Materialismos

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.

1. Os materialismos, as reduções e os problemas do espírito

1. Apesar das diferenças entre as posições materialistas integradas à perspectiva cognitivista, todas compartilham, em princípio, a concepção de que o psiquismo constitui expressão do funcionamento do sistema nervoso.

2. A dificuldade decisiva de qualquer teoria materialista concentra-se na interpretação da relação entre funcionamento nervoso e expressão psíquica, pois permanece necessário determinar o sentido atribuído ao funcionamento, explicar como um funcionamento pode converter-se em expressão e esclarecer o papel do sujeito que percebe nessa relação.

3. As diferentes formas de materialismo são determinadas sobretudo pelas respostas dadas à relação entre funcionamento cerebral e expressão psíquica, embora permaneçam geralmente vinculadas a um materialismo basal e recorram, no interior da perspectiva cognitiva, a estratégias prévias de redução desenvolvidas em diferentes níveis interpretativos.

1.1 O materialismo (I): identidade e eliminação

4. A teoria da identidade dos tipos, também denominada materialismo da identidade, sustenta que os estados cerebrais são idênticos aos estados mentais e encontra antecedentes neurofisiológicos em Köhler e Hebb, para os quais seria possível estabelecer um isomorfismo fundamental entre processos neuronais e acontecimentos mentais.

5. A teoria da identidade não deve ser reduzida à correspondência ingênua entre uma configuração neuronal determinada e um estado mental como medo, crença ou desejo, pois sua formulação depende de uma mediação conceitual proveniente das relações internas estabelecidas pelas ciências neurológicas e cognitivas entre domínios aparentemente descontínuos.

6. Uma versão moderada do materialismo da identidade admite que a todo estado mental corresponde um estado do sistema nervoso, sem admitir a relação inversa, pois certos estados nervosos não possuiriam qualquer correspondente psíquico específico.

7. Essa versão reduzida e pragmática do materialismo da identidade permanece fundada nas mesmas pressuposições da versão forte e incorre em uma dificuldade metodológica circular, pois a correspondência entre estados mentais e nervosos, em vez de ser demonstrada, já precisa ser pressuposta para que a própria teoria possa operar.

8. A sustentação filosófica do materialismo da identidade exige a intervenção de uma estrutura de modelização na qual o modelo passa a determinar os dados empíricos de partida, tornando particularmente significativa a formulação de Feigl sobre a relação entre termos neurofisiológicos e fenomenais.

9. Com base na distinção fregeana entre sentido e referência, torna-se possível sustentar que termos neurofisiológicos e termos fenomenais diferem profundamente quanto ao sentido e aos procedimentos de confirmação, embora possuam referências idênticas.

10. A introdução do modelo como terceiro termo permite unificar concretamente cérebro e psiquismo, mas transfere a identidade para o próprio modelo, de modo que tanto o físico quanto o psíquico passam a constituir casos de aplicação de uma estrutura modelizadora que assume primazia sobre os fenômenos.

11. O materialismo da identidade constitui a base pragmática da abordagem neurocientífica do problema cérebro-espírito, diferenciando-se do materialismo eliminativo por seu caráter moderado e por estar mais associado à prática dos neurobiólogos do que às formulações radicais de certos filósofos.

12. Forma-se uma separação entre a filosofia cognitivista e a prática científica, pois os filósofos procuram oferecer um modelo da atividade neurobiológica enquanto os cientistas tendem a interpretar pragmaticamente sua investigação como acesso direto à própria realidade cerebral, cabendo novamente à filosofia construir um modelo explicativo dessa prática científica.

13. O filósofo cognitivista fica diante de duas alternativas igualmente problemáticas: subordinar-se ao saber científico e assumir retrospectivamente uma função meramente classificatória, ou procurar revelar os elementos implícitos dos modelos efetivamente utilizados pela ciência, mesmo diante da resistência dos próprios cientistas.

14. Uma dificuldade fundamental do materialismo da identidade consiste em explicar como pode ser postulada identidade entre atividade mental e atividade cerebral quando a primeira é conhecida por consciência imediata ou acesso privilegiado, enquanto da segunda não existe apreensão equivalente.

15. A tentativa de resolver essa dificuldade exige uma redefinição da identidade, como ocorre em J. J. C. Smart, que distingue identidade lógica e identidade contingente e admite que eventos mentais poderiam, em princípio, ser diferentes dos eventos físicos cerebrais, embora para os seres humanos constituíssem contingentemente a mesma realidade.

16. Para Smart, a validade da teoria da identidade não depende de os indivíduos conhecerem seus próprios processos cerebrais nem de compreenderem conceitualmente a identidade entre mente e cérebro, mas apenas de os dois conjuntos de termos exprimirem a mesma realidade.

17. Essa posição confirma a necessidade de um modelo intermediário que assegure a passagem entre os termos psíquicos e cerebrais, tornando o modelo o verdadeiro eixo monista do materialismo da identidade enquanto os domínios mental e cerebral permanecem heterogêneos.

18. O papel fundamental atribuído ao modelo permite suspeitar que o materialismo reivindicado pela filosofia cognitivista seja, na realidade, uma modalidade de idealismo, possivelmente de natureza matemática, encoberta por terminologia materialista.

19. A tentativa de superar as dificuldades do materialismo da identidade conduz à radicalização das premissas materialistas no materialismo eliminativo, que combina extrema rigidez racionalista com uma profunda insuficiência filosófica.

20. O desenvolvimento do pensamento de Feigl e sua radicalização posterior em P. S. e P. M. Churchland conduzem da identidade à eliminação: diante da impossibilidade de identificar integralmente fenômenos mentais e cerebrais, elimina-se o domínio psicológico para conservar exclusivamente a dimensão cerebral.

21. O materialismo eliminativo considera a concepção ordinária dos fenômenos psicológicos uma teoria radicalmente falsa, destinada a ter seus princípios e sua ontologia substituídos, e não simplesmente reduzidos, quando as neurociências alcançarem desenvolvimento suficiente.

22. A relação entre neurociências e psicologia passa a ser concebida como redução de uma ciência por outra, de modo análogo à substituição da alquimia pela química ou da física aristotélica pela gravitação newtoniana, permitindo a Churchland rebaixar a psicologia tradicional à condição de folk psychology destinada à eliminação.

23. A primeira consequência extrema do materialismo eliminativo seria a possibilidade de eliminar também as próprias ciências cognitivas, pois, se as neurociências viessem a explicar integralmente o humano como configuração de redes neuronais, todas as ciências humanas poderiam ser assimiladas à neurociência.

24. A lógica eliminativa também poderia prosseguir indefinidamente na hierarquia das ciências, reduzindo neurociência à bioquímica, bioquímica à química e química à física, até chegar ao absurdo de explicar experiências como o amor mediante teorias fundamentais da física, como a cromodinâmica quântica.

25. A chamada filosofia do “nada mais que” enfrenta dificuldades tanto no movimento de redução ascendente entre níveis científicos quanto na avaliação prática da psicologia comum e de suas formas terapêuticas.

26. Além das consequências filosóficas extremas, o materialismo eliminativo apresenta problemas internos às próprias ciências cognitivas, pois a supressão integral da dimensão psicológica entra em conflito com a presença inevitável de linguagem mentalista e dificulta tanto a aplicação concreta da teoria quanto a determinação do papel das neurociências.

27. A relação entre psicologia e neurociência é formulada pelo materialismo eliminativo como alternativa exclusiva: ou se mantém uma perspectiva mentalista ou se adota a perspectiva neurocientífica, sem possibilidade de integração das duas.

28. O materialismo eliminativo acaba sustentado por um ato de fé na verdade e no progresso futuros das neurociências, às quais se atribui primazia epistemológica apesar de elas não fornecerem, por si mesmas, os princípios capazes de organizar e unificar os conhecimentos acumulados.

29. A tentativa de garantir a consistência das neurociências conduz novamente à informática como instância de verificação, particularmente mediante modelos computacionais que procuram reproduzir características efetivas da computação cerebral e dão origem ao conexionismo.

30. As tentativas de oferecer uma filosofia às ciências cognitivas mantêm os problemas fundamentais anteriormente existentes e apresentam ainda a deficiência de ignorar a diferença entre os neurônios abstratos empregados nos modelos computacionais e os neurônios reais estudados pelas neurociências.

31. A separação entre filosofia cognitiva e ciências cognitivas revela um dualismo conceitual renovado, pois o nível material investigado pelas neurociências precisa ser continuamente relacionado ao nível computacional, cuja validade depende de teses filosóficas ainda problemáticas.

32. Os bioquímicos precisam realizar construções conceituais complexas para justificar a passagem entre matéria e pensamento, forçando frequentemente as determinações da própria matéria quando procuram explicar como o nível físico poderia produzir intelecção, como exemplifica a teoria da máquina cerebral de calcular de J.-P. Changeux.

33. Em sentido inverso, os filósofos precisam igualmente realizar construções artificiais para reencontrar o físico partindo do mental, sendo a eliminação do mental e sua reformulação em termos neurocientíficos um exemplo extremo dessa estratégia.

1.2 O materialismo (II): o funcionalismo

34. Diante das dificuldades do materialismo eliminativo, que conduz primeiramente às neurociências e depois inevitavelmente à informática, torna-se possível aplicar o princípio da economia explicativa e perguntar por que não eliminar a etapa neurocientífica intermediária e dirigir a investigação diretamente aos computadores.

35. O funcionalismo constitui uma das filosofias mais características das ciências cognitivas e, em suas formas mais desenvolvidas, parte da aceitação de uma irreduzibilidade fundamental dos estados mentais aos estados nervosos, embora essa irreduzibilidade não implique necessariamente autonomia ontológica do psiquismo.

36. A irreduzibilidade defendida pelo funcionalismo é epistemológica, e não ontológica, pois não se admite uma realidade psíquica independente, mas se reconhece a impossibilidade de estabelecer relações precisas entre estados mentais e estados do sistema nervoso.

37. Procedimentos executados por máquinas diferentes podem ser considerados idênticos quando podem substituir-se mutuamente sem alterar as outras atividades internas dos sistemas, princípio que fundamenta o funcionalismo computacional e favorece uma concepção modular da mente.

38. Quando o comportamento humano não se reduz a respostas provocadas por estímulos externos, a decomposição do conhecimento em módulos independentes aproxima-se mais de um adestramento do que de uma aprendizagem, pois conserva respostas rigidamente vinculadas a estruturas causais.

39. A decomposição da atividade humana em múltiplos módulos exige posteriormente uma instância capaz de reuni-los, equivalente informaticamente a uma função main(), mas essa centralização conduz à reintrodução de um homúnculo responsável pela unidade cognitiva.

40. O funcionalismo não supera os problemas anteriores, pois a separação inicialmente estabelecida no nível epistemológico repercute no nível ontológico quando se procura reconstruir a unidade concreta do sujeito que se relaciona com o mundo.

41. Inspirado primordialmente pela ciência da computação, o funcionalismo oferece uma concepção parcial e artificial do psiquismo, fundada numa analogia problemática entre cérebro e computador e marcada pelo contexto da cultura industrial.

42. A pretensão da filosofia cognitiva de unificar as diferentes forças presentes nas ciências cognitivas conduz a resultados insatisfatórios, pois o funcionalismo distancia-se da prática neurobiológica, o materialismo eliminativo não fornece fundamento às neurociências e o materialismo da identidade reduz-se, na prática científica, a uma espécie de pragmatismo operacional desprovido de fundamentação filosófica.

43. A continuação da análise deve considerar as respostas mais elaboradas das escolas cognitivas que enfrentaram com maior respeito a tradição filosófica ocidental e procuraram recuperar elementos da fenomenologia, antes de examinar as consequências dessas posições para a psicologia e para sua possibilidade de responder às críticas que ameaçam sua própria legitimidade.