Crítica da Tecnologia

FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.

A Crítica da Tecnologia

Uma Crítica Ambígua

1. A crítica marcuseana ao capitalismo avançado abarcava as questões clássicas da esquerda, intervindo ativamente em movimentos sociais, sendo para ele insuficiente opor-se a más políticas, devendo questionar-se todo o modo de vida que as sustenta, constituindo a crítica tecnológica aspecto fundamental desse modo de vida.

2. Publicado em 1964, quando marxismo e liberalismo unanimemente celebravam o progresso técnico, O Homem Unidimensional contrariava essa corrente, sendo hoje fácil associar suas ideias a uma tradição marxista de crítica tecnológica então praticamente invisível.

3. Marcuse contribuiu para clima crescente de resistência à distopia tecnocrática, atacadas suas ideias como tecnofóbicas e anticientíficas, constituindo essa crítica o verdadeiro escândalo da obra tanto quanto sua política revolucionária.

4. Pretende-se demonstrar que essa crítica, embora radical, não implica hostilidade irracional à ciência, exigindo isso romper com a imagem amplamente aceita de Marcuse e com a peculiar estratégia retórica de suas obras tardias.

5. A tese central afirma que ciência e tecnologia modernas estão essencialmente implicadas na dominação social, entendendo-se por dominação tanto a supressão externa quanto a forma interna de conformismo e autoritarismo, sendo a máquina base de novos tipos de supressão que somente ela torna possíveis.

6. O estilo dialético marcuseano explora ambiguidades terminológicas de modo simultaneamente esclarecedor e confuso, ao afirmar que ciência é política e tecnologia é ideológica, borrando a diferença essencial entre esses termos e sugerindo leitura irracionalista aparentada a críticas românticas da modernidade.

7. Contrariando essa leitura, Marcuse mantém porém a fé marxista no potencial libertador último da tecnologia, base material para superação da escassez, reprimido esse potencial pelo capitalismo através da luta contínua pela existência.

8. Para evitar interpretação irracionalista, Marcuse corrige suas afirmações mais fortes, sustentando simultaneamente neutralidade e caráter político da tecnologia, produzindo fórmulas mutuamente contraditórias que revelam teoria emaranhada nos próprios conceitos empregados.

9. Habermas interpretou essa ambiguidade como evidência de que Marcuse sempre acreditou na neutralidade tecnológica, enquanto Bergmann argumenta que, sem distinção entre recursos técnicos neutros e sua realização em tecnologias ideologicamente enviesadas, não haveria como sustentar noção de potencial reprimido a libertar sob o socialismo.

10. É lamentável que Marcuse não tenha chegado a formulação mais clara em resposta a seus críticos, propondo-se que suas dificuldades decorrem de sua crítica se apoiar em duas fontes independentes, ainda que relacionadas: a análise marxiana da adaptação da técnica ao capitalismo, e uma vertente ontológica mais próxima de Heidegger e Ellul.

A Neutralidade da Tecnologia

11. Marcuse sustenta que a noção tradicional de neutralidade tecnológica não pode mais ser mantida, não sendo porém sua rejeição dessa tese tão categórica quanto parece, consistindo essa neutralidade, em primeiro lugar, na indiferença valorativa da técnica quanto aos fins a que pode servir.

12. Um segundo sentido de neutralidade refere-se à indiferença tecnológica quanto à organização social, sobretudo quanto à distinção entre sociedade capitalista e socialista, sendo martelo ou turbina úteis em qualquer contexto social dotado de infraestrutura adequada.

13. Em terceiro lugar, a neutralidade cultural da tecnologia atribui-se a seu caráter racional e à universalidade da verdade que incorpora, permitindo em quarto lugar essa universalidade aplicar os mesmos padrões de medida a tecnologias empregadas em contextos distintos.

14. Contra essas visões, Marcuse afirma que a tecnologia é fundamentalmente enviesada em direção à dominação, formulando sua posição alternativa em três teses: a tecnologia tornou-se sistema total legitimador do capitalismo; a tecnologia e sua racionalidade não são politicamente neutras, impondo controle hierárquico na produção; a racionalidade científico-técnica está adaptada a priori à manutenção da dominação.

15. Essas três teses contradizem a noção de senso comum sobre a neutralidade, mas Marcuse insiste também na possibilidade de transição ao socialismo através da reconstrução da tecnologia existente, pressupondo isso alguma forma de neutralidade, ainda que distinta da usual, colocando-se a questão de saber que tipo de neutralidade seria compatível com sua tese de dominação.

O Viés da Tecnologia

16. Críticos da tecnologia como Marcuse costumam ser acusados de irracionalismo, parecendo negar a neutralidade sugerir que a técnica pertence aos mitos compartilhados da sociedade, incompatível isso com seu marxismo, segundo o qual a ciência desenvolvida sob o capitalismo, embora enviesada, permanece válida.

17. Embora Marcuse nunca formule explicitamente sua compreensão alternativa da relação entre neutralidade e viés, sua teoria repousa sobre sua coexistência, não sendo o viés o oposto da neutralidade mas atravessando a distinção entre elementos ideológicos e científico-técnicos.

18. A estrutura peculiar do capitalismo resulta nas partes abstratas aparecendo como coisas independentes e autossubsistentes, existindo cada ser humano, empresa ou agência governamental na realidade apenas através de suas conexões essenciais, mas parecendo separados.

19. Nesses termos, as tecnologias das sociedades industriais avançadas exibem reificação típica, parecendo dispositivos técnicos neutros isoladamente, mas tornando-se visível seu papel social enviesado sob o capitalismo em contexto, exemplificando Marcuse a linha de montagem.

20. A noção tradicional de neutralidade é unidimensional por abstrair de considerações contextuais, parecendo as tecnologias neutras isoladamente e de ponto de vista puramente técnico, sendo isso ilusão induzida por perspectiva estreita, buscando o método marcuseano recuperar os contextos perdidos.

21. Para Marcuse, valores operam no “ajuste” dos designs técnicos à sociedade em geral, produzindo a inovação capitalista tecnologias que servem à busca de lucro independentemente do custo humano e natural, explicando isso por que a reconstrução tecnológica é característica necessária da transição ao socialismo.

22. As duas primeiras teses sobre tecnologia fluem diretamente dessas considerações, refletindo as consequências do domínio de classe para a consciência social e o design tecnológico, resumindo o que se chamará “os momentos sociológicos” dessa crítica.

23. A terceira tese tem status diferente, atribuindo viés intrínseco à própria racionalidade científico-técnica, sendo essa a vertente mais radical, o “momento ontológico”, que visa descobrir as precondições quase transcendentais da possibilidade do viés formal.

O Momento Sociológico: Primeira Tese

24. Marcuse tentou primeiro explicar o impacto da tecnologia sob o capitalismo em ensaio de 1941, influenciado por Marx, Mumford e Veblen, explicando que as condições sociais que sustentavam a individualidade autônoma foram substituídas por ordem burocrática que impõe adaptação à sociedade.

25. Isso difere bastante da abordagem marxiana, que criticava os danos sofridos pelos trabalhadores acorrentados à divisão estreita do trabalho, argumentando que a indústria exigia trabalhadores qualificados para máxima produtividade, mas que o capitalismo depende dos não qualificados para controlar trabalho e custos.

26. Marcuse argumenta que o capitalismo contemporâneo invalidou essa posição original marxiana: a organização capitalista da produção provou sua competência técnica, não podendo mais a racionalidade tecnológica servir de base para crítica das relações de produção prevalecentes.

27. Sob essas novas condições, a racionalidade tecnológica torna-se o discurso legitimador da sociedade, resumindo Habermas esse aspecto: as forças produtivas deixam de funcionar como base de crítica das legitimações prevalecentes para tornarem-se base de legitimação.

28. Não apenas o progresso técnico é distorcido pelas exigências capitalistas, mas o “universo do discurso” limita-se a colocar e resolver problemas técnicos dentro das restrições do interesse de dominação, eliminando a universalização dos modos técnicos de pensamento as condições subjetivas pressupostas pela teoria marxiana de luta emancipatória.

O Momento Sociológico: Segunda Tese

29. O século vinte viu a extensão da tecnologia a toda esfera da vida social, explicando Weber as consequências com sua teoria da racionalização, baseando-se a análise marxista marcuseana dessa teoria na distinção marxiana entre aspectos técnico e social da tecnologia sob o capitalismo.

30. O argumento marxiano decorre das consequências do divórcio entre trabalhadores e meios de produção, recaindo o controle do trabalho sobre os proprietários capitalistas, que devem conceber soluções tecnológicas e gerenciais para problemas de disciplina laboral.

31. Isso explica como o mesmo Marx que previu a libertação da humanidade numa sociedade socialista tecnologicamente avançada pôde também escrever diatribes contra a divisão do trabalho e o uso de maquinário sob o capitalismo, sendo a ciência a mais poderosa arma para reprimir greves.

32. Weber generalizou a teoria marxiana do capitalismo para teoria mais ampla da modernidade, mas perdeu nesse processo o gume crítico de Marx, introduzindo os termos “substantiva” e “formal” para descrever dois tipos diferentes de racionalidade social.

33. A distinção weberiana desdobra-se em seu relato das consequências sociais do progresso, exibindo sociedades pré-modernas baseadas em racionalidade substantiva viés explícito consagrado por hierarquia de funções divinamente atribuídas, havendo perfeita consistência entre a forma substantiva de racionalidade e os resultados sociais discriminatórios.

34. “Racionalização” refere-se à generalização da racionalidade formal na sociedade capitalista às custas dos modos substantivamente racionais de ação que prevalecem em sociedades tradicionais, não mais consagrando Deus a hierarquia social, substituída pela troca igual no mercado.

35. A crítica marcuseana a Weber dissolve esse paradoxo por referência à teoria marxiana dos critérios duplos de progresso sob o capitalismo, mostrando que sua análise caiu presa da identificação da razão técnica com a razão capitalista burguesa.

36. Esse pressuposto não se confina à sociologia weberiana mas é característica geral do pensamento reificado na sociedade capitalista, marcado indelevelmente aquilo que Marcuse chama “racionalidade tecnológica” pelo pressuposto de que a dominação é condição necessária para ação efetiva.

37. A fusão do técnico e do social molda também o design das tecnologias, não substituindo Marcuse, como alegam alguns críticos, crítica tecnológica por crítica ao caráter antagônico do capitalismo, mas argumentando que a tecnologia é sítio desse antagonismo.

38. Aqui estamos no limiar da crítica ontológica, mas Marcuse oferece apenas indício da teoria mais elaborada de O Homem Unidimensional, resultando isso em impressão confusa: por um lado, Weber é acusado de confundir o técnico com o social, implicando possibilidade de separá-los.

39. Marcuse conclui porém sua discussão de Weber sugerindo que a própria noção de razão técnica é ideológica, sem contudo questionar a validade da ciência e da tecnologia, pensando poderem fornecer a base para sociedade socialista uma vez reconstruídas para apoiar objetivos diferentes.

40. Aqui está verdadeiramente a bifurcação de caminhos, tendo Habermas e seus seguidores elaborado versão da teoria crítica compatível com uma resposta, adotando as linhas principais do primeiro momento sociológico enquanto afirmam a neutralidade inerente da ciência.

41. O Homem Unidimensional vai além da crítica a Weber, atacando as raízes ontológicas do problema em teoria especulativa da razão mais seguramente protegida contra a ideologia tecnocrática, baseando-se essa crítica ontológica na recusa de separar a razão do arcabouço social e cultural em que opera.

O Momento Ontológico: Terceira Tese

42. Comecemos reconhecendo a intempestividade da crítica ontológica marcuseana, escrevendo ele no auge da ideologia tecnocrática, quando a ciência era amplamente considerada livre de valores, universal e beneficente, culpando-se más políticas, e não a ciência mesma, por suas aplicações ruins.

43. A tese mais controversa marcuseana sustenta que existe conexão a priori entre racionalidade científico-técnica e dominação, tendo a ciência, por virtude de seu próprio método e conceitos, projetado e promovido universo em que a dominação da natureza permanece ligada à dominação do homem.

44. Embora existam problemas reais na crítica marcuseana da ciência, não deve ser tão facilmente descartada, podendo reformular-se sua noção do viés da racionalidade perguntando: qual a significância da disponibilidade geral de sistemas formais como disciplinas técnicas para aplicações que favorecem a dominação?

45. O momento ontológico da crítica tem dois aspectos: primeiro, a orientação instrumentalista da “racionalidade tecnológica” reduz o ser, incluindo o humano, a matéria-prima e componentes de sistema, eliminando outras dimensões essenciais ao florescimento da vida, antecipado esse aspecto pela Dialética do Esclarecimento.

46. Dada a óbvia filiação das considerações marcuseanas sobre ciência e tecnologia aos escritos anteriores de Horkheimer e Adorno, deve-se perguntar por que Husserl e o Heidegger tardio desempenham papel tão importante em O Homem Unidimensional.

47. Os capítulos 5 e 6 de O Homem Unidimensional constituem resposta marxista ao ensaio heideggeriano “A Questão Concernente à Técnica”, começando ambos com discussão do conceito teleológico aristotélico de prática técnica e terminando com crítica da visão mecanicista moderna da natureza.

48. Husserl reivindica que a ciência moderna “galileana” refina práticas correntes no Lebenswelt de sua sociedade, introduzindo precisão em práticas ordinárias de medição e, nessa base, alcançando previsão e controle sobre seus objetos.

49. Heidegger amplifica a tese husserliana, argumentando que a ciência moderna projeta ideia quantificável de natureza intrinsecamente orientada ao controle técnico, chamando isso “plano fundamental” que antecipa antecipadamente os tipos de coisas que podem aparecer como objetos de pesquisa.

50. Heidegger argumenta ainda que a ciência moderna produz imagem ou representação que chama “imagem de mundo”, representação supostamente exaustiva da realidade, sendo essa modo unicamente moderno de compreender o real, tornando possível previsão e manipulação técnica.

51. Para Heidegger, ciência moderna e antiga têm concepções radicalmente diferentes de natureza, sendo a visão antiga, exemplificada pela Metafísica aristotélica, derivada do crescimento biológico, correspondendo estreitamente à ontologia cotidiana do mundo da vida.

52. Na visão heideggeriana, a imagem científica moderna da natureza elimina automovimento e potencialidade intrínseca, sendo a natureza sem sentido e utterly dependente do sujeito para o qual serve como matéria-prima dominada através de controle instrumental.

53. Como notado antes, O Homem Unidimensional segue o mesmo padrão do ensaio heideggeriano, discutindo o capítulo 5 o conceito aristotélico de essência e sua relação com a potencialidade, considerando o capítulo 6 então a tecnologia moderna em termos muito similares aos de Heidegger.

54. A discussão marcuseana da ciência segue mais ou menos as linhas traçadas por Husserl e Heidegger, argumentando também que a ciência se baseia em conceito de natureza que a expõe à quantificação e controle, citando Heidegger sobre o homem moderno tomar a totalidade do ser como matéria-prima para produção.

55. Tanto Heidegger quanto Marcuse concordam que não há diferença fundamental entre ciência e tecnologia, não podendo a ciência ser separada de suas aplicações, propondo-se em termos contemporâneos crítica da tecnociência.

56. São essas semelhanças entre as críticas marcuseana e heideggeriana coincidência? isso é improvável, dada a fama de Heidegger à época, tendo lido todos os envolvidos com a filosofia continental, e certamente Marcuse, “A Questão Concernente à Técnica”.

57. Aquilo que Marcuse chama “unidimensionalidade” é a generalização do instrumentalismo como senso comum, substituindo ideias e atitudes normativamente carregadas que antes moldavam a relação cotidiana com o mundo, sendo isso politicamente significativo.

Excurso: Heidegger ou Marcuse

58. Em 1949, Heidegger declarou que a agricultura é hoje indústria alimentar mecanizada, em essência o mesmo que a produção de cadáveres nas câmaras de gás e campos de extermínio, o mesmo que o bloqueio e a fome de países, o mesmo que a produção de bombas de hidrogênio.

59. Pode ser tentador interpretar Marcuse nessa veia, descartando ele reformas menores do sistema por apenas perpetuarem a unidimensionalidade, podendo sua “Grande Recusa” ser tomada por rejeição completa da sociedade tecnológica.

60. Para Marcuse, certos valores têm conteúdo “transitivo” indicando as potencialidades bloqueadas da sociedade, contendo a persistência desse conteúdo, apesar dos esforços para eliminá-lo, promessa, abrindo O Homem Unidimensional reconhecendo ambiguidade entre desespero e esperança.

61. O Gestell heideggeriano, o esqueleto matemático de sociedade tecnificada, não é tão contingente, sendo quase total, sem conteúdo transitivo oculto, não podendo para ele a ação alterar o revelar tecnológico, parecendo acreditar que tentativa de mudá-lo simplesmente reproduziria seu domínio.

62. Mas na medida em que a versão marxista marcuseana da ontologia depende da prática social, não pode manter separação tão nítida entre os níveis ontológico e ôntico, ocorrendo, como na teoria lukacsiana da reificação, a interação entre níveis através de lutas pelas quais atores sociais intervêm na constituição da sociedade.

63. Para Marcuse, essas lutas devem culminar em novo conceito de razão, nova disposição ontológica orientada à vida e capaz de guiar a transformação da ciência e da tecnologia, mas diferentemente de Lukács, com sua confiança na luta de classes, não tem estratégia para quebrar o domínio da racionalidade tecnológica.

64. Como poderia ter ido essa reconstrução? talvez Marcuse tivesse revisado sua crítica ontológica em vista das forças sociais que impõem restrições ambientais à indústria e humanizam disciplinas técnicas como a prática médica.

Aberturas Epocais

65. A decisão marcuseana de recorrer à fenomenologia numa crítica social da ciência é intrigante, por que não simplesmente dizer que a ciência é ideologia capitalista sem enfeites? usa de fato o termo “ideologia” para descrever ciência e tecnologia.

66. Para criticar a ciência em nível fundamental, e não apenas usos ou abusos específicos, Marcuse precisa elaborar tipo diferente de relato histórico, querendo mostrar que a ciência é moldada por sua época capitalista mas também universal para sua época.

67. Existem diferentes modos de construir tal teoria, propondo Heidegger o que chamou “história do ser”, segundo a qual cada época cai sob horizonte específico de inteligibilidade, sendo essa teoria interessante mas baseada em conceito especulativo de ser como fonte das disposições epocais.

68. O marxismo também tem concepção epocal baseada na história dos modos de produção, mas a relação dessa concepção com a ciência natural nunca foi plenamente esclarecida, tendo Marx abandonado rapidamente sua crítica inicial da ciência nos Manuscritos.

69. História e Consciência de Classe de Lukács foi a primeira tentativa dentro do marxismo de alcançar explicação teórica penetrante para o viés da racionalidade sob o capitalismo, desenvolvendo o conceito de “reificação” o conceito marxiano de fetichismo da mercadoria.

70. O pensamento reificado obscurece o caráter dialético da vida social e o papel do sujeito na constituição do mundo social, expondo a sociedade ao mesmo tipo de racionalidade científico-técnica que prevalece no estudo da natureza.

71. Marcuse estende a crítica da reificação à ciência e à tecnologia, que agora têm função política no capitalismo avançado, ligando a racionalidade formal da ciência à dominação de classe, afirmando que a ciência corresponde a mundo específico de experiência essencialmente relacionado a sujeito correspondente.

72. A análise marcuseana difere assim da heideggeriana ao argumentar que a concepção instrumentalista da natureza deve-se não à modernidade enquanto tal, mas especificamente a sua forma capitalista, referindo-se ao conceito sartreano de “projeto”.

73. A experiência é socialmente construída sob o a priori de um projeto, não sendo esse porém o a priori transcendental kantiano, trazendo Marcuse-o à terra como “modo específico de ver dentro de contexto prático finalístico”.

74. O que precisamente isso significa? a resposta é a ideia galileana despojada das qualidades primárias da natureza, caracterizadas por relações calculáveis e previsíveis entre unidades exatamente identificáveis, sendo essa a fonte daquilo que Marcuse chama “horizonte instrumentalista da física matemática”.

75. Note-se que o instrumentalismo, nesse sentido, não é a única relação técnica possível, respondendo outras relações como cultivo e criação artística às potencialidades de seus objetos, podendo empregar métodos similares aos da ciência num contexto organizado em torno dessas potencialidades.

76. A crítica marcuseana da ciência não é a crítica ideológica usual, não refletindo seus princípios básicos qualquer ideia substantiva ligada a classe específica, tendo viés mais sutil: sua própria neutralidade quanto a valores é seu viés.

77. A atribuição da ascensão da ciência a sistema socioeconômico específico sugere a possibilidade de mudança através de ação política, acreditando Marcuse que revolução modificaria não apenas arranjos econômicos mas o próprio ser.

Lógica Transcendental como Crítica

78. O ensaio marcuseano de 1941 “Algumas Implicações da Tecnologia” descreve a cisão entre razão crítica e técnica no capitalismo contemporâneo, retomando O Homem Unidimensional esse tema, dependendo aqui seu tratamento de sua ontologia dialética.

79. A teoria marcuseana dos universais formais depende de sua interpretação da lógica formal, referindo-se esses universais a qualidades e quantidades abstratas que podem aparecer em proposições como “S é P”, determinando essa estrutura lógica formal tipo específico de conhecimento.

80. Universais formais descontextualizam seus objetos e evacuam seu “conteúdo”, sua natureza essencial, reduzindo-os a conjunto de qualidades e quantidades acidentais classificáveis e quantificáveis segundo a função que servem num sistema de controles instrumentais.

81. Por contraste, a lógica dialética trabalha com universais substantivos, envolvendo estes idealização, redução de contingência que possibilita a conceitualização de uma essência, não se referindo a essência de universais sociais como paz, liberdade e justiça diretamente a suas instanciações dadas.

82. A teoria dos universais substantivos depende de forma única de realismo conceitual, não sendo as coisas particulares isoladas e independentes, mas suas conexões essenciais perceptíveis apenas através de conceitos, sendo estes idênticos e diferentes ao mesmo tempo dos objetos reais da experiência imediata.

83. A filosofia sofre assim o mesmo destino da imaginação e da criação artística, sendo em todos esses domínios a exigência de realidade melhor embotada através da marginalização das visões perigosas em que a verdade tenta brilhar.

84. Do ponto de vista do pensamento formal, os universais substantivos que revelam as potencialidades do ser aparecem como mera fantasia, refletindo-se a cisão entre essas lógicas na cisão correspondente entre razão e imaginação, fato e valor, realidade e arte.

85. Aqui está o núcleo do argumento marcuseano: universais formais são livres de valor no sentido de que não prescrevem os fins dos objetos que constroem conceitualmente como meios, mas são carregados de valor em sentido mais profundo.

86. Metodologicamente, esse viés aparece na recusa, ou incapacidade, de integrar história e contextos sociais como cena de desenvolvimento, restringindo a abstração formal seu alcance ao objeto artificialmente isolado e reificado tal como imediatamente aparece.

87. Isso explica por que o viés formal é aspecto intrínseco dos sistemas formais, ignorando, ao abstrair objetos de seus contextos, a dimensão da realidade que aponta para “possibilidades reais” de desenvolvimento progressivo.

88. Marcuse conclui que formalização e funcionalização são, antes de toda aplicação, a “forma pura” de prática societária concreta, aplicando essa lógica a ciência e tecnologia em geral: o sistema hipotético de formas e funções torna-se dependente de outro sistema, universo pré-estabelecido de fins.

89. Enquanto universais formais coexistem com a “segunda dimensão” dos universais substantivos, a cultura reflete as contradições da sociedade de classes, podendo formular-se potencialidades transcendentes da sociedade nessa cultura dividida, ainda que apenas em forma religiosa, artística ou metafísica.

90. Nas sociedades industriais avançadas, porém, argumenta Marcuse, a segunda dimensão é cada vez mais substituída por conceitos extraídos do aparato da racionalidade tecnológica, sendo o pensamento e a ação transcendentes bloqueados conforme todo aspecto da vida social é articulado exclusivamente através de universais formais.

91. O elo entre essa forma de instrumentalismo e a dominação torna-se aparente no paradoxo das sociedades avançadas, cada vez mais efetivas em controlar não apenas a natureza mas também os seres humanos, avançando todo progresso no poder do pensamento formalista também a supressão dos seres humanos.

Conclusão: Neutralidade como Viés

92. O mercado não faz favoritismos, e ninguém controla seus movimentos, não sendo porém mediador neutro dos desejos humanos, tendo dinâmica própria com efeitos independentes de seu papel em unir compradores e vendedores, alguns desses efeitos desastrosos.

93. Marcuse suplementa a crítica marxiana da economia política com crítica dos sistemas técnicos do capitalismo, sistemas que agora constituem o mundo social junto com, e em certa medida no lugar de, o mercado, despedaçando essa nova crítica a ilusão de neutralidade.

94. O conceito weberiano de racionalização foi avanço importante na compreensão dos novos desenvolvimentos, mas pressupôs controle a partir de cima, excluindo assim a priori qualquer organização mais democrática da sociedade.

95. Mas segundo a crítica ontológica, o viés da racionalização é consequência da própria natureza da razão técnica, sendo esta neutra em certo nível, mas sua própria neutralidade a subordina à dominação e assim a vincula à sociedade de classes.

96. Essa interpretação ligaria o projeto científico, antes de toda aplicação, a projeto societário específico, vendo o elo precisamente na forma interna da racionalidade científica: é precisamente seu caráter neutro que relaciona a objetividade a Sujeito histórico específico.