Metáforas ontológicas

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metaphors we live by. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

** Metáforas ontológicas **

** Metáforas de entidade e substância **

1. As orientações espaciais como cima-baixo, frente-trás, ligado-desligado, centro-periferia e perto-longe oferecem uma base extraordinariamente rica para compreender conceitos em termos orientacionais, mas há um limite para o que se pode fazer apenas com orientação, sendo a experiência com objetos físicos e substâncias uma base adicional de compreensão, que vai além da mera orientação, permitindo que a compreensão das experiências em termos de objetos e substâncias isole partes da experiência e as trate como entidades ou substâncias discretas e de tipo uniforme, o que, uma vez feito, possibilita referir-se a elas, categorizá-las, agrupá-las e quantificá-las e, por esse meio, raciocinar a seu respeito.

2. Quando as coisas não são claramente discretas ou delimitadas, ainda assim elas são categorizadas dessa forma, como no caso de montanhas, esquinas e cercas-vivas, modos de ver os fenômenos físicos necessários para satisfazer certos propósitos, como localizar montanhas, encontrar-se em esquinas ou aparar cercas-vivas, exigindo os propósitos humanos, em geral, a imposição de fronteiras artificiais que tornam os fenômenos físicos discretos, tal como as próprias pessoas são entidades delimitadas por uma superfície.

3. Assim como as experiências básicas de orientação espacial humana dão origem às metáforas orientacionais, as experiências com objetos físicos, especialmente com o próprio corpo, fornecem a base para uma variedade extraordinariamente ampla de metáforas ontológicas, isto é, modos de ver eventos, atividades, emoções, ideias, entre outros, como entidades e substâncias.

4. As metáforas ontológicas servem a diversos propósitos, e os diferentes tipos de metáforas existentes refletem os tipos de propósitos a que atendem, como no caso da experiência da alta dos preços, vista metaforicamente como uma entidade por meio do substantivo inflação, o que fornece um meio de referir-se a essa experiência sob a fórmula inflação é uma entidade.

5. O leque de metáforas ontológicas usadas para esses propósitos é enorme, apresentando-se a seguir alguns tipos de propósitos com exemplos representativos de metáforas ontológicas que a eles servem.

6. Como no caso das metáforas orientacionais, a maior parte dessas expressões não é percebida como metafórica, em parte porque as metáforas ontológicas, assim como as orientacionais, servem a um leque bastante limitado de propósitos, como referir e quantificar, e o simples fato de ver algo não físico como entidade ou substância não permite compreender muito a seu respeito, podendo, contudo, as metáforas ontológicas ser mais elaboradas, como ilustram dois exemplos de elaboração cultural da metáfora a mente é uma entidade.

** A mente é uma máquina **

7. Expressões como ainda tentar triturar a solução de uma equação, a mente que não está funcionando hoje, as engrenagens girando, estar um pouco enferrujado e estar ficando sem energia após trabalhar o dia todo num problema ilustram essa metáfora.

** A mente é um objeto frágil **

8. Expressões como ter o ego muito frágil, precisar tratar alguém com cuidado após a morte da esposa, quebrar-se sob interrogatório, ser facilmente esmagado, ser destroçado por uma experiência, estar se despedaçando e a mente que estalou ilustram essa metáfora.

9. Essas metáforas especificam diferentes tipos de objetos, oferecendo diferentes modelos metafóricos do que é a mente e permitindo, assim, focalizar diferentes aspectos da experiência mental, dando a metáfora da máquina uma concepção da mente como algo que tem estado ligado-desligado, nível de eficiência, capacidade produtiva, mecanismo interno, fonte de energia e condição de funcionamento, enquanto a metáfora do objeto frágil é bem menos rica, permitindo falar apenas de força psicológica, existindo, contudo, uma gama de experiências mentais concebível por meio de qualquer uma das duas metáforas, como nos exemplos ele quebrou, referente à mente como máquina, e ele estourou, referente à mente como objeto frágil.

10. Metáforas ontológicas como essas são tão naturais e tão difundidas no pensamento que costumam ser tomadas como evidentes por si mesmas, descrições diretas de fenômenos mentais, sem que a maioria perceba seu caráter metafórico, tomando-se afirmações como ele quebrou sob pressão como diretamente verdadeiras ou falsas, expressão de fato usada por diversos jornalistas para explicar por que Dan White levou sua arma à prefeitura de São Francisco e matou a tiros o prefeito George Moscone, parecendo tais explicações perfeitamente naturais à maioria, pela razão de que metáforas como a mente é um objeto frágil constituem parte integrante do modelo de mente vigente na cultura em questão, modelo segundo o qual a maioria pensa e opera.

** Metáforas de recipiente **

** Áreas de terra **

11. Como seres físicos, delimitados e separados do restante do mundo pela superfície da pele, experimenta-se o restante do mundo como algo externo, sendo cada pessoa um recipiente, com superfície delimitadora e orientação dentro-fora, projetando-se essa orientação sobre outros objetos físicos delimitados por superfícies, vistos também, assim, como recipientes com interior e exterior.

12. Substâncias também podem ser vistas como recipientes, como no caso de uma banheira com água, em que entrar na banheira é entrar na água, sendo ambas vistas como recipientes, mas de tipos diferentes, a banheira como objeto-recipiente e a água como substância-recipiente.

** O campo visual **

13. O campo visual é conceituado como um recipiente, e aquilo que se vê é conceituado como estando dentro dele, sugerindo o próprio termo campo visual essa ideia, metáfora natural que emerge do fato de que, ao se olhar para um território, seja terra ou piso, o campo de visão define uma fronteira desse território, a saber, a parte que se pode ver, de modo que, dado que um espaço físico delimitado é um recipiente e que o campo de visão se correlaciona com esse espaço físico delimitado, surge naturalmente o conceito metafórico campos visuais são recipientes.

** Eventos, ações, atividades e estados **

14. Metáforas ontológicas são usadas para compreender eventos, ações, atividades e estados, sendo eventos e ações conceituados metaforicamente como objetos, atividades como substâncias e estados como recipientes.

15. Atividades em geral são vistas metaforicamente como substâncias e, portanto, como recipientes, como ilustram exemplos relativos a lavar janelas, tais como respingar água pelo chão todo ao lavar a janela, livrar-se de lavar as janelas, o que mais se fez além de lavar as janelas, quanto se lavou de janela, como alguém passou a se dedicar a lavar janelas como profissão e estar imerso em lavar as janelas agora.

16. Atividades são vistas também como recipientes para a energia e os materiais necessários a elas e para seus subprodutos, que podem ser vistos como estando dentro delas ou emergindo delas, como ilustram exemplos relativos a colocar muita energia em lavar as janelas e obter ou haver muita satisfação em lavar janelas.

17. Diversos tipos de estados também podem ser conceituados como recipientes, como ilustram exemplos como estar apaixonado, estar fora de perigo agora, estar saindo do coma, estar entrando em forma aos poucos, ter entrado num estado de euforia, ter caído numa depressão e ter finalmente emergido do estado catatônico em que se estava desde o fim das provas finais.


** Personificação **

1. As metáforas ontológicas mais evidentes talvez sejam aquelas em que o objeto físico é ainda mais especificado como uma pessoa, o que permite compreender uma ampla variedade de experiências com entidades não humanas em termos de motivações, características e atividades humanas.

2. Em cada um desses casos, algo não humano é visto como humano, mas a personificação não constitui um processo único e geral e unificado, diferindo cada personificação quanto aos aspectos das pessoas selecionados, como ilustram exemplos relativos à inflação, tais como a inflação que atacou os alicerces da economia, a inflação que encurralou alguém contra a parede, a inflação como o maior inimigo do momento, o dólar destruído pela inflação, a inflação que roubou as economias de alguém, a inflação que enganou as melhores mentes econômicas do país e a inflação que deu à luz uma geração obcecada por dinheiro.

3. Nesses exemplos a inflação é personificada, mas a metáfora não é meramente inflação é uma pessoa, sendo bem mais específica, a saber, inflação é um adversário, o que não apenas fornece um modo bastante específico de pensar sobre a inflação, mas também um modo de agir em relação a ela, concebendo-se a inflação como um adversário capaz de atacar, ferir, roubar e até destruir, dando essa metáfora origem e justificativa a ações políticas e econômicas por parte do governo, como declarar guerra à inflação, fixar metas, convocar sacrifícios e instalar uma nova cadeia de comando.

4. O ponto central aqui é que a personificação constitui uma categoria geral que abrange um leque muito amplo de metáforas, cada uma selecionando diferentes aspectos de uma pessoa ou modos de vê-la, tendo todas em comum o fato de serem extensões de metáforas ontológicas e de permitirem dar sentido a fenômenos do mundo em termos humanos, termos compreensíveis a partir das próprias motivações, objetivos, ações e características, possuindo o ato de ver algo tão abstrato quanto a inflação em termos humanos um poder explicativo do único tipo que faz sentido para a maioria das pessoas, de modo que, ao se sofrerem perdas econômicas substanciais decorrentes de fatores econômicos e políticos complexos que ninguém realmente compreende, a metáfora inflação é um adversário oferece ao menos um relato coerente do motivo dessas perdas.