LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.
2. A psicologia diante das soluções cognitivistas
1. Entre as diferentes formas assumidas pela psicologia ao longo dos séculos, a psicanálise constitui um contraexemplo particularmente significativo em relação à psicologia cognitivista, e a relação entre ambas pode ser examinada segundo duas perspectivas fundamentais.
2. A psicanálise pretende constituir uma investigação científica do espírito e uma teoria do ser humano e de sua atividade cerebral situada em nível superior ao neurobiológico, tendo contribuído para uma compreensão mais estratificada da relação humana com o mundo.
3. A psicanálise constitui, tanto no plano teórico quanto no terapêutico, um paradigma científico alternativo ao paradigma das ciências cognitivas.
4. A relação entre psicanálise e ciências cognitivas apresenta-se como confronto entre paradigmas concorrentes cujos pontos de partida são, entretanto, próximos, pois Freud era médico e atribuía importância fundamental à dimensão fisiológica.
5. A própria psicanálise pode ser concebida como ciência da natureza, conforme a caracterização formulada por Freud.
6. A dificuldade fundamental reside no intervalo entre o nível biológico do cérebro e do sistema nervoso e o nível psicológico dos estados de consciência, intervalo que Freud reconhece como desconhecido enquanto as filosofias cognitivistas procuram suprimi-lo ou preenchê-lo sem interrogá-lo propriamente.
7. O antigo problema da distância entre o biológico e o psicológico reaparece sob novas formas e continua resistente ao cognitivismo apesar do desenvolvimento de instrumentos matemáticos explicativos sem precedentes.
8. As posições cognitivistas anteriormente consideradas aparecem, quando examinadas pelas perspectivas psicanalítica ou fenomenológica, como concepções desincorporadas nas quais o corpo vivo pode ser substituído por simples substrato físico de implementação.
9. Os modelos cognitivistas construídos por artefatos matemáticos e informáticos produzem formas de inteligência privadas de corpo e de mundo, relacionando-se com o ambiente apenas como sistemas externos destinados a receber sinais, transformá-los em informações e preservar sua própria organização.
10. A psicanálise permite interpretar os processos cognitivistas de redução e aniquilação como mecanismos de defesa, cuja relação com o inconsciente constitui simultaneamente uma questão central e problemática da tradição psicanalítica.
11. Uma interpretação psicanalítica radical poderia compreender as abstrações e reduções das ciências cognitivas como formas de defesa relacionadas ao inconsciente, deslocando a crítica das teorias para os próprios homens que as elaboram; mais importante, porém, é examinar os procedimentos pelos quais as ciências cognitivas recusam as pretensões psicanalíticas.
12. As ciências cognitivas, sobretudo em sua vertente eliminativista herdada da cibernética, pressupõem um encaixe progressivo das ciências no qual o paradigma mais abrangente deverá finalmente absorver as disciplinas atualmente separadas em razão das limitações do conhecimento.
13. Se a capacidade de absorver paradigmas menos abrangentes constitui o critério epistemológico decisivo, torna-se igualmente possível interpretar as próprias ciências cognitivas no interior do modelo conceitual da psicanálise.
14. A observação de André Green indica ironicamente que neurocientistas e cognitivistas parecem excluir de si próprios a fantasia, exceto quando fantasiam uma máquina capaz de causar os estados psíquicos envolvidos em suas próprias fantasias.
15. A causalidade atribuída à máquina deve ser entendida em sentido estrito de produção causal, e não simplesmente como modo discursivo de expressão.
16. Segundo o próprio critério reducionista cognitivista, o modelo psicanalítico poderia ser considerado mais poderoso por codificar fenômenos que escapam à psicologia cognitiva e, por isso, deveria ser capaz de absorvê-la em vez de ser absorvido por ela.
17. A ameaça representada por essa possibilidade pode ser enfrentada epistemologicamente por duas estratégias principais: negar à psicanálise o estatuto de ciência, seguindo uma linha associada a Wittgenstein, ou procurar reformular de outro modo seu conceito fundamental de inconsciente.
2.1 A psicanálise não é uma ciência
18. A exclusão epistemológica da psicanálise do domínio científico apoia-se sobretudo em duas linhas argumentativas, relativas à falsificabilidade e à suposta natureza contraditória da teoria, representadas respectivamente por Karl Popper e Adolf Grünbaum.
19. A crítica cognitivista apresenta conceitos freudianos como sonho, desejo, id, ego e superego como construções de um aparelho psíquico independente do cérebro cuja refutação experimental seria impossível.
20. A caracterização popperiana da psicanálise como modelo não falsificável por seu caráter fundador não implica necessariamente sua exclusão da prática científica, pois a ausência de prova experimental direta de um modelo fundador não equivale à impossibilidade de avaliar suas produções.
21. Embora a psicanálise enquanto modelo não possa ser diretamente falsificada, suas produções particulares podem sê-lo segundo possibilidades definidas e reguladas internamente pelo próprio modelo.
22. A tentativa de Grünbaum de demonstrar simultaneamente que a psicanálise é falsificável e provavelmente falsa procura critérios de validação em fatos experimentais não clínicos e pressupõe, problematicamente, a existência de uma instância exterior capaz de determinar universalmente a cientificidade.
23. A procura de um critério experimental absoluto para julgar os acontecimentos mentais realiza novamente uma redução que ignora a inseparabilidade entre esses acontecimentos e a representação da realidade.
24. A concepção de modelo utilizada pelas ciências cognitivas exige aprofundamento de seu significado e de suas implicações.
25. A inseparabilidade psíquica entre realidade e representação conduz à compreensão concreta de uma vida que existe sempre em situação.
A naturalização do inconsciente e o modelo implícito das ciências cognitivas
26. A relação entre psicanálise e ciências cognitivas concentra-se em dois problemas intimamente relacionados: a tentativa de traduzir quantitativamente o inconsciente e o tratamento das representações em conexão com a naturalização da intencionalidade.
27. O inconsciente cognitivista pode designar tanto um inconsciente neurológico, correspondente aos processos cerebrais dos quais não há consciência, quanto um inconsciente mental, formado por mecanismos mentais que permanecem fora da consciência e que constituem o possível ponto de aproximação com a psicanálise.
28. O inconsciente mental cognitivista constitui fundamentalmente um inconsciente computacional, isto é, um nível oculto de computação cujas operações permanecem estruturalmente inacessíveis à consciência, como ocorre com os processos envolvidos na composição da percepção visual.
29. A concepção cognitivista do espírito como computação simbólica aproxima-se apenas aparentemente da concepção freudiana do inconsciente como simbólico, pois o significado de símbolo utilizado pela cognição é radicalmente diferente daquele empregado pela psicanálise.
30. O inconsciente psicanalítico pode tornar-se consciente em determinadas condições, é simbólico e intencional e encontra-se submetido às vicissitudes do processo primário, enquanto o inconsciente cognitivista corresponde a uma causalidade algorítmica oculta cujos símbolos possuem caráter fundamentalmente sintático.
31. A tese cognitivista sustenta que pode haver cognição sem consciência porque nenhuma ligação essencial ou necessária vincularia as duas.
32. A consequência mais radical dessa concepção é tornar a própria consciência teoricamente dispensável e transformar a verificabilidade informática numa condição indispensável da epistemologia cognitivista.
33. A exclusão do senso comum e da posição individual produz teorias filosóficas inteiramente afastadas da realidade vivida, permanecendo vinculadas sobretudo à realidade abstrata dos modelos informáticos.
34. A naturalização cognitivista do inconsciente consiste na criação de um nível intermediário de computação e na identificação desse nível com o único significado admissível de inconsciente, operação que representa menos uma explicação filosófica do que uma renúncia da razão à pretensão de explicar o mundo.
35. A intencionalidade constitui outra dificuldade central para o cognitivismo e para a possibilidade da inteligência artificial, pois concentra a diferença qualitativa entre acontecimentos psíquicos e relações puramente físicas.
36. A questão da intencionalidade constitui um ponto privilegiado de encontro e conflito entre filosofia cognitiva e fenomenologia, para a qual esse conceito ocupa posição central, permitindo observar novamente as estratégias reducionistas cognitivistas sob uma forma particularmente significativa.
2.3 A impossibilidade das estratégias elementares e o problema da intencionalidade
37. As filosofias cognitivistas mais comuns respondem ao problema da intencionalidade mediante uma abstração inicial seguida de naturalização, retirando-a do contexto vivo da existência orientada no mundo e reformulando-a como estrutura suscetível de tratamento lógico.
38. A filosofia cognitiva aborda historicamente a intencionalidade sobretudo a partir de Franz Brentano e, secundariamente, de Alexius Meinong, ignorando largamente Husserl e a tradição fenomenológica até que Hubert Dreyfus recolocasse essas perspectivas no debate por meio de sua crítica à inteligência artificial.
39. As estratégias cognitivistas para naturalizar a intencionalidade reproduzem aquelas utilizadas na naturalização do inconsciente, pois tornar a intencionalidade naturalizável constitui condição mínima para uma teoria cognitiva suficientemente abrangente do conhecimento.
40. Entre as numerosas tentativas de naturalização da intencionalidade, as posições mais radicais associadas a Richard Rorty e ao chamado conexionismo duro prolongam as consequências do materialismo eliminativo, prevendo o desaparecimento dos conceitos de espírito, intencionalidade e consciência quando uma neurociência suficientemente desenvolvida substituir as ciências humanas.
41. Dennett admite a utilidade da atitude intencional, pela qual sistemas são descritos em termos de crenças e desejos, mas nega que qualquer sistema, inclusive os seres humanos, seja realmente intencional.
42. A reflexão cognitivista prossegue sem resolver essa dificuldade de coerência interna e dela extrai consequências adicionais para a explicação da intencionalidade.
43. Toda psicologia do senso comum seria derivada da adoção de uma atitude intencional e, portanto, não corresponderia ao que realmente acontece no cérebro.
44. Objetos de interpretação intencional como crenças e esperanças não seriam causas reais do comportamento, mas apenas rótulos empregados para descrever acontecimentos comportamentais.
45. A redução de crenças, esperanças e demais estados intencionais a etiquetas descritivas revela pressupostos implícitos que estruturam tanto as possibilidades quanto os limites das ciências cognitivas.
46. Determinadas noções adquirem estatuto de pressupostos porque justamente aquilo que garante a consistência interna do sistema nunca é interrogado explicitamente e permanece operante na forma de preconceitos implícitos das ciências cognitivas.
47. A caracterização dos estados intencionais como simples maneiras de falar exige perguntar qual perigo a naturalização pretende evitar e por que a intencionalidade é tratada como se implicasse necessariamente uma concepção mística ou espiritualista.
48. O pressuposto fundamental consiste em negar que a intencionalidade possa agir sobre configurações neuronais, uma vez que a tradição científica atribui ação causal exclusivamente aos sistemas físicos.
49. A incompreensão cognitivista da fenomenologia poderia permanecer simples divergência filosófica, mas transforma-se em problema epistemológico quando a concepção fisicalista é convertida em paradigma universal para a compreensão do psiquismo.
50. A redução e a abstração características do paradigma científico passam a orientar diretamente a fabricação dos paradigmas cognitivistas sem serem submetidas à problematização correspondente.
51. A teoria da intencionalidade de Roderick Chisholm oferece um exemplo representativo do estilo analítico compartilhado pelo ambiente intelectual no qual se desenvolvem as abordagens cognitivistas.
52. Chisholm identifica os estados intencionais por meio das estruturas lógicas das proposições que os exprimem, produzindo uma dupla redução do fenômeno intencional ao linguístico e do linguístico ao logicamente formalizável.
53. Surge uma situação paradoxal quando se constrói uma linguagem específica para falar da intencionalidade e depois se analisam criticamente as propriedades dessa própria linguagem como se fossem propriedades do fenômeno originário.
54. A análise linguística cognitivista, inclusive quando passa pela filosofia da linguagem e pela semântica dos mundos possíveis, perde a especificidade da intencionalidade ao reduzi-la a um jogo linguístico passível de formalização.
55. A dificuldade torna-se ainda mais evidente quando se examinam respostas mais elaboradas aos problemas da intencionalidade.
2.4 O conexionismo e as propriedades emergentes
56. As formas anteriores do cognitivismo permanecem incapazes de justificar satisfatoriamente a passagem entre cérebro e espírito, pois a tentativa de reduzir tudo a cálculo formal apenas transfere o problema para a relação entre sintaxe e semântica.
57. O conexionismo procura superar esse impasse mediante a noção de propriedade emergente e a substituição da computação simbólica serial por uma computação massivamente paralela inspirada na organização cerebral.
58. O conexionismo parte de unidades simples, os neurônios, cujas interações prosseguem até que alcancem estados mutuamente satisfatórios no interior da rede.
59. Em uma rede conexionista, cada componente opera apenas localmente e nenhuma instância externa governa o sistema, enquanto uma cooperação global emerge espontaneamente das interações quando os estados neuronais alcançam uma configuração mutuamente satisfatória.
60. As propriedades globais deixam de ser explicadas por um princípio diretor total e passam a ser concebidas como emergentes da combinação dos estados locais, permanecendo entretanto a dificuldade de justificar conceitualmente essa emergência espontânea.
61. Embora o conexionismo produza resultados mais flexíveis e interessantes do que diversas formas anteriores do cognitivismo, deixa sem solução dois problemas fundamentais.
62. O primeiro problema consiste em justificar logicamente a passagem entre processos locais e propriedades emergentes.
63. O segundo consiste em estabelecer continuidade epistemológica entre o nível inferior dos neurônios e o nível superior das propriedades globais ou simbólicas.
64. A tentativa de resolver esses problemas recorre à matemática dos sistemas dinâmicos e à matemática não linear, mas o sucesso formal dessa estratégia não fornece automaticamente sua justificação filosófica.
65. A solução mais aceita para estabelecer continuidade entre neurônios e propriedades simbólicas consiste em introduzir um nível intermediário denominado subsimbólico.
66. O nível semântico superior e o nível subsimbólico inferior são ambos necessários, pois o inferior define o funcionamento do sistema mediante propagação de ativação, enquanto o superior permite compreender seu significado no domínio do problema.
67. A prioridade volta a ser atribuída à coerência interna do sistema e não à descrição unitária do fenômeno, produzindo uma separação epistemológica entre níveis que precisa ser posteriormente relacionada pela noção de emergência.
68. No paradigma subsimbólico, as leis fundamentais assumem a forma de equações diferenciais em vez de procedimentos de manipulação simbólica, os sistemas são concebidos como sistemas dinâmicos em lugar de máquinas de von Neumann e a matemática do contínuo substitui a matemática do discreto.
2.5 O horizonte oculto das teorias cognitivistas e conexionistas
69. A passagem dos materialismos mais rigorosos ao conexionismo permanece confrontada com o risco de recorrer implicitamente à teleologia ou à causa final para explicar a transição entre níveis qualitativamente distintos.
70. A biologia encontra continuamente dificuldades relativas à finalidade, como se manifesta no uso recorrente de vocabulário funcional e intencional aplicado a processos moleculares, exemplificado pelo problema da tradução do RNA.
71. As células são descritas como entidades que devem traduzir sequências de bases do RNA para sequências polipeptídicas, processo cuja explicação, desde a hipótese formulada por Francis Crick em 1955, envolve moléculas adaptadoras capazes de transportar aminoácidos e reconhecer códons correspondentes.
72. O valor das descobertas decorrentes dos trabalhos de Watson e Crick não elimina o problema conceitual criado pelo emprego de verbos como “traduzir” e “reconhecer” para caracterizar relações bioquímicas.
73. O vocabulário teleológico pode ser interpretado como simples modo de falar destinado a facilitar a descrição de processos químicos complexos, mantendo-se uma cadeia causal governada exclusivamente pela causa eficiente, mas permanece a questão de saber se essa redução é suficiente para compreender a complexidade própria da vida.
74. A própria física precisou revisar profundamente conceitos fundamentais, enquanto na biologia a exclusão absoluta da causa final é ainda mais problemática, tendo epistemólogos como Mario Bunge reconhecido a dificuldade de conceber uma biologia inteiramente desprovida de teleologia.
75. Uma biologia completamente privada de finalidade corre o risco de oscilar entre um pseudodeterminismo incapaz de compreender a riqueza da vida e uma teleologia que os instrumentos científicos disponíveis não conseguem controlar conceitualmente.
76. A flexibilização do determinismo mediante instrumentos matemáticos mais sofisticados não elimina o caráter redutivo das interpretações da vida, pois permanece incerto se o quadro produzido consegue descrever adequadamente a completude própria de um organismo vivo.
77. A dificuldade aparece de maneira particularmente clara nas explicações pluricausais quando se pergunta, por exemplo, para que servem os pulmões.
78. Uma resposta evolucionista precisa atribuir pelo menos validade estatística à teoria da evolução, enquanto uma resposta teleológica reconhece que a pergunta se refere à organização integral de um organismo cujo funcionamento exige os pulmões.
79. A afirmação de que os olhos servem para ver exprime de maneira mais imediata a realidade de um corpo vivo e possui relevância epistemológica justamente porque preserva a relação entre órgão e vida.
80. A diferença entre a visão de um corpo encarnado e a visão reduzida à descrição científica demonstra que ver significa mais do que aquilo que os estudos laboratoriais isolados conseguem representar.
81. A objeção cientificista reduz a visão à recepção de determinadas frequências de radiação eletromagnética pelos órgãos visuais e considera qualquer diferença qualitativa acrescentada a essa descrição como poesia estranha ao conhecimento científico.
82. A redução científica do verbo “ver” a processos físico-fisiológicos representa uma transformação posterior de um significado originalmente ligado à experiência vivida, sendo metodologicamente legítima apenas enquanto redução parcial e não enquanto pretensão de substituir o sentido originário do fenômeno.