O Fenômeno do Processamento de Texto
1. O acesso ao novo fenômeno do processamento de texto ocorre por meio da aprendizagem de uma nova linguagem, que inclui termos como arquivos, menus, monitores, cursor, memória RAM e ROM, e funções como bloquear movimentos, zonas de hifenização e espaços suaves versus duros, e a sensação de se tornar “alfabetizado” de uma nova maneira é frequentemente chamada de “alfabetização computacional”, embora esse termo seja um empréstimo awkward de outro elemento simbólico.
2. A “dissimulação” (dissemblance) é intrínseca ao fenômeno do processamento de texto e ocorre de duas maneiras: primeiro, a apreensão do radicalmente novo através de metáforas, como “rolagem” (scrolling) e “janela” (window), que, embora necessárias, escondem a novidade do elemento eletrônico.
3. A segunda maneira de auto-mascaramento é a “opacidade do sistema” (system opacity) inerente aos sistemas computacionais, onde a infraestrutura subjacente é em grande parte invisível e não inferível a partir da interface do usuário, e essa opacidade força o usuário a desenvolver um “modelo mental” (mental model) do funcionamento do sistema, baseado em metáforas operacionais, para poder interagir com ele.
4. O aprendizado sobre o sistema ocorre principalmente por tentativa e erro, onde a recuperação de erros é o principal recurso para compreender o sistema, e a disparidade entre o usuário e a configuração projetada da interface é fundamental, destacando a segunda maneira pela qual o fenômeno é auto-mascarador.
5. Os programas WYSIWYG (What-You-See-Is-What-You-Get) ajudam a estabilizar e a ocultar o poder da escrita digital, aproximando-se ao máximo da metáfora da impressão, mas essa ênfase na produção de um documento final em papel mascara a natureza radicalmente diferente do texto no elemento eletrônico, onde o texto em si não é graficamente visível nem essencialmente inscrito.
6. Os programas WYSIWYG exigem um ajuste interno complexo para preservar a correspondência entre o texto no elemento elétrico e o produto físico final da impressão, e os comandos ocultos para a impressora devem ser acessíveis ao escritor, apontando para um dos três aspectos do novo elemento de escrita, sua maneira distintiva de manipular símbolos.
7. A automação da manipulação de símbolos, que é a essência do processamento de texto, remove a escrita do elemento da inscrição e a coloca em um elemento eletrônico, sinalizando uma mudança mais ampla do que uma mera fase na automação do processo de impressão, e essa automação, que se estende a domínios cada vez maiores da vida, agora atinge os processos psíquicos da ideação simbólica.
8. As metáforas que lançaram o desenvolvimento do processamento de texto não foram retiradas principalmente da página impressa ou da cultura do livro, mas sim de um senso das limitações da cultura bibliocêntrica, e o processamento de texto, em sua importância essencial, dota o pensar em símbolos de um arcabouço psíquico automatizado e processual.
9. A automação da inscrição é experimentada como bem-aventurança porque traz o domínio da simbolização para o passo com a produtividade do enquadramento tecnológico, e essa relativa bem-aventurança pode ocultar as maneiras qualitativamente diferentes pelas quais o texto é experienciado, especialmente em programas de esboço (outliners) que aplicam a automação diretamente ao processo de “invenção” (inventio).
10. Os programas de esboço (outliners) aplicam a automação diretamente ao processo de “invenção” (inventio), a conceituação e conexão de pensamentos durante a composição, e, ao fazê-lo, eles quebram a metáfora limitada da página impressa e permitem que o escritor veja seus pensamentos de maneiras diferentes, tratando as palavras como informações fluidas e manipuláveis.
11. Diferentes ambientes de esboço, como ThinkTank e Freestyle, oferecem estruturas temporais e movimentos distintos, variando de uma hierarquia flutuante que aceita ideias à medida que surgem, a um esboço em tempo real que abstrai a anatomia do texto enquanto ele é escrito, demonstrando a natureza inerentemente modular do processo de composição no computador.
12. O programa KAMAS (Knowledge and Mind Amplification System), desenvolvido por ex-professores de filosofia, foi projetado para ajudar o escritor a estruturar pensamentos em níveis hierárquicos derivados dos princípios lógicos aristotélicos, mas a resposta comum de “Eu não penso dessa maneira” muitas vezes acompanha a rejeição da lógica hierárquica em favor de uma abordagem mais expressiva.
13. A flexibilidade intrínseca do computador, que permite a criação de “macros” (macros) para automatizar sequências de comandos, fomenta um envolvimento com o pensamento algorítmico, onde os movimentos espontâneos são interpretados como sequências de etapas programáveis, e a criação de tais macros exige uma análise prévia do processo de escrita, promovendo o “pensamento calculador” (calculative thinking).
14. O software Nota Bene, originado da personalização de outros programas por um estudante de filosofia, exemplifica como o processamento de texto pode eliciar e desenvolver o pensamento algorítmico, e a disponibilidade de linguagens de programação internas na maioria dos programas convida o usuário a “tinker” com padrões algorítmicos de pensamento, em busca de maior velocidade e eficiência.
15. A promessa de maior velocidade com a automação traz a constante atração de se envolver com o sistema, e a identificação com o sistema ocorre à medida que os movimentos do teclado e as macros se tornam uma “segunda pele”, e os usuários desenvolvem relacionamentos específicos e lealdades com seus programas, identificando-se com eles de maneira pessoal e emocional.
16. A formulação de pensamentos no elemento elétrico é caracterizada por uma nova “imediatidade” (immediacy), onde o fluxo da consciência pode ser paralelizado pelo fluxo do elemento elétrico, incentivando a “escrita baseada no escritor” (writer-based writing) em vez da “escrita baseada no leitor” (reader-based writing), e essa imediatidade, juntamente com a facilidade de revisão, reduz a ansiedade e o bloqueio do escritor.
17. A formulação no processamento de texto também promove o uso de abreviações e acrônimos, que, por não possuírem uma história cultural incorporada, possuem uma clareza arbitrária e univocidade, e esses símbolos abreviados, juntamente com a automação de pesquisa e substituição, afetam a formulação ao remover a linguagem momentaneamente do mundo compartilhado da experiência comum.
18. O conhecimento característico do arcabouço psíquico do processamento de texto é um “conhecimento como processo” (knowledge as process), um fluxo de informação manipulável que contrasta com o conhecimento do diálogo, baseado na escuta e na resposta pessoal, e com o conhecimento dos livros, moldado pela forma da argumentação e pela reivindicação proposicional.
19. A modalidade de linguagem no processador de texto é a “informação” (information), que pressupõe que a formulação de algo já foi realizada, minimizando assim a luta pela formulação à medida que aumenta o fluxo da ideação, e os ambientes de software, como sutis criações estéticas, merecem uma nova espécie de crítica ou percepção dos arcabouços específicos onde a psique vive sua vida simbólica ativa.
20. A “vinculação” (linkage) no processamento de texto, que é a interconexão interativa de textos, é exemplificada por corretores ortográficos, dicionários de sinônimos e sistemas de hipertexto, que tornam os textos acessíveis e manipuláveis como ingredientes co-residentes do arcabouço psíquico, criando uma “textualidade contínua” (continuous textuality) em oposição a uma literatura sequencial de textos fisicamente separados.
21. O hipertexto, ou a vinculação dinâmica de textos, permite que notas de rodapé e materiais referenciados sejam automaticamente trazidos para a tela, e com o armazenamento invisível de múltiplas versões, a própria noção de um texto original se desloca, e a vinculação através de sistemas de correio eletrônico e teleconferências cria uma nova “comunidade” (community) e uma nova “etos de cooperação” (ethos of cooperation).
22. A pesquisa indica que a escrita no computador, ao exibir o texto de forma pública e convidar à leitura e escrita em grupo, destaca a função comunicativa da escrita e torna a atividade privada de escrever em uma atividade potencialmente pública e social, redefinindo a vida psíquica e as apreensões da realidade à medida que a humanidade se afasta das formas anteriores de escrita.