Epistemologia

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.

** 2. A epistemologia cognitivista **

1. O problema do conhecimento atravessa toda a história do pensamento ocidental, envolvendo interrogações sobre seu sentido, suas possibilidades e suas finalidades, enquanto a emergência da ciência moderna fez do conhecimento científico uma questão central para qualquer teoria do conhecimento que pretenda alcançar validade apodítica e resistir à dúvida.

2. A novidade epistemológica introduzida pelo cognitivismo consiste em abandonar as questões tradicionais acerca do sentido e do valor da ciência, restringindo a investigação epistemológica fundamentalmente à consideração de seus métodos.

3. A transformação cognitivista da epistemologia torna-se perceptível também na própria ambiguidade terminológica do conceito, que pode designar tanto o estudo crítico das ciências quanto, sob influência do inglês epistemology, uma teoria geral do conhecimento e de sua validade.

4. Em sua primeira acepção, epistemologia significa o estudo crítico das ciências destinado a determinar sua origem lógica, seu valor e seu alcance.

5. Em sua segunda acepção, derivada do inglês epistemology, epistemologia significa teoria do conhecimento e de sua validade.

6. O cognitivismo desloca a questão do conhecimento do “que” e do “porquê” para o “como”, fazendo dos mecanismos pelos quais se conhece e se pensa seu objeto privilegiado de investigação.

7. A filosofia cognitiva concentra-se no modo pelo qual se conhece e se pensa, abrangendo igualmente o estatuto dos dados sensíveis, das palavras, dos signos, da inteligibilidade e da própria atividade cognitiva.

8. A constituição de uma filosofia cognitiva apresentada primordialmente como epistemologia permanece encerrada no interior das próprias categorias científicas, produzindo uma circularidade pela qual a ciência delimita antecipadamente as condições nas quais poderá ser filosoficamente pensada.

9. A redução epistemológica ao “como” desloca a consistência da filosofia cognitiva para a realização prática das operações cognitivas, de modo que a tecnologia adquire função decisiva ao produzir objetos capazes de materializar aquilo que se afirma ter compreendido, estabelecendo-se uma equivalência fundamental entre compreender e reproduzir.

** 2.1 A contribuição da lógica matemática **

10. A equivalência cognitivista entre compreensão e capacidade de reprodução conduz diretamente à lógica matemática, cuja importância reside menos em seus problemas teóricos fundamentais do que em sua utilização operacional como esquema de inferências capazes de produzir novas proposições verdadeiras a partir de proposições verdadeiras previamente estabelecidas.

11. Enquanto grande parte da filosofia da lógica do século XX se concentrou nos teoremas de limitação, como os resultados de Gödel e Tarski, a tradição cibernética e cognitivista privilegiou problemas de cálculo e encontrou em Alonzo Church e Alan Turing os antecedentes decisivos para a aplicação concreta de procedimentos lógico-matemáticos que culminaria na informática.

12. A tese de Church adquire importância central ao procurar formalizar a noção de procedimento efetivo para a solução de problemas matemáticos, entendendo por algoritmo um conjunto de instruções suficientemente determinado para permitir a execução inequívoca de uma operação.

13. Uma primeira condição de todo algoritmo consiste em possuir instruções precisamente determinadas e compreensíveis, de modo que qualquer agente que conheça suas regras possa executá-las sem ambiguidades ou erros decorrentes de sua formulação.

14. Uma segunda condição consiste na generalidade das regras, que devem possibilitar a resolução não apenas de um caso singular, mas de uma classe de problemas.

15. Uma terceira condição exige critérios que permitam reconhecer se a resolução foi alcançada e determina ainda que esse resultado seja obtido mediante um número finito de etapas.

16. As exigências de determinação rigorosa e de término em número finito de etapas revelam simultaneamente o caráter determinista e mecânico do algoritmo e o problema fundamental da parada dos procedimentos computacionais.

17. A formalização da noção de algoritmo permite estabelecer uma equivalência entre calculabilidade de uma função, decidibilidade de um conjunto e existência de um algoritmo, fornecendo três formulações rigorosamente relacionadas da ideia intuitiva de procedimento efetivo.

18. Uma função recursiva caracteriza-se pela possibilidade de calcular progressivamente seus valores a partir de valores previamente conhecidos.

19. A definição de uma função recursiva realiza-se mediante um esquema de recursão que especifica as condições fundamentais de seu cálculo.

20. A primeira condição do esquema recursivo estabelece o valor da função quando seu argumento é igual a zero.

21. A segunda condição estabelece como calcular o valor correspondente ao argumento n + 1 quando já se conhece o valor correspondente ao argumento n, evidenciando a importância estrutural da indução na definição das funções recursivas.

22. As funções recursivas apresentam uma estrutura imediatamente compatível com sua mecanização em máquinas calculadoras, e a tese de Church amplia essa relação ao afirmar que toda função efetivamente calculável é recursiva.

23. A tese de Church estabelece uma ponte decisiva entre os conceitos de calculabilidade, recursividade e algoritmo, sustentando em princípio que todo cálculo efetivamente realizável pode ser exaurido pela operação de uma máquina, embora essa identificação permaneça uma tese e não um teorema demonstrável.

24. A impossibilidade de demonstrar formalmente a tese de Church decorre da heterogeneidade dos conceitos nela identificados, pois a função recursiva possui definição formal rigorosa, enquanto a noção de função efetivamente calculável conserva um componente intuitivo que não pode ser integralmente formalizado pelos recursos da lógica matemática.

25. A relevância filosófica da tese de Church consiste em estabelecer uma correspondência entre o domínio intuitivo e o domínio calculável, aproximando âmbitos originalmente independentes e produzindo uma sobreposição conceitual decisiva para a epistemologia cognitivista.

26. Uma vez deslocada a lógica para o domínio algorítmico, a calculabilidade e o problema da parada tornam-se centrais, preparando a incorporação da contribuição de Alan Turing e a passagem das razões lógico-matemáticas para uma concepção operacional do comportamento inteligente.

27. A questão colocada por Turing consiste em determinar como reconhecer comportamento inteligente em uma máquina, sendo proposta como resposta a indistinguibilidade objetiva entre o comportamento da máquina e um comportamento previamente reconhecido como inteligente.

28. O jogo de Turing organiza uma situação experimental na qual um interrogador, separado de um ser humano e de um computador, formula perguntas aos dois participantes e procura determinar, exclusivamente por suas respostas, qual deles é a máquina.

29. Quando a probabilidade de o interrogador distinguir corretamente a máquina do ser humano aproxima-se da probabilidade de erro, considera-se que o computador realizou satisfatoriamente uma simulação e, por isso, manifestou comportamento inteligente.

30. A introdução da lógica matemática nas ciências cognitivas em formação permite reduzir o problema da inteligência a procedimentos calculatórios e comparativos cuja estrutura fundamental pode ser identificada mediante alguns princípios decisivos.

31. A inteligência é deslocada de uma determinação qualitativa para uma avaliação quantitativamente comparável entre dois sujeitos pressupostos como inteligentes, tornando possível uma medida baseada na eventual igualdade entre seus desempenhos.

32. A igualdade postulada como possível entre os comportamentos fornece um ponto de referência fixo a partir do qual pode ser construída uma estratégia experimental destinada a confirmar ou rejeitar essa equivalência.

33. A demonstração da inteligência da máquina depende essencialmente da simulação do comportamento humano, de modo que a capacidade de reproduzir satisfatoriamente a conduta de um ser previamente considerado inteligente converte-se no próprio critério de atribuição de inteligência.

34. As circularidades presentes nessa concepção da inteligência exigem que a investigação dos fundamentos do cognitivismo avance para o domínio da biologia, no qual as consequências ontológicas e epistemológicas desses pressupostos tornam-se ainda mais profundas.

** 2.2 A biologia, o cérebro e os neurônios **

35. A incorporação da biologia às ciências cognitivas encontra-se inseparavelmente vinculada a uma questão epistemológica e fundacional, pois o projeto cognitivista antecipa simultaneamente a orientação e os resultados da investigação ao assumir como horizonte fundamental uma mecanização da biologia, cuja primeira fase pode ser compreendida a partir das contribuições de Warren McCulloch e Ross Ashby.

36. Desde as primeiras conferências Macy, McCulloch procurou identificar os mecanismos materiais e lógicos pelos quais a mente pode existir corporalmente e agir no mundo, promovendo uma aproximação entre lógica formal e biologia que simultaneamente ampliava as possibilidades da investigação e instaurava o risco de transformar analogias funcionais em identidades estruturais.

37. Para McCulloch, a máquina pode ser compreendida como um ser lógico-matemático materialmente encarnado no organismo, de modo que a máquina natural e a máquina lógica tornam-se equivalentes pela identificação entre natureza e lógica.

38. A identidade entre lógica e natureza é interpretada a partir da primazia do lógico, que passa a fornecer as categorias fundamentais para compreender a realidade, concebendo-se assim o mundo real primeiramente como estrutura lógica e apenas secundariamente como realidade natural.

39. As máquinas construídas artificialmente não são cérebros, mas os próprios cérebros podem ser considerados uma variedade ainda imperfeitamente compreendida de máquinas computacionais, dissolvendo-se pela cibernética a separação tradicional entre o domínio físico e o domínio mental.

40. A máquina adquire no projeto de McCulloch um estatuto ontológico originário ao qual o biológico deve conformar-se, fazendo do mecânico o fundamento e do humano uma realidade derivada, mediante uma ontologia que abstrai a matéria de suas determinações concretas e identifica funcionalmente cérebro, máquina de Turing e pensamento.

41. A identificação entre lógica, máquina e cérebro constitui uma inflexão decisiva da cibernética que transmitirá ao cognitivismo subsequente diversos pressupostos fundamentais.

42. A novidade do modelo de McCulloch não reside isoladamente na biologia nem na lógica, mas precisamente no estabelecimento de uma ligação ou identidade estrutural entre esses dois domínios anteriormente diferenciados.

43. A concepção do cérebro como máquina calculadora constituída por um hardware biológico no qual a mente estaria implementada permanecerá constante ao longo da história da cibernética e alcançará seu desenvolvimento máximo no cognitivismo, apesar do progressivo refinamento das descrições desse suporte material.

44. O modelo de McCulloch inverte a orientação tradicional das pesquisas biológicas sobre o cérebro ao estabelecer previamente um modelo formal ao qual a realidade cerebral deve conformar-se, procurando conferir à biologia uma estrutura comparável à das ciências físicas e aproximá-la de uma organização dedutiva.

45. A consequência epistemológica fundamental dessa inversão consiste em deslocar o problema para a relação entre realidade e modelo, tornando necessário decidir a qual dos dois deve ser atribuída primazia ontológica quando a máquina de Turing passa a funcionar como estrutura normativa para a compreensão do cérebro.

46. Antes de enfrentar definitivamente as consequências epistemológicas dessa relação entre modelo e realidade, torna-se necessário considerar concretamente a teoria neuronal desenvolvida por McCulloch.

47. O modelo neuronal de McCulloch representa cada neurônio como realização material de um estado lógico binário, permitindo interpretar a comunicação neuronal segundo o funcionamento de portas lógicas e converter o cérebro em um dispositivo dedutivo capaz, em princípio, de realizar operações equivalentes à demonstração de teoremas.

48. Os neurônios postulados nesse modelo devem conservar, apesar de sua simplificação teórica, um estatuto de realidade material compatível com determinado nível científico de organização.

49. Os neurônios idealizados por McCulloch são concebidos como objetos materiais comparáveis aos átomos teóricos utilizados pela química, de modo que sua simplificação e abstração não eliminariam sua capacidade de explicar processos concretos no nível de realidade para o qual foram construídos.

50. A insuficiência da primeira cibernética torna-se manifesta diante da complexidade dos sistemas vivos, pois um comportamento coerente ou inteligente pertence ao sistema organizado como totalidade e não pode ser simplesmente atribuído aos elementos individuais que o compõem, colocando-se assim o problema da relação entre o nível global do comportamento cerebral e o nível elementar dos neurônios.

51. A resposta de Ross Ashby encerra uma primeira etapa da cibernética e simultaneamente prepara a emergência propriamente cognitivista ao estabelecer um quadro matemático no qual a complexidade pode adquirir significado preciso e ser submetida a uma formulação rigorosa.

52. Ashby formula um experimento mental centrado no conceito de homeostato, entendido como autômato teórico destinado a representar as interações entre organismo e ambiente, e desenvolve a hipótese de que a emergência da vida pode ser considerada quase necessária em determinadas condições ambientais, em vez de resultar de um acontecimento excepcional ou puramente fortuito.

53. A conservação da vida depende da manutenção de certas variáveis essenciais dentro de intervalos limitados, de modo que alterações capazes de ultrapassar esses limites obrigam o organismo a adaptar-se ou conduzem à sua morte, princípio ilustrado pelo homeostato mediante uma dinâmica organizada em dois níveis.

54. No primeiro nível do homeostato, organismo e ambiente interagem normalmente em uma situação de coevolução cujas conexões são fixadas de maneira determinista, permanecendo as variáveis essenciais dentro de seus intervalos vitais.

55. Quando novas circunstâncias fazem as variáveis ultrapassarem seus limites vitais, ativa-se automaticamente um segundo nível no qual as conexões entre organismo e ambiente são modificadas, sendo essa reorganização realizada ao acaso.

56. Se a modificação aleatória das conexões permite a sobrevivência, o homeostato estabiliza-se em uma nova configuração determinista, de modo que a adaptação à complexidade do ambiente ocorre mediante variações inicialmente casuais seguidas pela conservação das configurações compatíveis com a vida.

57. Para a grande maioria dos autômatos, o número de estados efetivamente acessíveis diminui rapidamente ao longo de sua evolução, limitando progressivamente o espaço das configurações possíveis.

58. A importância decisiva da formulação de Ashby não reside apenas na limitação matemática dos estados disponíveis ao homeostato, mas sobretudo na possibilidade de axiomatizar processos complexos de maneira suficientemente rigorosa para reconstruir matematicamente conceitos tradicionalmente vinculados à realidade biológica e mental.

59. Com a axiomatização da complexidade, conceitos como cérebro, espírito, vida, organismo e evolução deixam de depender diretamente de dados empíricos e passam a ser reconstruídos integralmente no interior de um modelo matemático, produzindo uma separação radical entre forma e matéria.

60. A reconstrução matemática de conceitos biológicos e mentais amplia extraordinariamente o domínio das operações formais, permitindo incorporar à matemática não apenas noções correntes relativas à vida e à mente, mas também conceitos moralmente relevantes como escolha e vontade, e cria assim as condições para a mudança de paradigma que assinalará o nascimento do cognitivismo propriamente dito.