Blefe tecnológico

ELLUL, Jacques. Le bluff technologique. Paris: Hachette, 1988.

Este livro se chama “O Blefe Tecnológico”. Esse título certamente provocará reações contundentes na maioria das pessoas. Se há um campo em que nenhum blefe é permitido, é justamente o da tecnologia! As coisas são claras aqui: ou se consegue, ou não se consegue. Quando se diz que vamos pisar na Lua, de fato, pouco tempo depois, pisamos na Lua. Quando se diz que a implantação de um coração artificial é possível, faz-se isso e constata-se que funciona! Onde está o blefe? Mas trata-se aqui apenas de um equívoco de interpretação. Preciso retomar meu protesto em relação à palavra “tecnologia”, que o uso abusivo incute em nossas mentes, imitando servilmente o uso americano, que carece de fundamento. A palavra tecnologia, seja qual for o uso moderno que a mídia lhe dá, significa: discurso sobre a técnica. Realizar um estudo sobre uma técnica, fazer filosofia da técnica ou sociologia da técnica, ministrar um ensino de caráter técnico — eis o que é a tecnologia (o dicionário Robert, de fato, define “tecnologia: estudo das técnicas”). Mas isso não tem nada a ver com o uso de uma técnica; falar de “tecnologias da informação” para designar os usos das técnicas da informação ou de “tecnologias espaciais” para designar a fabricação e o uso de foguetes, estações orbitais etc., é uma imbecilidade. Sei que meu protesto é em vão diante do uso estabelecido por uma falta de reflexão generalizada, uma ignorância coletiva, mas faço questão de justificar meu título! Não digo: “Blefe técnico”. Não pretendo demonstrar que as técnicas não cumprem o que prometem, nem que os técnicos são blefadores. Isso não tem nada a ver. Digo: “Blefe tecnológico”. Ou seja, o gigantesco blefe em que estamos presos, um discurso sobre as técnicas que não para de nos fazer confundir bexigas com lanternas e, o que é mais grave, de alterar nosso comportamento em relação às técnicas. Blefe dos políticos, blefe da mídia (toda), blefe dos técnicos (quando, em vez de trabalharem em suas técnicas, ficam fazendo discursos), blefe da publicidade, blefe dos modelos econômicos…

Essa descoberta do blefe me conduzia a domínios estranhos. O blefe consistia essencialmente em reordenar tudo, de forma exemplar e proclamada, em função do progresso técnico, que, em sua prodigiosa diversificação, oferecia ao homem, em todas as direções, possibilidades tão variadas que ele não podia sequer pensar em mais nada. O discurso sobre a técnica não era um discurso de justificativa das técnicas (elas já não precisam disso), mas de demonstração do prodigioso poder, da diversidade, do sucesso, da aplicação verdadeiramente universal e da impecabilidade das técnicas. E quando digo “blefe”, é porque agora se atribui às técnicas centenas de sucessos e feitos (cujos custos, utilidade e perigos nunca são questionados) e porque a técnica nos é apresentada, doravante, expressamente tanto como a única solução para todos os nossos problemas coletivos (desemprego, miséria do Terceiro Mundo, crise, poluição, ameaça de guerra) ou individuais (saúde, vida familiar e até mesmo o sentido da vida), e ao mesmo tempo como a única possibilidade de progresso e desenvolvimento para todas as sociedades. E trata-se, de fato, de um blefe, porque nesse discurso multiplicam-se por cem as possibilidades efetivas das tecnologias e ocultam-se radicalmente os aspectos negativos. Mas esse blefe já produz efeitos consideráveis. Esse blefe transforma, por exemplo, a tecnologia de razão última implícita e não confessada em uma razão última explícita e confessada. Ao mesmo tempo, leva o homem a viver em um universo de diversão e ilusão, que se situava bem além do que era chamado de sociedade do espetáculo, na qual nos encontrávamos há apenas dez anos. E, por fim, produz uma espécie de arrastamento do homem para esse universo, fazendo com que todas as suas antigas reservas e medos cessem.

Resumo da Apresentação

1. A elaboração de “A Técnica ou o Desafio do Século” remonta a 1950, quando o manuscrito enfrentou resistência editorial por versar sobre um tema então considerado sem interesse, sendo publicado somente três anos depois graças à intervenção de M. Duverger.

2. As obras contemporâneas sobre a técnica distribuem-se em três categorias distintas.

3. O presente livro não repete os anteriores, ainda que parta de suas conclusões, permanecendo válidas as análises de trinta anos atrás sem necessidade de correção.

4. Um exemplo recente do equívoco de rotulação encontra-se no livro de Bressand e Distler, que atribuem incorretamente uma suposta revisão de posição quanto à ambivalência da técnica.

5. A obra anterior visava alertar o Ocidente sobre o potencial da Técnica, de modo a possibilitar sua dominação consciente, mas o aviso não foi ouvido na França, sendo a obra arquivada como estudo intelectual periférico.

6. A gênese deste livro envolveu um projeto inicial sobre o impacto da informática na sociedade, iniciado em 1978 e abandonado por conta da rapidez das transformações do setor, que tornava obsoleto o que já havia sido redigido.

7. Um segundo projeto, voltado à recepção da técnica na sociedade contemporânea, previa três partes sob os títulos Desafios, Apostas e Jogos, mas foi comprometido pela publicação de obras de Chesneaux e da Encyclopedia Universalis que já cobriam boa parte do conteúdo planejado.

8. Três obras filosóficas recentes, de Janicaud, Hottois e Neirynck, reorientaram a pesquisa para outro domínio ao demonstrarem a existência de uma corrente de pensamento capaz de compreender a técnica sem cair em pessimismo.

9. O título “O Blefe Tecnológico” exige esclarecimento quanto ao termo tecnologia, cujo uso corrente e importado do inglês distorce seu sentido original de discurso sobre a técnica.

10. O blefe consiste no discurso que reordena todas as coisas em função do progresso técnico, atribuindo às técnicas centenas de êxitos sem considerar custos, utilidade ou perigos, apresentando-a como solução única para problemas coletivos e individuais.