FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.
Capítulo 4
Interlúdio com Lukács. Totalidade e Revolução
O Conceito de Totalidade
1. É momento de ampliar o contexto contemporâneo das incursões de Heidegger e Marcuse na história da filosofia, focalizando-se aqui a figura de Georg Lukács, cuja influência sobre Marcuse é inquestionável e que pode também ter impactado Heidegger.
2. A primeira tese doutoral de Marcuse sobre o romance de artista já tomava emprestado o arcabouço teórico da Teoria do Romance de Lukács, reconhecendo Marcuse em ensaio de 1930 a importância inestimável de História e Consciência de Classe para o desenvolvimento do marxismo.
3. Lucien Goldmann argumentou que Ser e Tempo constituiria resposta a História e Consciência de Classe, tentando mostrar que o conceito heideggeriano de ser seria versão desmarxificada do conceito lukacsiano de totalidade, embora esse argumento não seja geralmente aceito.
4. Mais significativo que essas questões de influência é o fato facilmente verificável de que o conceito lukacsiano de totalidade encontra paralelos em Heidegger e Marcuse, marcando sua função principal em Lukács o lugar da unidade perdida entre self e mundo que a consciência moderna anseia recuperar.
O Ideal Grego
5. No relato heideggeriano, o produtivismo grego estrutura-se em torno de contrários, aparecendo estes em relação a todo aspecto da techné, não sendo porém antinomias modernas, implicando cada contrário seu oposto e nele encontrando repouso, engajados num desenvolvimento com télos pré-estabelecido.
6. Os gregos viviam num mundo em que tudo tinha seu lugar e alcançava o ideal ao esforçar-se por sua própria completude segundo tendências internas, mundo que já não existe, consistindo a modernidade na dissociação dos contrários em princípios opostos.
7. A harmonia subjacente que Heidegger identifica na techné grega permanece ontologicamente fundamental também para os tempos modernos, embora profundamente mascarada pela realidade cotidiana, evocando-a primeiro através da noção de ser-no-mundo e depois através da ideia do quadrifácio.
8. Esse apelo a uma harmonia renovada entre ser humano e ser representa retorno aos gregos, um novo começo, explicando isso o interesse heideggeriano pelo problema da techné com o qual os gregos pela primeira vez pensaram a revelação.
9. Além desses clichês gerais, a apropriação heideggeriana da Grécia depende de tema específico encontrado em Schiller, Hegel e seu contemporâneo Lukács, propondo Schiller e Hegel teoria notável da cultura grega segundo a qual a arte grega, particularmente a poesia épica homérica, revelava mundo em que o sentido não estava em questão como o está para nós.
10. Os gregos estavam em casa no mundo enquanto somos desabrigados, possuindo eles totalidade de vida que abraçava sujeito e objeto, “é” e “deve” em tensão fecunda e resolúvel, estando nós condenados a vivê-los como antinomias, ferida não cicatrizada no coração do ser.
11. Tais ideias eram certamente familiares a qualquer leitor alemão dos clássicos na época de Heidegger, sendo curioso porém que ressurgissem em 1916 como filosofia contemporânea num livro que suscitou muito comentário e provavelmente era conhecido de Heidegger: A Teoria do Romance de Lukács.
12. Na epopeia homérica não há oposição fundamental entre dever e interesse, arte e realidade, indivíduo e comunidade, entre alma e mundo em que se encontra, sendo cada ato e objeto desse mundo, tal como é, artístico e ético em sua forma natural.
13. Essa noção de totalidade pode ou não ter influenciado diretamente Heidegger, sendo interessante contudo que a seguinte passagem de A Teoria do Romance soe notavelmente parecida com a interpretação heideggeriana da techné.
14. Lukács enfatiza a função do autodesenvolvimento e da completude, introduzindo a ideia de que a limitação não vem meramente de fora, mas é assumida pela própria coisa limitada, realizando a forma a tendência do conteúdo tal como na análise heideggeriana da tolerância.
15. Na filosofia alemã clássica, a idealização da Grécia antiga inspirou ideal moderno de totalidade a ser alcançado novamente através das mediações complexas da dialética e da cidadania, preservando essas mediações o avanço da modernidade, a descoberta do sujeito autônomo, ao mesmo tempo em que resolveriam as antinomias teórica e prática dela resultantes.
16. A trajetória de Lukács foi bastante diferente, passando rapidamente da posição nostálgica de A Teoria do Romance para reconciliação hegeliano-marxista dentro de modernidade transformada, vivendo e agindo o proletariado, em História e Consciência de Classe, em solidariedade como a comunidade épica.
Historicizando o Absoluto
17. Segundo o Lukács marxista inicial, o ser é essencialmente histórico, não podendo a história ser reduzida à natureza nem constituindo mera forma regional do ser, sendo ontologicamente fundamental na medida em que nosso mundo, tudo o que podemos conhecer e tocar, é histórico.
18. Apenas sob o capitalismo os trabalhadores são capazes de compreender o mundo social que criam através de seu trabalho, descobrindo assim que se objetivaram no mundo de modo alienado, o que Lukács descreve como reificação.
19. O pensamento reificado é o equivalente sociológico do empirismo objetivista e mecanicista criticado igualmente por Hegel e Heidegger, mascarando também em Lukács as aparências reificadas totalidade mais fundamental na qual sujeito e objeto estão unificados em vez de cindidos em antinomia eterna.
20. A ontologia fenomenológica heideggeriana também abstrai da natureza ao colocar a historicidade no centro de sua interpretação do ser, podendo assim reconciliar-se nesse aspecto com a versão lukacsiana do marxismo, diferindo porém a crítica lukacsiana da reificação por ter implicações políticas revolucionárias.
21. A revolução desaliena a história ao desreificar a sociedade capitalista e expor todos os processos sociais ocultos subjacentes à sua forma de coisa, retornando então a ação humana a si mesma não como poder alheio mas como autoexpressão.
22. Essa dialética lukacsiana permanece no pano de fundo da explicação marcuseana dos conceitos hegelianos de vida, trabalho e absoluto, sendo Lukács contudo a grande ausência estruturante do livro, tese acadêmica apresentada a faculdade bastante conservadora.
23. É difícil imaginar como essa discussão teria sido interpretada por um marxista formado em Lukács à época, sendo isso porém necessário para que faça sentido como expressão não apenas dos interesses acadêmicos de Marcuse mas também de suas intensas convicções políticas.
24. Lembremos que Marcuse explica o absoluto como vida autoconsciente, sendo o processo vital espécie de totalidade quase transcendental que põe organismo e ambiente, consciência e ser, alcançando, onde a consciência viva se conhece como momento da vida nesse sentido, seu mundo plena inteligibilidade na autoconsciência do sujeito.
25. Lukács distingue dois tipos fundamentalmente diferentes de prática, uma prática “contemplativa” característica da sociedade burguesa e uma prática transformadora que “penetra” seus objetos, sendo o modelo da prática contemplativa a relação entre o trabalhador e a máquina.
26. A prática contemplativa não é simplesmente passiva, mas técnica e manipuladora em caráter, modificando o mundo mas deixando essencialmente inalterados seus objetos, pressupondo a lei desses objetos que compreende e aplica segundo o princípio baconiano de que a natureza, para ser comandada, deve ser obedecida.
27. Esse realismo manifesta-se na noção de valores como ideais irremediavelmente separados dos fatos do mundo, elevando a concepção reificada sujeito-objeto da filosofia essa estrutura ao mais alto nível de abstração, abrindo Kant, ao demonstrar que o mundo da experiência é rigorosamente determinado por leis científicas, esse mundo ao progresso técnico ilimitado enquanto exclui em princípio qualquer papel para os valores.
28. A prática contemplativa separa teoria, na qual a lei é compreendida, de prática, na qual é aplicada, distinguindo-se isso tanto da techné, na qual o conhecimento do eidos guia a realização de potencialidades intrínsecas, quanto da visão que guia a atividade do Dasein em relação imediata com o equipamento de seu mundo.
29. Em contraste com a prática contemplativa, a prática transformadora ataca as próprias leis, apreendendo essa prática não técnica a essência de seus objetos e alterando-os em nível mais profundo, sendo a autoconsciência o modelo implícito desse tipo de prática.
30. Lukács jamais afirma que possamos dispensar a prática contemplativa e substituí-la em toda parte pela transformadora, sendo antes seu ponto que a sociedade é fundamentalmente modificada quando o proletariado alcança autoconsciência.
31. Quando compradores e vendedores agem no mercado, formam sujeito coletivo inconsciente de si mesmo, sendo sua prática determinada pela “lei” do mercado que cada um usa para avançar, mas que constitui ela própria o efeito combinado dessas mesmas tentativas de usá-la.
32. Como marxista, Lukács projeta tais resultados radicais apenas no caso do trabalho, “produzindo” os trabalhadores a sociedade através de seu trabalho e participação nas instituições capitalistas, nada podendo impedi-los, ao se reunirem, de transformar a sociedade que constituem inconscientemente enquanto trabalhadores.
33. A distinção lukacsiana entre natureza e história deve ser compreendida em relação a essa distinção entre tipos de prática, existindo domínio em que a prática transformadora é possível, a sociedade, e outro em que nossa ação será sempre contemplativa e técnica, a natureza.
34. Em Lukács, a dialética não é princípio metafísico ou metodológico, mas a força motriz real da história, dentro da qual os seres humanos situam-se como agentes potenciais de mudança radical, “produtores” históricos, envolvendo a verdadeira prática transformadora não apenas compreensão da dependência epistemológica das objetividades reificadas em relação à sociedade, mas dialética ontológica entre sujeito e objeto subjacente a essas objetividades.
35. A teoria lukacsiana da prática pode resumir-se em três equivalências: no domínio social, somos no sentido mais forte o objeto, isto é, a sociedade, sendo assim nosso conhecimento da sociedade autoconhecimento e nosso autoconhecimento ação.
36. Esse relato da teoria lukacsiana da prática transformadora parece congruente com a interpretação marcuseana de Hegel, concordando Marcuse com Lukács em que apenas a história humana é plenamente dialética, tendo Hegel errado ao tomar a dialética por sistema abrangente culminando no conhecimento absoluto.
37. Turvar as fronteiras entre natureza e história arrisca inclinar todo o empreendimento da prática para a teoria, sendo isso, argumenta Marcuse, o que eventualmente acontece na obra tardia de Hegel e na tradição interpretativa dela derivada, convergindo suas preocupações diretamente com a própria restauração lukacsiana da dialética.
38. Em sua tese, Marcuse deve parar antes de extrair explicitamente as conclusões marxistas para as quais seu argumento tende, aproximando-se disso em muitas passagens da Ontologia de Hegel sem contudo poder fornecer o conteúdo marxista.
39. As três equivalências lukacsianas claramente assombram essa formulação abstrata do caso, enquanto a referência repetida ao “trazer-à-frente” remete a Heidegger, podendo imaginar-se Marcuse, com sua ironia berlinense, sorrindo consigo mesmo ao construir sentenças que seriam lidas de modo tão diferente por Heidegger e por seus colegas politicamente simpáticos.
40. Podemos avançar mais na integração dessa interpretação de Hegel com o marxismo de Marcuse, parecendo a figura da autoconsciência como transformação simultânea de si e do social presente em todo seu pensamento posterior e ter encontrado formulações iniciais na Teoria Crítica.
Tecnologia e Natureza
41. A modernidade é assombrada pela nostalgia de um mundo mais simples, sendo porém impossível retornar a uma totalidade objetivamente dada, reconhecendo-se agora os sentidos como criações humanas, colocando-se então a questão de como atravessar a lacuna entre o sujeito criador e o mundo indiferente.
42. A mundanidade possui, contudo, status ambíguo na obra heideggeriana: por um lado, o Dasein é ser-no-mundo, inconcebível fora de conexão com seu ambiente; por outro, a verdade do ser do Dasein descobre-se no colapso de seu mundo, sendo angústia, temor, tédio e viver-para-a-morte posturas através das quais o indivíduo acessa a ausência completa de fundamento da existência mundana.
43. Embora Heidegger inicie sua análise pela produção, ela termina em temas existenciais e eventualmente quase religiosos distantes desses começos, oferecendo Hegel espetáculo estranhamente similar, colocando a dialética senhor-escravo o trabalho no centro da teoria e prometendo reconciliação entre ser humano e mundo.
44. Com essas observações, a tese de Marcuse chega o mais perto possível de aludir à versão marxista contemporânea da dialética hegeliana, abandonando porém Hegel, como Heidegger, esses começos produtivistas, concluindo sua teoria no éter do absoluto, relação puramente cognitiva com a realidade que ele próprio compara ao pensamento que se pensa a si mesmo do Deus aristotélico.
45. Aqui Marcuse reúne-se novamente a Lukács, cuja interpretação do marxismo lançou a abordagem hegelianizante da revolução que Marcuse combinou com a ontologia fundamental heideggeriana em suas obras iniciais, sendo a ligação crucial a noção de que existe forma de autoconsciência que é simultaneamente revelação de um mundo e transformação desse mundo.
46. Tal concepção é incompatível com a compreensão convencional da natureza em si como realidade última, podendo esta ser “revelada” à consciência e trabalhada pela técnica mas certamente não transformada pela autoconsciência, sendo a natureza em si das ciências modernas correlato de sujeito cognoscente abstraído da realidade.
47. A ontologia fenomenológica heideggeriana também abstrai da natureza ao colocar a historicidade no centro de sua interpretação do ser, podendo assim reconciliar-se parcialmente com a versão lukacsiana do marxismo, não possuindo porém o Dasein heideggeriano identidade social concreta apesar da tentativa de preenchê-lo com conteúdo tradicional e nacional ao final de Ser e Tempo.
48. A dialética senhor-escravo hegeliana introduz divisão social na motilidade da história, preparando assim caminho para assimilação da dialética histórica lukacsiana, constituindo a teoria inicial de Marcuse síntese extraordinária entre Heidegger e Lukács que sofre também de suas limitações.
49. Marcuse tenta aprofundar o marxismo indo além da ênfase convencional no interesse de classe rumo a teoria mais radical da alienação do trabalho, mas não aborda o estágio mais recente do desenvolvimento capitalista em que o proletariado deixa de ser força revolucionária.
50. A versão lukacsiana da dialética também consegue distinguir bem demais natureza de história, sendo o mundo social rede intrincada de pessoas e coisas não facilmente desemaranhável, distinguindo Lukács natureza e sociedade em teoria sem oferecer relato de sua conexão, embora saiba que não podem ser verdadeiramente separadas na prática.
51. A antinomia resultante entre história e natureza ameaça toda a teoria, permanecendo em aberto se a tomada de autoconsciência de grupo social envolvido em relações complexas tecnicamente mediadas realmente se assemelha à unidade imediata de sujeito e objeto na autoconsciência.
52. A alternativa marcuseana em sua obra posterior é estender a dialética à própria tecnologia, excluindo para Marcuse a história a natureza abstrata das ciências naturais mas incluindo explicitamente toda a gama de relações e objetos naturais tocados pela atividade humana, como paisagem, ambiente e matérias-primas.
53. A originalidade de Marcuse na tradição marxista aparece em sua insistência de que o poder da imaginação pode preencher essas duas lacunas da teoria clássica, atualizando a abordagem da agência e da tecnologia, sendo o trabalho organizado da imaginação a atividade estética, baseada na experiência estética.