LENDA DOS SERES

GUSDORF, Georges. Le Savoir romantique de la Nature. Paris: Payot, 1985.

** A Natureza, segundo a Naturphilosophie… **

A Naturphilosophie propõe a natureza como a revelação em devenir de um Criador divino, cuja obra é coextensiva à duração do universo, implicando uma relação entre imanência e transcendência que fundamenta teologicamente o evolucionismo romântico.

** A hermenêutica bíblica e a interpretação figurada da criação… **

Uma nova leitura dos textos sagrados, que abandona a interpretação literal do Gênesis, entende o ensino bíblico como uma pedagogia divina proporcional à capacidade mental dos destinatários, permitindo reconciliar a fé com as novas ideias sobre a criação.

** A temporalização da cadeia dos seres e o transformismo… **

Os progressos do espírito de observação evidenciam zonas de passagem entre os degraus da cadeia dos seres, e a descoberta de mutações permite conceber a ideia de uma promoção das formas ao longo do tempo, temporalizando a história natural.

** A obra de Herder e a filosofia da história da humanidade… **

Herder desenvolve, em suas Ideias para a filosofia da história da humanidade, o tema da criação progressiva do universo, onde a luz, o calor e a atração presidem à economia do cosmos, e a força que pensa e age no homem é eterna como a que mantém reunidos os sóis e as estrelas.

** Os biólogos românticos e a especialização científica… **

Ao contrário de Herder, que era um amador, os biólogos românticos são especialistas em história natural que ocupam cátedras universitárias, pretendendo ser naturalistas tanto quanto filósofos e fazendo avançar o conhecimento em áreas como o galvanismo, a botânica e a psicossomática.

** A epistemologia romântica e a ruptura com o mecanicismo… **

A Naturphilosophie se opõe ao mecanicismo fisicalista herdado de Newton, propondo um novo modelo de saber que revela fatos ignorados e renova domínios como as ciências da Terra, recusando a redução do dinamismo vivo a uma ordem mecânica.

** A imaginação criadora e a presença divina na natureza… **

A ciência romântica celebra a imaginação libertadora, cuja norma é a imaginação divina, e o biólogo romântico se sente guiado por uma autoridade superior, pois a doutrina da ciência desenvolve a revelação de Deus, cuja presença anima de dentro o desenvolvimento da natureza.

** A autobiografia como expressão da busca existencial pela verdade… **

Os cientistas românticos escrevem voluntariamente o relato de suas vidas, pois a dimensão autobiográfica responde à sua exigência profunda de que a própria vida é um instrumento de conhecimento, restaurando a historicidade da busca pela verdade.

** O fragmento e a busca pela verdade total… **

Os cientistas românticos, como Ritter e Novalis, utilizam a linguagem do fragmento, pois a verdade total escapa às garras da criatura, e a ordem discursiva por via demonstrativa separa o que estava unido na intenção criadora de Deus.

** A Naturphilosophie como saber total e a prioridade sobre a empiria… **

Steffens afirma que a Naturphilosophie não é uma parte da filosofia, mas ela mesma o conjunto do saber em sua potência formal, possuindo um direito de prioridade sobre a pesquisa empírica, pois a natureza tem seu fundamento em si mesma e é absoluta.

** A aritmologia romântica e os números como hieróglifos divinos… **

A Naturphilosophie é solidária de um panlogismo matemático que vê no zero o princípio primeiro, e os números e figuras geométricas são arquétipos que regem a economia interna da ordem dos seres, sendo hieróglifos divinos onde se enunciam os segredos da vida.

** O panvitalismo romântico e a vida como movimento divino…**

Segundo Oken, a vida é o movimento das coisas finitas resultante da polaridade, e ser e vida são conceitos indissociáveis, pois o sopro de Deus é a causa de toda existência, e não há nada de morto no mundo, a não ser o nada.

** A geognosia romântica e a terra como um organismo vivo…**

A geologia romântica, ou geognosia, define a terra como um corpo vivo, cuja vida consiste na produção de cristais, e as montanhas são os órgãos do planeta, enquanto os metais e as pedras preciosas podem ser considerados como suas entranhas e glândulas.

** O antropomorfismo cosmológico e a concordância da natureza com o homem…**

A frase de Ritter, “a Natureza inteira concorda com o homem”, resume a visão antropocósmica romântica, onde a terra existe em vista do homem, sendo seu corpo físico, e a descrição da terra se torna a descrição do próprio homem.

** A oposição entre a vida solar e a vida telúrica…**

Kieser, em seu Sistema do Telurismo, desenvolve uma doutrina antropocósmica segundo a qual a polaridade maior da vida humana, a oscilação entre o consciente e o inconsciente, está em relação direta com a alternância do dia e da noite, sendo o sono o resultado mais geral das influências telúricas e a vigília o resultado da influência solar.

** A epistemologia romântica e a prioridade do devir sobre a ordem…**

A epistemologia romântica insiste no instante da ruptura, instalando-se no intervalo onde a liberdade em sua fecundidade triunfa da necessidade, e denunciando a intervenção soberana de uma inteligibilidade superior, uma graça epistemológica dada e recebida.

** A prioridade da vida e a superação do abismo entre o inorgânico e o orgânico…**

Steffens critica Schelling por não ter sido capaz de articular os domínios do inorgânico e do orgânico, mas para a Naturphilosophie não há fronteira entre esses reinos senão por uma ilusão de ótica, pois o metabolismo dos ciclos vitais engloba o homem.

** A Naturphilosophie como ciência autônoma e a crítica ao positivismo…**

A Naturphilosophie é uma ciência autônoma, chamada a se constituir por seus próprios meios, ao mesmo tempo dependente e independente de todas as pesquisas empíricas, e sua busca pela verdade integral a coloca em oposição aos cientistas naturalistas que recusam resolutamente a passagem da pesquisa à especulação.

** O legado e a posteridade da Naturphilosophie…**

Apesar das aparências de irrealismo imaginativo, a Naturphilosophie é solidária de um panlogismo matemático e de um organicismo que assegura a unidade entre todos os aspectos do real, oferecendo uma visão de mundo cuja influência se estende para além do movimento romântico.