Natureza

FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.

Capítulo 6

A Questão Concernente à Natureza

As Duas Naturezas

1. Na concepção tecnocrática e positivista dominante, a razão científico-técnica é entendida como espectadora indiferente diante de uma realidade que aguarda passivamente quantificação e controle, escapando na prática essa forma moderna de razão a muitos envolvimentos sociais que a confinavam a papel subordinado.

2. Considera-se aqui a resposta de Marcuse a essas questões difíceis, seguindo caminho árduo pois sua posição permanece pouco clara, argumentando ele, seguindo Heidegger, pela prioridade da tecnologia sobre a ciência, definindo assim o projeto de dominação tecnológica o próprio conceito científico de natureza.

3. Marcuse seguiu esse caminho como consequência de ter misturado crítica heideggeriana da tecnologia com a noção do jovem Marx sobre a alienação da natureza, tornando-se a natureza científica objeto de prática transformadora ao ser reinterpretada nesses termos.

As Correlações

4. A questão da tecnologia conduz em Marcuse à questão ainda mais profunda da relação entre natureza e cultura, problema que surge no contexto da apropriação crítica frankfurtiana de Kant, Hegel e Marx.

5. Essa ambivalência é particularmente forte em Marcuse, refletindo-se em movimento teórico “desconstrutivo” implícito em boa parte de sua obra tardia, encontrando-o frequentemente engajado com opostos antinomiais que tenta subverter, opondo um ao outro para alcançar posição que desafia as categorias da tradição filosófica.

6. Essa antinomia é consequência remota da construção kantiana da experiência como correlação entre sujeito e objeto, tendo Kant demonstrado pela primeira vez que a unidade e coerência das coisas resultava de nossos conceitos, e não de fato da natureza.

7. Hegel eliminou a coisa em si ao interpretar as correlações historicamente, como processo em que a oposição não mediada de seus polos é superada e reconciliada, ocorrendo essa superação na Fenomenologia através do “trabalho”, literal ou figurativamente como criatividade cultural.

8. O tema hegeliano era a reconciliação dos contrários através de noção idealizada de trabalho, tendo Feuerbach naturalizado esse insight ao interpretar Deus como projeção alienada da comunidade, aplicando o jovem Marx o método de Feuerbach à própria natureza.

9. Uma vez historicizada a unificação do real pelos conceitos, importava de quem eram os conceitos unificadores, não sendo esta a revolução, tendo a humanização da natureza passado a significar, com a ascensão do industrialismo moderno, a assimilação do mundo objetivo ao próprio aparato de produção que o socialismo deveria derrubar.

10. Essa correção não pretendia revogar o insight kantiano-hegeliano sobre o papel ontológico da atividade humana, mas moderar seu impulso prometeico, sendo o sujeito humano também objeto no mundo dotado de direitos que a subjetividade excessiva não deve ignorar.

11. A Escola de Frankfurt foi porém incapaz de desenvolver esse insight coerentemente, sendo impossível escolher simplesmente entre identidade e não identidade, reconciliação e resistência, estando excluída a regressão ao realismo pré-kantiano pela história inteira da filosofia moderna.

12. Essa busca inconclusa por núcleo resistente constitui pano de fundo contra o qual também Marcuse desenvolve sua teoria, sendo a não identidade evidência essencial na era dos totalitarismos, mas evoluindo sua posição, sob impacto da Nova Esquerda, em direção muito diferente da de Adorno.

13. As desconstruções marcuseanas aproximam-no da fenomenologia, interpretando Husserl a correlação entre sujeito e objeto como fato fundamental da experiência vivida, suspendendo a “atitude natural” para focalizar o fluxo da própria experiência, a “consciência pura”.

14. A crítica marcuseana a Husserl e Heidegger nos anos trinta foi feroz, mas em sua obra tardia Marcuse sugere retorno à fenomenologia através do termo “Lebenswelt”, contraparte husserliana do ser-no-mundo heideggeriano, mencionando também a “verdade existencial” da natureza.

15. Embora pressuponha algo como a fenomenologia, Marcuse não mais articula suas premissas, retornando antes a arcabouço derivado do jovem Marx, que se assemelha à fenomenologia ao identificar ampla gama de correlações mas sofre de ambiguidade confusa quanto ao status ontológico da natureza.

16. Argumenta-se aqui que Marcuse poderia ter formulado sua posição tardia mais convincentemente como retorno moderno à techné, exigindo isso reapropriação de temas heideggerianos básicos de seu período de estudos em Freiburg.

17. Se é possível salvar o argumento marcuseano de outra forma, isso não foi aqui descoberto, parecendo Marcuse, sem noção fenomenológica de ser-no-mundo, engajado em retórica inflada ou, pior, em desafio metafísico ingênuo à compreensão científica moderna da natureza.

As Desconstruções de Marcuse

Natureza e Cultura

18. Ilustra-se a estratégia desconstrutiva marcuseana através de sua apropriação da teoria freudiana dos instintos, tendo confundido muitos comentadores que descartam superciliosamente seu “biologismo” sem noção alguma do que pretendia.

19. Noções como “libido”, “princípio de realidade” e “princípio do prazer” são inteiramente historicizadas na aplicação marcuseana, afirmando que necessidades e qualidades tornadas tão vitais que não podem ser modificadas ou ignoradas podem ser consideradas “biológicas”, mesmo “instintuais”.

20. Tudo o que se pode rastrear a domínio anterior à história é energia vital primordial que se expressa em formas socialmente construídas sob o horizonte da sociedade que originalmente as moldou, e também, sob certas condições, além desse horizonte.

21. A noção marcuseana de biologia é assim historicamente relativa, parecendo Marcuse relativista completo, mas note-se a naturalização paradoxal dos ideais políticos e estéticos nos quais a energia libidinal se sublima.

22. Marcuse tem porém cuidado de explicar que os critérios de avanço social não se fundam na biologia científica mas se descobrem em lutas históricas e obras artísticas e filosóficas, transcendendo estas, apesar de suas origens sociais, qualquer período histórico particular.

23. Poder-se-ia interpretar essas reivindicações em termos de teoria tradicional de valores eternos, sugerindo Marcuse tal solução com referências surpreendentes a “ideias inatas” e reminiscência platônica, defesa usual do universalismo que não se ajusta bem ao caso.

24. Não existe formulação transhistórica definitiva do conteúdo dessa tradição, certamente não em autores clássicos como Platão ou Aristóteles, sendo a tarefa a realizar não a conservação do passado, mas a redenção de suas esperanças.

25. Essa nova ênfase na “biologia” sugere a Marcuse dimensão inteira do marxismo ausente dos relatos ortodoxos, formando os instintos e capacidades sensoriais em desenvolvimento histórico nível de determinação social abaixo da infraestrutura convencionalmente entendida.

26. Qual o resultado dessas discussões? os instintos revelam-se históricos enquanto os ideais políticos e estéticos são transhistóricos, caindo o biológico no tempo e assemelhando-se assim à cultura, enquanto o cultural transcende o tempo e se assemelha à natureza, indicando esse paradoxo lugar de conceito ausente.

27. O suposto biologismo marcuseano equivale realmente à reivindicação de que o corpo humano é portador de ideais inscritos na natureza, não podendo ser esse corpo e essa natureza objetos de conhecimento científico.

28. A interpretação histórica dos instintos tenta descer abaixo dos níveis superficiais de linguagem, psicologia e opinião até as forças motrizes básicas da existência pessoal, o corpo, a identidade, a autocompreensão, sendo nesse nível básico que o físico e o cultural se encontram juntos.

29. Heidegger não aplicou suas noções de faticidade e “minhidade” ao corpo, lacuna corrigida por Sartre e Merleau-Ponty, complementando a abordagem fenomenológica da linguagem e da tradição a teoria do corpo ao direcionar atenção à significância operativa dos sentidos.

30. Marcuse leu esses autores conforme publicavam e comenta positivamente o Sartre e o Fanon tardios, podendo ter usado suas ideias na explicação de sua própria posição, sendo lamentável que não tenha explorado o território empolgante do “marxismo existencial” durante seu auge.

31. Marcuse enfrenta problemas ainda maiores ao aplicar seu método desconstrutivo aos sentidos, podendo novamente ter encontrado soluções na tradição fenomenológica, devendo ficar claro em todo caso que evita o biologismo de que é acusado.

32. Alguns discursos pós-modernos e feministas introduzem essa dimensão novamente através de foco no corpo, permanecendo o problema o mesmo que Marcuse enfrentava: como dar peso existencial a identidade construída, tendo achado interessantes essas reflexões.

De 1844 a 1968

33. Se se pode dizer da estética que pertence a cultura naturalizada, talvez os sentidos possam ser vistos como parte de natureza culturalizada, alcançando-se aqui o cerne do paradoxo marcuseano.

34. O conceito de nova tecnologia requer o surgimento de forma nova e mais rica de percepção que revele seus objetos à luz de seu potencial intrínseco de crescimento, propondo Marcuse descobrir a segunda dimensão na experiência tal como refratada por essa nova sensibilidade.

35. Marcuse apresenta essa noção através de interpretação ousada dos Manuscritos de 1844 de Marx, marcando isso retorno surpreendente a texto já analisado em 1933, tendo seu artigo inicial pertencido à primeira recepção dos Manuscritos, publicados apenas em 1932.

36. A descoberta dos Manuscritos contribuiu para o afastamento marcuseano de Heidegger rumo ao marxismo da Escola de Frankfurt que estava prestes a integrar, sendo porém sua interpretação de Marx nada ortodoxa e vagamente ressonante com temas fenomenológicos.

37. Trinta e cinco anos depois, Marcuse retorna à elaboração dessa ontologia em Um Ensaio sobre a Libertação, recordando essa atenção renovada aos Manuscritos temas fenomenológicos de seus primeiros estudos.

38. Como Feuerbach, Marx enfatiza a correlação essencial entre o ser humano e a natureza encontrada na experiência imediata, evidente essa correlação na adequação mútua entre faculdades humanas e seus objetos naturais.

39. Ao longo do argumento dos Manuscritos, a correlação entre sujeito humano e natureza é reinterpretada em termos da noção hegeliana de objetivação através do trabalho, assumindo este função ontológica de princípio de síntese da realidade.

40. Essa reivindicação de identidade sujeito-objeto é intrigante já que a maioria das coisas não pode ser objetivação do trabalho humano, contornando Marx a dificuldade ao reconceitualizar os sentidos, que se tornam “teóricos diretamente na prática”.

41. Em seu ensaio de 1933 sobre os Manuscritos, ainda sob influência heideggeriana, Marcuse interpreta Marx como espécie de fenomenólogo, estando sujeito e objeto, como em Husserl e Heidegger, em relações essenciais de sentido em vez de relações causais acidentais.

42. Interpreta a afirmação marxiana de que a história humana é a história de toda a natureza como significando o “avanço daquilo que existe objetivamente através da transcendência renovada de sua forma atual”, podendo o ser humano confrontar qualquer objeto e realizar suas possibilidades internas em seu trabalho.

43. A retomada tardia marcuseana dos Manuscritos leva esse argumento mais adiante, sugerindo que a natureza é em última instância, ontologicamente, apenas aquilo experienciado num mundo já não obcecado pela luta pela existência, soando isso um pouco como fenomenalismo mas havendo diferença.

44. Afirma a capacidade dos sentidos de experienciar não apenas as qualidades “dadas” mas também as “ocultas” das coisas que melhorariam a vida, dessublimando a redefinição radical da sensibilidade como “prática” a ideia de liberdade sem abandonar seu conteúdo transcendente.

45. Marcuse relaciona a libertação dos sentidos à noção de objetivação no jovem Marx, argumentando que em sociedade livre o trabalho tanto humaniza a natureza quanto a liberta ao desenvolvimento livre de suas próprias potencialidades.

46. Marcuse praticamente cita Hegel nessa passagem, estando os seres humanos numa natureza humanizada “em casa no outro como tal”, fórmula mesma do absoluto em que toda alienação é transcendida.

47. Apesar da dependência da natureza em relação ao trabalho, preserva-se a alteridade do objeto: o sentido do objeto não é arbitrariamente imposto, não sendo mera matéria-prima para projetos humanos, retendo a natureza sua independência mesmo no processo de transformação.

48. Nesse ponto, Marcuse parece reencantar a natureza, resultando esse desfecho de sua apropriação relativamente acrítica dos Manuscritos, ampliando sua teoria estética da sensação, como a teoria marxiana dos sentidos como praticantes, o projeto de humanização da natureza.

49. É pouco surpreendente saber que a fome tem no alimento seu objeto essencial, ou que o trabalho requer objetos naturais sobre os quais operar, sendo tentador ler essas correlações não-ontologicamente, como relevantes à experiência humana mas não à natureza “em si”.

50. Diz Marx que os sentimentos e paixões humanos não são meras características antropológicas no sentido estrito, mas verdadeiras afirmações ontológicas do ser (natureza), parecendo indicar que necessidades humanas revelam aspectos da realidade desconhecidos à concepção científica de natureza.

51. A palavra “natureza” em Marx refere-se simultaneamente ao objeto imediato da experiência sensorial, à natureza vivida contrastada no romantismo com a natureza da ciência natural, e à natureza apropriada pelo trabalho no processo de produção.

52. O que intriga é a insistência marxiana, contra idealismo e realismo naturalista, em que a natureza nesse sentido ambíguo se correlaciona essencialmente com o sujeito e ao mesmo tempo permanece dele inteiramente independente, capturando-se para a realidade “material” o patos de um conceito romântico pré-fenomenológico de experiência.

53. O Aristóteles heideggeriano poderia ter dado sentido a isso, explicando o relato heideggeriano da techné a ação técnica de dentro, fenomenologicamente, não endereçando assim a produção a natureza indiferente da ciência e da indústria mas o correlato material da ação humana.

54. A especulação oculta sobre a natureza em Marx sustenta que as diferentes formações econômicas sucessivas foram outros tantos modos da automediação da natureza, cindida em duas partes, homem e material a trabalhar, estando sempre presente a si mesma nessa divisão.

55. Os fragmentos da totalidade, seres humanos e natureza, mantêm-se juntos aqui pela identificação mítica de um com a mente e outro com o corpo, tendo essa solução certo encanto mas também consequência epistemológica perturbadora: as ciências naturais existentes seriam falseadas.

56. Marcuse ecoa essa noção de que as ciências naturais devem ser transformadas para acomodar a experiência da natureza vivida, pairando ambiguidade sobre seu chamado por “nova ciência” apesar de rejeitar a ideia de “física qualitativa”.

Multiplicando Discursos

57. Como explica Marcuse a harmonia entre ser humano e natureza? seu argumento decola para a estratosfera filosófica ao responder essa questão, não surpreendendo que não tenha ganhado muitos convertidos, oferecendo em vários livros e ensaios tardios explicações vagamente derivadas de Platão, Goethe, Freud e Kant.

58. Num texto inédito, resume seu argumento de que a beleza é “ideia inata”, afirmando que essas ideias inatas revelam-se reivindicações reprimidas dos sentidos humanos, sendo sua universalidade condição bastante material e fisiológica.

59. Numa referência implícita a Goethe, Marcuse invoca “a antiga teoria do conhecimento como reminiscência: a 'ciência' como redescoberta das verdadeiras Formas das coisas, distorcidas e negadas na realidade estabelecida”, saudando também Freud com a teoria da “catexia erótica”.

60. Noutro lugar, Marcuse segue linha diferente e mais promissora, afirmando que “a natureza é parte da história, objeto da história”, significando com isso que só encontramos a natureza em formas historicamente dadas, determinadas por fundo social específico.

61. Marcuse tenta duas vezes desenvolver esse argumento em termos da noção kantiana do sintético a priori, sugerindo primeiro que arquétipos estéticos deveriam ser adicionados às “formas puras” kantianas da sensibilidade, diferenciadas historicamente mas comuns a todos os seres humanos em sua fonte.

62. Referência mais sugestiva a Kant aparece em ensaio posterior: “os sentidos não são meramente passivos, receptivos: têm suas próprias 'sínteses' às quais submetem os dados primários da experiência”, soando isso como tese kantiana.

63. Temos ideia de quais sejam esses princípios a priori pela discussão marcuseana da diferença entre experiência sob capitalismo e socialismo, determinando cada sistema os elementos universais da experiência segundo seus próprios requisitos.

64. Mas assim que afirmado, Marcuse recua desse relato por implicar ênfase hubrística excessiva na atividade humana, assumindo o controle a crítica frankfurtiana da teoria da identidade, escrevendo que “a Natureza não é manifestação do 'espírito' mas seu limite essencial”.

65. Quão seriamente Marcuse levava essas especulações? há elemento inegável de provocação na referência a conceitos tão desgastados quanto ideias inatas e formas platônicas, fazendo mais sentido a referência kantiana mas também problemática, pois não pretendia reviver o idealismo transcendental.

66. Isso é preocupante: seria esta a derrocada do pensamento racional num reencantamento sentimental da natureza? a objeção é fácil mas reveladora, merecendo a noção marcuseana de síntese estética da experiência leitura mais simpática, embora concordemos que faltou relato convincente do mundo da vida estético.

Um Marcuse Fenomenológico?

67. O verdadeiramente inovador na posição marcuseana é a hipótese de que, uma vez libertada a sociedade pela riqueza crescente da luta pela existência, a percepção pode transcender o dado rumo a potencialidades não realizadas prefiguradas na arte.

68. Em sociedades avançadas, a mera possibilidade técnica de realização dessas normas desestabiliza as estruturas de domínio de classe e as formas subjacentes de experiência e individualidade, cessando o estético de ser mero “horizonte” e passando a estruturar a própria percepção.

69. O argumento hegeliano-marxista anterior que estabelece a segunda dimensão teoricamente torna-se agora prático, existencial, possuindo a própria sensação aspecto normativo inseparável de seu valor de verdade.

70. O uso do termo existencial aqui, como as referências marcuseanas ao Lebenswelt, convida interpretação fenomenológica que não elabora, deixando-nos em suspenso quanto ao que precisamente significa.

71. Por não ter retornado à fenomenologia, mas insistido até o fim em poder reconciliar suas inovações teóricas com o marxismo, seus intérpretes e críticos tiveram dificuldade em saber o que fazer com ele, parecendo vacilar entre historicismo hegeliano-marxista e fenomenologia heideggeriana.

72. A estratégia desconstrutiva marcuseana opõe uma à outra: “natureza”, tal como usa o termo, conhece-se em sua verdade a partir de dialética histórica, mas também se experiencia corporalmente em sensação e ação.

73. A fenomenologia desempenha papel melhor que qualquer dos múltiplos discursos marcuseanos em evitar confusão entre a natureza da experiência vivida e a natureza objetiva das ciências históricas e naturais, argumentando Husserl e Heidegger que os conceitos através dos quais compreendemos a realidade objetiva se fundam na experiência vivida.

74. Nossa experiência do mundo em primeira pessoa, como “eu” corporificado, possui características específicas que a distinguem da perspectiva de terceira pessoa do pensamento objetivista, incluindo a relação imediata entre percepção e sentidos, incluindo os sentidos incorporados à segunda dimensão descrita por Marcuse.

75. Heidegger rejeitou a ideia husserliana de consciência e voltou-se à atividade cotidiana como domínio fundamental da experiência, engajando-se a fenomenologia, como a própria ação, com o mundo como todo unificado.

76. Nesse arcabouço, sensação e prática correspondente não são objetos no mundo, não resultando de interação causal entre dois objetos, órgãos sensoriais e natureza, nem se dividindo o objeto em coisa em si e qualidades secundárias humanamente impostas.

77. Sobre essa base, Heidegger desenvolveu análise consistente da produção, techné, na qual a natureza é apreendida como objeto essencial do sujeito produtor, não sendo o objeto indiferente à sua transformação pelo ofício mas apropriado a sua forma acabada.

78. A noção marcuseana de verdade existencial da natureza faz sentido nesse contexto, lembrando-se da afirmação heideggeriana de que o eidos só é plenamente real na própria obra artesanal, engajando-se o artesão com seus materiais conforme o logos, o “valor objetivo”, incorporado no eidos.

79. A noção marcuseana de sensação libertada pode interpretar-se nesses termos: o artesão habilidoso vê no objeto não apenas sua forma presente mas a falta de forma que deve perder no trabalho, sendo esse ver experiencial, e não intelectual.

80. O padrão normativo da percepção e a estruturação da ação são óbvios, sabendo-se bem que algumas pessoas veem o copo “meio cheio” e outras “meio vazio”, sendo fenomenologicamente cada percepção adequada a seu objeto.

81. Propõe Marcuse que padrões críticos sociais tornar-se-iam similarmente disponíveis como estruturas de percepção e ação, incorporando em sociedade livre o elemento universal envolvido em toda percepção consciência imediata das potencialidades do objeto.

82. A distinção reificada entre valor e fato é produto da reflexão e da teoria e pressupõe revelação prévia do mundo, não fazendo essa revelação tal distinção, tratando a fenomenologia a experiência como ontologicamente fundamental.

83. Não há explicação melhor das coisas objetivas que a ciência, não sendo porém as coisas objetivas fundamentais, sendo no nível mais básico o problema compreender a presença de mundo significativo, algo que a ciência pressupõe mas não pode explicar.

84. A ciência natural e a dialética histórica representam duas abordagens para compreender a existência, explicando uma a primeira dimensão e articulando a outra a segunda dimensão que a ciência aborda como objeto e não como sujeito.

85. O verdadeiro “mistério” não está no nível epistemológico, mas na dualidade irresolúvel entre experiência e objetividade em todas as suas formas, resultando essa dualidade de ontologia resolutamente finita na qual nenhum deus ou cogito pode contemplar o mundo do “lugar nenhum”.

86. Esse argumento tem implicações práticas: Marcuse enfatiza que a razão está vinculada a projetos civilizacionais mas não consegue explicar concretamente como isso funciona porque confunde dois níveis muito diferentes de racionalidade.

87. É nesse nível, e não no das abstrações científicas, que se deve buscar a transformação, tendo mesmo a techné socrática incorporado matemática básica sem por isso ceder o campo a Cálicles.

88. Poderia Marcuse ter desenvolvido marxismo fenomenológico explícito para explicar sua teoria das potencialidades? sua interpretação inicial de Hegel poderia ter fornecido ponto de partida, lembrando-se que na Ontologia de Hegel a vida não é primariamente categoria epistemológica mas de relacionalidade prática.

89. A obra tardia vai além dessa concepção com a introdução do estético, não se opondo este ao trabalho mas informando o mundo do trabalho ao transformar a tecnologia segundo “as leis da beleza”.

90. Como resultado, seu argumento caiu abaixo do nível dos debates filosóficos atuais, não estando claro como poderia refutar o naturalismo e defender sua posição normativa contra o relativismo e o niilismo valorativo.

91. As reivindicações feitas em nome da “vida” poderiam ser vistas como psicológicas em vez de filosóficas, não sendo então mais persuasivas que sua base freudiana, que perdeu prestígio no final do século vinte.