HEIM, Michael. The metaphysics of virtual reality. New York: Oxford University Press, 1993.
Processamento do Pensamento
1. A imprensa e o computador são duas formas muito diferentes de apresentar o conhecimento, sendo uma mecânica e a outra eletrônica, e o computador pessoal das últimas décadas do século XX baseia-se na imprensa de Gutenberg de 1457, afetando ambos amplamente a maneira como o conhecimento é preservado e transmitido.
2. Para compreender como o impacto dos computadores difere do da imprensa, é necessário primeiro desembaraçar as duas tecnologias, distinguindo a cultura impressa da cultura computacional, mas essa separação não é fácil, especialmente tão pouco tempo após a introdução dos computadores, pois a alfabetização impressa já estava em vigor quando os computadores surgiram.
3. A imprensa alterou o formato das palavras escritas, exigindo a padronização da pontuação, a invenção de tipos e a redução de livros a tamanhos apropriados para o mercado de massa, e embora o conteúdo impresso não fosse revolucionário, o acesso ao conhecimento tornou-se mais amplo, com livros se tornando acessíveis e a criação de bibliotecas pessoais.
4. Quatrocentos anos depois, as bibliotecas mundiais estavam repletas de materiais impressos, e por volta de 1950, já se falava em uma “explosão do conhecimento”, com pilhas de material impresso se tornando inacessíveis, e os computadores prometem alívio desse “Babel de livros” através do armazenamento magnético, que oferece acesso mais rápido e reduz o espaço de armazenamento físico.
5. O texto eletrônico, uma vez instalado, atribui à impressão um papel auxiliar, tornando-a entrada ou saída para os computadores, e o conhecimento, liberado da impressão mecânica, torna-se uma configuração de software, e a maior velocidade de acesso significa uma mudança na qualidade, com o computador inserindo uma peça de conhecimento em uma rede de informações que inclui tudo o que é conhecido.
6. No nível do processamento de texto, a escrita, que é o meio primário para colocar os pensamentos diante de si para análise crítica, tradicionalmente envolvia a composição mental de uma sequência de ideias antes de comprometê-las com a escrita, devido à resistência dos materiais, e a mente aprendia a manter ideias em sequência mental, promovendo processos de pensamento lineares.
7. O processamento de texto faz com que os pensamentos fluam de forma mais direta, com os pensamentos aparecendo na tela quase tão rápido quanto vêm à mente, e a sequência pode ser imposta posteriormente, permitindo rearranjos e mudanças sem as penalidades de redigitar ou recortar e colar, e o computador acelera o processo de pensamento enquanto preserva a disciplina de objetivar ideias.
8. Embora os computadores ainda sejam associados à impressão e à transmissão de conhecimento em papel, a interface com os próprios pensamentos está ocorrendo, e o software transforma o conhecimento além dos limites da escrita impressa, levando à atividade mais fundamental do “processamento do pensamento” (thought processing).
9. Para ver o que o computador está realmente fazendo, é necessário expandir a visão, primeiro olhando para trás, para as origens modernas do processamento do conhecimento, com Peter Ramus (1515-1572), que, como mostrou Walter Ong, fornece uma chave para entender como a imprensa moldou a cultura moderna através de um movimento educacional que avançou a clareza racional cartesiana.
10. O motor do ramismo foi a imprensa, que tornou viável reproduzir e distribuir esboços de conhecimento no papel, e Ramus defendia esboços de conhecimento que, apresentados em árvores gráficas em uma página impressa, se tornavam uma enciclopédia visual de alfabetização cultural, onde os tópicos e suas partes apareciam em resumo.
11. A reforma educacional ramista avançou a mentalidade moderna, caracterizada por Walter Ong como binária, visualista e monológica, e os esboços ramistas apresentavam o conhecimento como tópicos que se ramificavam visualmente por uma página silenciosa, permitindo que os indivíduos absorvessem verdades impressas em livros, longe do desafio direto da discussão.
12. O impacto epistemológico da impressão foi notado apenas gradualmente, pois o novo formato de conhecimento minou sutilmente o mundo oral mais antigo do discurso e da retórica, e a verdade, que antes era entendida como uma questão de disputa pública, tornou-se propriedade de mentes individuais, e o entendimento, que era conectado à enunciação verbal audível, foi concebido em termos gráficos e espaciais.
13. A preferência moderna por esboços continua até o presente, com professores treinando alunos em esboços, e profissionais como advogados, cientistas e escritores técnicos usando esboços lógicos e fluxogramas, e muitos escritores identificam o pensar com o esboçar, assumindo que a ordem lógica carrega o peso do significado.
14. Quando os computadores superam a imprensa, o esboço é informatizado e se torna um “esboçador” (outliner), que difere intrinsecamente dos esboços impressos, sendo ativo e interativo, e esse processo é chamado de “processamento de ideias” (idea processing) ou “processamento do pensamento” (thought processing), registrando o pós-moderno e dando um vislumbre do futuro.
15. Os esboçadores (outliners) incorporam interação dinâmica, com buscas de texto de forma livre, referências on-line e facilidades de hipertexto, e diferem radicalmente dos esboços impressos passivos do ramismo, forjando uma interação entre o usuário e o computador, onde a anatomia espacial de uma sequência de ideias se torna fluida, dinâmica e sem restrições.
16. Cada programa de esboço mostra um lado diferente do processamento do pensamento, e o KAMAS (Knowledge and Mind Amplification System), o primeiro esboçador para computadores pessoais, foi escrito por ex-professores de filosofia para promover o neoclassicismo da escola de Chicago, ajudando os escritores a estruturar pensamentos em níveis hierárquicos derivados da lógica aristotélica.
17. Ao contrário do KAMAS, a maioria dos esboçadores, como ThinkTank e PC-Outline, anuncia abertamente um processo de pensamento pós-moderno, incentivando uma ordem que flutua e muda, funcionando como gerenciadores de informações pessoais (PIMs), onde a própria ordem está à disposição do usuário, permitindo classificação instantânea e reorganização sem refazer a ordem inteira.
18. Os esboçadores também fazem “clonagem” (cloning), onde o mesmo tópico aparece em mais de um lugar, e uma mudança em um local faz mudanças em todos os outros, e com o PC-Outline, é possível ter até nove esboços abertos na tela ao mesmo tempo, cada um em sua própria janela, tornando o esboço um ambiente criativo onde pensar, escrever e planejar coexistem.
19. O Framework integra vários aspectos da escrita computadorizada, como processamento de texto, esboço, gerenciamento de banco de dados, planilha eletrônica e telecomunicações, usando um “quadro” (frame) para identificar e colocar limites em cada fragmento de trabalho, que pode ser manipulado e combinado como blocos de construção para estruturas infinitas.
20. Os esboçadores transformam a unidade do que constitui uma ideia, tornando a unidade das ideias maior do que o tópico moderno ou a noção tradicional, e a ideia computadorizada é inseparável de gráficos e dados numéricos, e em um ambiente de software integrado, o texto é justaposto com números, gráficos e entrada telefônica.
21. O Freestyle é um esboçador em tempo real que gera um esboço enquanto o texto é inserido, e o esboço não é o esqueleto de um documento futuro, mas uma anatomia constantemente abstrata de uma sequência de pensamento viva, permitindo consultar o esboço a qualquer momento para examinar uma progressão lógica ou reordená-la.
22. Alguns esboçadores, como o Houdini, focam em relações complexas que são “vinculadas” (linked) em vez de subordinadas, permitindo conexões de muitos para muitos, onde um nó é como um membro de uma árvore genealógica, com entradas (inputs) como pais e saídas (outputs) como filhos, e a flexibilidade permite experimentar novos padrões de conexão muito mais rapidamente do que com papel e lápis.
23. Outros tipos de vínculos derivam da lógica booleana, que permite buscas onde palavras ou frases aparecem em combinações, e programas como GoFer e Text Collector buscam rapidamente e muitas vezes produzem insights úteis, e a “lógica difusa” (fuzzy logic) recupera passagens associativas ou cognatas além da entrada exata do usuário.
24. Os gerenciadores de informações, como o Information-XL, foram chamados de “planilhas da mente”, fornecendo uma maneira permanente de conectar informações, onde, como a mente, o software faz referências cruzadas de itens sob múltiplos cabeçalhos, e os dados são interpretados como estando em dois lugares ao mesmo tempo, sem copiar os dados.
25. Os gerenciadores de informações estão próximos de se tornarem hipertexto, e o software não apenas acelera o processo de pensamento, mas também facilita o nascimento de uma nova realidade na qual se pensa, e essa nova realidade digital não deve ser confundida com um território neutro, pois o software esconde noções específicas sobre como se deve pensar dentro de um ambiente digital.