HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.
Capítulo 4: O Arcabouço Psíquico do Processamento de Texto
1. O movimento fluido e dinâmico da escrita digital estabelece, para o iniciante, a importância central do “elemento” (Element) em que se formulam os pensamentos em símbolos, em oposição ao mero “meio” (Medium), e a articulação desse fenômeno, para ser adequada, deve trazer à tona toda a sua fluidez dinâmica e, ao mesmo tempo, oferecer direções para sua avaliação.
2. Para descrever o que muda com o processamento de texto, é necessário encontrar um nível de análise mais fundamental do que a biologia ou a psicologia, e os termos dessa descrição devem pertencer ao fenômeno em si, evitando terminologias prontas das ciências, pois a maneira como a tecnologia nos “enquadra” (enframes) afeta a análise, assim como a forma de conceber a interface (Schnittstelle) também afeta o enquadramento.
3. As abordagens da engenharia de fatores humanos, embora reconheçam a dimensão não-mecânica do controle do sistema, permanecem enraizadas em uma perspectiva de hardware que trata o usuário como um “periférico”, e a metáfora do “processador de informação humano” para descrever a mente é um pressuposto questionável que reduz a psique a um fluxograma de operações, desconsiderando dimensões da interface que não são acessíveis por procedimentos de engenharia.
4. A teoria da transformação, ao descrever mudanças na “consciência” (consciousness), opera com uma noção de racionalidade social evolutiva herdada de Hegel, que sugere que as mudanças nos ambientes simbólicos são formas de mídia ou comunicação, mas essa abordagem, enraizada na retórica clássica, não é suficiente para explorar a dimensão ontológica da escrita em diferentes elementos, onde o próprio mundo, e não apenas a interação humana, é apreendido.
5. O termo “elemento” (element) torna-se claro apenas com a escrita computadorizada e destaca um aspecto diferente dos ambientes simbólicos, enfatizando as condições da experiência simbólica e as implicações do modo como as coisas são representadas, em contraste com o termo “meio” (medium), que enfatiza o método instrumental para a troca comunicativa e o armazenamento e recuperação de informação para sobrevivência social.
6. Os projetistas de software e hardware do novo elemento simbólico, como Alan Kay, visavam criar não apenas um novo meio de comunicação, mas um “meio dinâmico” para representar, comunicar e animar pensamentos, sonhos e fantasias, alterando o próprio processo de pensamento, o que demonstra que a comunicação social estava longe de ser a principal consideração no design do elemento da escrita.
7. Os termos “hábitos mentais” (mental habits), “mente” (mind) e “intelecto” (intellect), usados pela teoria da transformação, são problemáticos porque carregam conotações de uma entidade estática e desencarnada, ou de um padrão cultural fixo, e não são adequados para descrever a transformação do pensamento em diferentes elementos simbólicos, onde o movimento e a fluidez são centrais.
8. O termo “campo noético” (noetic field), derivado da fenomenologia husserliana, sugere um entremeio resultante da interação da subjetividade humana com os objetos da cognição, mas suas limitações são consideráveis, pois permanece no âmbito cognitivo e não sugere a modelagem subcognitiva que subjaz ao processo de simbolização aumentado por computadores.
9. O termo “psicodinâmica” (psychodynamics), usado por Ong, descreve o movimento característico da mente moldado pelas estruturas de personalidade fomentadas pela oralidade e pela literacia, respectivamente, encontrando na cultura oral um movimento repetitivo e circular, e na cultura letrada um movimento sequencial e subordinativo que permite análise reflexiva e exploração de relações conceituais.
10. No entanto, a psicodinâmica da teoria da transformação está ancorada na diferença entre oralidade e literacia, e na tradição retórica clássica da comunicação, o que distorce o fenômeno do processamento de texto ao reduzi-lo a um novo tipo de literacia, e para explorar plenamente a dimensão ontológica da escrita no elemento eletrônico, é necessário abstrair dos sons físicos e vocalizações.
11. O termo “psique” (psyche) é adotado para desbloquear o fenômeno do processamento de texto, pois evita as divisões entre mente, sentidos e emoções, conotando uma disposição para um certo tipo de consciência, e, ao contrário das noções puramente cognitivas, a psique é associada, desde os gregos, com a dinâmica inconsciente da vida e com as fontes ocultas da criação simbólica.
12. De acordo com a concepção platônica, a essência da psique consiste em seu automovimento, um movimento nascido da conjunção de dois princípios: o “limite” (peras) e a “ausência de limites” (apeiron), e a combinação desses dois princípios gera o “ritmo” (rhythmos) do movimento, sendo que o movimento livre da psique ocorre apenas quando ambas as forças estão em equilíbrio, constituindo a temporalidade da experiência.
13. Para descrever a interação da psique com o mecanismo no processamento de texto, emprega-se o termo “arcabouço psíquico” (psychic framework), que indica o ambiente psíquico onde os símbolos se movem, e esse arcabouço, mais amplo do que um arcabouço conceitual, possui ritmos ou tempos intrínsecos e é guiado por habilidades sensório-motoras, estruturado em três componentes: manipulação, formulação e vinculação.
14. Exemplos de mudanças em arcabouços psíquicos incluem a transformação da agricultura familiar em agronegócio computadorizado, a alteração na experiência do cinema com o videocassete pessoal, e a mudança na apreensão do tempo com a passagem do relógio mecânico para o digital, onde o tempo é lido como informação em uma interface discreta, em vez de ser vivenciado como um movimento contínuo e dramático no espaço.
15. A literatura, como o domínio da imaginação pré-reflexiva, oferece ilustrações de arcabouços psíquicos, como nos contos de Edgar Allan Poe, onde o arcabouço mecânico do tempo é magnificado de forma alucinatória, tornando explícita a qualidade psíquica da interface que a apreensão cotidiana normalmente ignora.
16. A caligrafia oriental e a grafologia ocidental são guias para o arcabouço psíquico do processamento de texto, pois reconhecem o movimento psíquico inerente ao elemento da escrita, embora a grafologia, em sua tendência objetivadora, frequentemente trate os símbolos como um medidor externo, enquanto a caligrafia oriental vincula a meditação aos movimentos da caligrafia, tornando cada pessoa letrada um poeta.
17. O arcabouço conceitual de Engelbart para o “aumento do intelecto humano” forneceu a base teórico-prática para o processamento de texto, mas seus termos são conceituais e buscam ficar fora do fenômeno para descrevê-lo, enquanto o arcabouço psíquico, com menor distância teórica, abre uma investigação mais profunda sobre o fenômeno, relacionada a um novo tipo de crítica de software.
18. Engelbart divide a estruturação na interface humano-artefato em três níveis: estruturação mental, conceitual e simbólica, mas o arcabouço psíquico do processamento de texto também possui uma divisão tripartite em três subprocessos interligados: manipulação, formulação e vinculação, que constituem o movimento psíquico peculiar da escrita digital.
19. A manipulação é o arranjo de domínios simbólicos, que com computadores aparece na automação da escrita e do acesso a textos, e o tempo e movimento peculiares a esse tipo de manipulação podem levar ao estresse da produtividade enquadrada, enquanto a formulação é a maneira como o pensamento atinge foco e integridade em um ambiente simbólico, sendo a forma mental desenvolvida pela escrita computadorizada caracteristicamente dominada pela informação.
20. A vinculação é o ambiente psíquico criado pela interconexão de toda a vida simbólica em um sistema de informação homogêneo, e a vinculação da escrita computadorizada pode levar a um tipo de proximidade psíquica que pode colocar em perigo a privacidade e a intimidade do pensamento, e esses três aspectos serão descritos nos capítulos seguintes para revelar o fenômeno do processamento de texto em sua essência.