Hans Jonas

Hans Jonas (1903-1993)

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

1. O costume exige que um autor que reúne ensaios variados em um volume justifique essa reunião, e a diversidade de temas deste livro demanda mais que essa justificativa ritual, pois a apologia proposta nas páginas seguintes é tanto intelectual quanto biográfica, já que o elemento contingente da vida imprimiu sua marca sobre o percurso teórico, ainda que se busque demonstrar uma unidade de propósito filosófico subjacente à dispersão temática.

2. A formação intelectual ocorrida na década de 1920, sob mestres como Husserl, Heidegger e Bultmann, conduziu ao início do trabalho acadêmico no campo do pensamento cristão primitivo e da Antiguidade tardia, cristalizado num projeto sobre o Gnosticismo cuja amplitude excedeu os prazos previstos, tendo o primeiro volume sido publicado em 1934 e o segundo somente vinte anos depois, em razão da interrupção provocada pelos eventos históricos e pela necessidade de adaptação à nova vida na Palestina, período em que a reputação de especialista nesse campo se consolidou no meio acadêmico de Jerusalém.

3. O período de cinco anos de serviço militar no exército britânico contra Hitler inaugurou uma segunda etapa da vida teórica, interrompendo forçosamente o projeto gnóstico e impondo, em meio à precariedade da vida do soldado, um retorno às funções básicas do pensamento filosófico diante da proximidade da morte e do colapso da civilização.

4. Os anos de reflexão durante a guerra estabeleceram a agenda filosófica das duas décadas seguintes, sintetizada em um conjunto de verdades fundamentais então percebidas.

5. Dessas proposições decorria, em termos práticos, que uma interpretação ontológica do ser orgânico, superando as dicotomias endurecidas do passado, configurava o passo indispensável rumo a uma teoria unificada do ser, tarefa que exigiria transcender o confinamento antropocêntrico da filosofia moderna e articular, de um lado, a crítica histórica do dualismo e, de outro, uma atenção séria aos ensinamentos da ciência natural, especialmente da biologia.

6. O retorno à vida civil, motivado pela convicção de que doze anos de investigação histórica bastavam como aprendizado filosófico, trouxe a determinação de abandonar os estudos gnósticos e dedicar-se à filosofia do organismo, projeto cuja renúncia, no entanto, revelou-se não inteiramente possível.

7. Até meados da década de 1960, a elaboração das intuições da guerra ocupou o centro dos esforços teóricos sob o tema do Organismo, culminando na primeira formulação sistemática apresentada no livro The Phenomenon of Life, de 1966, quando um novo conjunto de problemas, os desafios morais da tecnologia moderna, passou a reclamar atenção filosófica.

8. O retorno da experiência de guerra trouxe consigo um otimismo quanto ao destino do mundo emergente do holocausto, alimentado pela expectativa de que o uso pacífico da energia atômica inauguraria uma nova civilização de lazer com vastos potenciais humanísticos, conforme externado em conversa com Karl Jaspers logo após o lançamento das bombas atômicas.

9. Essas esperanças otimistas puderam ser relativizadas ao longo dos anos, na medida em que, mesmo diante dos horrores vividos e da sombra de Auschwitz, o impasse da Guerra Fria e a dissuasão nuclear foram encarados com certa serenidade, fundada na confiança hobbesiana no poder salutar do medo diante do risco iminente e extremo.

10. O que reconduziu da observação teórica distanciada à responsabilidade pública, impondo uma nova tarefa à filosofia, foi a percepção crescente dos perigos inerentes à tecnologia enquanto tal, não os perigos súbitos ou os abusos malévolos passíveis de controle, mas as ameaças lentas e de longo prazo decorrentes de seus usos mais benevolentes e legítimos, configurando ao final da década de 1960 a crise interna mais aguda do ideal baconiano.

11. Essa crise, já suficientemente impressa na consciência pública, manifesta-se sobretudo no complexo ecológico e na engenharia humana e genética, sendo esta última evidentemente filosófica na medida em que exige uma imagem do Homem como base não arbitrária das normas de uso dos novos poderes, responsabilidade que recai sobre a filosofia diante do eclipse da revelação religiosa, e que se articula com a antropologia filosófica decorrente de toda filosofia do organismo, configurando ainda uma questão de ética que demanda princípios inéditos para lidar com desafios sem precedentes, o que conduziu, desde o final da década de 1960, ao engajamento em questões de teoria ética e à redação de um livro sobre tecnologia e ética que absorverá os próximos anos de trabalho.

12. A ligação entre os dois temas mais recentes, a teoria do organismo e a ética da intervenção tecnológica, evidencia-se na medida em que as novas questões dizem respeito à integridade do ser orgânico, cujo conhecimento é pressuposto necessário de qualquer norma que vise preservá-la ou aprimorá-la, havendo ainda um vínculo mais profundo no impulso intrínseco da própria teoria orgânica rumo a uma completude ética, já antecipado no Epílogo de The Phenomenon of Life, onde se afirmava que a filosofia da mente compreende a ética, e esta, pela continuidade entre mente, organismo e natureza, torna-se parte da filosofia da natureza, de modo que uma ética não mais fundada na autoridade divina deve encontrar fundamento na natureza das coisas sob pena de sucumbir ao subjetivismo.

13. A consciência daquela possibilidade teórica, delineada como tarefa futura, converteu-se em dever ético imposto pelo curso dos acontecimentos, forçando o engajamento numa empreitada para a qual não havia ainda plena disposição, e cuja execução submete a prova o trabalho anterior sobre o organismo.

14. A conexão entre esses dois temas e o Gnosticismo, menos evidente, revela-se no conceito de dualismo, do qual o Gnosticismo constituiu a manifestação histórica mais radical, oferecendo um estudo de caso sobre a cisão entre o eu e o mundo, a alienação humana em relação à natureza e o niilismo das normas mundanas, tendo a analogia entre a modernidade do Gnosticismo antigo e o gnosticismo oculto da mente moderna sido já formulada em ensaio de 1952.

15. Outro elo, estendido do segundo ao terceiro estágio do trabalho, pode ser designado como crise, termo aplicável tanto à era do Gnosticismo, enquanto crise histórica de grande escala, quanto à situação contemporânea do homem ocidental e à busca de uma ética capaz de responder a ela, tendo inclusive o título Man in Crisis figurado entre as opções cogitadas para esta coletânea.

16. A decisão final sobre a existência de uma voz comum a unificar os ensaios reunidos cabe ao leitor, tendo a sequência de apresentação invertido a ordem cronológica dos temas e da autoria.

17. A ordem natural, inicialmente adotada, foi substituída, à luz da distinção aristotélica entre o que é primeiro no conhecimento e o que é primeiro nas coisas, pela decisão de permitir ao leitor avançar do próximo e tópico rumo ao distante no tempo e no conhecimento, em vez de expor de início matérias remotas e estranhas.