HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.
Prefácio de David Gelernter
Prefácio à Segunda Edição
Agradecimentos
Introdução
PARTE I: ABORDANDO O FENÔMENO
PARTE II: DESCRIÇÃO DO FENÔMENO
PARTE III: AVALIAÇÃO DO FENÔMENO
Introdução
1. O processamento de texto, ao colocar teclados nas mãos de profissionais de diversas áreas, transforma a produção do conhecimento em disciplinas humanísticas de modo análogo à transformação que a computação trouxe às ciências físicas, afetando não apenas a velocidade, mas a própria qualidade do trabalho intelectual, o que gera um entusiasmo inicial nos usuários pela facilidade de editar, armazenar e manipular a linguagem, superando as limitações da máquina de escrever.
2. A euforia inicial com o processamento de texto, que permite acesso eletrônico a fontes de conhecimento e amplifica o ofício da escrita, suscita a questão de se essa mudança tecnológica implica uma transformação revolucionária comparável à invenção da imprensa e, para além do entusiasmo de futuristas como Jonathan Kamin, que veem na tecnologia um caminho para a perfeição da mente humana, é preciso questionar se tais projeções otimistas são realmente justificadas.
3. Embora educadores e associações de ensino aceitem implicitamente a evolução epistemológica proposta pelo processamento de texto, na qual cada passo tecnológico torna a escrita mais fácil e controlável, vozes como a de Gore Vidal expressam ansiedade quanto à erosão da cultura literária e da sabedoria moldada pela palavra escrita, diante da transição para uma cultura audiovisual e da consequente incerteza sobre o destino dos “sacerdotes da literatura”.
4. A teoria filosófico-histórica sobre a conexão entre expressão e tecnologia da escrita tornou-se uma explicação comum para o senso de deriva histórica, mas não revela completamente as transformações na pedagogia, epistemologia e teologia.
5. A fonte central do debate é o próprio fenômeno do processamento de texto, definido como a preparação assistida por computador de documentos em linguagem natural, mas a apreensão de sua natureza essencial e sua força abrangente não é simples, pois, embora seja um fenômeno único, sua verdade não se revela imediatamente.
6. O desejo de filosofar sobre o processamento de texto esbarra na tendência acadêmica de perder os fenômenos culturais, seja por meio de análises racionais desconectadas da vida cotidiana, seja pelo afastamento da cultura popular em defesa de uma pureza racional que se torna matemática verbal ou sistema elegante sem raízes nas preocupações humanas.
7. Estudos que consideram a filosofia moderna niilista frequentemente permanecem exclusivamente históricos, confinando-se a reconstruções passadas de fenômenos e, quando proclamam uma restauração da filosofia clássica, o fazem sem uma elucidação fresca dos fenômenos contemporâneos, ou deixam o estudante perdido em abstrações ou o afastam da reflexão sobre a continuidade entre o pensamento clássico e os fenômenos atuais.
8. Para reivindicar os fenômenos culturais para a reflexão filosófica, não se pode presumir que um fenômeno foi percebido filosoficamente a menos que tenha sido primeiro transformado completamente pela reflexão, nem se pode assumir que se compreendeu um fenômeno meramente localizando sua relação com o domínio científico do mundo, sendo necessário que o impacto dos fenômenos culturais seja assumido e remodelado pela teoria especulativa.
9. Apesar dos riscos, o momento presente, como uma transição sentida, oferece uma posição privilegiada para a reflexão filosófica, pois a perspectiva existencial do mundo futuro encontrando-se e chocando-se com o passado pode gerar visões críticas sobre a natureza do pensamento e suas conexões com a linguagem e a tecnologia.
10. O estudo não se enquadra no gênero do futurismo, que celebra com euforia gadgets maravilhosos, nem examina filosoficamente se o computador pode pensar ou se o pensamento humano é baseado em operações formais sequenciais, nem investiga se o espírito humano está ameaçado pela interação com a inteligência artificial, pois todas essas visões postulam uma inteligência exterior e reificada, distraindo do fenômeno que acontece mais intimamente a si mesmo.
11. Os habitantes do final do século XX raramente estão cientes de seu envolvimento em mecanismos sistemáticos de sobrevivência, pois os instrumentos de poder tecnológico raramente aparecem diretamente nas tarefas pessoais da vida diária, e a sobrevivência cotidiana traz não tanto o medo de sistemas tecnológicos autônomos, mas a necessidade de adquiri-los e usá-los, tornando-se transparentes e abrindo um mundo onde se pode fazer, ver e alcançar mais.
12. O computador catapultou esta geração para fora do sistema diário de necessidades e para o espaço livre de determinar uma nova resposta às condições sob as quais se vive, e este livro, como parte dessa resposta, opta por evitar as garantias dos futuristas empreendedores e a reação global fácil de pessimismo, sendo um livro filosófico.
13. O livro constitui um estudo introdutório do significado filosófico do fenômeno do processamento de texto, permanecendo, mesmo em suas conclusões, uma introdução ao fenômeno como um todo, no sentido filosófico de trazer para uma articulação do fenômeno, oferecendo termos básicos para compreendê-lo e originando as questões contra as quais o fenômeno pode aparecer mais nitidamente.
Parte 1: Preparação
14. O capítulo 1 recorda a questão tradicional sobre a conexão entre pensamento, linguagem e realidade, invocando panoramicamente o status da linguagem como uma dimensão transcendental ou ontologicamente relevante da existência humana, uma dimensão do mundo inteiro habitado, e este tratamento histórico, embora não doxográfico, prepara para ver mais claramente o significado do fenômeno do processamento de texto.
15. O capítulo 2 inicia o tratamento explícito da teoria que afirma uma relação íntima entre tecnologias da escrita e apreensões da realidade, embora essa teoria da transformação seja expressa em termos de comunicação social em vez de estruturas ontopsíquicas, expondo os contornos de uma teoria importante e amplamente difundida sobre os poderes de transformação do pensamento da tecnologia da escrita, tratando dos pressupostos epistemológicos e históricos operantes nas obras de Walter Ong e Eric Havelock.
16. O capítulo 3 é uma crítica da teoria de Ong sobre a tecnologia transformadora, por meio da explicação de uma filosofia da finitude cultural do século XX, uma finitude enfatizada na análise existencial de Martin Heidegger, e através de uma exposição da teoria heideggeriana da transformação epochal e de uma crítica à supressão da finitude pelo pensamento tecnológico, desenvolvendo os conceitos de deriva histórica e de compensações culturais, ou ganhos e perdas na apreensão da realidade, encontrando-se algumas chaves para o fenômeno do processamento de texto na análise heideggeriana da temporalidade e na função primordial da linguagem como fala criativa (metafórica).
Parte 2: Fenômeno
17. O capítulo 4, que inicia a parte 2, desenvolve a primeira articulação do fenômeno do processamento de texto, encontrando os termos para abordá-lo, e a noção de diferentes elementos simbólicos e das estruturas psíquicas dos elementos simbólicos é elaborada por meio da crítica aos termos da teoria da transformação, tal como encontrados nos capítulos anteriores, recorrendo-se à noção platônica de movimento psíquico desenvolvida nos Diálogos e na tradição da filosofia platônica.
18. O capítulo 5 descreve a estrutura psíquica do processamento de texto, descrevendo seus três aspectos: manipulação, formulação e vinculação, e os auxílios de software para a escrita, como processadores de ideias e geradores de esboços, são descritos como tentativas metafóricas de alterar o processo de pensamento por meio de um novo elemento simbólico, traçando-se a origem teórico-prática do processamento de texto para uma pesquisa com o propósito expresso de promover certos tipos de formulação do pensamento, tratando da transformação do texto como um produto fechado ou livro em um vasto centro aberto para variações eletronicamente acessíveis sobre um tema.
Parte 3: Avaliação
19. O capítulo 6 prepara um contraste da nova escrita digital com o modelo clássico de atividade psíquica, pois as habilidades tradicionais de escrita e os livros tradicionais constituem um elemento simbólico diferente do eletrônico, e, como resultado, o cultivo tradicional da leitura e do livro fomenta uma estrutura psíquica diferente, baseada na visão mental das ideias, em um modelo de inteligência contemplativa, oferecendo, consequentemente, um contraste com o processamento de texto.
20. O capítulo 7 aguça o contraste por meio de uma avaliação crítica do processamento de texto a partir da estrutura psíquica do livro, resumindo os argumentos que sustentam uma avaliação negativa do impacto do processamento de texto, organizados de acordo com os três aspectos da estrutura psíquica do processamento de texto: manipulação como automação, formulação sob estresse e vinculação no texto total de símbolos humanos.
21. O capítulo 8 absorve parte da avaliação negativa do impacto do processamento de texto, sugerindo disciplinas compensatórias para neutralizar as inevitáveis mudanças na consciência trazidas pela nova tecnologia, aplicando as compensações da finitude discutidas no capítulo 3 às mudanças culturais trazidas pelo processamento de texto, e as contradisciplinas são baseadas na prática automatizada de “blockbusting”, no agrupamento manual e na prática terapêutica de liberação, ou no uso de meditação modificada.
22. A ênfase na ordem linear e na interdependência dos termos, bem como na estrutura simétrica dos capítulos, é deliberada, e as razões para isso serão óbvias para o leitor que compreende o livro.