Metáfora e verdade

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.

1. A visão tradicional da metáfora é empiricamente falsa porque a metáfora é conceitual e o pensamento cotidiano é amplamente metafórico, portanto, as visões de realidade, verdade, linguagem, conhecimento e moralidade que estão ligadas à teoria tradicional da metáfora também devem ser falsas, e isso é perturbador porque questiona muitas das visões de senso comum mais básicas do mundo, bem como as teorias filosóficas que elaboram essas visões.

2. A teoria tradicional da metáfora sustenta que a metáfora é uma questão de palavras, não de pensamento, que a linguagem metafórica não faz parte da linguagem convencional comum, que a linguagem metafórica é desviante, que as expressões metafóricas convencionais são “metáforas mortas” (dead metaphors) e que as metáforas expressam similaridades preexistentes, e essa teoria está profundamente enraizada na tradição filosófica ocidental.

3. A teoria do senso comum da linguagem e da verdade afirma que o mundo consiste em objetos e seres vivos que têm certas propriedades e relações, que há apenas uma maneira como o mundo é, que a linguagem consiste em palavras que expressam ideias que se encaixam literalmente no mundo, e que o papel principal da linguagem é expressar e comunicar verdades básicas sobre o mundo, e essa teoria é fundamentalmente correta para conceitos de nível básico, mas é uma interpretação “objetivista” (objectivist) que ignora o corpo e o entendimento incorporado.

4. A teoria do senso comum esconde a verdadeira natureza do pensamento metafórico porque, se fosse verdadeira, a metáfora não serviria à função central da linguagem, que é expressar verdades literais, e a metáfora foi tradicionalmente relegada a uma teoria de tropos, destinada a lidar com usos da linguagem em que a verdade não é considerada em questão: poesia, floreios retóricos, discurso fictício, e assim por diante.

5. A teoria tradicional da metáfora segue da interpretação objetivista da teoria do senso comum: porque as ideias têm que ser literais para se encaixarem no mundo, a metáfora deve ser uma questão de palavras, não de pensamentos; se as palavras cotidianas são usadas em seus sentidos “próprios”, a linguagem metafórica deve ser “desviante”; a linguagem que não se comporta dessa maneira não é linguagem cotidiana comum, mas poética, retórica ou fictícia; e se uma expressão cotidiana convencional é metafórica, ela só pode ser “morta”.

6. O quinto princípio da teoria tradicional, que a metáfora é baseada em similaridade, exige que todos os conceitos sejam literais e nomeiem coisas e categorias objetivamente existentes no mundo, e que a similaridade seja definida por propriedades compartilhadas que realmente existem objetivamente no mundo, e há duas visões filosóficas de longa data sobre a natureza da metáfora: teorias que reduzem toda a metáfora a linguagem literal indireta (literalistas como Aristóteles e Searle) e teorias que tratam a metáfora como irrelevante para o significado e o pensamento racional ou como uma ruptura imaginativa do pensamento racional (antimeaning theorists como Davidson e Rorty).

7. A evidência para a metáfora conceitual é evidência contra a teoria tradicional, e cada um dos princípios é falso: a metáfora é principalmente uma questão de pensamento, não apenas de palavras, como demonstrado pelo mapeamento “Amor é uma Jornada” (Love Is A Journey), que unifica dezenas de expressões linguísticas diferentes sob um único mapeamento conceitual; a linguagem metafórica é parte da linguagem cotidiana comum e não é apenas poética ou retórica; o pensamento metafórico é normal, não desviante; expressões metafóricas convencionais estão vivas e são cognitivamente reais, não “mortas”; e a metáfora não expressa similaridades preexistentes, pois muitas vezes não há similaridade preexistente, a similaridade é simétrica, mas a metáfora é assimétrica, e a metáfora pode criar similaridades através do mapeamento.

8. Metáforas “mortas” (dead metaphors), como a palavra “pedigree”, são casos muito restritos em que o mapeamento conceitual já não existe mais, e isso é diferente de palavras como “comprehend”, que perdeu seu sentido de domínio fonte, mas a metáfora “Compreender é Agarrar” (Understanding Is Grasping) ainda está viva, e diferente de expressões metafóricas convencionais como “não está indo a lugar nenhum”, que instanciam o mapeamento vivo “Amor é uma Jornada”.

9. Uma maneira fácil de dizer se um mapeamento metafórico está vivo é ver se uma expressão metafórica nova pode ser uma instância desse mapeamento, como no exemplo “estrada do amor” (freeway of love), e se um mapeamento metafórico pode dar origem a novas expressões metafóricas na poesia, retórica e canções, então essa metáfora está viva.

10. Há pelo menos quatro argumentos contra a hipótese da similaridade: primeiro, em muitos casos não há similaridade preexistente entre o conceito esquelético de amor e o conceito de uma jornada; segundo, a metáfora “Conhecer é Ver” (Knowing Is Seeing) não expressa uma similaridade entre ver e conhecer, pois não se pode ver literalmente o que alguém quer dizer; terceiro, a similaridade é simétrica, mas a metáfora é assimétrica, pois palavras de viagem podem caracterizar o amor, mas o inverso não é verdadeiro; e quarto, conceitos como casamento podem ser metaforicamente conceituados de maneiras inconsistentes através de diferentes metáforas, como “Casamento é Parceria de Negócios” e “Casamento é Relação Pai-Filho”, o que seria contraditório se a metáfora expressasse uma similaridade preexistente.

11. A existência do pensamento metafórico tem implicações radicais para a filosofia: a metáfora é necessária para a própria existência da filosofia, pois conceitos abstratos como tempo, causalidade, mente, self, conhecimento, verdade e moralidade são todos estruturados por metáforas conceituais; a metáfora não é um desvio do pensamento literal, mas uma parte fundamental do pensamento; a distinção entre literal e metafórico não é rígida; a verdade não é apenas uma questão de correspondência literal com a realidade; a filosofia não pode se basear em uma suposta capacidade de pensar sem metáforas; a filosofia deve levar a sério o fato de que seus próprios conceitos fundamentais são metaforicamente estruturados.

12. Eliminar a metáfora eliminaria a filosofia, pois sem uma vasta gama de metáforas conceituais, a filosofia não poderia começar, e o caráter metafórico da filosofia não é exclusivo do pensamento filosófico, mas é verdadeiro de todo o pensamento humano abstrato, especialmente da ciência, e a metáfora conceitual é o que torna possível a maior parte do pensamento abstrato, sendo um dos maiores dons intelectuais.