ELLUL, Jacques. Le bluff technologique. Paris: Hachette, 1988.
I. Os múltiplos progressos
1. A última década testemunhou uma verdadeira explosão técnica, redutível a cinco grandes conjuntos de progressos inéditos, confirmando a progressão geométrica das inovações, embora se revelasse equivocada a antiga previsão de estagnação em certos domínios.
2. A informática, que dez anos antes parecia o domínio técnico central e suficiente para caracterizar a nova sociedade, passou a concorrer em importância com a engenharia genética, o laser e o espaço, tornando impossível a um analista abarcar sozinho o conjunto dessas mutações.
3. O critério clássico de periodização do desenvolvimento industrial pela evolução das fontes de energia, da força animal ao carvão, ao petróleo e à fissão atômica, perdeu validade com a ascensão do computador como novidade dominante a partir dos anos sessenta.
4. O desenvolvimento do minicomputador e da microinformática inverteu a lógica anterior de progresso, que privilegiava o gigantismo e a produção de bens materiais, substituindo-a pela miniaturização, pela complexificação dos sistemas e pela economia de energia.
5. A substituição progressiva da força física humana pelas máquinas, que caracterizava a era industrial, cede agora lugar à invasão de um novo domínio das atividades humanas pela informática, levantando a questão ainda em aberto de uma eventual exclusão do homem pela concorrência técnica.
6. A teoria marxista do crescimento inelutável do proletariado, fundada sobre a exigência crescente de mão de obra industrial, é desmentida pela automatização e pela informatização, que reduzem a necessidade de trabalho material em favor do investimento em capital.
7. A expansão da informática, da burocracia eletrônica e da telemática invadiu justamente o setor de serviços, provocando demissões maciças de pessoal administrativo, sobretudo em bancos e seguradoras, agravadas pela crise econômica de 1973.
8. Apesar da controvérsia estatística sobre a responsabilidade do computador no desemprego, a conclusão final é que ele constitui de fato um dos grandes responsáveis por esse fenômeno, o que questiona inclusive a política francesa de ensino generalizado de informática nas escolas.
9. O caráter dominante atribuído à informática foi rapidamente disputado por outro domínio, o espaço, cujas técnicas, embora menos presentes no cotidiano do que a microinformática, ocupam lugar central na realidade política, militar e econômica.
10. O laser, praticamente desconhecido havia poucos anos, tornou-se onipresente em domínios como a cirurgia, a indústria pesada e a preparação militar, revelando que a sociedade contemporânea é definida por quatro fatores dominantes e coerentes entre si, sem que isso represente, no plano da análise fundamental, qualquer alteração do sistema técnico em si mesmo.
II. O discurso social
11. A situação contemporânea encontra-se inteiramente qualificada pela trilogia Desafios, Apostas, Jogos, presente indistintamente em todos os discursos sociais, midiáticos e políticos, revelando um inconsciente coletivo que interpreta a situação atual segundo essa grade.
12. A Aposta afirma a tomada de riscos e a audácia; o Desafio manifesta a coragem de enfrentar um mundo perturbado recusando a possibilidade do erro; o Jogo, por sua vez, introduz um elemento de ambiguidade que relativiza a seriedade última das situações.
13. Por mais séria que seja a situação, ela permanece um jogo cuja dimensão essencial reside naquilo que se arrisca nele, tornando decisivo conhecer não as regras, mas a aposta feita, ainda que raramente se saiba com precisão o que efetivamente está em jogo.
14. Sob a aparência política ou econômica dos Desafios, Desafios e Apostas, a técnica revela-se o fator decisivo em última instância, remetendo constantemente a nossa incapacidade de assimilar tranquilamente inovações como a informática, que transforma nosso modo de pensar e de gerir.
15. Diferentemente da possibilidade de recusar o automóvel em favor da carruagem, a informática impõe-se necessariamente com todo o sistema de redes que a acompanha, exigindo adaptação obrigatória das organizações sob pena de desordem ou perda dos benefícios, o mesmo valendo para a engenharia genética, que desafia ainda nossos conceitos morais e humanistas.
16. Todos os desafios socialmente qualificados como tais decorrem direta ou indiretamente da técnica, sendo notável que, enquanto se sabe como formar o homem para a informática, a formação moral diante da engenharia genética permanece indefinida.
17. O ambiente social e natural, o próprio laço social, a informação e a desinformação, a incapacidade das estruturas políticas de compreender a mutação técnica e a fronteira entre o decidível e o indecidível constituem desafios fundamentais, aos quais se somam as relações Norte-Sul num mundo simultaneamente unificado e fragmentado.
18. A resolução dos desafios não depende de justiça ou sentimento, mas de técnica, remetendo às apostas feitas sobre o controle da técnica, seja por via de uma política voluntarista, seja pela democratização social, seja ainda pela crença numa tendência técnica intrínseca à descentralização e à auto-organização.
19. A aposta na auto-organização produzida pela própria técnica difere fundamentalmente da hipótese anterior de uma conjunção entre microtécnicas e socialismo libertário, sendo ambas apostas contraditórias entre si.
20. Aposta-se ainda que o crescimento técnico seja a única via de superação da crise econômica e que seja possível constituir uma verdadeira cultura técnica capaz de subordinar novamente a técnica à cultura.
21. A educação escolar aposta na viabilidade dessa cultura técnica, ao passo que se aposta paralelamente numa nova ordem econômica mundial equilibrada, na decolagem técnica do terceiro mundo, na previsibilidade dos efeitos das técnicas e na possibilidade de forjar um homem novo apto a essas exigências.
22. A proliferação do discurso técnico revela que a técnica constitui simultaneamente o Desafio lançado ao homem, o Desafio das batalhas políticas e econômicas, e a Aposta sobre o futuro, confirmando que a sociedade atual é inteiramente construída por e para a técnica.
23. Constata-se uma notável incoerência entre as Apostas feitas e a avaliação dos Desafios em função dos Desafios, revelando um discurso aparentemente rigoroso mas fundamentalmente inadequado entre seus próprios termos.
24. O verdadeiro progresso reside na tardia tomada de consciência de que tudo depende da técnica e não mais da economia, ainda que as respostas permaneçam balbuciantes diante de uma realidade que já ultrapassa em muito aquilo que se julga controlar.
25. As inovações amplamente divulgadas representam apenas o resultado final de milhares de pequenos aperfeiçoamentos cumulativos, dificultando a qualificação precisa da sociedade contemporânea, à qual se propõe provisoriamente o nome de sociedade de Progresso.
26. A crença evidente numa progressão contínua da economia ao desenvolvimento social convive com a constituição de um neomecanicismo apoiado numa panóplia de ciências da organização e da comunicação, evidenciando a atração generalizada dos cientistas pelo domínio social.
27. Ao lado das quatro grandes áreas de inovação, desenvolve-se um vasto campo de técnicas de segundo grau voltadas ao estudo dos efeitos das próprias técnicas, ainda que a mensuração precisa dessa mudança permaneça fragmentária e incerta, seja quantitativa seja subjetivamente considerada.
28. O progresso mostra-se incomensurável e insuscetível de comparação, subsistindo uma mudança fabulosa ao nível das técnicas particulares sem que se altere, em profundidade, o sistema técnico global, tal como a diferença entre o TGV e uma composição local não altera a estrutura ferroviária subjacente.
29. Existe efetivamente um choque informático, na medida em que a informatização questiona todos os métodos de produção, transforma os costumes e o pensamento, e se processa com rapidez tal que impede qualquer habituação duradoura.
30. É possível falar de uma terceira revolução industrial, ou preferencialmente econômica, sem que isso implique qualquer mutação da técnica em si, pois todas as novidades se inscrevem plenamente na linha de desenvolvimento já identificada no Fenômeno Técnico, confirmada aliás por previsões formuladas décadas antes, como a ascensão técnica da China e da URSS.
III. A grande inovação
31. As inúmeras inovações não alteram em nada o sistema técnico anterior, subsistindo o problema clássico da desadaptação do homem à máquina, apesar dos avanços da ergonomia, com consequências ora fisiológicas ora psíquicas.
32. A contradição entre homem e máquina, outrora ilustrada por Chaplin, deslocou-se para o domínio nervoso, gerando novas formas de perturbação sem jamais questionar o próprio progresso técnico, situando-se igualmente no plano da oposição entre Sociedade e Sistema Técnico.
33. A distinção entre Sociedade Técnica e Sistema Técnico é fundamental, pois o sistema aloja-se na sociedade sem esgotá-la, subsistindo ideologias, mitos e imaginário social que resistem à técnica, cujas próprias disfunções resultam justamente dessa inadaptação social.
34. O homem e a sociedade enraízam-se no passado, enquanto a técnica projeta-se constantemente no presente e no futuro, apagando seu próprio passado, o que fundamenta o conflito radical entre Homem e Sociedade, de um lado, e Sistema Técnico, de outro.
35. Esse conflito, central por volta de 1970, buscava resposta seja pela negação do problema, seja pelo recurso à Utopia, social ou centrada no homem, ilustrada literariamente por obras que projetavam saltos sobre um período intermediário indeterminado.
36. Autores sérios também recorreram à utopia ao formular previsões de longo prazo que resolviam todos os problemas, chegando-se mesmo a cogitar intervenções diretas sobre o homem, como a implantação de eletrodos cerebrais, para forjar comportamentos plenamente adaptados ao universo técnico.
37. Nos últimos anos produziu-se a Grande Inovação, infinitamente mais decisiva que as descobertas tecnológicas anteriores: abandonou-se a busca de resolução direta dos conflitos, renunciando-se a adaptar por coação a economia, a política ou o próprio homem ao universo técnico.
38. Sem que ninguém tenha conscientemente planejado tal estratégia, a proliferação técnica mediatizada pelas comunicações e pelas imagens acabou por transbordar e envolver progressivamente todos os pontos de resistência, sem provocar reação hostil, pois a proposta técnica ultrapassa a capacidade de compreensão e resistência humanas.
39. Esse envolvimento pela evidência só é possível graças ao desenvolvimento das técnicas modernas, que, por serem mais potentes, tornam-se paradoxalmente mais próximas e pessoais, constituindo a verdadeira inovação técnica, mais importante que o laser ou as sondas interplanetárias.
40. A mutação processa-se pela banalidade cotidiana, que tranquiliza justamente por não apresentar a imagem de um mutante artificial, residindo aí o gênio técnico de neutralizar o conflito sem eliminá-lo.
41. Esse envolvimento apoia-se em bases profundas, como a mudança da racionalidade e a supressão do julgamento moral, efetuando-se tanto por ação deliberada de teóricos e políticos quanto por movimento espontâneo dos indivíduos, entre os quais se destaca a figura do homem fascinado pelo caleidoscópio técnico.
42. Explorar-se-á a distância entre a realidade efetivamente alcançada pelas técnicas e o discurso sedutor que as envolve, constituindo o blefe tecnológico, reconhecendo-se nessa integração progressiva do homem ao universo técnico a maior inovação de nosso tempo, ainda incompleta mas em contínua expansão.
Anexo
43. O título promissor de “O Homem, Nossa Última Chance” revela-se enganoso, tratando-se na verdade de uma obra populacionista destinada a provar que o crescimento demográfico ilimitado constitui um bem absoluto, cuja análise se concentrará nos dezoito capítulos que precedem a defesa explícita de valores do autor.
44. O discurso tecnológico médio será examinado nesse extremo, notando-se de saída que o autor, apesar de reivindicar rigor científico contra seus adversários, acumula estatísticas sem que estas compensem hipóteses e raciocínios falsos.
45. As teses do autor, um liberal econômico de tipo absoluto, negam qualquer limite aos recursos alimentares, às terras cultiváveis, às reservas naturais e energéticas, à poluição e ao crescimento demográfico.
46. Dois fundamentos sustentam esse raciocínio: a desqualificação sistemática dos especialistas em favor do único critério econômico do preço de mercado, e a demonstração de que a própria noção de limite seria logicamente inconsistente.
47. O exemplo do petróleo ilustra a recusa do conceito de limite, somando-se sucessivamente os xistos betuminosos, a transformação do carvão e de óleos vegetais em petróleo, a energia nuclear inesgotável e, em último caso, recursos energéticos de outros planetas.
48. Todo o discurso otimista assenta-se na crença absoluta num progresso técnico ilimitado, exemplificada pela extrapolação da queda histórica do preço do cobre para concluir, sem mais, pela inesgotabilidade de suas reservas.
49. O mesmo método de extrapolação linear das curvas de preço aplica-se aos recursos alimentares, com referências seletivas e enviesadas, como a escolha de Londres em 1880 como único parâmetro de poluição histórica.
50. A ausência de crença em limites estende-se à proposta de duplicar a produção agrícola mediante espelhos orbitais e à exploração mineral lunar e espacial anunciada para datas próximas, evidenciando um otimismo tecnológico sem reservas.
51. O raciocínio culmina na defesa de que o aumento populacional multiplicaria proporcionalmente o número de inventores e cientistas, pressupondo que toda descoberta técnica, incluindo armamentos destrutivos, seria necessariamente positiva, o que torna essa obra exemplar de um discurso tecnólatra que se pretende científico.
IV. Os aristocratas
52. A certeza ocidental de viver em regime democrático convive com duas interpretações mais modernas e relevantes: a valorização do saber pessoal em detrimento da herança, tanto no topo das empresas quanto no mundo operário, que exige cada vez mais competência teórica.
53. Ao lado da Meritocracia, delineia-se uma Tecnocracia, reconhecendo-se hoje a existência crescente de tecnocratas que, sem ocupar diretamente o poder político, tornam-se indispensáveis a toda decisão, na medida em que a técnica penetra integralmente na ação do Estado.
54. Esses técnicos passam a falar não mais como técnicos que oferecem respostas, mas como tecnocratas que impõem soluções únicas, traçando ainda, a partir de sua competência, um quadro geral da sociedade futura.
55. A comparação entre autores de antecipação não técnicos e obras produzidas por tecnocratas revela nestes últimos um tom imperativo, constituindo eles, egressos das grandes escolas, uma nova classe dirigente equiparável a uma aristocracia, os Aristoi de nosso tempo.
56. Os atuais Aristoi definem-se pela maior competência técnica, desinteressando-se da direção política propriamente dita e anunciando o definhamento do Estado, substituído por uma camada social fundada no saber.
57. Esses aristocratas exercem as técnicas mais sofisticadas e promovem seu desenvolvimento, encarnando efetivamente a fórmula segundo a qual o Saber é Poder, pois quem detém o saber técnico detém o poder, mesmo sobre os próprios governantes.
58. O direito é considerado por eles obsoleto e paralisante diante dos imperativos técnicos, e suas práticas exclusivas, reservadas aos especialistas, distinguem-nos claramente do restante da população.
59. A exclusividade das práticas técnicas e o monopólio de seu exercício reproduzem um traço característico de toda aristocracia histórica.
60. O saber, as práticas e a linguagem hermética, agora também digitalizada, separam os técnicos dos demais, ao passo que sua capacidade se estende à totalidade das funções indispensáveis ao grupo, tornando deles dependente tudo o que constitui Poder.
61. Contrariamente à visão simplista de que tudo dependeria do capital, comprova-se pela multiplicação das tecnópolis e pela possibilidade de criação de grandes empresas a partir de pouco capital que o verdadeiro elemento catalisador tornou-se a competência técnica.
62. A Tecnópole, invenção norte-americana cujo modelo é a Silicon Valley, articula pesquisa científica, indústria e universidade num vínculo orgânico, transformando o ensino em mero fornecedor de técnicos.
63. A tecnópole tende a tornar-se centro de impulso para toda a sociedade e economia, expressando-se na passagem semântica de Tecnópolis a Tecnopolo, situado deliberadamente fora das cidades e excluindo tudo o que não seja diretamente útil.
64. A constituição de um polo técnico atrai capitais de risco e gera um processo de instalação sucessiva de pesquisadores, indústrias, estudantes e financiadores, embora a multiplicação excessiva desses centros e a crise do mercado de computadores levantem dúvidas sobre sua sustentabilidade e sobre a real equidade social que reproduzem.
65. A Tecnópole revela ampliada a realidade de toda a sociedade, na qual todos os poderes passam pelo canal de um grupo restrito de tecnocratas situados nos nós essenciais de toda comunicação e eficácia.
66. O desprezo total pelo que lhes é estranho e a ignorância extrema sobre outros domínios constituem traço recíproco dessa aristocracia, evidente nas respostas simplistas dadas a questões de democracia, ecologia ou terceiro mundo.
67. A afirmação recorrente de que qualquer pessoa poderia consultar bancos de dados ignora a realidade concreta da maioria da população, revelando desprezo e indiferença moral quanto aos usos destrutivos ou degradantes das técnicas que desenvolvem.
68. Esse mesmo desprezo e ignorância constituem fonte de fragilidade, pois as descrições confiantes do mundo futuro ignoram sistematicamente os armamentos, o impasse do terceiro mundo e os problemas suscitados pelas próprias técnicas.
69. Compensando essa cegueira, constitui-se uma ideologia específica fundada na ciência aplicada e na indispensabilidade inelutável do progresso técnico, único caminho capaz de realizar liberdade, democracia, justiça e felicidade.
70. Essa ideologia difunde-se por toda a sociedade, através da mídia, dos partidos políticos e do senso comum, servindo de justificação profissional que liga o meio técnico ao conjunto social, constituindo o discurso ideológico dominante sobre a técnica.
71. A solidariedade entre tecnocratas manifesta-se na proteção mútua diante de erros e na recusa de qualquer crítica externa, produzindo um fenômeno social coeso comparável a grupos sociais anteriores.
72. Essa aristocracia não constitui classe social no sentido marxista nem hereditariedade estrita de poder, embora exista uma transmissão indireta de posição entre gerações, aproximando-a sem se confundir com a Nomenklatura, da qual difere pela existência de diplomas, concursos e seminários de adaptação próprios da Meritocracia.
73. A noção de tecnostrutura de Galbraith aproxima-se dessa realidade, mas revela-se demasiado restrita diante da abrangência dos tecnocratas em todas as esferas sociais, econômicas e políticas, justificando a designação mais ampla de Aristocracia, distinta porém da antiga aristocracia francesa do século XVIII.