HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.
O Arcabouço Finito da Linguagem
1. A teoria da transformação, ao focar nas mudanças psíquicas concomitantes com os desenvolvimentos históricos na tecnologia da mídia, postula uma origem concomitante mútua entre a expressão de um mundo histórico e o fator de modelagem dentro desse mundo, mas carece de uma noção filosoficamente explícita de “mundo” (Welt) para fornecer uma base filosófica plena, e a compreensão do processador de texto como uma “máquina de escrever glorificada” não esclarece se e em que medida a metafísica da tipificação é peculiar ao mundo contemporâneo ou como ela é integral à noção moderna de verdade.
2. A teoria da transformação sofre de falta de clareza quanto à extensão em que sua perspectiva histórica repousa sobre o pressuposto de uma sobreposição progressiva ou acúmulo interligado de habilidades humanas, o que poderia ser entendido como um desenvolvimento progressivo ou mesmo providencial, e a contribuição de Martin Heidegger para o estudo da nova tecnologia da escrita pode ser interpretada por meio de três aspectos de sua filosofia: a noção de mundos existenciais, a crítica da tipificação ou do “Enquadramento” (Gestell) no mundo pós-moderno, e a concepção existencialista do desenvolvimento histórico que vê continuidade, mas também perdas frequentes no processo histórico.
3. A noção existencial de mundo (Welt) de Heidegger, que emerge de sua crítica às interpretações progressivas da história de Hegel e Marx, implica que a verdade está intrinsecamente ligada à finitude cultural, e a “história do Ser” (Seinsgeschichte) oferece um relato da verdade do mundo, vendo a noção de verdade na filosofia ocidental desde Platão como um movimento gradual em direção à apoteose da metafísica da tipificação no domínio tecnológico do planeta.
4. O “ser-no-mundo” (In-der-Welt-sein) é finito, e a temporalidade (Zeitlichkeit) é o horizonte transcendental contra o qual o Ser (Sein) é desvelado, estabelecendo a condição para que qualquer coisa particular se mova no tempo, e o mundo, como o contexto contínuo onde as coisas são geradas, distinções são feitas e conexões são estabelecidas, é um complexo de envolvimentos, uma projeção pré-teórica e pré-consciente que é finita, com um passado e um futuro que o definem e delimitam.
5. A finitude das apreensões da realidade implica que há “compensações” (trade-offs), limitações na consciência humana, e a “deriva histórica” (historical drift) pode exigir a obsolescência de um modo de ser-no-mundo para o desenvolvimento de uma nova abordagem de atenção à realidade, e a teoria heideggeriana da transformação epochal leva em conta o deslocamento de habilidades e a reorganização das energias vitais que criam convulsões nas culturas humanas.
6. Ao conectar a verdade com o mundo existencial, Heidegger introduz os conceitos de deriva histórica e de compensações culturais, em vez de uma série desenvolvimentista de melhorias sistemáticas, as transformações epochais são conjuntos de caminhos finitos que se desenvolvem, levam adiante e depois se extinguem quando novos caminhos são abertos por técnicas e habilidades consideravelmente diferentes, e esses caminhos são finitos porque os projetos humanos projetam direções novas e diferentes, enquanto os projetos anteriores se dissolvem ou são obscurecidos.
7. A verdade, para Heidegger, é simultaneamente um revelar e um velar (Entbergen und Verbergen), não porque algumas características das coisas permaneçam desconhecidas, mas porque o desvelamento das coisas como tal é auto-obscurecedor devido à natureza finita do mundo, o pano de fundo holístico contra o qual qualquer verdade ou afirmação particular é feita, e a verdade fundamental é a articulação primordial do mundo, a linguagem primal, onde a fala é inerente até mesmo ao silêncio.
8. A linguagem é “a casa do Ser” (das Haus des Seins), abrigando e preservando os desvelamentos da verdade da existência, mas ela também exerce poder estrutural sobre seus usuários, colocando limitações sobre a maneira como as coisas vêm à presença e à luz, e a verdade plena da linguagem não se esgota na verdade das proposições, mas reside em seu poder revelador, que é mais evidente nos modos de fala que preservam o duplo velamento-revelação no coração da articulação primordial do mundo.
9. O poder revelador-velador da linguagem se reflete na dimensão metafórica, onde a ambiguidade produtiva permite que a linguagem crie novos significados a partir de fios de significado anteriores, e a metáfora (Metapher), ao “equivocar-se” de uma coisa por outra, é a indicação da resposta livre necessária para o “habitar poético” (dichterisch wohnen) no mundo, sendo uma condição de verdade ou autenticidade, pois sem a transformação dos significados não haveria história no sentido de ocorrências plenamente humanas.
10. O “pensamento calculador” (rechnendes Denken) da tecnologia, que Heidegger chama de “Enquadramento” (Gestell), procede tipificando e sistematizando o que já foi apreendido em princípio, tornando o mundo um conjunto de recursos materiais totalmente gerenciáveis para o exercício da vontade humana, e a situação da linguagem, à medida que as palavras são transformadas pelo Enquadramento, é que a criatividade metafórica passa a ser considerada incidental ou supérflua, relegada a um domínio separado do estético ou religioso, e o “escurecimento do mundo” (Verdunkelung der Welt) ocorre precisamente quando o mundo tecnológico, como uma interpretação das coisas opaca para si mesma, torna-se dominante.
11. As premonições de Heidegger sobre o tratamento da linguagem como informação, onde “a máquina da linguagem toma a linguagem sob sua gestão e assim domina a essência do ser humano”, mostraram-se perspicazes, pois o processamento de texto, originalmente desenvolvido por processadores de dados como auxílio para seu trabalho central, codifica a linguagem natural no código ASCII, interpretando-a como um código padrão que pode ser operado, editado e transmitido, aplicando técnicas de tratamento de dados à comunicação em linguagem natural.
12. O processamento de texto, ao interpretar a linguagem em termos matemático-tecnológicos, realiza o projeto da lógica moderna, como a de Leibniz, de uma ciência universal de símbolos (characteristica universalis) baseada em um cálculo binário, e a escrita convertida em ASCII é um fenômeno fundamentalmente diferente da escrita manuscrita ou datilografada, pois, uma vez digitalizada, pode ser tratada como uma série de relações e proporções, criando novas experiências de controle total sobre o fenômeno.
13. A temporalidade do Enquadramento (Gestell) é a simultaneidade instantânea da lógica de uma gestão total com tudo à disposição, e essa temporalidade não é um mundo onde os humanos “habitam poeticamente”, pois a ambiguidade e a liberdade do engenho humano devem ser dominadas para se adequar ao ritmo do Enquadramento, e o processador de texto, ao mover a linguagem ainda mais para o modo de troca de informação, pode levar à redução da capacidade humana de “dizer” (Sagen), de nomear as coisas de forma nova e poética.
14. A abordagem global de Heidegger, embora rica em insights, é cega a fenômenos particulares, e o programa Framework, que combina processamento de texto, esboço dinâmico, gerenciamento de banco de dados, planilha eletrônica e telecomunicações, serve como uma metáfora para o Enquadramento no reino íntimo da composição da linguagem escrita, onde o texto é manipulado em “quadros” (frames) que podem ser movidos, editados, combinados e reorganizados, e a ação intencional sobre o texto está diretamente ligada a gestos corporais.
15. Os proponentes do Framework falam de uma “extensão computadorizada da mente” e de um “kit de ferramentas de software” que pode ser usado para criar novas ferramentas de trabalho, sugerindo que o software pode atingir uma relação mais íntima com o processo de pensamento do que qualquer ferramenta física, e ao “enquadrar” os símbolos externos da linguagem escrita e a mentalidade de composição-pensamento, o Framework parece corroborar a afirmação de Heidegger de que o evento fundamental da era moderna é a conquista do mundo como imagem (Bild), onde a atividade humana é constantemente “provocada” a entrar no processo produtivo do Enquadramento.
16. No entanto, a indústria da computação parece ser uma fonte rica de energia criativa e originalidade na nomeação, criando uma nova linguagem de metáforas que, embora sempre à beira de se tornar um produto fixo, permite que o usuário se aproprie criativamente do sistema, e a metáfora da “interface” (Schnittstelle) pode ser mais apropriada para a investigação da escrita digitalizada do que a noção holística do Enquadramento, pois a interface é o espaço onde o fenômeno aparece, o lugar da responsividade humana onde o homem e a máquina se encontram, preservando a noção de uma relação viva e mútua.
17. A análise existencial de Heidegger, ao corrigir o otimismo da teoria da transformação ao sugerir que as habilidades de escrita podem se tornar periféricas para a rede de computadores, fornece pistas importantes para a reflexão sobre a interface, incluindo a conexão entre a origem das apreensões da realidade e as habilidades linguísticas, a disposição temporal das apreensões da realidade, a tipificação inerente à tecnologia moderna e a tendência de interpretar toda a escrita sob o rótulo de gerenciamento de informação (Informationsverwaltung).