FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.
1. A teoria heideggeriana da revelação sugere um caminho de retorno ao conceito de essência, sem contudo especificar qualquer conteúdo a esse conceito, pois a antiga noção de essência repousa sobre uma ontologia ultrapassada com implicações socialmente conformistas.
2. Marcuse aceita a visão moderna segundo a qual essências não podem fundar-se em tradição ou padrões comunitários, nem ser derivadas especulativamente numa metafísica a priori, mas observa que o pensamento unidimensional leva esse ceticismo moderno ao extremo de rejeitar totalmente a ideia de essência, permanecendo no nível puramente empírico.
3. O núcleo do problema permanece sendo o conceito de essência, recusando Marcuse, tal como Heidegger, qualquer retorno à metafísica grega, mas negando-se, diferentemente deste, a reduzir todo pensamento essencial à contemplação do processo de revelação, buscando antes reconstruir historicamente o conceito de essência através de encontros surpreendentes com Hegel, Freud e as vanguardas artísticas do início do século vinte.
4. A filosofia antiga unia logos e eros, abstração teórica e aspiração ao bem, mas carecia de autoconsciência histórica, correspondendo a natureza fixa de suas essências a essa incapacidade de conceber o devir como determinação ontológica fundamental.
5. Tal concepção ahistórica de essência tornou-se hoje inaceitável, sabendo-se que os seres humanos fazem a si mesmos e a seu mundo ao longo da história, de modo que, para revivê-la, seria necessário conceituá-la historicamente, tendo Marcuse reconstruído tanto o logos quanto o eros como categorias históricas.
6. O historicismo marcuseano enraíza-se no materialismo da tradição marxista, oferecendo a dialética, como lógica das interconexões reveladas na luta histórica, alternativa tanto ao dogmatismo antigo quanto ao positivismo moderno, derivando o conteúdo de universais como liberdade e justiça das tensões da realidade, e não de noções especulativas preconcebidas ou consensos sociais acriticamente aceitos.
7. A dialética hegeliana constitui na verdade uma tentativa de realizar essa mesma reconstrução da essência exigida por Marcuse, dissolvendo a Lógica de Hegel a distinção tradicional entre essência e aparência na dinâmica de sua relação, não possuindo as coisas essências fixas separadas de suas manifestações, mas pertencendo antes a um campo de interações que estabelece sua coerência interna.
8. Essa questão costuma ser respondida, no caso de Hegel, pela referência ao absoluto como fim último, interpretação teológica de nenhuma utilidade para Marcuse, que em seus primeiros escritos rejeitou essa leitura e voltou-se ao conceito hegeliano de vida para construir uma ontologia radicalmente voltada ao futuro, devedora tanto a Heidegger quanto a Hegel.
9. Ser e Tempo descreve o Dasein como fundamentalmente engajado na questão de seu próprio ser, questão que não pode ser respondida por fatos objetivos ou noções metafísicas de natureza humana, mas apenas resolvida através de escolhas e ações no mundo, substituindo essa análise existencial tempo e movimento pelas essências atemporais que assombravam a especulação filosófica desde Platão.
10. Essa analítica do Dasein influencia a interpretação marcuseana da filosofia hegeliana da vida, obscurecida na Lógica pela ênfase no absoluto, sendo a vida, nas obras iniciais de Hegel, processo de movimento que nega e acomoda um ambiente, buscando preservar e desenvolver-se a si mesma sem confinar-se a um fim predeterminado, inventando antes seu futuro à medida que avança.
11. Ao integrar-se à Escola de Frankfurt, esse hegelianismo originalmente heideggeriano de Marcuse recobre-se de uma concepção messiânica do futuro derivada em última instância de Walter Benjamin, tornando-se o futuro não simples criação humana, mas possibilidade redentora que interrompe a continuidade da história.
12. Toda essa construção determina a forma da crítica tecnológica tardia de Marcuse, que não se mostra hostil nem indiferente à tecnologia moderna, mas exige sua reconstrução radical, observando que certas qualidades perdidas do trabalho artesanal poderiam reaparecer sobre a nova base tecnológica de uma sociedade libertada.
13. O pensamento marcuseano sobre essa nova techné atravessa duas fases: numa primeira, até o final dos anos sessenta, interpreta-se a essência através de um conceito hegeliano-marxista de potencialidade, dinâmica de forças através da qual o potencial humano se realiza, antecipado nas construções imaginativas da arte e da filosofia.
14. Numa segunda fase, sob influência da Nova Esquerda, Marcuse identifica uma nova sensibilidade que se engaja esteticamente com o mundo, aparecendo agora como potencialidade na própria sensação, emergindo os critérios para a reforma tecnológica da própria experiência, encontrando-se novamente os valores no mundo em vez de impostos arbitrariamente contra os limites humanos e naturais.