Sonho e máquina

Le rêve et la machine. Technique et existence. Paris: La Table Ronde, 1992.

1. A multiplicação contemporânea dos meios de comunicação pode interligar as consciências por redes cada vez mais extensas, mas não elimina sua separação originária, pois a simultaneidade temporal não permite compartilhar ou transferir a duração vivida, as sensações e os sentimentos de uma consciência para outra.

2. A coexistência proporcionada pelo mundo comum, pelas cidades e pelos meios de transporte permanece uma forma de solidão coletiva, pois a simultaneidade aproxima sem abolir a insularidade das consciências, que continuam encerradas em suas próprias experiências como mônadas leibnizianas sem portas nem janelas.

3. A empresa técnica procura superar o arquipélago das consciências transformando inicialmente sua dispersão num continente integrado e, posteriormente, numa rede de constelações móveis, mas a separação permanece simultaneamente vivida, inexplicável e irremediável, sem que seja possível determinar sua origem ou aquilo que poderia suprimi-la.

4. Em torno das diferentes formas de separação persiste o desejo de superá-las mediante caminhos de conhecimento e pontes capazes de atravessar distâncias corporais, espaciais e temporais, fazendo da ciência e da técnica grandes estratégias humanas de transposição que, após sucessivas conquistas, passam a pretender ultrapassar o próprio limiar do humano e deslocar integralmente seu horizonte.

5. A história das máquinas pode ser compreendida como a história das tentativas persistentes de abrir caminhos e estabelecer comunicações, impulsionadas pelo desespero de uma consciência presa à sua insularidade, à sucessão irreversível do tempo e à espacialidade que sempre contrapõe o distante ao presente, razão pela qual as máquinas destinadas a explorar o espaço possuem afinidade profunda com o sonho de máquinas capazes de explorar o tempo.

6. A busca de velocidades crescentes, a embriaguez proporcionada pelo movimento acelerado e os nomes mitológicos atribuídos às máquinas destinadas à exploração extraterrestre manifestam sonhos existenciais anteriores às teorias científicas abstratas, tornando insuficiente a interpretação racionalista que pretende derivar essas realizações exclusivamente do desenvolvimento conceitual da ciência.

7. Embora a exploração técnica do tempo não tenha alcançado realização comparável à conquista do espaço, o desejo de atravessar a barreira temporal permanece igualmente intenso, fazendo do crononauta uma figura imaginária equivalente ao astronauta, ao hidronauta e ao cosmonauta no esforço humano de lançar pontes sobre todas as modalidades de distância.

8. A máquina possui não apenas história, mas verdadeira biografia, porque não foi concebida exclusivamente como serva instrumental do ser humano, podendo tornar-se sua companheira e até sua deusa, enquanto desejos e fantasmas constituem forças propulsoras do desenvolvimento técnico tão importantes ou mais importantes que necessidades práticas e aplicações de teorias científicas.

9. A tendência humana a modificar seu próprio domínio de existência, destacada por Paul Valéry, manifesta-se em sonhos dirigidos contra as condições originárias da vida e progressivamente convertidos em programas técnicos de realização.

10. A história das técnicas deve ser reinterpretada para deixar de aparecer como simples progresso da consciência paralelo ao desenvolvimento científico e ser reconduzida ao fundo obscuro da existência humana que encontra nas realizações técnicas uma ocasião privilegiada de manifestação.

11. As máquinas são simultaneamente filhas e mães de fantasmas metafísicos, porque ultrapassam a condição de projeções orgânicas destinadas à adaptação vital e participam de uma estratégia existencial voltada para libertar a existência de sua própria essência e produzir um novo ser.

12. A compreensão profunda da invenção exige substituir a ideia meramente abstrata pela ideia onírica, que não existe anteriormente nem posteriormente às coisas, mas nasce contra e apesar do real, procurando abrir passagens para além das fronteiras da realidade estabelecida.

13. A máquina recebe a missão de abrir caminhos para além da condição humana e proporcionar uma forma de salvação pela qual o homem seja arrancado de si mesmo, assumindo inconscientemente uma função escatológica que se apresenta exteriormente como conquista científica do espaço, domínio da natureza e progresso libertador.

14. A história da técnica precisa ser inteiramente reescrita, porque a tradição racionalista e positivista consolidada sobretudo desde Descartes a reduziu a um conjunto de procedimentos decorrentes da aplicação de teorias científicas matematicamente formuladas e demonstradas, como se oficina e fábrica fossem simples prolongamentos materiais do cálculo e do laboratório.

15. A interpretação racionalista da técnica converte simbolicamente Hércules, Prometeu e Fausto de figuras alimentadas pelo sonho em engenheiros instruídos pela física rigorosa e incumbidos de transformar a natureza em matéria disponível para sua reconstrução segundo as necessidades humanas.

16. Desde aproximadamente o século XIX, o projeto técnico de posse e domínio da natureza estendeu-se das coisas ao próprio ser humano, e sociologia, psicologia experimental e demais ciências humanas contribuíram para tornar familiar a ideia de que a humanidade pode refazer racionalmente a si mesma, convertendo-se simultaneamente em sujeito, objeto e engenheiro de sua autocriação e interpretando esse processo como autonomia e liberdade.

17. A expansão dessa perspectiva produziu uma idolatria dos fatos e uma confiança cega no progresso, concebido ao mesmo tempo como causa, efeito e sentido da evolução histórica, enquanto as máquinas passaram metaforicamente a constituir um novo reino acrescentado aos reinos mineral, vegetal e animal.

18. Munida dos recursos técnicos, a humanidade passou a interpretar o universo das máquinas como anúncio de uma nova cosmogonia da qual seria autora e a acreditar que instrumentos, ciência e racionalização poderiam produzir uma sociedade progressivamente mais coerente e libertar a existência não apenas do erro, mas também da culpa e da violência.

19. A imagem bergsoniana do universo como “máquina de fazer deuses” converte-se em símbolo de um otimismo segundo o qual os males humanos seriam curáveis pela própria humanidade mediante disciplinas terapêuticas individuais e coletivas como psicologia, psicanálise, pedagogia, política e economia.

20. O otimismo técnico ignora ingenuamente a tendência do instrumento a converter-se em arma e da máquina a tornar-se máquina de guerra, como demonstra a passagem da indústria para a mobilização militar e a possibilidade de utilizar conquistas inicialmente benéficas, como os conhecimentos microbiológicos que permitiram a vacinação, na fabricação de armas biológicas.

21. A afirmação de que os efeitos destrutivos decorrem apenas do mau uso da técnica, exemplificada pela possibilidade de utilizar tanto para curar quanto para matar um instrumento como o bisturi, já admite implicitamente a existência do bem e do mal e demonstra que a técnica não contém em si mesma os critérios capazes de justificar seus usos ou conferir legitimidade ao simples avanço da ação.

22. A transformação da máquina em arma alcança sua expressão extrema quando a luta deixa de dirigir-se apenas contra povos determinados e se volta contra o próprio homem, convergindo com filosofias que proclamam racionalmente sua morte e reduzem o humano a uma coisa entre outras, constituída por agregações moleculares contingentes destinadas à futura dissolução.

23. A contemporaneidade entre o surgimento de meios atômicos capazes de eliminar a vida terrestre e o aparecimento de antihumanismos que proclamam a “morte do homem” revela um sincronismo significativo entre a possibilidade material de autodestruição e a negação filosófica de qualquer posição privilegiada da humanidade.

24. Depois de reduzir a distância a uma grandeza mensurável e tecnicamente percorrível, o pensamento moderno passou a imaginar que a superação do espaço separador poderia também dissolver os próprios termos separados, transformando a comunicação num sistema autorreferencial em que a relação adquire primazia sobre os sujeitos relacionados.

25. O mundo tende assim a ser concebido como campo abstrato de comunicações no qual desaparecem tanto conteúdos efetivamente comunicados quanto sujeitos comunicantes, perspectiva à qual se associam o estruturalismo, o romance sem sujeito e a concepção marxista segundo a qual os indivíduos seriam abstrações diante das infraestruturas constitutivas da natureza e da história.

26. O drama da civilização técnica resulta de uma inversão faustiana que absolutiza a ação e concebe a distância apenas como aquilo que relaciona e permite comunicar, chegando a afirmar que a relação produz o próprio ser, quando seria necessário reconhecer inversamente que a distância primeiramente separa e que é o ser que torna possível a relação.

27. Reduzir a técnica às aplicações científicas destinadas a melhorar a condição humana equivale a considerar apenas sua superfície visível, ignorando uma dimensão submersa capaz de produzir catástrofes como as guerras, porque as máquinas nascem de sonhos e simultaneamente passam a engendrar novos sonhos que podem converter-se em pesadelos quando se nega a presença do Mal na existência humana.

28. Os dramas produzidos pela técnica e pelo universo das máquinas não constituem simples acidentes transitórios ou erros corrigíveis de um processo essencialmente benéfico, mas pertencem à própria epopeia técnica, assim como envelhecimento e morte pertencem à existência humana, sendo necessário abandonar a aparência tranquilizadora da utilidade e situar máquina e instrumento no contexto metacientífico que esclarece sua origem e seu destino.

29. A história das máquinas é atravessada por preocupações encobertas por suas aplicações práticas, entre as quais se destaca o desejo humano de abandonar a condição de criatura e assumir a de Criador mediante a produção de seres artificiais dotados de movimento e vida.

30. O sonho de criação artificial envolve também o desejo de produzir uma futura Eva, simultaneamente filha e amante de seus fabricantes, como sugerem Villiers de l’Isle-Adam, os futuristas e numerosas representações da ficção científica, mas esse erotismo técnico permanece associado às pulsões de morte na fantasia recorrente de uma revolta das máquinas que elimine a humanidade e abra espaço para um novo mutante.

31. Nascimento, transmissão erótica da vida e morte tornam-se, assim, dimensões que a humanidade procura recuperar e controlar tecnicamente, esperando assumir simultaneamente o comando da vida biológica e da existência em sua dimensão vivida e misteriosa.

32. A técnica nasce de um esforço comparável ao movimento desesperado de um corpo submetido à tortura, pois a humanidade procura por meio dela libertar-se não apenas das ameaças exteriores, mas também de sua própria essência e existência, sem cuja compreensão a história das sociedades técnicas, do erotismo exacerbado, das drogas dissociativas e das violências exterminadoras aparece absurdamente como simples desvio corrigível pelo progresso.

33. Em seu princípio, sua vocação e seu uso, a máquina constitui um instrumento existencial e uma prótese destinada à própria vida, não apenas um meio prático de conquista espacial ou elevação material, pois representa uma concreção da história humana pertencente à sua essência tanto quanto vida e morte.

34. A criação artística permaneceu como domínio privilegiado no qual o ser humano podia abrir passagens através do tempo e do espaço, fazer surgir seres e lugares já impregnados de memória e confrontar a pergunta irredutível sobre sua própria identidade.

35. O sonho mecanicista acabou invadindo também o domínio artístico, de modo que à proclamação da morte de Deus se seguiu a da morte da arte, enquanto futuristas, construtivistas e produtivistas passaram a exaltar máquinas, velocidade e produção e a denunciar tradições artísticas como resíduos alienantes do passado.

36. Os produtos da indústria tornam-se objetos de idolatria estética, como testemunham a Pop Art, Andy Warhol, a reprodução de embalagens e mercadorias, as compressões de objetos fabricados e a transformação de máquinas inutilizadas e resíduos industriais em peças museológicas.

37. Quando desaparecem as distinções entre alto e baixo, bom e mau, belo e feio sob a acusação de serem repressivas, qualquer coisa passa a ser considerada simultaneamente consumível e admirável pelo simples fato de existir ou ter sido produzida, convertendo o homem num consumidor indiscriminado inclusive daquilo que anteriormente seria rejeitado como resíduo.

38. A fórmula fáustica “No princípio era a ação” alcança sua realização radical quando a ação deixa de ser atividade de um sujeito e passa a constituir a força que faz e desfaz o próprio homem, reduzido a ponto provisório de concentração de processos históricos e naturais considerados mais fundamentais que aqueles que aparentemente os executam.

39. A antiga oposição a Parmênides, segundo a qual somente o Devir possuiria realidade, converte-se contemporaneamente numa ontologia da Ação, em que o ser aparece como obra de um operar sem autor determinável e as máquinas funcionam simultaneamente como efeitos e causas desse processo.

40. A origem metafísica e metacientífica da técnica encontra-se num “infortúnio da consciência” irredutível tanto ao romantismo sentimental quanto a uma teologia simplista do pecado, pois a condição humana permanece marcada pela experiência universal de uma falta originária e constitutiva.

41. A pluralidade das consciências assemelha-se a um continente desmembrado por uma catástrofe, enquanto tempo e espaço permanecem estruturas incontornáveis da existência que multiplicam lugares e instantes desejados ou temidos sem os submeter plenamente ao poder humano.

42. O termo fenomenologia precisa ser recuperado da banalização que lhe esvaziou o sentido mediante a lembrança de sua acepção na Fenomenologia do espírito de Hegel, onde designava a manifestação histórica do Espírito absoluto através de diferentes civilizações compreendidas como encarnações sucessivas do Absoluto.

43. Na Filosofia da natureza, Hegel procurou compreender a natureza como espacialização de Deus e concreção da Ideia, construção que, diferentemente de sua filosofia da história, resistiu à secularização científica e provocou a rejeição de cientistas e filósofos.

44. Por trás dos excessos dialéticos hegelianos permanece a intuição de que distância, presença e pluralidade dos seres não são autoexplicativas, mas constituem fenômenos que exigem esclarecimento, conferindo à Filosofia da natureza o caráter de uma fenomenologia da distância.

45. O desenvolvimento dos meios de comunicação possui essência metafísica porque pretende abolir as distâncias, utilizando a velocidade para cancelar a separação entre aqui e lá e chegando a eliminar a própria distância na qual se funda o respeito devido à pessoa humana.

46. As figuras de Prometeu e Fausto representam a recusa de reconhecer a distância como experiência de ruptura e dilaceramento, levando o homem a atribuir estatuto ontológico ao universo mecânico por ele criado e a encarregar a máquina, simultaneamente filha e produtora de sonhos, de eliminar do mundo o próprio sonhador.

47. A reinserção integral do homem na natureza, do cultural no natural e da ação humana no jogo impessoal das forças cósmicas constitui o estágio extremo do mecanicismo, no qual a obra pretende eliminar o sujeito que a produziu e estruturas sem mensagem passam a funcionar autonomamente.

48. Ciência e técnica passam paradoxalmente a ser solicitadas a restaurar os próprios sonhos que afirmavam haver realizado, atribuindo-se à ficção científica a tarefa de romper novamente as fronteiras de um mundo tecnicamente organizado e de conduzir a imaginação para além da realidade explicada.

49. Novos dispositivos tecnológicos procuram inserir esses universos alternativos no próprio cotidiano mediante simuladores de presença e realidades virtuais, transformando tecnicamente o surrealismo em experiência operacional e oferecendo ilusões como formas de reencantamento e salvação.

50. A crítica da técnica e da própria noção de progresso torna-se difícil porque um maniqueísmo político tende a classificá-la imediatamente como nostalgia infantil de um passado idealizado ou como inadmissível falta de confiança na humanidade, convertendo o progresso num conjunto de forças irresistíveis cuja finalidade seria indiscutível.

51. Pesquisa científica e invenção técnica não constituem apenas instrumentos de ação criados para melhorar a condição humana, pois também intensificam as convulsões de uma existência que procura libertar-se de sua própria condição e espera das máquinas, convertidas em criaturas fascinantes, a possibilidade de arrancá-la finalmente de seu próprio ser.

52. A expectativa depositada nas máquinas revela, em última instância, a experiência humana de que nem o mundo nem o próprio homem conseguem bastar a si mesmos.