FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.
O Logos da Vida
1. Em 1930, Marcuse publicou sua tese de habilitação, A Ontologia de Hegel e a Teoria da Historicidade, submetida a Heidegger mas nunca aceita, fadada sua carreira acadêmica alemã pela ascensão do nazismo, revelando ainda forte influência fenomenológica.
2. Por que a virada a Hegel? o marxismo é usualmente interpretado como teoria determinista que sofre déficit normativo enorme: por que lutar para trazer o inevitável? o marxismo ortodoxo da Segunda Internacional exemplificou o problema, falhando em mobilizar o proletariado na revolução alemã de 1918-19.
3. História e Consciência de Classe de Lukács argumentou que ortodoxia e revisionismo eram dois lados da mesma moeda, correlacionando-se a ética com concepção fatalista da história, pressupondo o “dever ser” kantiano realidade existente à qual essa categoria permanece inaplicável em princípio.
4. Uma visão cética da ética confirmou-se pelas consequências da sinistra retórica patriótica da Primeira Guerra, tendendo o pós-guerra a desacreditar o idealismo ético, respondendo o existencialismo, tanto na Alemanha quanto na França, a essa degradação da moral.
5. O marxismo oficial foi desacreditado pelo chauvinismo flagrante do movimento socialista durante a Primeira Guerra, buscando Marcuse inicialmente alternativa no conceito heideggeriano de autenticidade, que parecia resolver o dilema entre princípios éticos e acomodação prática a realidade ruim.
6. O que Marcuse buscava em Hegel não era justificação de valores à la Kant, mas prova de sua relevância num mundo que os repele como utópicos, irrealistas ou ideológicos, rejeitando Hegel a tentativa kantiana de fundar a ética em princípios formal-racionais independentes da natureza humana.
7. Marx interpretou o antiutopismo hegeliano como significando que a crítica social exige fundamento na realidade, explicando isso sua rejeição tanto do racionalismo iluminista quanto dos esquemas utópicos socialistas contemporâneos, culminando o primeiro volume de O Capital em capítulo que proclama a expropriação dos expropriadores.
Dialética da Libertação
8. A Filosofia do Direito hegeliana inicia com ataque particularmente feroz ao pensamento utópico, descartando a “picuinha do capricho” que usurpou o nome de filosofia, existindo o mundo ideal do filósofo crítico apenas em suas opiniões, elemento insubstancial onde qualquer coisa pode, em fantasia, ser construída.
9. Hegel ataca não apenas os utópicos mas também formalistas como Kant, sendo o imperativo categórico inútil, demasiado abstrato para determinar qualquer ação particular, sendo a tentativa de distinguir motivações racionais de empíricas fadada ao fracasso.
10. Marx e Engels conseguiram extrair doutrina revolucionária da rejeição hegeliana do utopismo, argumentando Engels que, onde Hegel afirmara que tudo real é racional e tudo racional é real, para o marxismo essa proposição resolve-se na outra: tudo que existe merece perecer.
11. Assim iniciou sua conferência na famosa conferência Dialética da Libertação em Londres em julho de 1967, argumentando que a dialética é libertação do sistema repressivo, ruim, falso, por forças que se desenvolvem dentro de tal sistema.
12. Como muitas conferências marcuseanas desse período, o texto pode ser lido em dois níveis, sendo superficialmente compreensível a qualquer ouvinte, mas havendo, em nível mais profundo, muito mais implicado nas frases “sistema falso” e “logos da vida”.
Possibilidade Real
13. Observa Marcuse que as categorias dialéticas constroem mundo de cabeça para baixo, exagerando Hegel o caráter absurdo e paradoxal desse mundo, mas descobrindo quem segue o processo dialético até o fim que o paradoxo é o receptáculo da verdade oculta.
14. A Crítica da Razão Pura kantiana contrastava possibilidade real com possibilidade formal ou lógica, podendo a mente humana construir objetos imaginários incompatíveis com a experiência possível, sendo tais objetos meras possibilidades formais irrealizáveis.
15. Essa categoria entra no mundo “de cabeça para baixo” hegeliano, tornando-se base para a interpretação marcuseana da dialética histórica, apropriando-se Hegel do conceito geral de possibilidade real, mas não mais definida pelas propriedades da experiência em geral.
16. A atualidade controla certo horizonte de determinações possíveis, realizando em cada caso seu modo de ser-aí certa possibilidade dentro desse horizonte, podendo-se reformular isso dizendo que o realmente possível são as muitas configurações diferentes da coisa atual conformes com sua essência.
17. Hegel complica esse quadro considerando possibilidades reais não meramente compatíveis intrinsecamente com a essência da coisa, mas latentes na própria coisa, sendo possível apenas aquilo derivável do próprio conteúdo do real.
18. Quanto ao crescimento orgânico, ao contrário, o que é possível deve tornar-se real, sendo a realidade atual aquela em que a discrepância entre possível e real foi superada, ocorrendo sua fruição através de processo de mudança.
19. Marcuse interpreta a teoria hegeliana da possibilidade real como alternativa às teorias normativas utópicas e formalistas, distinguindo assim possibilidade real do meramente logicamente pensável por sua relação essencial com o que é atual.
20. Alguns comentadores tomam isso como equivalente àquilo que existe, o que explicaria sua reconciliação com o Estado prussiano, escrevendo Adorno que segundo a distinção hegeliana entre possibilidade abstrata e real, apenas algo que se tornou real é de fato possível.
21. Existe porém outro modo de ler a teoria hegeliana da possibilidade real, alternativa que o próprio Adorno sugere na página seguinte, retirando sua crítica dura ao dizer que a “possibilidade” no sentido enfático é algo para o qual a própria realidade, ainda que fracamente, estende tentáculos.
22. A crítica marxiana da economia política é o ponto de vista objetivo a partir do qual a sociedade revela sua própria imperfeição, o princípio interno de sua própria destruição, aguardando essa destruição a consciência de classe do proletariado.
23. Apenas aquele disposto e cuja missão é criar o futuro pode ver a verdade concreta do presente, sendo essa verdade os “tentáculos” apontando para o futuro, o que Marcuse chama “pedaços e fragmentos” reunidos na experiência estética.
As Duas Dimensões
24. Quando a possibilidade real é considerada nesse duplo sentido, tanto desenvolvimental quanto normativamente “necessária”, Marcuse a chama “potencialidade”, tornando-se esse termo a chave de sua abordagem e a base de sua ontologia “bidimensional”.
25. Foi Aristóteles quem primeiro propôs noção de potencialidade, argumentando que substâncias possuem essência que persiste através da mudança, habitando essa essência a substância e organizando-a em todo coerente.
26. As duas dimensões da coisa são assim sua forma empiricamente dada e suas potencialidades, sendo ambas reais, não apenas os fatos dados, tendo sido nessa base que Aristóteles confrontou versão antiga do fetichismo positivista dos fatos na escola megárica.
27. Na Ontologia de Hegel, Marcuse introduziu as duas dimensões como aspectos dos entes em geral com manifestações diferentes conforme o tipo de ser, sendo a essência do ser a Bewegtheit, usualmente traduzida como “motilidade”.
28. As duas dimensões, atualidade e potencialidade, não são mundos isolados e autossubsistentes a serem posteriormente relacionados, mas dimensões do ser desde o início ontologicamente dependentes uma da outra, continuando a existir apenas uma através da outra.
29. Marcuse interpreta a concepção hegeliana da vida contra pano de fundo de biologia vitalista e do conceito heideggeriano de “mundo” como sistema de referências entre coisas ligadas a um sujeito, enfatizando assim o papel da subjetividade.
30. Hegel rejeita o postulado metafísico aristotélico de essência interna por trás das aparências da coisa, buscando antes explicação para o potencial nas “determinações, circunstâncias e condições” de uma coisa, sendo a Possibilidade Real de um caso a multiplicidade existente de circunstâncias relacionadas a ele.
31. “Essência” descreve essa unidade autorreprodutora que se preserva realizando suas potencialidades através de sua relação com suas circunstâncias, “aparecendo” ao constituir-se como entidade objetiva e significativa dentro de um mundo.
32. Como observa Žižek, para Hegel as circunstâncias externas não são impedimento à realização de potenciais internos, mas ao contrário a própria arena em que a verdadeira natureza desses potenciais internos é testada.
33. Hegel salva assim a ideia central aristotélica de que a potencialidade não é meta extrínseca imposta à coisa mas pertence à sua própria natureza, derrubando porém o conceito aristotélico da coisa como “substância” autocontida com essência interna apenas acidentalmente relacionada a suas aparências.
34. Aqui temos outra influência importante sobre a resenha marcuseana dos Manuscritos, prevalecendo, subjacente às relações causais contingentes e conflitos entre vida e ambiente, unidade mais fundamental: essa unidade é “mundo”, a cena de correlação mútua, necessidade mútua.
Da Filosofia à Teoria Social
35. Após Marcuse ingressar na Escola de Frankfurt, largamente abandonou referências fenomenológicas, mas as linhas principais da interpretação inicial da dialética foram retidas, professando Razão e Revolução marxismo que transcendeu a filosofia na teoria social.
36. No entanto, a ontologia inicial marcuseana consiste primariamente em relato formal da estrutura da motilidade, não sendo seu caráter abstrato defeito fatal mas, ao contrário, permitindo-lhe descrever dinâmica de desenvolvimento, exatamente o que o relato marxista da história real implica.
37. Nos anos trinta e quarenta, quando Marcuse desenvolveu sua interpretação madura de Hegel, confinou explicitamente a dialética ao domínio da história, evitando assim a suspeita de metafísica que aparece em sua obra inicial e novamente após a guerra.
38. A abordagem estritamente histórica da dialética é evidente no ensaio marcuseano de 1936 sobre “O Conceito de Essência”, onde retoma o conceito de possibilidade real mas acha a definição hegeliana demasiado abstrata, sendo a realidade não mera “multiplicidade existente de circunstâncias” mas estrutura organizacional analisável.
39. Nove anos após a publicação de seu primeiro livro sobre Hegel, Marcuse retornou a seus temas com intenção explicitamente política, enfatizando em Razão e Revolução o papel da negação, sendo o mundo circundante tanto necessário à vida quanto limite a superar.
40. Quais são essas potencialidades? em “O Conceito de Essência”, Marcuse lista conquistas materiais que possibilitam estágio superior de civilização, incluindo também aspirações culturais projetadas pela imaginação coletiva.
41. A essência torna-se agora objeto de luta política em vez de categoria puramente conceitual, argumentando Marcuse em Razão e Revolução que o meio da filosofia se deslocou da teoria à prática, sendo o logos filosófico “Razão teórica e prática numa só”.
42. Nos anos sessenta, Marcuse extrai conclusões políticas de sua versão hegeliana do marxismo, explicando O Homem Unidimensional a política da essência em termos da crítica hegeliana da imediaticidade.
43. Marcuse argumenta porém que o capitalismo avançado bloqueia essa mudança, violando o cientismo prevalente o empírico ao aceitá-lo radicalmente, pois nele fala o indivíduo “abstrato” mutilado que experiencia apenas aquilo que lhe é dado.
44. Com o surgimento de “nova sensibilidade” na Nova Esquerda ao final da década, trouxe-se o concreto dialético ao âmbito da experiência, sendo essa sensibilidade informada pela imaginação estética, resistindo à unidimensionalidade reificada.
As Exigências da Razão
45. Digno de nota na descrição marcuseana do potencial socialista do capitalismo é a menção às necessidades “livres” pelo “bom e belo”, indicando a qualificação “livre” que diferem das necessidades básicas de sustento e proteção.
46. Em sua conferência inaugural na Universidade da Califórnia, escreve que a busca filosófica é pelas condições sob as quais o homem pode melhor cumprir suas faculdades e aspirações especificamente humanas, sendo essas condições objetivas porque existe tal coisa como “homem” enquanto animal (potencialmente) racional.
47. Segundo Marcuse, o conceito filosófico de razão significa forma autêntica de ser, representando a razão o mais alto potencial do homem e da existência, pertencendo os dois juntos, sendo a razão inerentemente crítica na medida em que põe potencialidades.
48. Esse tema remonta ao jovem Marx, que escreveu que a razão sempre existiu, mas nem sempre em forma racional, contendo o Estado político especialmente, em todas as suas formas modernas, as exigências da razão, mesmo onde não é ainda consciente de exigências socialistas.
49. Em O Homem Unidimensional, Marcuse definiu esse projeto em termos do conceito de potencialidade, concebido como negação determinada da sociedade existente, mas não existindo agente capaz de realizar essa potencialidade na realidade.
50. Em Um Ensaio sobre a Libertação e Contrarrevolução e Revolta, Marcuse retornou a sua interpretação inicial dos Manuscritos, encontrando ali conceito de sensibilidade que, unido ao conceito de potencialidade, deu forma prática à racionalidade.
51. A introdução da sensibilidade e da necessidade ao lado do pensamento transformou o sujeito da racionalidade, que já não é espectador distanciado da realidade mas ator interessado engajado com o processo vital.
52. Marcuse reivindica que a razão foi desde o início orientada por valor específico: o serviço e a afirmação da vida, manifestando-se essa orientação na relação técnica com o mundo natural.
53. O fato de Marcuse chamar a causa final de “sentido interno” indica que não é meramente meta externa mas aspecto intrínseco da própria razão, sendo essa a compreensão clássica do conceito de causa final, o “logos da vida”.
54. Marcuse argumenta que a techné é superada na modernidade pelo modo científico de experienciar e compreender o mundo, sendo o logos purgado do mundo empírico da ciência moderna, compreendendo esta o mundo em termos das “qualidades primárias”.
55. Não são tanto as ciências naturais “irracionais” no sentido marxiano, mas antes a reificação da sociedade e da consciência cotidiana, dedicando-se boa parte de O Homem Unidimensional a explicar o funcionamento dessa nova forma de razão irracional.
56. Marcuse desenvolve esse argumento através de estudo da linguagem unidimensional, dependendo a crítica da tensão entre palavras e coisas, que o capitalismo avançado se esforça por aliviar, identificando-se rotineiramente as funções que as coisas desempenham no sistema existente com sua natureza essencial.
57. Marcuse aponta segunda forma irracional de razão: esforços para endereçar descontentamentos sociais com reformas que preservam o sistema existente, prolongando a tradução de exigências normativamente carregadas em ajustes menores a injustiça fundamental na base do capitalismo.
58. Como observa Wendy Brown, esse aspecto do argumento marcuseano assemelha-se à abordagem foucaultiana do papel das disciplinas técnicas na vida social, buscando Foucault, como a Escola de Frankfurt, abordar a traição da promessa iluminista de liberdade numa sociedade totalmente racionalizada.
59. Foucault reconheceu tardiamente ter muito em comum com a Escola de Frankfurt, mas diferença é clara: não tinha teoria de como seria forma racional de razão, inibido nisso por sua rejeição de qualquer conceito geral de razão e antropologia.
60. Marcuse não estava assim inibido, fundamentando seu conceito hegeliano de potencialidade, interpretado em termos de antropologia psicanalítica, conceito positivo de racionalidade distinto de sua instanciação em disciplinas técnicas particulares.
A Estrutura Dupla da Potencialidade
61. Por que a racionalidade é tão importante? Marcuse não coloca a razão no centro de sua teoria por mero amor ao pensamento puro, mas porque a razão é o nome dado pela tradição filosófica ao encontro com a essência das coisas.
62. Na visão marcuseana, o acesso a conceitos universais está vinculado à liberdade, ampliando a capacidade de conceder sentido explícito aos objetos e refletir sobre suas possibilidades a margem de decisão e ação do sujeito.
63. É através da imaginação que as potencialidades do presente transmitem imagem do futuro, transcendendo essa antecipação os fatos dados, mas não arbitrariamente, sendo antes latente nos universais identificados pela razão.
64. Nessa visão, a potencialidade é aspecto tanto do mundo quanto do sujeito humano, tendo porém apenas sujeito racional a potencialidade de conhecer essas potencialidades mundanas, sendo assim a potencialidade não apenas atributo do ser em geral mas conscientemente apropriada por ser particular: o ser humano.
65. Ser capaz de conhecer é ser certo tipo de ser com exigências específicas enquanto tal, não sendo a participação no discurso crítico mera preocupação cognitiva mas engajando o sujeito do conhecimento existencialmente, em termos de sua própria potencialidade de ser.
66. O mundo é mundo estranhado e não verdadeiro enquanto o homem não destrói sua objetividade morta e reconhece a si mesmo e sua própria vida “por trás” da forma fixa das coisas e leis, sendo essa a defesa da razão que pertence ao “sentido existencial da verdade”.
67. O conhecimento da potencialidade é animado pelo “eros” freudiano, sendo o logos afirmador da vida tanto erótico quanto cognitivo segundo essa antropologia inspirada em Freud, transcendendo o conteúdo do logos erótico a oposição entre natureza e cultura.
68. Marcuse não postula nem “natureza humana” substantiva nem “fim da história”, mas descobre base para a crítica na razão, seguindo sua política diretamente da estrutura dupla da potencialidade.
69. Em sua visão, o sistema social em que os seres humanos encontram a natureza e uns aos outros favorece ou obstrui a difusão da racionalidade como mais alta potencialidade humana, tendo a sociedade capitalista avançada os recursos para realizar essa potencialidade.
Democracia: A Busca da Felicidade
70. Concluirei este capítulo discutindo a controvérsia provocada pela reivindicação marcuseana de que os valores são objetivos, contradizendo essa reivindicação a noção de senso comum de que valores são questão de preferência pessoal.
71. Ambiguidade similar se prende à noção relacionada de que as necessidades são objetivas, sendo, se sem base racional, os indivíduos livres para conceber sua felicidade como bem entenderem, mas num mundo de propaganda constante a escolha pode bem ser ilusão.
72. Esse é ponto delicado para muitos leitores marcuseanos, parecendo definição objetiva de necessidades desqualificar as intuições de indivíduos comuns, moldadas por sentimentos pessoais e normas sociais em vez de filosofia, contradizendo manifestamente essas as preferências marcuseanas.
73. Nos Manuscritos marxianos, as necessidades são qualificadas como “ontológicas”, sugerindo conexão necessária com os meios de satisfação, registrando Marx também a corrupção dessa conexão pelo dinheiro, tanto pela pobreza quanto pela riqueza.
74. Aqui argumenta que as necessidades não são livremente escolhidas mas relativas à estrutura da sociedade e às oportunidades de gratificação que oferece, devendo decidir-se por considerações racionais, não sentimento não mediado, se tipos específicos de gratificação correspondem às potencialidades objetivas do ser humano.
75. O conceito objetivo marcuseano de felicidade deriva da metapsicologia freudiana, que fornece a base racional para a avaliação de necessidades, permanecendo porém, como Freud, em nível muito alto de generalidade difícil de imaginar discordância.
76. Permanece a questão de como os indivíduos manipulados poderiam vir a experienciar as necessidades concretas correspondentes a essas generalidades e assim libertar-se para a criação de sociedade melhor, escrevendo Marcuse em O Homem Unidimensional que nenhum tribunal pode justamente arrogar-se o direito de decidir quais necessidades devem ser desenvolvidas.
77. Chama-se isso “o dilema da primeira geração”, tendo já preocupado os filósofos iluministas, especialmente Rousseau, que se perguntava como população corrompida pela governança aristocrática poderia aprender a exibir as virtudes de cidadania exigidas por sociedade livre.
78. A solução rousseauniana foi a ditadura educacional, argumentando Marcuse em Eros e Civilização que essa foi resposta razoável ao dilema em tempos anteriores, mas não mais, tornando-se obsoleta a resposta pois o conhecimento dos meios disponíveis já não se confina a elite privilegiada.
79. O compromisso marcuseano com a democracia confirma-se por suas poucas observações sobre a organização política da sociedade socialista, referenciando principalmente a herança do comunismo conselhista, socialismo democrático de base bastante diferente do regime soviético.
80. Mas, como observa Christopher Holman, Marcuse parece medir a legitimidade do debate democrático por sua conformidade com a promessa erótica, escrevendo que os conselhos serão órgãos de revolução apenas na medida em que representem o povo em revolta.
81. A ênfase na qualificação dos participantes levanta a questão da ditadura educacional de modo que se torna agudo no famoso ensaio marcuseano sobre “Tolerância Repressiva”, caricaturado mais de uma vez e recentemente culpado pelos estragos da chamada “cultura do cancelamento”.
82. Marcuse propõe reverter a situação suprimindo o discurso reacionário enquanto privilegia a alternativa progressista, mas essa proposta revela-se mera provocação destinada a desmistificar o mito da tolerância liberal.
83. A questão ressurge na resposta tardia marcuseana ao livro de Rudolf Bahro de 1978, A Alternativa no Leste Europeu, concedendo Bahro aos intelectuais papel de liderança na transição ao socialismo, interpretando Marcuse isso em termos da ideia clássica de ditadura educacional.
84. A mistura de posições é confusa, vendo Holman ambiguidade séria aqui, mas propõe-se que Marcuse pretendia apenas mais uma provocação, chamando a ditadura educacional de “escândalo” e rejeitando-a em conversa com Habermas por volta da mesma época.
85. Essa conversa é reveladora: Habermas insiste que a racionalidade se localiza na comunicação livre e nada tem a ver com a estrutura das necessidades, o nível erótico que Marcuse toma por essencial, respondendo Marcuse que a comunicação não pode nem decolar sem seres humanos cujas necessidades permitam certo grau de solidariedade.
86. Marcuse antecipa a distinção de Chantal Mouffe entre adversários, com quem o desacordo é apropriado, e antagonistas, que caem fora dos limites da discussão, fundamentando a distinção em forte intuição moral articulada em termos da teoria dos instintos freudiana.
87. A relevância do argumento marcuseano hoje é óbvia, herdando do Iluminismo viés natural para pensar a política em termos de opinião e deliberação, mas sendo impossível compreender o século vinte nesses termos.
88. A maré crescente de política autoritária e racista levanta questões fundamentais sobre a democracia, não podendo essas questões ser respondidas sem recurso a categorias psicológicas, sendo a política, por melodramática que possa parecer a visão quase freudiana marcuseana, luta de vida e morte.
89. A memória marcuseana remontava mais longe, a eventos ainda mais horrendos, tendo sua desilusão começado cedo, com sua participação na Revolução Alemã de 1918-19 como estudante recrutado ao exército ao final da Primeira Guerra.
90. Marcuse não teria se surpreendido com o apelo racista do populismo de direita hoje, dizendo numa observação pessoal a Habermas que não conseguiria entender o que acontece hoje sem o conceito freudiano do instinto destrutivo como base, explicação, hipótese.
91. Não obstante, seu fracasso em enfrentar o problema da democracia é, segundo alguns comentadores, “o déficit mais sério na teoria marcuseana”, tendo sua atitude ambivalente quanto à democracia sido certamente influenciada por seu destino desastroso na Alemanha de Weimar e na Guerra Fria americana.
92. Douglas Kellner atribui a ambivalência marcuseana à busca frustrada de sujeito revolucionário, argumentando que deveria ter resistido à tentação de posicionar os intelectuais nesse papel, mesmo como provocação.