Tirania do método

FRINDTE, Wolfgang. Against Narrow-Mindedness and Chauvinism – Journeying Through Absurd Times with Paul K. Feyerabend. Wiesbaden: Springer Fachmedien Wiesbaden, 2026.

1. Em 1975, Feyerabend publicou Contra o método, obra composta como uma colagem de descrições, análises e argumentos anteriores, pela qual se consolidou como crítico impetuoso do racionalismo, conhecedor da história da ciência e opositor da glorificação da atividade científica.

2. A concepção geocêntrica elaborada por Cláudio Ptolomeu situava a Terra imóvel no centro do mundo, ao redor da qual se moveriam os planetas conhecidos, o Sol e a Lua, enquanto Nicolau Copérnico inaugurou a concepção heliocêntrica segundo a qual a Terra gira sobre o próprio eixo e orbita o Sol.

3. Galileu combinou argumentos racionais e um recurso psicológico para reinterpretar a queda vertical da pedra segundo uma nova linguagem fundada nos princípios da inércia e da relatividade.

4. As hipóteses introduzidas por Galileu possuem caráter especulativo e ad hoc, correspondem pouco à percepção sensorial e são apresentadas mediante grande força persuasiva.

5. O procedimento de Galileu, também exemplificado por suas observações lunares, representa para Feyerabend um paradigma da produção do conhecimento, pois suas descobertas não decorreram nem poderiam decorrer de uma prática estritamente científica definida por regras metodológicas fixas.

6. A história da ciência revela que a ideia de um método fixo ou de uma teoria invariável da racionalidade repousa sobre uma concepção excessivamente ingênua dos seres humanos e de suas relações sociais.

7. A fórmula “Tudo vale” não introduz um novo princípio metodológico, mas descreve humoristicamente a situação do racionalista que exige princípios universais e precisa esvaziá-los progressivamente de conteúdo diante da diversidade dos casos históricos.

8. Permanece inicialmente em aberto se Feyerabend pretendia formular uma epistemologia propriamente anarquista ou dadaísta, ou se essas expressões constituíam denominações humorísticas da prática efetiva da atividade científica.

9. O encontro de Feyerabend com Carl Friedrich von Weizsäcker, ocorrido provavelmente em Hamburgo em 1965, levou à compreensão de que razões metodológicas gerais tendem a impedir a pesquisa concreta, em vez de favorecê-la.

10. Em carta dirigida a Hans Albert em 5 de agosto de 1969, Feyerabend manifestou interesse crescente pelo dadaísmo, distinguindo-o do anarquismo pela presença mais intensa do humor, pela recusa do homicídio e pela apresentação pública das obras com intenção crítica e humorística.

11. Feyerabend simpatiza com um anarquismo epistemológico que deve ser distinguido das formas políticas e religiosas de anarquismo.

12. O anarquista epistemológico assume uma postura oportunista e pragmática, reconhecendo a existência de muitas maneiras de abordar a natureza e a sociedade e de avaliar essas abordagens, sem admitir critérios objetivos e universais para julgá-las.

13. As críticas provocadas por essa posição não eliminam os indícios de que algumas manifestações do anarquismo político também despertavam a simpatia de Feyerabend.

14. Ao examinar a defasagem entre ideias progressistas e meios regressivos de observação, Feyerabend recorre à reflexão de Marx sobre a relação desigual entre o desenvolvimento da produção material e o desenvolvimento da produção artística.

15. A referência a Marx não se ajusta inteiramente à defasagem entre teorias novas e ideias antigas, assim como também parecem pouco adequadas as referências a Trotsky sobre a não simultaneidade dos processos históricos e a Lenin sobre o desenvolvimento desigual do capitalismo.

16. A simpatia de Feyerabend por Daniel Cohn-Bendit mostra-se mais compreensível do que suas referências a Marx, Lenin ou Trotsky, embora permaneça incerto se ambos se encontraram pessoalmente em Berlim durante os períodos em que estiveram simultaneamente na cidade em 1968.

17. Em carta a Imre Lakatos, datada de 18 de novembro de 1968, Feyerabend declarou plena concordância com Cohn-Bendit em sua oposição às teorias, organizações e lideranças, bem como em sua defesa da alegria contra o sacrifício.

18. O anarquismo epistemológico de Feyerabend, associado à defesa da separação entre Igreja e Estado e também entre ciência e Estado, manteve certa proximidade com o anarquismo político, mas rejeitou qualquer interpretação que o vinculasse à defesa da violência.

19. Contra o método provocou forte reação entre cientistas que se consideravam guardiões da verdade única, especialistas exclusivos do conhecimento e defensores de um método puro.


** Críticas **

1. Feyerabend redigiu Contra o método em aproximadamente um ano e posteriormente considerou ter expresso nessa obra tudo o que desejava dizer, embora as críticas severas recebidas após a publicação lhe tenham causado profundo sofrimento.

2. A indignação provocada pela obra contribuiu para uma depressão prolongada, vivenciada como uma presença quase corporal que podia desaparecer momentaneamente ao despertar e retornar de modo repentino durante as atividades cotidianas.

3. As objeções dirigidas a Feyerabend foram numerosas e, por vezes, extremamente duras.

4. Ernest Gellner formulou uma crítica abrangente e pessoal a Contra o método, atacando não apenas os argumentos, mas o próprio caráter de Feyerabend.

5. Helmut Spinner chegou a comparar Feyerabend a Adolf Hitler, aproximando o oportunismo metodológico de Contra o método da ausência de princípios atribuída à política nazista.

6. Joseph Agassi reconheceu a existência de elementos interessantes em Contra o método, mas considerou difícil separar o material valioso daquilo que julgava absurdo.

7. Até a publicação de Contra o método, Feyerabend pode ter demonstrado pouco interesse por uma confrontação politicamente engajada com os acontecimentos mundiais e sua história.

8. As reações críticas afetaram profundamente Feyerabend e talvez já fossem pressentidas durante a elaboração de Contra o método, circunstância que pode ter contribuído para o desenvolvimento paralelo de um manuscrito destinado a corrigir a imagem autoconstruída de pensador frívolo.

9. Filosofia da natureza encerra-se com a perspectiva otimista de uma nova ciência filosófico-mitológica, na qual a simpatia pela natureza, a compreensão intuitiva das múltiplas formas de vida e o pleno desenvolvimento da personalidade constituiriam componentes essenciais.

10. Feyerabend passou muitos anos esclarecendo os argumentos de Contra o método, mas Filosofia da natureza talvez tivesse oferecido aos críticos uma resposta mais adequada do que Ciência em uma sociedade livre.