FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.
Recordando Marcuse
1. O primeiro encontro com Herbert Marcuse ocorreu em 1965, logo após ele ingressar no departamento de filosofia da nova Universidade da Califórnia em San Diego, parecendo a mudança para as palmeiras e praias do sul californiano contradizer o pessimismo sombrio de seus escritos.
2. Marcuse era figura de destaque em San Diego, tanto como inspiração política quanto como acadêmico, tornando-o sua crítica intransigente à Guerra do Vietnã herói dos estudantes de esquerda, embora seus cursos fossem rigorosos, comportando-se em sala apenas como dedicado professor de história da filosofia.
3. Marcuse via Hegel, Husserl e, com sérias reservas, Heidegger como grandes filósofos idealistas com quem ainda mantinha diálogo, tomando de Hegel a ideia de que cada estágio histórico vive à sombra de futuro melhor cuja realização obstrui.
4. Marcuse acreditava, talvez incorretamente, ter tomado muito pouco de seu mestre Heidegger, jamais tendo se dissipado sua decepção com o nazismo deste, ainda que reconhecesse a importância do caminho falso heideggeriano como avanço aos limites externos da filosofia burguesa.
5. Marcuse criticava a abordagem fenomenológica inicial de Heidegger por abandonar o terreno concreto da história, havendo porém algo correto numa filosofia que resistia à hegemonia dos “fatos”, o naturalismo cientificista acrítico então predominante na filosofia americana.
6. Mesmo antes de tornar-se famoso, Marcuse era a estrela do departamento de filosofia de San Diego, ganhando sua erudição e charme o respeito de muitos cientistas nessa universidade dominada pela ciência.
7. Quando Angela Davis, sua estudante, foi acusada de assassinato e colocada na lista dos mais procurados do FBI, ele a defendeu publicamente, atraindo atenção indesejável da direita, chegando a receber ameaças de morte que levaram estudantes a patrulhar sua casa.
8. Marcuse é hoje lembrado principalmente por sua notável proeminência no final dos anos sessenta e setenta, tendo poucos filósofos alcançado tal fama, não sendo apenas “intelectual público” mas celebridade midiática, exatamente o tipo de figura que criticava em seus escritos.
9. Presenciou-se o momento em que ele descobriu esse status paradoxal, encontrando-se já bem conhecido na esquerda americana e alemã mas ainda não mundialmente famoso, chegando a Paris em maio de 1968 para conferência da UNESCO sobre Marx justamente quando eclodia o maior movimento de protesto dos anos sessenta.
10. Os Eventos de Maio foram precipitados por movimento sem paralelo então ou depois num país industrial avançado, tendo revolta estudantil nacional sido acompanhada por greve geral que mobilizou quase dez milhões de trabalhadores.
11. Ao entrar no salão da conferência da UNESCO, Marcuse foi cercado por jornalistas, sem saber que campanha de imprensa da semana anterior o havia pintado como “ídolo” da revolta estudantil, refutando os jornais semanas depois sua própria estimativa inflada de seu papel.
12. Observando o desconforto de Marcuse diante dessa atenção inesperada, jovem repórter ofereceu-se para ajudá-lo a escapar, encontrando-se logo em pequeno carro fugindo da cena, para grande alívio de Marcuse, que pediu para encontrar a delegação norte-vietnamita nas negociações de paz de Paris.
13. No hotel Lutetia, foram recebidos por delegado responsável pelas relações públicas, homem pequeno e magro que iniciou a conversa elogiando a grande idade de Marcuse, surpreendendo-o isso pois não se via como “ancião dos dias”.
14. No caminho de volta ao hotel, Marcuse foi reconhecido por estudantes que haviam acabado de tomar a Escola de Belas Artes, convidando-o a discursar em sua assembleia geral, saudando-os em nome do movimento americano e elogiando sua rejeição à sociedade de consumo.
15. O marxismo de Marcuse diferia muito da “ortodoxia” predominante entre a maior parte da esquerda francesa da época, tendo, como seus colegas Horkheimer e Adorno, perdido a esperança numa revolução proletária previsível.
16. A nova contradição da sociedade, sucedendo a agora silenciada luta entre capital e trabalho, consistia no contraste entre sua imensa riqueza, suficiente sob o socialismo para garantir segurança e lazer a todos, e a interminável corrida competitiva por suprimento crescente de mercadorias privadas.
17. Marcuse logo identificou essa ameaça com os Eventos de Maio de 1968, última grande erupção de oposição ao capitalismo avançado, correspondendo seu célebre slogan, “Todo Poder à Imaginação”, exatamente à sua visão radical.
18. Marcuse reconheceu-se nos estudantes rebeldes em todo o mundo, que por sua vez se reconheciam nessa figura de passado heroico, encontrando jovens que rejeitavam a sociedade de consumo nele aliado ao praticarem a “Grande Recusa” sobre a qual escrevia.
19. O que fazia de Marcuse símbolo desse momento? não sendo extravagante nem buscando publicidade, seus escritos eram considerados obscuros, sendo difícil crer que fossem amplamente lidos apesar de vendidos em grande número.
20. É aqui que Marcuse, como seu amigo Lucien Goldmann, diferia de muitos participantes da conferência da UNESCO, tendo Goldmann expressado indignação por discutirem revolução enquanto a verdadeira acontecia nas ruas fora do salão.
21. Após Marcuse deixar Paris, conheceu-se marxista italiano célebre no pátio da Sorbonne recém “libertada” pelos estudantes, queixando-se este de que haviam criado bagunça, “casino, casino!”, e não revolução.
22. Como explicou depois, foi mera coincidência que suas ideias o vinculassem a movimento que ele tampouco previra, mas que coincidência! Marcuse pedia sociedade menos repressiva que valorizasse paz e prazer sobre guerra e sacrifício.
23. Essas ideias, desenvolvidas com rigor filosófico em seus livros e discursos, eram todas temas do movimento, tornando-se rapidamente clichês, tendo se especulado muito sobre suas ideias quanto à sexualidade.
24. Para explicar a instrumentalização do sexo pelo sistema capitalista, introduziu o conceito de “dessublimação repressiva”, argumentando que o foco intenso na atratividade e atividade sexuais não era libertador, mas parte do processo mais amplo de conter a energia libidinal dentro dos limites da sociedade existente.
25. Uma visão distópica compartilhada da sociedade americana constituiu a mais interessante das convergências coincidentes entre Marcuse e o movimento, experimentando a Nova Esquerda a América como sistema fechado capaz de repelir ou absorver oposição.
26. Esses temas atraíam geração de jovens crescidos na América dos anos cinquenta, quando a ideologia do progresso estava em seu auge, sendo mestres do átomo e tendo posto um homem na lua, não menos significativa a integração dos sindicatos à sociedade de consumo.
27. Paradoxalmente, porém, ao final dos anos sessenta, a visão distópica de críticos sociais isolados como Marcuse encontrou eco em movimento de massa, tornando-se para esse movimento a luta contra a Guerra do Vietnã substituto da luta contra o império tecnológico doméstico.
28. Além dessas convergências de ideias, havia peculiar carisma em sua pessoa, evidente aos presentes nas muitas reuniões de protesto em que discursava, não se entregando a gestos emocionais e floreios retóricos de orador político.
29. Talvez algo mais profundo operasse nessa presença surpreendente: participara jovem, como recruta, do conselho de soldados de Berlim na revolução alemã pós-Primeira Guerra, fugira dos nazistas e trabalhara por sua derrota durante a Segunda Guerra e, logo depois, pela desnazificação alemã.
30. A presença marcuseana evocava espécie de mentoria, ensinando pelo exemplo o valor de uma vida de engajamento político, podendo essa impressão de seu impacto explicar-se pela teoria da experiência que compartilhava com seus colegas frankfurtianos.
31. Erfahrung registra o real em nível subconsciente e transforma quem a vivencia, enquanto Erlebnis é resposta defensiva à velocidade e ao choque da vida cotidiana moderna, deixando essas experiências modernas poucos traços em contraste com a profundidade existencial de Erfahrung.
32. A longa experiência política e o profundo conhecimento marxista de Marcuse geravam desacordos ocasionais com os jovens revolucionários que o recebiam com tanto entusiasmo, exortando-os constantemente a atentar à teoria e ao trabalho organizacional.
33. Esses desacordos revelaram-se porém menores, permanecendo Marcuse solidário ao movimento como “verdadeiros herdeiros históricos da grande tradição socialista”, tendo a Nova Esquerda algo a ensinar-lhe, não estando sua experiência histórica ainda encerrada.
34. Do movimento extraiu revisão de seu distopismo anterior, sendo a sociedade unidimensional desafiada no nível cultural, senão efetivamente no político, significando revolução cultural nesse contexto política na “dimensão profunda” da psique, no nível das necessidades e identidades.
35. Agora afirmava que essa força esmagadora de integração social encontrava resposta em nova forma de resistência, não meramente questão de opinião política ou crítica intelectual, mas revulsão existencial mais profunda diante da destrutividade do sistema.
36. Suas ações eram mais ou menos espontâneas e assim difíceis de prevenir, inovando, na ausência de acesso à mídia de massa, novas formas de atrair atenção, como manifestações dramáticas e até palhaçamente teatrais de dissidência.
37. Marcuse jamais imaginou que estudantes pudessem derrubar o sistema, insistindo sempre que a revolução, se possível, só poderia ser obra da massa da população, revelando antes a Nova Esquerda e a contracultura “nova sensibilidade” capaz, se generalizada, de desestabilizar a sociedade.
38. Foi estudando com Heidegger no final dos anos vinte e início dos trinta que Marcuse fez sua primeira contribuição à teoria marxista: nova teoria da disposição revolucionária como postura existencial crítica do mundo social, não a noção tradicional de consciência de classe.
39. O que o entusiasmava na Nova Esquerda era o retorno de política existencial, política de recusa global da sociedade existente e das identidades que sustentava, rebelando-se o próprio ser dos indivíduos contra as pressões conformistas do mundo pós-guerra.
40. A Nova Esquerda renovou assim o poder do negativo, força motriz por trás da história, não sendo o simples fato da negatividade politicamente significativo em si, mas tornando-se assim por sua rejeição da guerra e do racismo, demanda por sociedade justa privilegiando solidariedade sobre competição.
41. Interpretada em termos da tradição moral e estética, a “nova sensibilidade” da Nova Esquerda representava nova forma de individualidade e novo modo de experiência que desafiava o capitalismo em busca de sociedade mais humana.
42. Por que a estética? como observa Charles Rachlis, a construção de existência livre é empreendimento estético por ser guiado por critérios tradicionalmente característicos das obras de arte, deixando a percepção de confinar-se ao dado e tornando-se crítica segundo esses critérios: beleza, harmonia, foco no essencial.
43. Para Marcuse, porém, não bastava que o pessoal se tornasse político, sendo necessário também que o político se tornasse tecnológico, juntando-se aqui seu pensamento ao dos participantes mais radicais do movimento.
44. Marcuse não era porém tecnófobo, não propondo retorno a condições pré-modernas, mas argumentando que a imaginação poderia informar o design tecnológico e realizar os valores do movimento na própria estrutura das máquinas.
45. Essas especulações sobre tecnologia revelaram-se proféticas: uma geração de protesto ambiental refutou antigas noções deterministas e tecnocráticas, motivando novo espírito de preocupação com a natureza vasto movimento de transformação tecnológica em resposta à mudança climática.
46. O que fazer desses desenvolvimentos tardios no pensamento marcuseano? embora suas ideias pareçam remotas após quarenta anos de desenvolvimentos políticos e econômicos crescentemente reacionários, o horizonte da política radical não mudou muito desde então.
47. Exigia “rebelião e mudança na existência humana” e “redefiniu o conceito de revolução”, consequências da ruptura com a velha esquerda que persistem, não tomando mais a atividade política de esquerda, em sua maior parte, a forma de militância partidária.
48. Feminismo, igualdade racial, ambientalismo e várias alternativas democráticas ao capitalismo sobrevivem como ideais, apesar do que Marcuse chamou “contrarrevolução preventiva” que reagiu à ascensão dessa nova forma de radicalismo.
49. Apesar de terem influenciado seu pensamento, o pensamento político de Marcuse vai muito além do deles, sendo a política benjaminiana revolucionária mas esboçada apenas em aforismos brilhantes, abraçando a polêmica adorniana contra a “identidade” não apenas a versão capitalista repressiva da unidade social.
50. Marcuse, ao contrário, reteve e transformou o projeto filosófico clássico de reconciliação entre indivíduo e sociedade, seres humanos e natureza, sujeito e objeto, explicando essa fidelidade a esse projeto por que é o único membro da Escola de Frankfurt a ter elaborado teoria política revolucionária.
51. O eclipse do pensamento marcuseano representa surpreendente reversão de fortuna, tendo centenas de milhares de cópias de seus livros sido vendidas, sendo por certo tempo o rosto público da Escola de Frankfurt, não sendo esses livros meras popularizações mas obras filosóficas difíceis e inovadoras.
52. Foi Marcuse o romântico ingênuo por que hoje frequentemente é tomado? romântico, sim, mas não ingênuo, estando bem ciente do perigo de subestimar os obstáculos à transformação radical da condição humana.
53. Talvez a pintura lembrasse Marcuse da advertência implícita no poema de Auden sobre como tudo se afasta tranquilamente do desastre no Ícaro de Brueghel, cuidado idealistas!
54. A autoironia da posição marcuseana merece ênfase: apesar de sofrer decepção terrível, não desistiu da esperança, destacando-se dois motivos para não ter perdido o ânimo após todas as catástrofes trágicas do século vinte.
55. Marcuse certa vez escreveu que “a teoria crítica preserva a obstinação como qualidade genuína do pensamento filosófico”, caracterizando essa recusa obstinada do compromisso intelectual toda sua vida e obra, apesar de tantas circunstâncias desfavoráveis.
56. Na lápide de Marcuse está inscrito Weitermachen, “continuar em frente”, tendo ocupado postura única dentro da Escola de Frankfurt, recorrendo produtivamente a toda a tradição da filosofia ocidental para traçar direção ao futuro.