CASSIRER, Ernst. Individu et cosmos dans la philosophie de la Renaissance. Paris: Minuit, 1983.
Posição do problema da autoconsciência como ponto de convergência de todas as fontes espirituais do Renascimento, manifestando com clareza sua dupla relação com a Idade Média e a Antiguidade.
Formulação consciente do problema como fruto tardio da filosofia renascentista, alcançada primeiramente por Descartes e, em certo sentido, apenas por Leibniz.
Início da filosofia moderna fixado no princípio cartesiano do cogito, compreendido não como transição histórica, mas como ato livre e revolucionário do espírito.
Gênese da nova concepção moderna da relação sujeito-objeto como resultado negativo da remoção de pressupostos medievais, obra à qual contribuiu praticamente toda tendência da filosofia renascentista.
Confluência de correntes platonistas e aristotélicas renovadas ante as mesmas questões fundamentais, nivelando diferenças escolásticas.
Participação não apenas da metafísica, mas também da filosofia da natureza, do conhecimento empírico, da psicologia, da ética e da estética nesse processo.
Mérito da filosofia grega em extrair do pensamento mítico os conceitos de autoconsciência e de mundo, condicionando-se mutuamente.
Persistência de elementos míticos na concepção platônica da alma (ψυχή), servindo de veículo linguístico para conquistas dialéticas.
Tensão permanente na doutrina platônica devido ao caráter híbrido da alma, participante tanto do reino do ser quanto do devir, sem pertencer inteiramente a nenhum.
Objetivação da noção de alma no pensamento antigo: em Aristóteles, como forma e entelequia do corpo orgânico; no neoplatonismo, como força metafísica objetiva inserida numa hierarquia descendente.
Culminação dessa evolução na filosofia árabe medieval, particularmente no averroísmo, com a negação do princípio de subjetividade e individualidade.
Doutrina averroísta do intelecto ativo único e impessoal, comum a todos os sujeitos pensantes, onde a união com o indivíduo é exterior e acidental.
Oposição frontal entre o sistema lógico-metafísico averroísta e os pressupostos da fé cristã, que não pode prescindir do princípio da subjetividade e do valor da alma individual.
Refutação por Tomás de Aquino: a tese averroísta anula o fenômeno do pensar ao eliminar o fato empírico do eu pensante individual.
Fundamentação agostiniana do subjetivismo religioso: a verdade habita no interior do homem (in interiore homine habitat veritas), estabelecendo a primazia da experiência religiosa sobre esquemas metafísicos objetivos.
Tensão medieval como pano de fundo para a transformação renascentista: a doutrina averroísta mantém-se dominante em centros como Padua, enquanto surge um vigoroso movimento antagônico.
Liderança do movimento anti-averroísta pelos humanistas e pelo novo ideal renascentista da personalidade, com Petrarca como precursor.
Revolta da individualidade descoberta e valorizada contra uma filosofia que a reduz ao acidental, apoiando-se em Agostinho e fundindo lírica e mística numa corrente psicológica.
Resposta filosófica ao averroísmo exigindo um princípio mais profundo para fundar a individualidade, encontrado primeiramente em Nicolau de Cusa.
Refutação gnoseológica: o intelecto necessita da resistência e do sustento da percepção sensível para alcançar sua realização plena.
Princípio leibniziano antecipado: o ato puro do pensamento não tem no sensível um substrato indiferente, mas representa em si as diferenças sensíveis, fundando o princípio de individuação na forma mesma do pensar.
Espiritualismo renascentista e a doutrina do amor (Eros) como nova pedra angular da psicologia, particularmente em Marsílio Ficino e na Academia Florentina.
Confluência e fusão indissolúvel entre teologia e psicologia na doutrina ficiniana, transformando o platonismo original.
Inversão crucial na teoria do amor cristão-platônica: o processo do amor é recíproco; a tendência do homem para Deus supõe uma tendência inversa de Deus para o homem.
Amor como vínculo do mundo (vinculum mundi), realizando um circuito espiritual (circuitus spiritualis) que reconcilia espírito e matéria, superior e inferior.
Fecundidade da doutrina do amor nos diversos campos do saber renascentista: teoria do conhecimento, filosofia da natureza, ética e, sobretudo, estética.
Na gnoseologia (em Francesco Patrizzi): conhecimento como coito com seu cognoscível (cognitio nihil est aliud, quam Coitio quaedam cum suo cognobili), uma forma de tender que supera a divisão.
Na estética: justificação e teodiceia da criação artística, compreendendo a dupla natureza do artista, que liga o visível e o invisível, o sensível e o inteligível.
Novo conceito de autoconsciência que se articula nas direções do conhecer, querer e criar, gerando o sistema do espírito objetivo.
Desenvolvimento paralelo e aparentemente oposto: o naturalismo da Escola de Padua, buscando inserir o princípio da alma na ordem imanente da natureza.
Tratado De immortalitate animae de Pietro Pomponazzi como conclusão sistemática dessa tendência, retomando a luta contra o averroísmo a partir de bases naturalistas.
Crítica radical: o averroísmo explica a consciência de um modo que a anula, pois a consciência só é possível como ser-para-si na forma de particularização concreta.
Argumentação central de Pomponazzi: a alma individual só é compreensível como forma de um corpo individual; a propriedade de um corpo ser animado é sua própria individuação.
Rejeição da separação absoluta entre funções superiores e inferiores da alma: o espírito só é intelecto na medida em que é também vida, manifestando-se num corpo orgânico específico.
Conclusão racional (em desacordo com o dogma): a alma é simpliciter mortalis, ainda que secundum quid immortalis por sua capacidade de se dirigir ao intemporal.
Ruptura com a psicologia escolástica: a metafísica da alma torna-se fabula animae, ficção sem apoio em fatos ou critérios naturais.
Crítica à contradição no conceito tomista da alma, que mescla elementos platônicos (alma como substância separável) e aristotélicos (alma como entelequia do corpo).
Vindicação do Aristóteles biólogo em detrimento do metafísico, buscando uma doutrina da alma que seja continuação retilínea da doutrina do corpo.
Polaridade sistemática entre Ficino e Pomponazzi: ambos centrados no problema da individualidade, mas por caminhos opostos (supranaturalismo/transcendência vs. naturalismo/imanência).
Comunidade de interesse: fazer do fenômeno do eu o centro da psicologia.
Limitação de ambos: nem o caminho metafísico-supranaturalista nem o psicológico-naturalista alcançam a moderna concepção de natureza e autoconsciência.
Fontes da concepção moderna: o movimento espiritual que estabelece um novo equilíbrio ideal entre sujeito e objeto, fora da metafísica e da mera psicologia.
Papel fundador das ciências exatas da natureza e da arte na criação de um conceito de legalidade natural que não se opõe, mas sustenta a autonomia e liberdade do espírito.
Necessidade de abandonar os caminhos da metafísica supranaturalista e da psicologia naturalista para ganhar, mediante um novo conceito de natureza, um novo conceito do intelecto.