FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.
Introdução
1. Por vários anos após 1968, Herbert Marcuse foi um dos dois filósofos mais famosos do mundo, ao lado de Sartre, devendo-se sua fama a Eros e Civilização e O Homem Unidimensional, que representam as aspirações utópicas e os temores distópicos da época.
2. Muito mudou desde então, tendo o teórico político Raffaele Laudani chamado O Homem Unidimensional de livro “intempestivo” dadas as diferenças entre o Estado de bem-estar integrado então criticado e o capitalismo neoliberal atual, defendendo porém as muitas antecipações marcuseanas das tendências políticas correntes.
3. Após período de eclipse, o interesse por Marcuse aumenta, sendo sua crítica ao capitalismo avançado mais concreta e politicamente óbvia que a de seus colegas frankfurtianos Horkheimer, Adorno e Benjamin, inspirando escritos recentes sobre política midiática e movimentos sociais.
4. Essas contribuições políticas representam desafio implícito à tendência derivada de Habermas e seu sucessor Axel Honneth, na qual o teórico crítico Michael J. Thompson vê a “domesticação da Teoria Crítica”.
5. Este livro ocupa-se primariamente da filosofia marcuseana, especialmente seus aspectos mais intrigantes e difíceis, sendo porém suas visões filosóficas inseparáveis de sua política, particularmente verdadeiro isso quanto à sua crítica da ciência e da tecnologia.
6. Apesar do interesse do próprio Marx pela tecnologia, surpreendentemente poucos filósofos marxistas tratam do tema, tendo porém a pandemia de COVID-19, a crise ambiental e o crescente temor da vigilância recolocado a tecnologia na agenda.
7. O ambientalismo só se tornou questão pública importante ao final de sua vida, mas sua defesa da proteção da natureza contra a força destrutiva da tecnologia estava profundamente enraizada em sua filosofia, não sendo essa crítica porém irrestrita.
8. Tendo sido um dos últimos estudantes de Marcuse, sem jamais ter sido seu discípulo, sua obra inspirou o interesse pela tecnologia, interpretando-se aqui seu pensamento como contribuição àquilo que no mundo anglófono se chama filosofia continental.
9. Lamenta-se não ter tido oportunidade de debater essas questões com ele em vida, tendo sido lenta a compreensão de todas as implicações das próprias reservas quanto a seu pensamento, criado literalmente em meio à comunidade científica.
10. O objetivo não é oferecer visão geral da obra completa marcuseana, mas concentrar-se em vários dos episódios mais significativos de seu desenvolvimento, incluindo seu trabalho inicial sobre Hegel e sobre os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 de Marx.
11. A obra marxista inicial de Marcuse foi escrita sob influência da fenomenologia heideggeriana, tendo porém, mesmo enquanto estudava com Heidegger, oferecido frequentemente correções marxistas à abstração excessiva do pensamento de seu mestre.
12. Essa avaliação tardia marcuseana de sua relação com o pensamento heideggeriano parece apenas parcialmente correta, não tendo sido nem tão leal heideggeriano na juventude nem tão livre de sua influência posteriormente quanto afirma.
13. Não se argumenta que Marcuse tenha permanecido heideggeriano, com todas as duvidosas associações políticas que isso implica, mas que sua obra retoma certas conquistas técnicas da fenomenologia e as incorpora ao marxismo, com o propósito de fornecer relato da subjetividade ausente na tradição marxista.
14. Chegou-se a essa conclusão refletindo sobre o que o próprio Marcuse chama de exigência “ultrajantemente anticientífica” de “libertação da natureza”, exigência contraintuitiva que é apenas a mais extraordinária de muitas outras noções intrigantes.
15. Os escritos iniciais marcuseanos já anunciam os conceitos básicos da obra posterior, sendo dois especialmente importantes: razão, capacidade de conhecer o universal e criar livremente projetos transcendentes ao dado; e potencialidade, a insatisfação perpétua dos entes com seu estado atual ao aspirarem a estado superior.
16. A razão opera com conceitos universais que permitem ordenar o fluxo infinito da experiência num mundo coerente, compreensível racionalmente segundo sua natureza e as leis que o movem, sendo também porém disposição subjetiva, modo de ser.
17. A razão constitui base da crítica e assim possibilita a consciência revolucionária, formando ponte entre o conhecimento objetivo do capitalismo representado pela teoria marxista e a ação subjetiva que o desafia, mediando o conceito de potencialidade entre ambos.
18. Desde Platão, os filósofos sabem que o trabalho ordenador da razão é incompleto, não sendo nenhum triângulo desenhado realmente um triângulo, nem nenhum objeto branco perfeitamente branco, não podendo assim os conceitos reduzir-se aos particulares.
19. Essas potencialidades são reais, não simplesmente como projeções teóricas mas em sentido forte que implica ontologia à qual Marcuse repetidamente se referiu sem jamais elaborar plenamente, devendo a consciência das potencialidades sociais ser atribuída à imaginação.
20. Compreende ele a tensão entre real e ideal em termos hegelianos como verdade do negativo, não sendo o universal meramente diferente do particular mas “negando-o”, condenando sua imperfeição e implicando o sujeito na realização de suas potencialidades.
21. A imaginação é faculdade psicológica tanto quanto fonte de insight sobre a realidade, vinculando Marcuse, ao atribuir-lhe papel cognitivo essencial, ontologia a psicologia, desenvolvendo Eros e Civilização essa conexão com base na teoria freudiana dos instintos.
22. Na interpretação marcuseana de Freud, a imaginação associa-se ao erótico, em sentido generalizado compreendido como afirmador da vida, sendo a vida motilidade, devir, desenvolvimento, constituindo a lacuna entre realização imaginada e condição atual dos entes particulares o estímulo ao desenvolvimento.
23. A realização utópica do universal não é resolução estática da contradição entre conceito e objeto, mas seu desdobramento sob condições sociais que permitam desenvolvimento contínuo das capacidades humanas, sendo óbvia a aplicação marxista dessas ideias.
24. Em O Homem Unidimensional, Marcuse argumenta que entre as condições do socialismo está a transformação da tecnologia, que hoje fornece ambiente vital total, “mundo” em sentido fenomenológico, tendo sido o único membro da Escola de Frankfurt a tratar detalhadamente da tecnologia.
25. O conceito marcuseano de racionalidade tecnológica ecoa essa crítica mas a concretiza, sugerindo forma alternativa de racionalidade correspondente ao espírito de uma sociedade socialista, podendo parecer abstrato mas abrindo caminhos concretos para crítica e reforma.
26. O impulso por trás da crítica marcuseana da tecnologia remonta ao que Habermas chamou depreciativamente de “esperança secreta” da primeira geração frankfurtiana por harmonia entre seres humanos e natureza, sendo a unidade sujeito-objeto prometida pela filosofia idealista fonte mais significativa dessas aspirações harmonistas que o Schwärmerei romântico aludido por Habermas.
27. O marxismo demonstrou a futilidade dessa promessa sob o capitalismo ao mesmo tempo em que a renovava para um futuro socialista, tentando Marcuse trazer o conceito idealista de unidade sujeito-objeto à terra e reconstruí-lo como categoria social.
28. A tecnologia sob o capitalismo opõe seres humanos e natureza em luta fatal para ambos, enquanto sob o socialismo tecnologia reformada poderia proteger o mundo natural e favorecer forças na natureza que contribuem ao bem-estar humano, sendo estes os conceitos básicos desenvolvidos no que segue.
Revisão dos Capítulos
29. O primeiro capítulo constitui reminiscência de Marcuse tal como visto por seu estudante e ativista em vários movimentos políticos na França e nos Estados Unidos, tendo compartilhado semana em Paris durante os eventos de maio de 1968.
30. O segundo capítulo discute o ensaio marcuseano de 1932 sobre os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, buscando interpretação não metafísica da noção marxiana de constituição do mundo pelo trabalho sem trivializá-la ou tratá-la como metáfora.
31. O terceiro capítulo aborda a interpretação marcuseana de Hegel, tendo a dialética hegeliana oferecido resolução ao dilema entre ética formalista e adaptação conformista à realidade, definindo-se a ideia de potencialidade como “segunda dimensão” crítica da realidade.
32. O quarto capítulo explica a interpretação marcuseana de Freud, tornando-se concretas através da teoria psicanalítica suas categorias ontológicas de imaginação e vida exploradas em obra anterior.
33. O quinto capítulo discute a afirmação marcuseana de que ciência e tecnologia são ideológicas, identificando-se aqui vertentes distintas dessa crítica, concernindo uma à função legitimadora da tecnologia no capitalismo avançado, outra ao viés social no conceito de racionalização, e uma terceira ao viés da própria racionalidade científico-técnica.
34. O sexto e último capítulo revisa a intrigante proposta marcuseana de reconstrução estética da racionalidade científico-técnica, contendo essa proposta, apesar de sua implausibilidade, recursos inexplorados para compreender lutas contemporâneas sobre tecnologia e ambiente.
35. Uma breve conclusão revisa o caminho percorrido no livro.
36. O pensamento tardio marcuseano evoluiu em período de turbulência política que antecipou em aspectos importantes as crises atualmente vividas, tendo, com o retorno da calma após o fim da Guerra do Vietnã e o declínio da Nova Esquerda, seu estilo de pensamento saído de moda.