Pensamento, palavra e realidade

HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.

1. A reflexão filosófica sobre o processamento de texto tem início com a constatação da conexão tradicionalmente estabelecida entre a habilidade humana com símbolos e a aspiração a uma compreensão superior da realidade, na qual a alfabetização, entendida como a capacidade de lidar com formas simbólicas fixas, serve como modelo para a inteligência em geral, embora essa noção tradicionalmente privilegie a articulação em linguagem natural em detrimento de constructos numéricos.

2. O significado dos símbolos escritos é afetado pelas condições concretas de seu aparecimento e reconhecimento, o que constitui o que se denomina “elemento” da escrita, distinto do mero “meio” de comunicação, e esse elemento, ao se transformar historicamente, como na passagem do livro impresso para a codificação eletrônica, altera a própria significação das palavras, indo além da máxima de que “o meio é a mensagem”.

3. A estabilidade da alfabetização, comparada à estabilidade simbólica do Partenon, não é una, mas comporta uma pluralidade de significados, pois a alfabetização não é apenas uma habilidade funcional, mas também um modelo para certas disposições psíquicas, representando a capacidade do indivíduo de superar circunstâncias particulares e adentrar um mundo compartilhado de inteligibilidade que revela uma realidade superior.

4. O retorno ao pensamento grego antigo, necessário para abordar as questões sobre a tecnologia da escrita, não se faz por piedade cultural ou busca genealógica, mas porque a filosofia exige um retorno à simplicidade e intensidade que permitem descartar acréscimos não essenciais, servindo também como antídoto contra o empobrecimento etimológico e histórico que a padronização do processamento de texto pode acarretar.

5. O primeiro mal-entendido a ser evitado é assumir que a questão filosófica é essencialmente sobre o computador como uma forma de inteligência artificial, o que deixa inquestionada a conexão íntima entre a palavra escrita e o pensamento humano, enquanto o segundo é tentar compreender o fenômeno observando empiricamente a atividade da escrita individual, tratando o processador de texto como uma mera ferramenta subordinada a propósitos humanos.

6. A abordagem que examina o impacto do computador na autoconsciência humana por meio de metáforas extraídas da interação com ferramentas, embora comum, impede a revelação da relevância ontológica da tecnologia da escrita, ou seja, o modo como as realidades passam a ser concebidas como publicamente identificáveis e inteligíveis, afetando, portanto, a própria maneira de se pensar sobre qualquer coisa, incluindo as ciências humanas.

7. A noção de relevância ontológica é recuperada pela lembrança do princípio (arché) de Anaximandro, para quem a origem de todas as coisas é o infinito (ápeiron), uma abertura sem delimitações que primeiro libera as coisas para que possam ser identificadas e definidas, e a linguagem, ou logos, é justamente a emergência da identidade a partir do caos de possibilidades infinitas.

8. A intimidade transcendental entre pensamento, palavra e realidade, sugerida por Anaximandro, implica que a linguagem não é uma coisa entre outras, mas constitui as condições sob as quais as coisas podem ser identificadas, de modo que a indagação sobre o processamento de texto toca uma dimensão ontológica mais fundamental do que a questão sobre se as máquinas podem pensar ou sobre os efeitos empíricos em um indivíduo que usa um processador de textos.

9. A avaliação empírica e individual do processamento de texto como uma ferramenta superior que aumenta a eficiência, embora seja uma abordagem comum e de senso comum, é inadequada para compreender o fenômeno em sua essência, pois, assim como a análise de ferramentas (meios e fins) não explica o papel cultural decisivo de sistemas como o de rodovias, ela também falha ao considerar que a linguagem possui uma estrutura e um destino independentes da vontade individual.

10. A filosofia de Heráclito, ao apresentar o logos em sua ambiguidade sistemática e produtiva, demonstra a fluidez e a natureza compartilhada da linguagem, opondo-se à ideia de que o pensamento é uma possessão privada e mostrando que a linguagem não é uma ferramenta do pensamento, mas o próprio elemento do pensamento, onde a unidade persiste através do conflito e da ambiguidade inerente à verdade viva.

11. A concepção participativa do logos, característica do pensamento grego arcaico, fundamenta-se na unidade da mente individual e da construção do mundo público moldado pela linguagem, e essa recordação serve para evitar um julgamento precipitado sobre o processamento de texto, lembrando que a experiência pessoal com a ferramenta envolve mais do que a mente privada, pois é o logos compartilhado que está sendo transformado.

12. A “tradição do logos” (logos tradition), expressão que designa a corrente do pensamento ocidental construída sobre a “articulação unificadora”, perpassa a religião, a ciência e a filosofia ocidentais, diferenciando-se da tradição oriental que busca a imersão na origem silenciosa e indizível, e essa tradição é caracterizada pelo desenvolvimento da intimidade transcendental entre pensamento, palavras e realidade.

13. A religião judaico-cristã, com sua ênfase na Palavra de Deus e no mundo como livro (biblia), e a ciência ocidental, seja em sua interpretação positivista como lógica ou em sua visão mais histórica como argumentação e comunicação, são ambas carregadas pela tradição do logos como articulação unificadora, demonstrando a abrangência dessa herança.

14. O “elemento” (Element) da linguagem, distinto do “meio” (Medium) de comunicação, é a maneira historicamente concreta pela qual o pensamento simbolizado alcança a “ausência de lugar” ou diferentes modos de habitar o lugar, e o elemento eletrônico, característico do século XX, foi antecipado pela figura de Fausto, de Goethe, que traduz o “Verbo” do evangelho como “Atividade” (Tat), transformando a palavra contemplativa em ação eletrificada e prefigurando o poder dinâmico e iluminado do cursor no processador de texto.