Realismo instrumental

IHDE, Don. Instrumental Realism. Bloomington: Indiana University Press, 1991.

A Interface entre a Filosofia da Ciência e a Filosofia da técnica

Don Ihde demonstra como a instrumentação científica pode ser a conexão forte, ou o “interface”, entre a filosofia da ciência e a filosofia da técnica. O livro defende uma abordagem centrada em práxis-percepção para a filosofia da ciência e explora formas pelas quais tal abordagem oferece uma sobreposição esclarecedora com a filosofia da técnica. A obra de alguns expoentes das tradições anglo-saxônicas e europeias são examinadas na medida que advogam uma abordagem “realista instrumental” para a filosofia da ciência, assim se fala de Heidegger, Merleau-Ponty e Foucault.

Parte I: Filosofia da ciência lida através da filosofia da técnica Introdução: filósofos e técnica A nova filosofia da ciência Filosofia da Técnica

Parte II: O Instrumento como Interface A Encarnação da Ciência na Técnica A. Os “filósofos-do-corpo” B. A tradição dos “filósofos-da-mente” C. Instrumentos como interface Realismo instrumental A Experiência

Epílogo: Filosofia da Técnica além da Filosofia da Ciência


Prefácio

1. A filosofia da ciência, já consolidada após quase seis décadas como subdisciplina filosófica, contrasta com a filosofia da tecnologia, ainda em processo de constituição institucional ao final de sua primeira década organizada, abrindo-se entre ambas um espaço de investigação destinado a aproximar campos até então apenas parcialmente articulados.

2. A diferença de maturidade entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia acompanha uma diferença de filiação intelectual, pois a primeira se constituiu predominantemente sob influência das tradições anglo-americanas, enquanto a segunda emergiu na América do Norte a partir de matrizes marxistas, fenomenológicas, teológicas e pragmatistas.

3. A diferença de filiação reproduziu a cisão filosófica mais ampla entre tradições anglo-americanas e euro-americanas, estabelecendo hábitos de leitura mutuamente excludentes pelos quais grande parte da filosofia da ciência ignorava ou hostilizava vertentes continentais, enquanto parcela significativa da filosofia euro-americana manifestava desinteresse ou hostilidade diante da própria ciência.

4. Subjacente às diferenças institucionais e tradicionais encontra-se uma oposição filosófica mais profunda entre abordagens orientadas prioritariamente pela teoria e abordagens orientadas pela práxis, distinção decisiva tanto para a filosofia da ciência quanto para a filosofia da tecnologia, embora inicialmente não apareça em primeiro plano.

5. Três lacunas fundamentais estruturam as práticas de leitura na região de contato entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia: a separação entre os especialistas de cada uma das duas áreas, a divisão entre tradições anglo-americanas e euro-americanas e a oposição interpretativa entre orientações centradas na teoria e orientações centradas na práxis.

6. Embora tenham surgido filósofos capazes de transitar entre diferentes tradições e linguagens disciplinares, ainda não se constituiu uma linguagem filosófica comum entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia, permanecendo reduzida até mesmo entre os realistas instrumentais a circulação de referências entre autores situados nos dois lados da principal divisão disciplinar.

7. A terceira dimensão da separação entre os campos torna a situação especialmente complexa, pois atravessa simultaneamente filosofia da ciência e filosofia da tecnologia segundo a oposição entre interpretações tendencialmente orientadas pela teoria e interpretações tendencialmente orientadas pela práxis.

8. A filosofia da ciência anterior a Kuhn concentrou-se predominantemente na ciência, na tradição anglo-americana e numa orientação teórica, permanecendo em grande medida indiferente à tecnologia, inclusive à tecnologia constitutiva da própria ciência, enquanto a filosofia da tecnologia, originada de preocupações euro-americanas, privilegiou a tecnologia como fenômeno sociopolítico e assumiu orientação mais prática e aplicada.

9. A orientação prática da filosofia da tecnologia foi tão marcante que, nas origens da futura Society for Philosophy and Technology, resistiu-se deliberadamente à constituição de uma organização formal análoga à Philosophy of Science Association, permanecendo ainda posteriormente certa relutância institucional, apesar da existência de publicações que assumiram explicitamente a denominação de filosofia da tecnologia.

10. A investigação desenvolvida desde Technics and Praxis, publicado em 1979, estabeleceu desde o início a instrumentação como forma de incorporação tecnológica da ciência e sustentou que uma diferença decisiva entre ciência antiga e ciência moderna reside precisamente na tecnologia mediante a qual a atividade científica se realiza.

11. A articulação entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia exige reconhecer o papel da tecnologia nas formas recentes da ciência, recuperar contribuições euro-americanas frequentemente negligenciadas e reinterpretar a transformação introduzida por Thomas Kuhn mediante sua aproximação com Michel Foucault.

12. A proximidade entre Kuhn e a fenomenologia torna possível explicitar um modelo interpretativo de práxis-percepção, particularmente visível na comparação entre Thomas Kuhn e Michel Foucault, cujas primeiras obras transformadoras apareceram quase simultaneamente no início da década de 1960.

13. O surgimento de uma concepção da ciência centrada na práxis e na percepção pode ser reconstruído a partir de Edmund Husserl e Maurice Merleau-Ponty, enquanto Martin Heidegger introduz decisivamente a questão da técnica (Technik) em sua relação com a ciência, tornando possível a aproximação filosófica entre os dois campos.

14. A instrumentação tecnológica deve ocupar posição central na região de contato entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia, pois é mediante ela que a ciência adquire sua forma tecnológica especificamente contemporânea e manifesta de modo mais evidente a insuficiência de uma filosofia da ciência que negligencie a técnica.

15. Um modelo implícito de práxis-percepção pode orientar conjuntamente a filosofia da ciência e a filosofia da tecnologia, derivando de determinadas tendências da fenomenologia reinterpretadas de maneira pós-fundacionalista e permitindo compreender novamente o papel constitutivo da instrumentação e da tecnologia na ciência.

16. A compreensão da função decisiva da práxis e da percepção na produção de conhecimento por uma ciência tecnologicamente incorporada pode ser aprofundada mediante cinco filósofos norte-americanos que reconheceram explicitamente essa posição intermediária: Hubert Dreyfus, Patrick Heelan, Robert Ackermann, Ian Hacking e Don Ihde.

17. A leitura paralela de cinco autores permite reconhecer uma convergência em torno do realismo instrumental, segundo a qual a forma tecnologicamente incorporada da ciência participa constitutivamente de seus modos de aquisição de conhecimento, embora a crescente complexidade dos instrumentos e a organização corporativa da ciência contemporânea tornem progressivamente mais intrincado o processo científico.

18. Durante a década de 1980, a crescente complexidade da ciência experimental tornou-se objeto de atenção de sociólogos e antropólogos da ciência, culminando, por volta de 1987, em estudos sobre a relação entre experimento, construção das realidades científicas e constituição socio-histórica da própria atividade científica.

19. O realismo instrumental conduz ao reconhecimento de zonas de ambiguidade entre artefatos produzidos pelos instrumentos e entidades tecnologicamente constituídas que se tornam objetos da ciência contemporânea, tornando necessária uma investigação específica do experimento e de suas mediações técnicas.

20. A organização da investigação combina uma reconstrução histórica das relações entre filosofia da ciência e filosofia da tecnologia com uma análise contemporânea da instrumentação científica, fazendo dos capítulos iniciais uma preparação histórica e dos capítulos posteriores uma investigação concentrada nos problemas do realismo instrumental.

21. A análise do experimento concentra-se deliberadamente em apenas dois autores particularmente pertinentes às questões investigadas, assumindo uma delimitação seletiva adequada a um campo em rápida expansão no qual tanto a filosofia da tecnologia quanto a filosofia da ciência conheceram forte multiplicação de perspectivas durante a década precedente.

22. A elaboração sistemática da investigação iniciou-se durante uma licença sabática no segundo semestre de 1984, embora a preocupação com a interface entre ciência e tecnologia remontasse aproximadamente a uma década antes, sendo o manuscrito concluído somente no segundo semestre de 1988 após um intervalo possibilitado por nova licença de pesquisa.

23. A constituição final da investigação beneficiou-se das críticas e sugestões de John Compton, Frederick Ferré, Robert Ackermann, Joseph Rouse, Steve Goldman e seus colegas da Lehigh University, além do trabalho de preparação e edição inicial do manuscrito realizado por Jean Kelley.

24. Embora o grupo caracterizado como uma espécie de escola de realistas instrumentais tenha surgido em grande medida sem intercâmbio direto entre seus primeiros autores, começaram posteriormente a estabelecer-se contatos produtivos tanto entre seus integrantes quanto com pesquisadores dedicados à experimentação científica, tornando desejável o aprofundamento dessas convergências entre realismo instrumental, filosofia do experimento, filosofia da ciência e filosofia da tecnologia.