Metonímia

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metaphors we live by. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

1. Nos casos de personificação examinados, imputam-se qualidades humanas a coisas não humanas, como teorias, doenças e inflação, sem que exista, nesses casos, referência a um ser humano real, de modo que, ao se dizer que a inflação roubou as economias de alguém, o termo inflação não está sendo usado para referir-se a uma pessoa, casos que devem ser distinguidos de expressões como o sanduíche de presunto está esperando a conta, em que a expressão o sanduíche de presunto refere-se a uma pessoa real, aquela que fez o pedido, não constituindo tais casos instâncias de metáfora de personificação, já que o sanduíche de presunto não é compreendido por meio da imputação de qualidades humanas a ele, mas sim pelo uso de uma entidade para referir-se a outra a ela relacionada, fenômeno denominado metonímia.

2. Inclui-se como caso especial de metonímia o que os retóricos tradicionais chamaram de sinédoque, em que a parte representa o todo, como na fórmula a parte pelo todo, ilustrada por exemplos como o automóvel que entope as rodovias, referindo-se ao conjunto de automóveis, precisar de alguns corpos fortes para o time, referindo-se a pessoas fortes, haver muitas boas cabeças na universidade, referindo-se a pessoas inteligentes, ter um novo jogo de rodas, referindo-se a um veículo, e precisar de sangue novo na organização, referindo-se a pessoas novas.

3. Nesses casos, como nos demais de metonímia, uma entidade é usada para referir-se a outra, constituindo metáfora e metonímia processos de tipos diferentes, sendo a metáfora principalmente um modo de conceber uma coisa em termos de outra, com função primordialmente compreensiva, ao passo que a metonímia tem função primordialmente referencial, permitindo usar uma entidade para representar outra.

4. A metonímia, contudo, não é mero dispositivo referencial, servindo também à função de proporcionar compreensão, como se observa no caso da metonímia a parte pelo todo, em que muitas partes podem representar o todo, determinando a parte escolhida qual aspecto do todo é focalizado, de modo que, ao se dizer que se precisa de boas cabeças no projeto, usa-se boas cabeças para referir-se a pessoas inteligentes, não sendo o objetivo apenas usar uma parte, a cabeça, para representar um todo, a pessoa, mas selecionar uma característica particular dela, a inteligência, associada à cabeça.

5. A metonímia serve, portanto, a alguns dos mesmos propósitos que a metáfora, e de modo similar, mas permite focalizar de maneira mais específica certos aspectos daquilo a que se refere, assemelhando-se também à metáfora por não ser mero recurso poético ou retórico, tampouco mera questão de linguagem, sendo os conceitos metonímicos, como a parte pelo todo, parte do modo ordinário e cotidiano de pensar e agir, além de falar.

6. Existe no sistema conceitual em questão um caso especial da metonímia a parte pelo todo, a saber, o rosto pela pessoa, ilustrado por exemplos como ser apenas um rosto bonito, haver muitos rostos na plateia e precisar de novos rostos por aqui.

7. Essa metonímia funciona ativamente na cultura em questão, baseando-se nela a tradição do retrato, tanto na pintura quanto na fotografia, de modo que, ao se pedir uma foto do filho de alguém e se mostrar uma foto de seu rosto, a pessoa ficará satisfeita e considerará ter visto uma foto dele, mas, se for mostrada uma foto de seu corpo sem o rosto, a pessoa achará estranho e ficará insatisfeita, podendo até perguntar como ele é, mostrando isso que a metonímia o rosto pela pessoa não é mera questão de linguagem.

8. Assim como as metáforas, as metonímias não são ocorrências aleatórias ou arbitrárias, a serem tratadas como instâncias isoladas, sendo os conceitos metonímicos também sistemáticos, como mostram os exemplos representativos existentes na cultura em questão a seguir apresentados.

** A parte pelo todo **

9. Exemplos incluem mande sua bunda para cá, não contratamos cabeludos, os Giants precisam de um braço mais forte no jardim direito e ter um novo motor V-8 de câmbio manual no chão.

** Produtor pelo produto **

10. Exemplos incluem pedir um Löwenbräu, comprar um Ford, ter um Picasso na sala e odiar ler Heidegger.

** Objeto usado pelo usuário **

11. Exemplos incluem o saxofone que está gripado hoje, o BLT que dá gorjeta ruim, o pistoleiro contratado que queria cinquenta mil e precisar de uma luva melhor na terceira base, além das ônibus que estão em greve.

** Controlador pelo controlado **

12. Exemplos incluem Nixon que bombardeou Hanói, Ozawa que deu um concerto terrível ontem à noite, Napoleão que perdeu em Waterloo, Casey Stengel que venceu muitos campeonatos e um Mercedes que bateu na traseira de alguém.

** Instituição pelas pessoas responsáveis **

13. Exemplos incluem a Exxon que subiu os preços novamente, a impossibilidade de convencer a universidade a concordar com algo, o Exército que quer reinstituir o alistamento, o Senado que considera o aborto imoral e a desaprovação das ações do governo.

** O lugar pela instituição **

14. Exemplos incluem a Casa Branca que não está dizendo nada, Washington insensível às necessidades do povo, o Kremlin que ameaçou boicotar a próxima rodada de negociações SALT, Paris que está introduzindo saias mais longas nesta estação, Hollywood que não é mais o que era e Wall Street em pânico.

** O lugar pelo evento **

15. Exemplos incluem não deixar a Tailândia se tornar outro Vietnã, lembrar do Álamo, Pearl Harbor que ainda afeta a política externa, Watergate que mudou a política e o lugar que esteve como a Grand Central Station o dia todo.

16. Conceitos metonímicos como esses são sistemáticos do mesmo modo que os conceitos metafóricos, não sendo aleatórias as sentenças apresentadas, mas instâncias de determinados conceitos metonímicos gerais em termos dos quais se organizam pensamentos e ações, permitindo os conceitos metonímicos conceituar uma coisa por meio de sua relação com outra.

17. Assim, como as metáforas, os conceitos metonímicos estruturam não apenas a linguagem, mas também os pensamentos, atitudes e ações, estando também, como os conceitos metafóricos, fundamentados na experiência, sendo em geral mais evidente o fundamento dos conceitos metonímicos do que o dos conceitos metafóricos, por envolver geralmente associações físicas ou causais diretas.

18. O simbolismo cultural e religioso constitui um caso especial de metonímia, existindo, no âmbito do cristianismo, a metonímia pomba pelo espírito santo, simbolismo que, como é típico nas metonímias, não é arbitrário, mas fundamentado na concepção da pomba na cultura ocidental e na concepção do Espírito Santo na teologia cristã.

19. Os sistemas conceituais das culturas e religiões têm natureza metafórica, constituindo as metonímias simbólicas elos fundamentais entre a experiência cotidiana e os sistemas metafóricos coerentes que caracterizam religiões e culturas, fornecendo as metonímias simbólicas fundamentadas na experiência física um meio essencial de compreender conceitos religiosos e culturais.