Filósofos e tecnologia

IHDE, Don. Instrumental Realism. Bloomington: Indiana University Press, 1991.

1. Apesar da vastíssima literatura dedicada à tecnologia e de sua presença decisiva na vida humana contemporânea, raramente sua própria natureza foi tomada como tema filosófico principal, pois predominam tanto investigações sobre seus efeitos quanto estudos de caráter propriamente técnico, deixando insuficientemente esclarecido aquilo que constitui a tecnologia enquanto tal.

2. A ausência de uma investigação centrada na própria tecnologia também se manifesta nas disciplinas especializadas, que tendem a privilegiar seus efeitos sociais ou os procedimentos de decisão e administração empregados em contextos tecnológicos.

3. Mesmo diante das interpretações marxistas e não marxistas que atribuem à tecnologia papel fundamental nas grandes transformações sociais e econômicas dos últimos séculos, bem como diante da ampla atividade de consultores e analistas dedicados à gestão da ciência e da tecnologia, a própria tecnologia frequentemente permanece como uma espécie de mecanismo explicativo obscuro, invocado para solucionar dificuldades interpretativas sem que sua constituição seja efetivamente elucidada.

4. A percepção de que a tecnologia permaneceu filosoficamente negligenciada precisa ser relativizada pela existência de uma significativa tradição europeia de reflexão filosófica sobre a técnica, pouco conhecida nos círculos intelectuais dominantes da América do Norte.

5. A expressão “filosofia da tecnologia” já havia sido empregada por Ernst Kapp em 1877, enquanto posteriores tradições marxistas e diversos grandes filósofos europeus do século XX reconheceram a importância histórica, econômica, social e existencial da tecnologia, assumindo Martin Heidegger posição especialmente central nesse desenvolvimento.

6. A filosofia da ciência, embora constitua a especialidade filosófica aparentemente mais próxima da tecnologia, somente muito recentemente começou a desenvolver interesse significativo pelo problema, em grande medida como reação a questionamentos provenientes de grupos minoritários no interior da própria profissão filosófica.

7. A negligência tradicional da tecnologia pela filosofia da ciência permite, por um lado, localizar possibilidades de reavaliar filosoficamente a relação entre tecnologia e ciência e, por outro, recuperar fontes europeias capazes de contribuir para a formação de uma filosofia da tecnologia ainda emergente.

8. A longa consolidação institucional da filosofia da ciência na América do Norte contrasta com o aparecimento tardio e a menor dimensão institucional da filosofia da tecnologia, revelando a relativa demora com que os filósofos norte-americanos passaram a tomar seriamente a tecnologia como problema filosófico.

9. Algumas iniciativas anteriores já haviam preparado a constituição da filosofia da tecnologia na América do Norte, embora continuassem fragmentárias diante da extensão da literatura europeia sobre o assunto.

10. A tecnofilosofia podia ainda ser caracterizada no final da década de 1970 como disciplina imatura, incerta quanto ao próprio objeto e incapaz de explorar integralmente suas possibilidades, circunstância evidenciada pela ausência, até então, de filósofos de primeira grandeza que a tivessem convertido em preocupação central mediante uma monografia sistemática.

11. A tentativa de Mario Bunge de determinar os campos próprios da “tecnofilosofia”, sua denominação para a filosofia da tecnologia, reconhecia a existência de correntes europeias, mas as avaliava segundo a atitude negativa característica da filosofia da ciência tradicional diante das tradições continentais.

12. As abordagens de Berdyaev, Ellul, Heidegger, Marcuse e Habermas são rejeitadas por Bunge por supostamente confundirem tecnologia e suas aplicações, atribuírem-lhe existência autônoma e poder sobre os seres humanos e converterem problemas como desumanização e autenticidade (Eigentlichkeit) em formulações literárias destituídas de genuíno valor filosófico.

13. Apesar das limitações de sua orientação, Mario Bunge, juntamente com James Feibleman, Joseph Agassi e filósofos como Edward Ballard, Peter Caws, Joe Margolis e Marx Wartofsky, distingue-se da indiferença filosófica predominante ao reconhecer precocemente a tecnologia como tema merecedor de investigação própria.

14. A situação relativamente recente da filosofia da tecnologia remete a raízes filosóficas muito mais profundas, pois certas tradições dominantes da filosofia da ciência constituíram um horizonte interpretativo que sistematicamente tornou a tecnologia invisível como problema filosófico.

15. Parte do silêncio filosófico acerca da tecnologia decorre da tendência da própria filosofia a compreender sua atividade como uma espécie de engenharia “conceitual”, em oposição à engenharia “material”, reproduzindo assim uma relação historicamente profunda entre ciência e tecnologia que atravessa tanto o pensamento antigo quanto o contemporâneo.

16. A negligência da tecnologia corresponde à permanência de uma extensa tradição “platonista” que interpreta ciência e tecnologia segundo pressupostos idealistas, cuja superação depende do reconhecimento da primazia da práxis, embora esta não se reduza simplesmente à oposição tradicional entre teoria e prática.

17. A distinção entre teoria e prática está vinculada a uma oposição ainda mais fundamental entre mente e corpo, pois a teoria costuma ser atribuída à atividade conceitual da mente, enquanto a prática é associada à atuação corporal, reproduzindo a precedência platônica da mente sobre o corpo.

18. A tradição “platonista”, inversamente, tende a avaliar negativamente percepção e corporificação ou, pelo menos, a situá-las em posição inferior relativamente a uma conceitualidade considerada pura e superior.

19. A persistência do platonismo na filosofia da ciência determina igualmente a interpretação dominante da relação entre ciência e tecnologia, segundo a qual a tecnologia seria apenas ciência aplicada ou um desenvolvimento neutro e subordinado da ciência.

20. A concepção da tecnologia como simples ciência aplicada vem sendo progressivamente questionada, sobretudo por cientistas sociais, historiadores e filósofos envolvidos com a formação contemporânea da filosofia da tecnologia.

21. Quando a tecnologia é concebida apenas como extensão, aplicação ou instrumento da ciência, seus efeitos aparecem necessariamente como fenômenos terciários, derivados de uma cadeia causal na qual a ciência ocupa o lugar originário e conceitualmente determinante.

22. No esquema em que a ciência constitui a causa conceitual originária, a tecnologia aparece como efeito ou aplicação dessa ciência e as consequências éticas e sociais surgem apenas como terceiro momento, de modo que uma solução verdadeiramente radical dos problemas tecnológicos exigiria intervir nas próprias fundações conceituais da ciência.

23. As discussões filosóficas sobre a possibilidade de uma ciência livre de valores e as críticas às diversas formas de reducionismo científico efetivamente procuram alcançar esse nível conceitual originário, permanecendo coerentes com o pressuposto platonista segundo o qual consequências tecnológicas problemáticas podem remeter a deficiências existentes na constituição conceitual da própria ciência.

24. Desde o final da década de 1970 ocorreu uma aceleração significativa do interesse pela filosofia da tecnologia, exemplificada pelas contribuições de Langdon Winner, Albert Borgmann e Don Ihde, embora a amplitude temática dessas obras faça com que a relação específica entre filosofia da tecnologia e filosofia da ciência nelas apareça apenas de modo intermitente.

25. A própria filosofia da ciência constitui um domínio relativamente recente quando comparado aos séculos de desenvolvimento da ciência moderna, pois antes do século XIX ciência e filosofia ainda permaneciam difíceis de distinguir, enquanto a posterior profissionalização e especialização de ambas contribuíram para estabelecer uma oposição cada vez mais rígida entre ciência e tecnologia e, finalmente, para excluir a tecnologia das preocupações filosóficas.

26. A filosofia da ciência dominante na América do Norte, inicialmente positivista e posteriormente transformada nas diferentes formas da filosofia analítica, permaneceu profundamente “platonista” ao conceber a ciência como conjunto de proposições e sistema racional-conceitual essencialmente separado de suas relações sociais e materiais.

27. Thomas Kuhn, figura fundamental da transformação norte-americana da história e da filosofia da ciência, identifica já no início de A estrutura das revoluções científicas a necessidade de superar a reconstrução histórica baseada na imagem abstrata da ciência oferecida pelos manuais científicos.

28. Uma concepção historicamente renovada da ciência não pode emergir enquanto os dados históricos forem selecionados segundo o estereótipo não histórico presente nos manuais, nos quais a ciência aparece reduzida a observações, leis e teorias, enquanto seus métodos são apresentados como simples técnicas de obtenção de dados acrescidas das operações lógicas que relacionam esses dados às generalizações teóricas.

29. A antiga filosofia da ciência pressupõe, assim, uma ciência ideal, abstrata, não histórica e desincorporada, isto é, uma ciência privada da dimensão perceptiva e de sua constituição tecnológica.

30. O platonismo implícito das antigas disciplinas históricas também sustentou a concepção segundo a qual a tecnologia seria subordinada à ciência, pois a rejeição da tese marxista de que a Revolução Científica teria simplesmente sistematizado os conhecimentos artesanais frequentemente conduziu ao extremo oposto de considerar a ciência necessariamente anterior e geradora da tecnologia.

31. A relativa conservação de pressupostos filosóficos no pensamento norte-americano explica que alguns dos primeiros filósofos interessados na tecnologia tenham transferido para esse novo domínio as mesmas categorias e interesses anteriormente utilizados na filosofia da ciência, como se manifesta de modo exemplar na abordagem de Mario Bunge.

32. A investigação de uma eventual existência de um método tecnológico paralelo ao método científico, acompanhada da tentativa de determinar suas regras e sua eficiência, pressupõe que a tecnologia deva ser compreendida segundo estruturas metodológicas previamente estabelecidas para a ciência.

33. A indagação sobre a existência de leis e teorias especificamente tecnológicas, bem como sobre as diferenças entre estas e as leis e teorias científicas, conserva como referência normativa o modelo conceitual tradicional da ciência.

34. A tentativa de determinar as peculiaridades das regras próprias da tecnologia avançada em comparação com regras matemáticas e científicas prolonga a interpretação da tecnologia mediante categorias originariamente construídas para compreender a ciência.

35. Uma concepção quase estipulativa da tecnologia, definida mediante categorias derivadas da ciência, reproduz a predisposição a compreendê-la como ciência aplicada e exclui amplos conjuntos de fenômenos tecnológicos que não possuem relação direta ou redutível com o conhecimento científico.

36. Quando a filosofia tradicional dirige finalmente sua atenção à presença incontornável da tecnologia, tende a reconstruí-la segundo seus próprios modelos interpretativos dominantes, procurando compreender a lógica do pensamento e da prática tecnológicos mediante problemas como a existência de leis tecnológicas ou a posição da tecnologia no modelo nomológico e no contexto de justificação característico da filosofia lógico-empirista da ciência.

37. Embora a antiga filosofia da ciência conserve considerável poder institucional e algumas preferências conceitualistas sobrevivam também em suas orientações mais recentes, abriu-se uma ruptura decisiva pela qual outras possibilidades de compreensão se tornaram acessíveis, permitindo que uma nova filosofia da ciência modificasse simultaneamente a interpretação da ciência e o lugar filosófico concedido à tecnologia.

38. As raízes da nova filosofia da ciência no âmbito anglo-americano encontram-se especialmente entre historiadores e filósofos atentos às incorporações históricas, perceptivas e comunitárias da ciência, convergindo parcialmente com investigações independentes desenvolvidas no campo da história da tecnologia.

39. A revisão da relação tradicional entre ciência e tecnologia tornou-se particularmente visível entre as gerações mais recentes de historiadores da tecnologia, cuja produção passou a questionar sistematicamente a concepção segundo a qual a tecnologia seria simplesmente aplicação da ciência.

40. As críticas à concepção da tecnologia como ciência aplicada combinam uma estratégia empírica e outra analítica, sendo historicamente demonstrável que avanços decisivos em campos como máquinas a vapor, energia hidráulica, máquinas-ferramentas, relojoaria e metalurgia ocorreram com pouca ou nenhuma dependência de teorias científicas.

41. A revisão anglo-americana da relação entre ciência e tecnologia reencontra, por caminhos próprios, uma transformação de perspectiva anteriormente desenvolvida na filosofia europeia, particularmente na reflexão de Martin Heidegger, que desde o início da década de 1950 já havia convertido a questão da técnica (Technik) em problema central e invertido radicalmente a concepção tradicional da prioridade da ciência sobre a tecnologia.

42. A essência da técnica moderna (Wesen der modernen Technik), compreendida a partir da com-posição (Gestell), exige o emprego da ciência física exata, fazendo surgir apenas posteriormente a aparência enganosa de que a técnica moderna seria simples aplicação da física, aparência que permanece possível enquanto não forem interrogadas adequadamente tanto a origem essencial da ciência moderna quanto a essência da técnica (Wesen der Technik).

43. A inversão heideggeriana do platonismo não implica retornar à concepção marxista da Revolução Industrial como mera sistematização dos conhecimentos artesanais, mas transforma a própria relação ciência-tecnologia ao permitir compreender a ciência a partir de uma constituição tecnológico-científica mais originária.

44. A antiga filosofia da ciência permanece amplamente desinteressada até mesmo pela tecnologia indispensável à própria ciência, isto é, por sua instrumentação, pois sua distinção entre ciência “teórica” e ciência “experimental” conduziu à concentração quase exclusiva na primeira e reproduziu uma concepção da filosofia como atividade predominantemente lógica e linguística.

45. As transformações constitutivas da denominada nova filosofia da ciência tornaram-se irreversíveis e começaram a produzir consequências decisivas para a articulação entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia, abrindo a possibilidade de compreender a ciência mediante suas dimensões históricas, perceptivas, práticas, sociais e tecnologicamente incorporadas.