O FENÔMENO INFORMÁTICO (MIROIR)

1. A informática nasceu no pós-guerra na confluência de diversas tradições científicas e técnicas.

2. A realização do E.N.I.A.C. em 1946, a partir de ideias de von Neumann e a pedido do exército americano, faz coincidir a realidade com o velho sonho do homem artificial, levando os informatas a colocar de imediato, como testemunha o célebre artigo de Turing, a questão da máquina que pensa, joga xadrez e talvez sinta emoções — debate ainda não encerrado que impede opor definitivamente o que funciona hoje às posições filosóficas sobre a inteligência artificial.

3. Filosofar significa abandonar, ao menos temporariamente, o domínio das coisas pelo domínio das palavras, empreendimento que se insere aqui num projeto de compreender a ascensão da informática tanto como técnica a serviço da atividade humana quanto como disciplina que aspira ao estatuto de ciência, sendo a reflexão filosófica sobre a inteligência artificial não uma utilidade mas uma urgência vital.

4. A amplitude da informática manifesta-se em todos os setores da atividade humana — trabalho, lazer, comunicações e conhecimento —, realizando de certo modo as previsões kantianas sobre novos métodos capazes de condensar o saber anterior e tornar supérfluos inúmeros livros, o que hoje se traduz nos bancos de conhecimento acessíveis a qualquer um por meio de um computador conectado à rede.

5. As consequências da informatização aceleram a vida dos homens, gerando instabilidade profissional, despersonalização e uma condensação da existência em fichários — cada cidadão figurando, em média, em sete deles —, de modo que atos antes rituais, como nascimento, casamento ou morte, tornam-se manipulações informáticas que exigem legislação protetora das liberdades individuais.

6. Diante da impossibilidade de ignorar o fenômeno informático, recusa-se a leitura heideggeriana que veria nele apenas mais um episódio do esquecimento do Ser, afirmando-se ao contrário que a técnica faz parte constitutiva da condição humana, ainda que reclame esclarecimento ontológico, crítica ética e controle político.

7. A justificativa da reflexão filosófica sobre a informática não se esgota na evidenciação de seus vínculos interdisciplinares com a lógica, a matemática, a física e a biologia, embora esse trabalho epistemológico permaneça necessário e constante ao longo da investigação.

8. O que efetivamente conduz esta investigação não é a amplitude do fenômeno informático nem seu estatuto ambíguo entre ciência e técnica, mas a imagem do homem que a informática e a inteligência artificial devolvem, capaz de revelar alguns de seus segredos, conforme reconhece o próprio P.H. Winston ao situar os princípios da inteligência humana no estudo da inteligência artificial e ao destacar o papel das metáforas nas linguagens de programação.

9. As metáforas e analogias evocadas por Winston remetem ao fenômeno do reflexo, situando de saída a reflexão num universo da imagem em que a filosofia, diferentemente da ciência, decifra não as coisas mas a relação do homem com as coisas, sendo por meio das diferenças — nem tão grandes que impeçam o reconhecimento, nem tão pequenas que gerem confusão — entre o homem e seu duplo técnico que passa todo conhecimento de si mesmo, já que o homem se conhece ao se reconhecer em suas obras.

10. A técnica devolve a imagem do funcionamento interno do homem, exteriorizando as engrenagens ocultas, ao passo que a arte devolve a superfície das coisas transfigurando-as, distinção que não opõe arte e técnica mas exige interpretações de natureza diferente, a informática convidando assim a um desvelamento do espírito que reclama interpretação filosófica.

11. Este trabalho inscreve-se no quadro de uma filosofia da analogia, método que remonta a Aristóteles, Descartes e Freud e que, apesar de desacreditado pela tradição mecanicista e positivista, pretende aqui ser retomado para mostrar como uma filosofia da informática pode renovar seu interesse.