FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.
Techné e o Bem
1. A consciência de vivermos numa sociedade tecnológica, não apenas pelo uso de dispositivos mas em nosso espírito e modo de vida, só recentemente alcançou as disciplinas humanísticas, sendo estranho que o século vinte, de avanço técnico tão rápido, tenha produzido relativamente pouca reflexão filosófica sobre a tecnologia, contando-se John Dewey entre as poucas figuras de estatura comparável a Heidegger a ocupar-se extensamente do tema.
2. Surpreendentemente, essas resistências modernas à questão da tecnologia, particularmente fortes na filosofia, não eram compartilhadas pelos gregos, que, apesar do preconceito aristocrático contra o trabalho e da admiração pela contemplação pura, refletiram profundamente sobre o significado ontológico da atividade técnica, reinterpretada por Heidegger como a própria questão do ser.
3. A filosofia começa interpretando o mundo a partir do fato fundamental de que a humanidade é um animal trabalhador constantemente ocupado em transformar a natureza, fato que molda as distinções básicas de toda a tradição filosófica ocidental.
4. A primeira dessas distinções fundamentais opõe physis, a natureza que se cria a si mesma, a poiésis, a atividade prática humana de fazer artefatos, incluindo entre estes os produtos da arte, do ofício e da convenção social.
5. A palavra techné, origem dos termos modernos para técnica e tecnologia, designava na Grécia antiga o conhecimento associado a uma forma de poiésis, mostrando as technai o modo correto de fazer as coisas num sentido forte e objetivo, não sendo o conhecimento nelas contido mera opinião ou intenção subjetiva, incluindo mesmo os propósitos das coisas feitas nessa objetividade.
6. A segunda distinção filosófica fundamental opõe existência, que responde se algo é, a essência, que responde ao que algo é, permanecendo a existência conceito impreciso e pouco explorado pela filosofia dominante, ao contrário da essência, foco principal da atenção das ciências.
7. Essas duas distinções, embora evidentes por si mesmas e fundamento de todo pensamento filosófico ocidental, mantêm entre si relação enigmática, cuja origem está na compreensão grega da techné, tendo os gregos concebido a própria natureza segundo o modelo dos artefatos produzidos por sua atividade poiética.
8. Nos artefatos, a distinção entre existência e essência é real e evidente, existindo a coisa primeiro como ideia pertencente a uma techné antes de vir a existir pela fabricação humana, sendo essa ideia realidade independente tanto da coisa quanto de seu fabricante, incluindo em si o propósito da coisa feita.
9. Na natureza, ao contrário, essa distinção não é evidente, emergindo a coisa e sua essência simultaneamente, sem existência separada da essência, sendo o próprio conceito de essência natural uma construção humana posterior, ao passo que o conhecimento da natureza, epistémé, parece ser puro fazer humano ao qual a própria natureza seria indiferente.
10. Essa diferença entre a relação da essência com a physis e com a poiésis importa para a compreensão da filosofia grega justamente porque os filósofos tanto se esforçaram por superá-la, sendo a teoria platônica das ideias, segundo a qual o conceito da coisa existe num domínio ideal anterior a ela, fundamento dessa tradição, aplicando Platão a estrutura da techné não apenas aos artefatos, mas a todo o ser.
11. Ao dividir a natureza entre existência e essência tal como os artefatos, Platão estabelece a base da ontologia grega, eliminando qualquer descontinuidade radical entre fabricação técnica e autoprodução natural, interpretando-se teleologicamente toda a natureza como um mundo pleno de sentido e intenção, correspondendo a essa concepção uma imagem do ser humano não como senhor da natureza, mas como colaborador na realização de seus potenciais.
12. Pode-se afirmar provocativamente que a filosofia da tecnologia começa com os gregos e constitui o próprio fundamento de toda a filosofia ocidental, sendo irônico que a tecnologia, hoje de baixo prestígio na alta cultura, tenha estado desde sempre na origem dessa cultura, contendo segundo os próprios gregos a chave para a compreensão do ser como totalidade.
13. Para compreender as consequências éticas dessa teoria técnica do ser, e assim a base da crítica posterior de Heidegger e Marcuse, propõe-se examinar a discussão original platônica da techné no diálogo Górgias, que oferece um modelo de todas as questões fundamentais em jogo, opondo Sócrates a um instrumentalista que separa radicalmente meios e fins, tratando estes últimos como subjetivos.
14. O Górgias constitui o primeiro texto da tradição ocidental a tratar como problema a relação entre técnica e valores, distinguindo Sócrates entre artes verdadeiras fundadas num logos e meras habilidades práticas, empeiriae, baseadas apenas na experiência sem fundamento racional.
15. Para Platão, o logos de uma arte inclui necessariamente referência ao bem a que serve, envolvendo uma concepção teleológica de seus objetos e uma ideia normativa de sua essência como realização de suas potencialidades, exemplificado pela arte de construir navios, cujo logos orienta não apenas a montagem das pranchas, mas a construção de um navio forte e seguro.
16. Enquanto as artes verdadeiras unem lógica técnica e finalidades objetivas, as meras habilidades servem apenas a propósitos subjetivos, existindo para cada arte verdadeira uma habilidade que imita seus efeitos e engana seus clientes, sendo a retórica, capacidade de substituir a realidade pela aparência na linguagem, a mais perigosa dessas habilidades, triunfando sempre o orador sobre o especialista em debates técnicos.
17. Cálicles constitui no diálogo o mais articulado defensor da retórica como mero artifício, movido por apetite ilimitado de poder e prazer, sendo essa ambição não mera idiossincrasia pessoal, mas traço denunciado por Aristófanes e Tucídides na degeneração moral da Atenas imperialista do século cinco, colocando Platão a questão fundamental de sua época: será que a força faz o direito?
18. Cálicles argumenta que a justiça de que Sócrates tanto trata serve mais aos fracos que aos fortes, consistindo a justiça natural simplesmente no domínio do mais forte sobre o mais fraco, diametralmente oposta à justiça convencional.
19. Cálicles defende então uma doutrina hedonista segundo a qual o bem seria a sensação puramente subjetiva do prazer, valor natural que dispensaria qualquer distinção entre aparência e realidade, colapsando assim a distinção socrática entre techné e empeiria, já que a racionalidade tornar-se-ia irrelevante para a busca de um bem definido como mero sentimento verificável subjetivamente.
20. Sócrates aceita as restrições de Cálicles e rapidamente o leva a admitir que a busca irrestrita do prazer conduz ao dano, não sendo portanto o prazer o valor supremo, mas buscado em função do bem, identificando Platão o bem com a utilidade, outro valor natural, tornando assim a contradição de Cálicles independente de qualquer manipulação entre natureza e convenção.
21. Após essa refutação decisiva, Sócrates retorna dos bens naturais aos valores éticos e estéticos temporariamente suspensos, desmontando no mito final do diálogo a distinção de Cálicles entre natureza e convenção, ao descrever o julgamento divino das almas segundo critérios estéticos de distorção e hediondez decorrentes da irresponsabilidade e do desregramento dos atos.