HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.
1. O estudo das compensações implícitas nos arcabouços psíquicos de vários elementos simbólicos permite vislumbrar os limites da própria época, contrastando as apreensões de realidade atuais com as de épocas anteriores, e embora seja um erro esperar que prescrições simples possam abrir plenamente os novos confins trazidos pela tecnologia de processamento de texto, não é menos verdade que um determinismo unidimensional excluiria a oportunidade humana de interagir com seu destino.
2. As “atividades de reversão” (reversion activities), como jogos, esportes, jardinagem e expressão artística, são prescritas para remediar o “trabalho mental” e aliviar o estresse da inovação tecnológica, mas tais atividades, embora úteis como antídotos para a saúde mental individual, não remediam a perda de integridade psíquica na interface, pois pressupõem uma fragmentação do senso de mundo e não oferecem uma disciplina dentro da própria interface.
3. As disciplinas (disciplines), entendidas como padrões conscientes de ação regular que promovem o senso de totalidade ou completude, devem funcionar como parte do trabalho dentro do próprio elemento eletrônico, como uma disciplina interna que compensa as transformações da psique, e o domínio vem de um senso sentido de perfeição ou conclusão, sendo a disciplina uma condição para o domínio.
4. A noção de disciplina e de limitações pessoais não é tipicamente americana, pois o pragmatismo de John Dewey, que exerceu grande influência na educação americana, enfatizou o “pensamento real como resolução de problemas” e a prática voltada para fora, em vez da atenção pura e da disciplina por si só, e essa orientação pragmática, embora tenha criticado os abusos do sistema tradicional, erodiu a ideia de disciplina e tornou difícil refletir sobre as perdas sutis induzidas pela transformação das tradições passadas.
5. O pragmatismo, ao atribuir principalmente “pensamento instrumental” à mente e ao identificar a integridade da mente com a realização bem-sucedida na manipulação de coisas mundanas através de modos científicos e calculativos, não deixa espaço para obter distância dos dispositivos técnicos, muito menos para encorajar disciplinas dedicadas à liberdade psíquica do fascínio com os dispositivos.
6. A filosofia americana mais recente, como a de Albert Borgmann, busca suplantar a ênfase pragmática na prática, redefinindo “práticas focais” (focal practices) que contrabalançam a atitude instrumentalista e exploradora, mas essas práticas focais, embora mais profundas, não são padrões de ação que compensam a automação do processamento de texto, pois tais padrões devem ser exercidos dentro do próprio elemento eletrônico, onde a mente se relaciona com a qualidade do novo elemento simbólico.
7. As disciplinas compensatórias a serem discutidas são menos um conjunto de necessidades logicamente deduzidas do que um grupo de sugestões interconectadas, e a consistência do estudo exige um esboço do tipo de disciplinas que poderiam seguir-se dos contrastes do capítulo anterior, com a compreensão de que a auto-disciplina criativa é o objetivo de toda disciplina externa, e a disciplina é o paradoxo da identificação da liberdade com a necessidade.
8. As propostas concretas para influenciar a autotransformação na interface são guiadas pelo paradigma amplo da concentração contemplativa encontrado na disciplina chamada “meditação” (meditation), e uma versão dessa prática meditativa é o “releasing” (liberação), desenvolvido por Patricia Carrington, que envolve a seleção e o foco da atenção em um objeto neutro para suspender o impulso compulsivo de controle e produtividade, promovendo um silêncio interior livre da contínua urgência de mudar as coisas.
9. A prática de liberação (releasing) tem mais do que importância psicológica para o processamento de texto, pois toca a dimensão ontológica, onde as coisas só podem aparecer e se destacar em plena presença de mente se houver um mundo de fundo vertical de silêncio ou ausência de forma, e a linguagem que não tem relação com o silêncio, a linguagem como um sistema autônomo e codificado de símbolos, perde a fonte vertical que refresca e fortalece o significado.
10. A poluição simbólica (symbol pollution), onde tudo sem exceção é simbolizado, anula o ato de simbolização como um evento único, e para que as coisas apareçam, a linguagem deve preservar uma intimidade com o silêncio, caso contrário, torna-se um ruído verbal, um oceano de símbolos finitos que afoga as dicas de significado tênue, e o silêncio, ao trazer as coisas de volta da dissipação para uma medida de totalidade, protege o que resta da integridade das coisas.
11. As teorias neokantianas das formas simbólicas, como as de Ernst Cassirer e Susanne Langer, embora coloquem a formação de símbolos no centro da filosofia, negligenciam a opacidade intrínseca da realidade e o caráter elusivo da formulação, não tendo lugar para o silêncio que refresca as formulações da realidade na interface, pois para elas a formulação é baseada em informações, em entidades preexistentes e estáveis.
12. O exemplo de um professor universitário que emprega estados meditativos profundos enquanto escreve em um terminal de computador ilustra como a silenciosa presença de espírito meditativa pode encontrar incompreensão inicial, mas é a base de qualquer disciplina que contrarie as mudanças de pensamento características do processamento de texto, e as disciplinas da presença de espírito e da capacidade contemplativa são condições necessárias para o tempo de qualidade gasto com os outros e para a verdadeira comunicação.
13. Uma disciplina para promover a presença de espírito contemplativa é o “blockbusting” (destruição de blocos), desenvolvido por David e Virginia Noble, que usa macros para desmontar um texto em frases separadas e depois remontá-lo, criando uma pausa contemplativa na escrita no computador e permitindo uma análise mais reflexiva da sequência lógica, temperando o ritmo acelerado da formulação de símbolos.
14. O blockbusting, ao usar o poder automatizado do computador para temperar o ritmo dissipador da escrita digital, ajuda a dissipar a facilidade que é frequentemente atacada pelos críticos do processamento de texto, e introduz uma pausa silenciosa através da qual pode emergir a abertura fértil de uma formulação mais firme, onde as formas das coisas podem vir a uma presença mais plena.
15. Outra prática, chamada “clustering” (agrupamento) por Gabriele Lusser Rico, envolve o retorno ao papel e à caneta para reunir ideias relacionadas em torno de uma noção central em um processo de associação espontânea, e essa prática, ao contrário do esboço (outlining), não visa estabelecer uma ordem ou subordinação de ideias, mas sim preservar o senso de expressão pessoal, buscando a “voz” autêntica do escritor através de associações subconscientes e do movimento não programável da mão.
16. O clustering, que não pode ser feito adequadamente na interface do computador, requer os movimentos não programáveis da mão humana em contato com profundezas psíquicas através do rabisco (doodling), e essa prática recorda o senso de totalidade psíquica no mundo de textos fragmentados e recorda as profundezas internas privadas na psique, recuperando um evento unicamente pessoal diante do mecanicamente repetível.
17. Tanto o blockbusting quanto o clustering desenvolvem um gosto pela transcendência da interface, promovendo a integridade do intelecto e a totalidade da atenção, e podem ser usados como disciplinas para a liberação (releasing), para a pausa do silêncio profundo da formulação em meio à vasta rede de texto digital, integrando-as ao processamento de texto para começar a compensar a propensão ocidental para a verbalização instantânea e o controle racional obsessivo.
18. Outras habilidades e práticas também poderiam ser examinadas, e com as críticas ao processamento de texto virão oportunidades para o refinamento adicional de disciplinas que contrabalançam as transformações do pensamento e da linguagem, e o tratamento dos aspectos íntimos da interface, como o processamento de texto, terá que ser acompanhado por uma reflexão filosófica adicional sobre o empreendimento tecnológico em grande escala em que a raça humana está agora embarcando.
19. Não há resumo e conclusão aqui, pois a natureza do fenômeno em consideração simplesmente não permite resultados definitivos, e desestabilizar através do questionamento o novo modelo de inteligência simbólica já é um resultado, e somente através do questionamento sustentado a dimensão psíquica pode ser mantida aberta para criar um livre jogo entre a mente e a máquina, onde a relação entre mente e computador pode ser mantida em questão e formulada de novo.