Conclusão

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.

Conclusão: de uma comunicação impossível

1. A possibilidade de um encontro efetivo entre filosofia cognitiva e fenomenologia mostra-se praticamente impossível diante das divergências fundamentais entre seus pressupostos, embora essa incompatibilidade seja parcialmente mascarada por sobreposições temáticas e metodológicas que podem sugerir uma proximidade apenas aparente.

2. Filosofia cognitiva e fenomenologia parecem ocupar-se dos mesmos objetos por investigarem, em sentido amplo, os vividos e procurarem, entre outras tarefas, oferecer uma fundamentação filosófica para a psicologia. :contentReference[oaicite:0]{index=0}

3. Ambas reivindicam para si uma condição científica que não desempenha papel secundário, pois tanto a fenomenologia quanto a filosofia cognitiva pretendem, de maneiras profundamente diferentes, fundamentar a própria cientificidade da abordagem racional do mundo.

4. Tanto a filosofia cognitiva quanto a fenomenologia dispõem de aparelhos metodológicos estruturados, mas a primeira toma como referência metodológica as ciências positivas e a matemática, associando-as a diferentes formas de materialismo, enquanto a segunda se organiza em torno da épochè e dos desenvolvimentos produzidos pela tradição fenomenológica.

5. A determinação histórica de ambas as filosofias não permite concluir que seus objetos sejam comuns, pois cada objeto adquire significado no interior da instituição simbólica que o constitui, podendo aquilo que aparentemente recebe o mesmo nome corresponder a realidades conceituais radicalmente heterogêneas.

6. As diferenças fundamentais entre fenomenologia e filosofia cognitiva podem ser esclarecidas de maneira decisiva pela análise da relação entre sentido e significação, dimensão na qual a divergência entre essas duas orientações assume caráter estrutural.

1. A comunicação impossível: sentido e significação

7. A relação entre sentido e significação atravessa toda a história da filosofia e não pode ser esgotada em uma análise breve, mas uma consideração suficientemente delimitada permite mostrar por que as maneiras distintas de enfrentar essa questão impedem que a comunicação entre fenomenologia e filosofia cognitiva ultrapasse uma aproximação puramente verbal.

8. Desde sua constituição, a fenomenologia encontra no vínculo entre sentido e significação um problema fundamental de sua teoria do conhecimento, articulando essa investigação especialmente em torno das relações entre conhecimento eidético e factualidade empírica.

9. Husserl distingue a esfera lógico-eidética da esfera dos encadeamentos factuais regidos pela causalidade física, mostrando simultaneamente que as próprias estruturas lógicas permanecem vazias enquanto a intenção de conhecimento não encontra uma correspondente satisfação intuitiva no domínio da essência.

10. A épochè fenomenológica coloca entre parênteses a esfera dos fatos para permitir que apareçam, no interior de suas estruturas simbólicas, a esfera das significações, a esfera das essências e a identidade simbólica entre conteúdos de sentido do pensamento e conteúdos de sentido do ser.

11. A distância entre fenomenologia e cognitivismo pode ser concentrada em dois problemas fundamentais: o significado da colocação entre parênteses realizada pela épochè e a identidade simbólica entre conteúdos de sentido, pois a primeira revela a concepção metodológica de ciência e a segunda caracteriza uma investigação propriamente filosófica.

12. As questões da épochè e da identidade simbólica encontram-se intimamente relacionadas e determinam decisivamente uma concepção de ciência que não pode ser reduzida a um simples catálogo acumulativo de resultados.

1.1 O problema da épochè e o sentido da colocação entre parênteses

13. Toda ciência madura articula conhecimentos e desenvolve instrumentos metodológicos capazes de elevar-se de bases empíricas a níveis de abstração nos quais generaliza suas estruturas próprias de decisão e interpretação, tornando fundamental esclarecer o significado da épochè e distingui-la de uma simples operação abstrativa.

14. Para as ciências cognitivas, a questão da épochè parece previamente superada porque se pressupõe a possibilidade de uma ciência já purificada de preconceitos e suficientemente emancipada da contingência empírica por seus próprios procedimentos formais.

15. A colocação entre parênteses da própria esfera lógico-matemática realizada no movimento da épochè husserliana permanece praticamente incompreensível para a filosofia cognitiva, que tende a atribuir às matemáticas uma função fundadora jamais submetida a uma crítica filosófica equivalente.

16. A matematização cognitivista comprime todo o saber na dimensão matemática, transformando a quantidade em critério predominante daquilo que pode constituir conhecimento sem, contudo, interrogar o próprio significado do saber matematicamente constituído.

17. A predominância exclusiva da matemática fecha os horizontes simbolicamente criativos dos métodos científicos e esvazia a épochè de sua dimensão qualitativa, fazendo-a aparecer apenas como uma modalidade incomumente elaborada de abstração.

18. A especificidade da épochè não pode ser compreendida pela filosofia cognitiva enquanto esta permanecer limitada a interpretá-la como abstração, pois a redução integral do conhecimento ao formal e ao quantitativo já implica o abandono da problemática do sentido.

19. A incompatibilidade entre fenomenologia e filosofia cognitiva torna-se ainda mais decisiva no problema da identidade simbólica, no qual se revelam de maneira particularmente clara suas diferentes relações com pensamento, linguagem, ser e significação.

1.2 A identidade simbólica e sua implosão na identidade lógica cognitivista

20. Enquanto a fenomenologia transforma em problema filosófico a identidade simbólica entre conteúdos de sentido do pensamento e conteúdos de sentido do ser, a filosofia cognitiva elimina a própria existência dessa questão ao substituir progressivamente a relação de sentido por identidades lógico-formais.

21. A matematização cognitivista inverte o movimento clássico da ciência ao fazer com que o objeto seja primeiramente definido como entidade matemática e somente depois exigir que o ente real corresponda à estrutura formal previamente construída.

22. Na filosofia cognitiva, a problemática da identidade simbólica desaparece porque a relação entre conteúdos de sentido do pensamento e conteúdos de sentido dos objetos é substituída pelo domínio autossuficiente das estruturas lógicas, dos símbolos matemáticos e das regras formais de combinação.

23. O domínio integral do algoritmo suprime tanto o sentido quanto a significação em sua autonomia, porque as estruturas lógicas passam a funcionar independentemente e recebem apenas posteriormente preenchimentos empíricos intercambiáveis.

24. A eliminação do sentido conduz à paradoxal dispensabilidade do próprio ser humano para o sistema matemático-algorítmico, no qual o homem passa a ocupar posição tão contingente quanto uma pedra ou uma árvore.

25. A filosofia cognitiva assume a ciência como sistema progressivamente autônomo, supostamente capaz de pensar-se a si próprio e de ter a si mesmo como referência, tornando impossível qualquer comunicação substantiva com uma fenomenologia voltada justamente à questão do sentido.

2. As possibilidades da fenomenologia

26. A fenomenologia pode compreender a filosofia cognitiva como manifestação contemporânea da crise das ciências europeias analisada por Husserl, permitindo situar histórica e filosoficamente o cognitivismo em vez de aceitá-lo como desenvolvimento natural ou cumprimento da própria fenomenologia.

27. A crise das ciências manifesta-se quando o rigor objetivo alcançado por elas é acompanhado pela incapacidade de responder às questões decisivas acerca do sentido ou da ausência de sentido da existência humana.

28. As questões de sentido permanecem exteriores tanto às ciências cognitivas quanto, de maneira ainda mais problemática, à filosofia cognitiva, que prolonga o movimento das ciências positivas em direção à objetividade ao mesmo tempo que abandona a investigação do significado da própria ciência.

29. A filosofia cognitiva constitui uma forma de pensamento cega para as possibilidades próprias da filosofia e, particularmente, para a tarefa de uma reflexão filosófica capaz de interrogar as próprias ciências e seus critérios de verdade.

30. A concepção positivista da ciência não corresponde a uma definição necessária e permanente do conhecimento científico, pois historicamente houve concepções nas quais as questões especificamente humanas e sua relação intrínseca com as demais ciências não eram excluídas da investigação racional.

31. A filosofia cognitiva deixa de ser propriamente filosófica quando reduz todas as possibilidades de compreensão ao modelo das ciências positivas e ignora o caráter historicamente determinado e limitado do próprio conceito positivista de ciência.

32. O conceito positivista de ciência constitui, considerado historicamente, um conceito residual, e não a forma plena, necessária ou definitiva de todo conhecimento científico.

33. O positivismo representa o resíduo de uma compreensão anteriormente mais ampla do ser humano, da ciência e da filosofia, de modo que sua aceitação como horizonte definitivo suscita a questão das consequências humanas produzidas pela redução do conhecimento a uma simples enumeração de dados.

34. A formulação husserliana segundo a qual simples ciências de fatos produzem uma simples humanidade de fatos concentra a consequência antropológica de uma ciência que reduz o real à factualidade e o ser humano àquilo que pode ser objetivamente registrado.

35. A insuficiência de uma concepção exclusivamente factual não pode ser afastada mediante a simples acusação de metafísica contra tudo aquilo que ultrapassa os fatos, pois o problema fundamental concerne à autocompreensão humana e à possibilidade de aceitar uma existência esvaziada de sentido.

36. A fenomenologia oferece uma resposta radicalmente distinta daquela da filosofia cognitiva ao preservar como tarefa filosófica fundamental a investigação do sentido e ao recusar que a autocompreensão humana possa ser integralmente reduzida aos esquemas objetivos, factuais, matemáticos e algorítmicos das ciências positivas.