do golem em momentos de perigo pode ser interpretada como figura da necessidade social da vigilância e da consciência do risco, transformando o medo não em simples sentimento a ser eliminado, mas em condição necessária para reconhecer e enfrentar ameaças reais.

24. O golem transcende sua situação histórica particular ao representar problemas fundamentais de exclusão, integração e comunicação entre comunidades, ocupando sistematicamente uma posição intermediária cuja função transitória explica sua incapacidade de permanecer definitivamente.

25. A natureza transitória do golem encontra correspondência tanto nos ritos cabalísticos, em que sua construção era imediatamente seguida de desconstrução, quanto no pensamento atribuído ao Maharal de Praga, para quem o meio e a contradição constituem condições fundamentais da comunicação.

26. Nas lendas posteriores, o golem torna-se claramente uma solução metafórica para uma impossibilidade social: somente um ser exterior aos grupos em conflito poderia revelar a fraude antissemita sem que seu testemunho fosse imediatamente invalidado por pertencer a um deles.

27. A eficácia do golem deriva de sua dupla exterioridade — nem homem nem deus, nem judeu nem cristão —, permitindo-lhe personificar um saber situado entre as comunidades e capaz de neutralizar rumores mediante conhecimento verificável.

28. A transformação antissemita do golem em monstro pode ser interpretada como reação contra sua função mediadora, pois a criatura que contribui para demonstrar a inocência dos judeus torna-se alvo simbólico daqueles que pretendem novamente legitimar sua exclusão, convergindo com determinadas formas românticas de hostilidade ao saber e à cabala.

29. A criatura exalta, em última instância, a capacidade humana de mediação, isto é, de atravessar diferenças identitárias e religiosas sem necessariamente suprimi-las, em direção a uma relação mais universal com o humano, enquanto sua existência denuncia simultaneamente a ausência social dessa capacidade.

** As máquinas contemporâneas de governar **

30. No século XX, a dimensão política das criaturas artificiais torna-se explícita tanto na representação negativa dos robôs que tomam o poder em Karel Čapek quanto na expectativa positiva dos fundadores da informática de que computadores possam substituir homens na administração racional da sociedade.

31. A hipótese de máquinas capazes de realizar tarefas intelectuais conduz imediatamente à possibilidade de sistemas destinados a coletar informações, prever comportamentos econômicos e sociais e participar da totalidade do processo decisório estatal.

32. A ideia de cérebro artificial associa-se desde sua origem à concepção de sociedades excessivamente complexas para a capacidade cognitiva humana, favorecendo projetos nos quais máquinas processariam problemas econômicos e políticos que ultrapassariam especialistas e governantes.

33. A possibilidade de comunidades de animais sintéticos administrarem racionalmente empresas revela a dimensão explicitamente utópica dessas expectativas, nas quais o homem poderia superar suas próprias limitações dando origem a uma espécie informacional considerada mais apta a enfrentar a complexidade do mundo.

** A ressonância psicológica das criaturas **

34. A criação artificial possui profunda ressonância psicológica porque o automatismo pode ser vivido como arquétipo associado simultaneamente à criatividade, à autonomia, ao fascínio e à vontade de poder, paradoxalmente fazendo do ser regido por regras próprias uma imagem privilegiada da espontaneidade.

35. O desejo de estabelecer relações com parceiros artificiais demonstra outra dimensão psicológica do fenômeno, pois a previsibilidade e a artificialidade das regras da interação podem produzir uma sensação paradoxal de liberdade e favorecer investimentos afetivos ou eróticos dirigidos à criatura.

36. A criação artificial também pode conter a fantasia de reproduzir o humano sem participação feminina, substituindo o processo biológico e materno por uma operação técnica predominantemente masculina, o que torna indispensável considerar a dimensão psicológica e sexual da genealogia das criaturas.

** A emoção diante do artifício da vida **

37. As narrativas de criaturas artificiais são atravessadas por uma emoção específica diante da aparente passagem do inerte ao vivo, caracterizada por um estado de perturbação e assombro que não coincide simplesmente com as emoções ordinárias.

38. A fuga imediata de Victor Frankenstein quando sua criatura adquire vida exemplifica intensamente essa perturbação, associando horror, repugnância, criação e transgressão das fronteiras familiares e corporais.

39. Em Frankenstein, a emoção diante da vida artificial assume deliberadamente caráter negativo e sustenta a crítica à pretensão humana de fabricar seu semelhante, tornando o horror do criador parte essencial da significação da criatura.

40. Em O Homem da Areia, Nathanaël experimenta fascinação justamente pelas características artificiais de Olympia, deslocando para a mulher mecânica uma intensidade afetiva superior àquela dirigida à sua noiva humana.

41. A passividade mecânica de Olympia é interpretada pelo apaixonado como profunda empatia, e sinais de inércia como o olhar vazio ou a mão fria são subjetivamente transformados em manifestações de vida, demonstrando que o desejo preenche imaginariamente aquilo que falta à criatura.

** Uma paixão perturbadora **

42. A emoção dirigida à criatura artificial não constitui simples substituição de um objeto humano nem resultado de engano perceptivo, mas sentimento específico por um ser reconhecido como semelhante ao homem e simultaneamente produzido por uma via não humana.

43. A perturbação diante da vida artificial permanece constante através das épocas, assumindo valor positivo quando a criação é celebrada e negativo quando é representada como transgressão demoníaca, sem desaparecer com a passagem da literatura e da magia para os ambientes científicos.

44. As tartarugas cibernéticas do século XX provocam nos próprios pesquisadores uma expectativa emocional de proximidade da vida e da consciência, levando características técnicas elementares a serem interpretadas como sinais de uma interioridade emergente.

** A tentação do zoomorfismo **

45. O fascínio provocado pelas tartarugas sintéticas conduz ao zoomorfismo, mediante o qual objetos metálicos são interpretados como verdadeiros animais, constituindo uma etapa intermediária pela qual a máquina pode posteriormente receber atributos humanos.

46. A descrição das tartarugas de Grey Walter constrói progressivamente sua identidade animal por meio de quatro operações: caracterização comportamental, reconhecimento de si e do outro, alimentação autônoma e atribuição de estados de humor e personalidade.

47. Elmer e Elsie são apresentados linguisticamente como membros sexuados de uma nova espécie, e seus componentes técnicos recebem denominações zoológicas como carapaça, cabeça e pescoço, convertendo uma célula fotoelétrica e uma estrutura mecânica em órgãos de um animal artificial.

48. Os movimentos de Elsie diante de obstáculos e espelhos são descritos como comportamentos animais intencionais, fazendo de respostas mecânicas a estímulos uma busca de saída, uma atração pela própria imagem e até uma espécie de dança diante do reflexo.

** Do zoomorfismo ao antropomorfismo **

49. A atribuição de humores e temperamentos às tartarugas completa sua transformação simbólica em animais individualizados e simultaneamente introduz características humanas na descrição de seu comportamento.

50. O percurso interpretativo realiza dois deslocamentos sucessivos: primeiro o objeto mecânico transforma-se simbolicamente em animal; depois esse animal recebe emoções e traços humanos, construindo uma continuidade progressiva entre artefato, animalidade e humanidade.

51. A descrição da interação entre duas tartarugas como dança e busca de companhia atribui-lhes uma sociabilidade própria de uma espécie, fazendo dos movimentos provocados por estímulos luminosos comportamentos gregários comparáveis aos de parceiros afetivos.

52. O entusiasmo científico em torno das tartarugas mostra que sua aparente ingenuidade é sobretudo resultado de um julgamento retrospectivo, pois a comunidade científica da época discutia seriamente se esses dispositivos reproduziam reflexos animais e considerava a construção de animais artificiais um problema de desenvolvimento técnico, não uma impossibilidade de princípio.

** As relações curiosas entre o homem e o computador **

53. O antropomorfismo reaparece na interpretação científica dos computadores quando falhas, instabilidades e limites dos sistemas são descritos mediante categorias orgânicas e psicológicas como temperamento, doença, neurose, loucura, fadiga e envelhecimento.

54. A relação cotidiana com o computador pode ser experimentada como interação entre dois seres relativamente autônomos, produzindo uma antropomorfização consciente na qual o usuário sabe que a máquina não é uma pessoa, mas simultaneamente sente sua presença como a de um parceiro familiar.

55. A antropomorfização não se limita a usuários isolados, mas participa do próprio imaginário profissional da inteligência artificial, no qual a finalidade declarada pode assumir proporções míticas de fabricação de uma inteligência ou espírito universal.

56. A linguagem técnica dos criadores reforça essa personificação ao atribuir aos programas intenções, esforços, inteligência, estupidez, capacidade comunicativa e desorientação, fazendo do vocabulário mental humano parte ordinária da descrição informática.

57. O envolvimento dos hackers com os computadores pode assumir intensidade comparável a experiências sexuais, narcóticas ou místicas e favorecer a escolha das máquinas como universo relacional alternativo à intimidade humana.

** O amor pelos seres artificiais **

58. A possibilidade de amar criaturas artificiais, inclusive sexualmente, constitui uma das manifestações mais intensas e delicadas da ressonância psicológica dessas figuras, prolongando uma tradição histórica muito anterior às tecnologias contemporâneas.

59. A célebre estátua nua de Afrodite em Cnido tornou-se objeto de forte investimento erótico, dando origem a relatos de peregrinos apaixonados e até de contatos sexuais com a imagem, tradição que reaparece posteriormente em narrativas sobre relações semelhantes com estátuas masculinas.

60. A statuofilia aproxima-se do pigmalionismo ao deslocar o desejo para figuras imóveis ou passivas semelhantes ao corpo humano, relacionando-se também, em determinadas interpretações, a práticas em que o objeto erótico é um corpo privado de atividade própria.

61. A dimensão erótica da criatura artificial ultrapassa, contudo, a simples atração pela passividade, pois pode compreender relações imaginariamente recíprocas com seres artificiais ativos e autônomos.

62. A longa história dos autômatos sexuais demonstra a tentativa persistente de fabricar parceiros artificiais destinados explicitamente às práticas eróticas, enquanto a literatura amplia essas possibilidades imaginando dispositivos dotados de mecanismos complexos de exclusividade, proteção ou punição.

63. A ficção científica e o discurso contemporâneo sobre cibersexo prolongam uma tradição antiga que associa sexualidade e artifício, tornando apenas tecnicamente novas relações imaginárias que acompanham há séculos estátuas, autômatos e outras representações do humano.

** Produção ou reprodução? **

64. O sentimento de paternidade manifestado por alguns criadores revela que a fabricação de seres artificiais pode ser vivida como substituição simbólica da reprodução biológica, convertendo produção técnica em ato de geração.

65. Embora essa metáfora paternal não apareça com a mesma força nas histórias antigas de Pigmalião ou do golem, sua importância nas narrativas modernas ilumina retrospectivamente uma dimensão potencialmente presente em toda criação artificial.

66. A denominação de paternidade permanece insuficiente para descrever o fenômeno, mas exprime claramente a fantasia de que homens privados da capacidade feminina de gestação poderiam gerar descendência por intermédio das máquinas.

67. Frankenstein explicita essa fantasia ao imaginar que uma nova espécie reconheceria seu fabricante como criador e fonte de sua existência, oferecendo-lhe uma gratidão superior àquela normalmente dirigida pelos filhos aos pais.

68. A satisfação paternal converte-se em medo quando Frankenstein percebe que a criação de uma companheira permitiria à criatura reproduzir-se autonomamente e fundar uma espécie fora de seu controle, transformando a descendência desejada numa possível ameaça às gerações humanas.

69. A metáfora filial reaparece nas tartarugas de Grey Walter, colocadas narrativamente no mesmo plano que uma criança humana e apresentadas como irmãos por terem sido produzidas pelo mesmo casal.

70. A participação feminina na fabricação técnica não restaura propriamente a reprodução sexuada, pois a mulher aparece como assistente científica e não como parceira biológica, mantendo o ato de criação artificial fundamentalmente separado da união reprodutiva entre dois seres humanos.

** Uma concepção sem pecado **

71. A máquina de calcular de Blaise Pascal pode ser interpretada como reprodução mecânica de uma parte do cérebro humano e sua apresentação ao mecenas como ato de criação no qual a geração técnica substitui simbolicamente a descendência biológica.

72. A linguagem empregada por Pascal em sua dedicatória permite associar sua posição criadora à imagem de uma concepção sem relação sexual, enquanto a trajetória de Turing oferece outra configuração biográfica em que produção técnica e ausência de descendência convencional permanecem simbolicamente próximas.

73. A criação artificial expressa, nesse registro, uma transgressão psicológica pela qual a reprodução é deslocada para fora do acasalamento sexual, tornando-se obra de um indivíduo e transferindo a geração da carne para um espaço técnico e simbólico ainda marcado pelas categorias de pecado e culpa.

74. Fotografias de inventores acompanhados por seus filhos biológicos e suas criaturas eletrônicas tornam particularmente visível a equivalência simbólica entre reprodução natural e fabricação técnica, demonstrando a ampla penetração cultural dessa representação no século XX.

75. A composição fotográfica que torna a mãe biologicamente secundária enquanto aproxima o engenheiro de seu filho eletrônico sugere uma divisão segundo a qual a mulher responde pela vida biológica e o homem reivindica a capacidade de produzir uma nova forma de vida mediante técnica e ciência.

76. A transformação simbólica da mulher de mãe em assistente pode ser interpretada como manifestação extrema do desejo masculino de monopolizar a reprodução, embora essa lógica conduza paradoxalmente não apenas à supressão da mulher, mas à possível substituição do próprio homem por uma nova espécie artificial.

** Conclusão **

77. A história das criaturas concebidas à imagem humana permanece aberta e prepara novas formas narrativas, organizadas em torno de conceitos tecnológicos ainda imprecisos cuja intensa circulação pública anuncia uma nova transformação do antigo motivo.

78. As chamadas autoestradas da informação apresentam-se como macrosistemas técnicos planetários destinados a conectar indivíduos e fazer circular universalmente conteúdos digitalizáveis, constituindo o ciberespaço como novo ambiente possível das criaturas artificiais.

79. As tecnologias virtuais acrescentam a esse sistema a capacidade de fabricar imagens e estímulos sensoriais, permitindo tanto reproduzir situações existentes quanto construir mundos e personagens inteiramente ficcionais.

80. As criaturas artificiais reaparecem no interior dessas tecnologias sob uma forma mais ampla do que aquela privilegiada pela inteligência artificial, pois deixam de ser apenas máquinas destinadas a simular capacidades intelectuais e passam a reproduzir globalmente aparência, movimento e comportamento humanos.

81. Apresentadores virtuais e duplicações digitais de atores demonstram a possibilidade de construir réplicas numéricas capazes de reproduzir voz, aparência, movimento e expressão de indivíduos reais, substituindo em determinadas cenas o próprio corpo humano por seu duplo computacional.

82. A rápida aplicação das tecnologias virtuais ao domínio sexual prolonga coerentemente a genealogia das criaturas eróticas, fazendo do cibersexo uma nova forma técnica de interação entre um ser humano e um parceiro imaginário mediado por redes computacionais.

83. A interatividade parece conferir novidade radical à criatura virtual ao permitir que ela responda e intervenha na relação como verdadeiro parceiro, mas reproduz a recorrente convicção histórica de que a tecnologia presente finalmente realizará aquilo que todas as formas anteriores apenas aproximaram.

84. A efetividade técnica das experiências virtuais e de determinados contatos sexuais mediados por dispositivos não elimina seu caráter de continuação histórica, mesmo quando a interação produz sensações corporais reais e não apenas representação imaginária.

85. Relações eróticas efetivas com parceiros artificialmente animados pela imaginação existem há milênios, de modo que os dispositivos eletrônicos contemporâneos modificam principalmente o suporte sensorial dessa experiência, sem transformar sua estrutura antropológica fundamental.

86. A questão decisiva reside menos na novidade dos meios técnicos do que na continuidade histórica da criatura e nas transformações da representação do humano que cada uma de suas novas formas torna perceptíveis.

87. A genealogia das criaturas permite investigar aspectos centrais das definições culturais do humano, e as formas virtuais contemporâneas indicam uma transformação suficientemente profunda para diferenciá-las tanto das criaturas antigas quanto da própria inteligência artificial clássica.

88. O enfraquecimento da inteligência artificial como principal suporte do desejo de produzir uma criatura semelhante ao homem decorre parcialmente de sua incapacidade persistente de realizar uma inteligência comparável à humana, enquanto suas realizações concretas em auxílio à decisão se tornam instrumentos informáticos cotidianos e perdem sua aura de criaturas.

89. Sistemas automáticos de decisão, controle de tráfego e transporte deixaram de ser percebidos como portadores de consciência artificial, mas a transformação fundamental que desloca o imaginário da criatura para outros suportes ultrapassa a simples banalização tecnológica dessas aplicações.

90. A inteligência artificial clássica corresponde a uma representação do homem como sujeito individual e relativamente monádico que comunica informação a outros indivíduos, enquanto a representação contemporânea tende a deslocar a humanidade para a dimensão coletiva e social.

91. A concepção de Harry Collins radicaliza essa transformação ao localizar o conhecimento no grupo social e não no indivíduo, fazendo do computador inteligente uma prótese destinada a integrar-se não a um organismo humano isolado, mas ao organismo mais amplo constituído pela coletividade.

92. A história das criaturas artificiais revela sucessivas superações de definições reducionistas do homem — beleza, movimento, inteligência ou individualidade —, fazendo com que cada novo projeto exponha simultaneamente um aumento de conhecimento e a descoberta de dimensões anteriormente ignoradas da complexidade humana.