Termo "informática"

BRETON, Philippe; RIEU, Alain-Marc; TINLAND, Franck. La Techno-science en question: éléments pour une archéologie du XXe siècle. Seyssel: Champ vallon, 1990.

** O sentido das palavras: o surgimento dos termos informática, ordenador e informação **

1. Uma vez inventado o computador, a nova técnica conheceu sucesso crescente, e o interesse recai aqui sobre os grandes termos metatécnicos que não designam uma ação específica, mas servem ao domínio para se pensar e se designar perante o exterior, sendo informática, ordenador e informação os três principais termos reflexivos do campo, cuja definição admite singular flexibilidade num contexto marcado pela busca sistemática de rigor.

Da religião ao cálculo: o ordenador (1955)

2. O termo ordinateur foi proposto em 1955 por Jacques Perret, professor da Sorbonne, a pedido da IBM-França, com o objetivo aparente de individualizar os calculadores numéricos eletrônicos digitais então produzidos pela companhia, além de talvez significar que esses calculadores cumpririam também uma função social de organização.

3. O nome foi registrado e a IBM tornou-se sua proprietária, e Perret explicou sua escolha terminológica numa carta em que anunciava ter buscado no vocabulário religioso, considerando que os dois campos semânticos, o contábil e o religioso, estariam suficientemente distantes para que nenhuma aproximação pudesse ser feita, sendo ordinateur originalmente o nome que designa a função de quem confere uma ordem eclesiástica, o ordenador sendo aquele que pratica a ordenação.

4. Ordinateur é também um adjetivo qualificador de ordem e arranjo, como no uso de Diderot ao falar da causa universal, ordenadora e primeira, podendo-se atribuir a Perret um desconhecimento das questões já presentes no domínio havia uma dezena de anos, mas não à IBM, cuja aprovação entusiástica se explica pela perfeita adequação do novo nome ao projeto social e cognitivo então associado às tecnologias da informação.

5. O ordenador tornou-se assim, por simples jogo terminológico, um calculador mais universal, antecipando a futura série 360 da IBM, cujo número remete aos 360 graus, representando essa nova máquina, além do calculador, potencialmente a máquina universal por excelência.

6. Cabe perguntar por que a língua anglo-saxônica não adotou termo semelhante, já que partindo nos anos quarenta de calculator, ela passou rapidamente, com o EDVAC construído logo depois com base nos princípios de von Neumann, a computer.

7. Entre a introdução do termo na terminologia técnica em 1955 e sua difusão generalizada, decorreu cerca de quinze anos, sendo apenas no início dos anos setenta que a palavra ordinateur passou a ser efetivamente empregada.

8. Essa lentidão de penetração contrasta com a adequação afirmada do termo aos grandes temas da disciplina nascente, contraste ainda mais notável diante do rápido sucesso conhecido pela palavra informatique, havendo várias explicações possíveis para essa questão.

9. Uma primeira explicação está no fato de que a palavra era, num primeiro momento, propriedade da IBM, que reservou seu uso a suas próprias máquinas por alguns anos até o início dos anos sessenta, fazendo com que qualquer uso do termo pudesse ser assimilado a uma espécie de publicidade para a companhia, explicação que porém só parece válida para os primeiros anos seguintes à transferência da palavra ao vocabulário técnico.

10. Outra explicação está no fato de que outras palavras concorriam para substituir calculateur, sentido ainda demasiado próximo do universo do cálculo estritamente matemático.

11. Além desses candidatos malsucedidos, uma série de termos sinônimos era empregada para designar os usos não calculatórios do calculador, num período em que a cibernética, então de forte influência sobre as ciências e técnicas, havia popularizado o tema da máquina inteligente, prevendo-se uma nova geração de máquinas capazes de substituir o homem inclusive em suas atividades mais criativas.

12. A ideia de que o calculador eletrônico pudesse constituir a base de tal máquina se difundiu rapidamente, transformando-se o calculador, ao menos no plano terminológico, em máquina semântica ou máquina de pensar segundo Couffignal, instrumento do pensamento artificial segundo de Latil, e outros cérebros eletrônicos, ocupando esse terreno semântico e freando a expansão da palavra ordinateur.

13. Uma última explicação, talvez a mais importante, está no fato de que o termo calculateur cobria originalmente uma realidade técnica mais ampla, havendo nos anos cinquenta e sessenta forte concorrência entre as máquinas digitais e as máquinas analógicas.

A invenção da informática (1962)

14. Diferentemente de ordinateur, informatique é uma palavra nova criada por concatenação de dois termos preexistentes, havendo porém duas interpretações distintas sobre sua composição: para uns tratar-se-ia da fusão de information e automatique, para outros tique seria um sufixo acrescentado a information para significar a ciência da informação, à semelhança de mathématique ou linguistique.

15. Essa ambiguidade sobre os termos componentes se manteve por muito tempo, encontrando-se rastros dela na literatura francesa dos anos setenta, em autores como Moch, Arsac, Elgozy ou Le Moigne, bem como na literatura americana atual, exemplificada pela proposta de Saul Gorn de adotar o termo informatics à semelhança do francês informatique e do alemão Informatik, combinando a ideia de informação com a terminação de mathematics.

16. A perspectiva de Gorn é de síntese entre uma informática do computador, sustentada pelo termo anglo-saxão computer science, e uma informática como ciência da informação, à qual remete o recente information technology, mas a palavra francesa foi criada em 1962 por Philippe Dreyfus, engenheiro havia vários anos num domínio que tinha dificuldade em se definir.

17. Dreyfus desejou sem equívoco nomear um domínio que concebia como uma automática da informação centrada no computador, tendo cogitado por um momento a ordem inversa infor(mação)…(auto)mática ou auto(mática)…(infor)mação, mas o termo automation já existia em inglês, recém-criado por Diebold e traduzido tal qual para o francês, remetendo porém à automatização em geral.

18. As duas primeiras aparições oficiais da palavra foram um artigo do jornal Le Monde de 2 de maio de 1962 escrito pelo próprio Dreyfus, precedido em março do mesmo ano pelo registro do nome de uma filial da SEMA, a Société d'Informatique Appliquée, da qual Dreyfus foi um dos artífices.

19. A palavra suscitou de imediato oposições, parte delas inspiradas por representantes da IBM-França preocupados em preservar o investimento comercial da companhia na palavra ordinateur e em impedir o surgimento de outro novo termo francês, travando-se nos círculos ainda restritos do tratamento da informação um debate por vezes mediado por linguistas, em que alguns consideravam a palavra horrível, restritiva demais ou sem futuro.

20. Apesar de representar também para ele um investimento comercial, em escala menor que o da IBM, Dreyfus manteve sua posição, e Robert Lattès aconselhou Robert Gallet, recém-nomeado no âmbito do plano de cálculo, a adotar o título de délégué à l'informatique, momento a partir do qual a questão parece ter se decidido em favor da palavra, ainda que com algumas resistências remanescentes.

21. Os debates subjacentes sobre o estatuto da disciplina foram tais que o impulso semântico original dado por Dreyfus se tornou em parte invisível, passando o sentido da nova palavra por diferentes interpretações, sustentando alguns autores inclusive que Dreyfus jamais quis referir-se a automatismo, ficando claro que o termo foi criado em função de um vazio sentido pelos praticantes de um domínio em formação, permanecendo em aberto se tal vazio foi inteiramente preenchido pela nova palavra.

22. No limiar dos anos sessenta, as tecnologias da informação, já existentes havia mais de quinze anos, enfrentavam duas mutações importantes, a primeira ligada à digitalização crescente e provavelmente irreversível do domínio.

23. A ênfase recairá, a partir daí, mais sobre a pluralidade dos debates do que sobre a unidade da disciplina, reforçando essa configuração os efeitos da segunda mutação sofrida pelas tecnologias da informação, correspondente ao início da expansão social do domínio, que, até então relativamente restrito aos cálculos científicos e sua versão militar e a algumas grandes aplicações de gestão, conheceria um crescimento que nada mais viria a contradizer, tendo os especialistas de lidar com uma informação de natureza cada vez mais distante dos dados numéricos que ainda constituíam seu cotidiano.

24. A informática se estende de modo multiforme por zonas de aplicação cada vez mais heterogêneas, colocando-se mesmo, ao menos em teoria, a questão de saber se ela não acabaria por se dissolver em suas aplicações, contribuindo o corpo profissional dos informatas, ao se constituir como corpo de generalistas da informação, para preservar e desenvolver importante tensão centrípeta no plano epistemológico.

25. A informática será cada vez mais confrontada a um problema de fronteiras com as demais disciplinas, e embora exista forte tendência a afirmar que a informática, ciência dos computadores, seria apenas uma disciplina-ferramenta a serviço de seus usuários, há consenso de que os novos métodos de tratamento da informação devem transformar a própria maneira de formular seus problemas, vendo-se todos os artífices do domínio às voltas com esse material cada vez mais diversificado sob envoltório cada vez mais especializado, a informação.

26. O que foi exposto permite aproximar melhor o papel exato desempenhado pelo termo informatique, bastante federador no plano das redes de especialistas, mas nem por isso menos prolongador de uma ambiguidade que lhe preexiste na definição do domínio, mostrando as diferentes interpretações a que dá lugar que ele não tinha vocação, no contexto, para se tornar federador de sensibilidades divergentes.

27. Tentou-se opor a informatique outros termos, ainda no início dos anos sessenta, como ordinatique, intellectronique e programmatique, nenhum deles obtendo verdadeiro sucesso.

A ambiguidade da noção de informação

28. Seja automática, ciência ou técnica, a informática não deixa de ser fundamentalmente o domínio do tratamento da informação, permanecendo em aberto o que recobre exatamente essa noção, sendo uma das originalidades reivindicáveis pela informática o fato de que, enquanto a maioria dos especialistas de outros domínios se apressariam a definir a matéria sobre a qual trabalham, os informatas deixam cuidadosamente essa questão de lado, não sendo o problema, de fato, simples.

29. Para delinear essa questão, cabe partir da maneira como Jacques Arsac a propôs resolver, o primeiro titular na França de uma cátedra de informática, na Faculdade de Ciências de Paris em 1966, defendendo a ideia de uma ciência informática que não se reduziria a uma ciência dos computadores e teria por objeto de conhecimento a informação onde quer que o homem possa encontrá-la, sendo para Arsac a condição de existência de tal ciência ligada à possibilidade de distinguir e separar nitidamente informação e conhecimento, constituindo a informação apenas o suporte, a forma, o envoltório, mas não podendo ser confundida com o conteúdo, o que representaria para esse autor uma verdadeira ruptura epistemológica, única capaz de assegurar os fundamentos do novo domínio.

30. Essa insistência sobre um ponto que pode parecer, erroneamente, evidente se explica pelo fato de que a tradição cibernética, e em menor medida a teoria matemática da informação de Shannon, haviam popularizado a ideia de uma assimilação da informação ao sentido, devendo o tratamento da informação ter como objetivo o tratamento do sentido, sendo as máquinas analógicas de simulação do comportamento animal ou humano tentadas pelos cibernéticos a encarnação desse princípio.

31. Arsac busca evidentemente afastar a informática das influências cibernéticas, julgando provavelmente que tal perspectiva sobre a informação só poderia ser ineficaz, como parece atestar o fracasso de praticamente todos os projetos cibernéticos desse ponto de vista, entre outros o da tradução automática das línguas naturais, havendo também nesse cientista de tradição universitária a clara consciência de que tal posição seria insustentável no plano das relações com as demais disciplinas.

32. A concepção cibernética da informação, que podia conduzir a uma medida quantitativa da originalidade, como Moles viria a desenvolver posteriormente, é na verdade bem mais antiga que essa disciplina, ainda que a ela se deva a popularização e a penetração desse tema na cultura.

33. Não é sem interesse remontar o percurso etimológico da palavra information, que atualmente possui vários sentidos: um lugar no vocabulário jurídico, um uso pouco frequente no vocabulário filosófico, e o uso popular no sentido amplo de conhecimento ou notícia, provavelmente derivado do sentido jurídico.

34. Por uma espécie de deslizamento nunca justificado em seu fundamento, a medida do sinal, na verdade da relação sinal-ruído, passa a ser concebida como algo que informa sobre o símbolo e sobretudo sobre seu sentido, de modo que quanto menor o número que mede a informação, mais incerta, imprevisível e original ela seria dita, sendo curiosamente essa possibilidade de passagem do universo da forma ao universo do sentido etimologicamente contida na palavra latina que está na origem de information.

35. Informatio possui dois sentidos que devem ser considerados distintos, um performativo e outro denotativo, remetendo cada um a contextos semânticos diferentes.

36. Pode-se dizer resumidamente que a palavra reúne duas famílias, uma remetendo ao conhecimento, outra à ação, implicando essa proximidade um ponto de vista particular sobre o que é o conhecimento, traduzindo uma tomada de posição epistemológica bastante nítida e fundamental, notando-se que, ao fazer coexistir esses dois sentidos, o latim parece inovar em relação à ideia grega de conhecimento.

37. É de fato impensável que os gregos associassem no interior de uma mesma palavra o tema da construção, da fabricação, e a própria ideia de conhecimento, o que pode ser deduzido da tese mais geral segundo a qual os gregos dissociavam nitidamente conhecimento filosófico e técnica, tanto no plano epistemológico quanto social, sendo o primeiro apanágio dos cidadãos e homens livres, e a segunda propriedade dos artesãos e escravos, tendo a sociedade grega se caracterizado pela infecundação mútua entre conhecimento e técnica, solidamente estanques um em relação ao outro.

38. Em comparação, a sociedade latina parece menos hesitante em colocar, além de sua técnica a serviço de seu poder, também seu conhecimento no mesmo quadro que sua técnica, rompendo a reunião semântica testemunhada pela criação latina informatio, palavra sem etimologia anterior, o tabu grego e autorizando linguisticamente a fundação de uma sociedade da informação.

39. A palavra latina sobrepõe talvez a essa concepção tecnicista do conhecimento um ideal estético, sendo informis aquilo que não tem forma, portanto disforme e sem beleza, enquanto forma remete, ao contrário, tanto à forma exterior de um objeto quanto ao porte, ao aspecto, em suma à beleza percebida através dessas qualidades formais.

40. A associação do conhecimento a uma obra técnica, que faz dele mais um ato de invenção na execução de um plano do que uma disposição para a descoberta do desconhecido, encontra consagração curiosa num dos usos, ainda que marginal, que Cícero faz do termo informatio, empregando-o no sentido de etimologia, a palavra informada por sua história e origem, sendo significativo do destino desse domínio que a ciência da informação, a informática moderna, seja, etimologicamente, também a ciência da etimologia, mostrando a história concreta das palavras e de seu significado que os problemas hoje enfrentados pela informática não são novos, e que a revolução técnica do século XX foi precedida por uma revolução cultural ocorrida dois milênios antes.