Tragédia da cultura

1. Hegel afirma que a história universal não é o albergue da felicidade e que os períodos pacíficos e venturosos são páginas em branco no livro da história, não vendo nisso contradição com sua convicção fundamental de que tudo na história carece de sentido racional, antes reconhecendo aí confirmação dessa tese.

2. Questiona-se para que serve o triunfo da ideia na história universal se ele exige renunciar a toda felicidade humana, soando tal teodiceia quase como zombaria, dando razão a Schopenhauer ao chamar o otimismo hegeliano de modo de pensar absurdo e infame.

3. Perguntas desse tipo sempre atormentaram o espírito humano, especialmente nas épocas mais ricas e brilhantes da cultura, considerando-se esta não como enriquecimento, mas como afastamento crescente da verdadeira meta da existência, exemplificado pelo veemente ataque de Rousseau às artes e ciências no pleno Século das Luzes.

4. Rousseau afirma que as artes e ciências apenas enervaram e amoleceram moral e fisicamente o homem, despertando afãs novos e insaciáveis em vez de satisfazer necessidades reais, sendo os valores culturais fantasmas aos quais se deve renunciar sob pena de condenação ao tonel das Danaides.

5. Essas acusações rousseaunianas abalaram profundamente os alicerces do racionalismo do século XVIII, exercendo Rousseau grande influência sobre Kant, que se sente libertado do mero intelectualismo, deixando de acreditar que o refinamento da cultura intelectual possa resolver os enigmas da existência e curar os males da sociedade humana, devendo a razão prática ser contida por outros poderes.

6. Ainda que se alcance o equilíbrio moral-espiritual e se garanta à razão prática primazia sobre a teórica, permanece vã a esperança de saciar a sede de felicidade humana, estando Kant convencido do fracasso de todas as tentativas filosóficas de teodiceia, restando-lhe apenas a extirpação radical do hedonismo em sua fundamentação ética.

7. Se a felicidade constituísse a verdadeira meta das aspirações humanas, a cultura estaria condenada, havendo apenas um caminho para justificá-la: aplicar-lhe outro critério de valor, buscando o verdadeiro valor não nos bens recebidos como dádiva, mas nos próprios atos humanos e naquilo que através deles o homem se torna.

8. Kant assume assim a premissa de Rousseau sem aceitar sua conclusão, pois o grito de volta à natureza poderia devolver a felicidade ao ser humano, mas às custas de divorciá-lo de seu verdadeiro destino, que reside não no sensível, mas no inteligível.

9. O que a cultura promete ao homem não é a própria felicidade, mas aquilo que o torna digno de merecê-la, sendo sua finalidade não a realização da felicidade terrena, mas da liberdade e autêntica autonomia, entendida não como domínio técnico sobre a natureza, mas como domínio moral do homem sobre si mesmo.

10. Kant acredita ter convertido o problema da teodiceia de problema metafísico em problema puramente ético, resolvendo-o criticamente por essa transformação, embora nem todas as dúvidas sobre o valor da cultura se dissipem, surgindo novo e mais profundo conflito ao se precisar a nova meta atribuída à cultura.

11. Questiona-se se o homem pode realmente alcançar essa meta, se pode a cultura fazê-lo reconhecer sua verdadeira natureza inteligível e desenvolver plenamente suas capacidades espirituais, o que ocorreria se pudesse saltar as fronteiras da individualidade e projetar seu eu sobre a totalidade da humanidade.

12. Ao tentar precisamente isso, o homem sente com mais força as barreiras que se lhe opõem, ameaçando tal aspecto coagir em vez de estimular a espontaneidade e autonomia pura do eu, tendo Georg Simmel, em ensaio sobre o conceito e a tragédia da cultura, formulado esse problema com precisão, duvidando porém de sua solução, cabendo à filosofia apenas assinalar o conflito.

13. A reflexão revela a estrutura dialética da consciência da cultura: os progressos culturais depositam continuamente novos dons no regaço da humanidade, mas o indivíduo vê-se cada vez mais excluído de seu desfrute, questionando-se para que serve riqueza que o eu jamais consegue transformar em acervo vivo, antes entorpecendo-o do que libertando-o.

14. Tais reflexões expõem o pessimismo cultural em sua forma mais aguda, identificando-se defeito do qual nenhum desenvolvimento espiritual pode libertar-nos, pois inerente à essência mesma desse desenvolvimento: os bens criados crescem incessantemente em número, mas esse próprio crescimento os torna inúteis ao indivíduo, tornando-se algo objetivo que o eu não consegue mais abarcar, extraindo da cultura não a consciência de seu poder, mas a certeza de sua impotência espiritual.

15. A verdadeira razão dessa tragédia da cultura reside, segundo Simmel, no fato de que a aparente interiorização prometida pela cultura acarreta sempre espécie de autoalienação, existindo entre alma e mundo conflito constante que ameaça tornar-se relação antitética, não podendo o homem conquistar o mundo espiritual sem infligir dano à própria alma.

16. Consistindo a vida espiritual em progresso constante e a vida anímica em recuo cada vez mais profundo sobre si mesma, os caminhos do espírito objetivo jamais coincidem com os da vida subjetiva, tornando-se para a alma individual tudo o que não pode preenchê-la com ela mesma áspera crosta cada vez mais espessa.

17. Segundo Simmel, à vida vibrátil e incansável da alma criadora opõe-se seu produto fixo e idealmente inconmovível, com efeito retroativo de estancar e fossilizar aquela vivacidade, surgindo desde que o homem se converteu em objeto para si mesmo o ideal de que os conteúdos ligados a esse centro formem unidade harmônica e fechada, embora tais conteúdos provenham de fora e pertençam simultaneamente a outros mundos com formas e conexões próprias, constituindo essa fricção a própria tragédia da cultura, entendida como destino trágico cujas forças destruidoras emergem das camadas mais profundas do próprio ser.

18. O mal de que padece toda cultura humana aparece nesse quadro com tintas ainda mais sombrias que na pintura de Rousseau, fechando-se aqui até o único caminho de repliegue que este buscava, pois Simmel reconhece que a roda da história nunca gira para trás, observando antes que a tensão entre os dois polos igualmente necessários se agudiza continuamente, entregando o homem a funesto dualismo irremediável e tanto mais sensível quanto mais rico se torna o processo vital e mais se amplia o círculo de conteúdos sobre o qual se projeta.

19. Simmel parece falar a linguagem do cético, mas fala na verdade a do místico, cujo anelo secreto é imergir na essência do eu para nela descobrir a essência de Deus, considerando tudo o que se interpõe entre o eu e Deus como tabique de separação, valendo isso tanto para o mundo espiritual quanto para o físico, pois a existência do espírito não é senão autoalienação que cria incessantemente novos nomes e imagens sem perceber que com isso se afasta cada vez mais do divino.

20. A mística deve necessariamente negar todos os mundos figurados da cultura, libertando-se do nome e da imagem, exigindo a renúncia a todos os símbolos, não por esperança de conhecer por esse caminho a essência do divino, pois sabe que todo conhecimento apenas gira no círculo dos símbolos, mas por aspirar a que o eu se funda em unidade com o divino, sendo toda pluralidade, seja de coisas, imagens ou signos, um engano.

21. Ao expressar-se assim, renunciando aparentemente a toda substancialidade do eu individual, a mística acaba por reter e corroborar precisamente essa substancialidade, considerando o eu como algo determinado em si que deve afirmar-se nessa determinabilidade, e não perder-se no mundo.