LATOUR, Bruno. Nous n’avons jamais été modernes: essai d’anthropologie symétrique. Paris: la Découverte, 1997. / LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
A constituição moderna
1. A modernidade costuma ser definida pelo humanismo de modo assimétrico, esquecendo o nascimento conjunto da não humanidade — coisas, bestas e um Deus barrado — e o recobrimento subsequente dessa origem comum através do tratamento separado das três comunidades, enquanto os híbridos continuam a se multiplicar por baixo.
2. A dupla separação entre alto e baixo e entre humanos e não humanos tem caráter constitucional análogo ao da distinção entre judiciário e executivo, que oculta múltiplos vínculos sem deixar de ser eficaz, e ninguém até então estudou simetricamente políticos e cientistas.
3. A constituição é o texto comum que define essa separação, cuja redação cabe parcialmente a juristas, cientistas e estudiosos das redes, cada grupo cumprindo apenas parte do trabalho ao ignorar o poder ou o quadrante que não lhe compete.
4. Cabe à antropologia falar de todos os quadrantes ao mesmo tempo, como demonstra a monografia de Descola sobre os Achuar, que reúne numa única obra forças, poderes e práticas sem dividi-los em livros separados.
5. A antropologia do mundo moderno deve descrever da mesma forma como se organizam todas as ramificações do governo, inclusive a da natureza e das ciências exatas, escolhendo a disputa entre Boyle e Hobbes no século XVII como situação exemplar dessa escrita constitucional.
Boyle e seus objetos
6. Uma longa citação de Shapin e Schaffer afirma que a política não é exterior à esfera científica, mas que a própria comunidade experimental de Boyle lutou para impor essa linguagem de demarcação, cabendo à história explicar o surgimento dessas convenções sem usá-las ingenuamente.
7. Essa citação marca o início de uma antropologia comparada que leva a ciência a sério, pois Shapin e Schaffer não explicam o conteúdo científico pelo contexto social, mas mostram como Boyle e Hobbes lutaram para inventar simultaneamente uma ciência, um contexto e a demarcação entre ambos.
8. A beleza do livro está em desenterrar os trabalhos científicos de Hobbes e as teorias políticas de Boyle, desenhando um quadrante simétrico em que cada um possui ciência e política, divergindo apenas quanto à experimentação e à bomba de ar.
9. A pompa a vácuo desenvolvida por Boyle a partir do aparelho de Guericke permite observar através do vidro e manipular amostras, constituindo tecnologia cara e complexa para a época, usada na experiência do vazio dentro do vazio com o tubo de Torricelli.
10. Em meio às guerras civis, Boyle funda seu método de argumentação na doxa e no testemunho de gentis-homens críveis reunidos ao redor da cena experimental, inventando o estilo empírico do matter of fact ainda hoje utilizado.
11. Os fatos produzidos artificialmente no laboratório por meio da bomba de ar não são falsos por serem construídos, pois Boyle estende à humanidade o construtivismo divino, limitando o conhecimento à instrumentalização dos fatos e deixando de lado a interpretação das causas.
Hobbes e seus sujeitos
12. Hobbes rejeita todo o dispositivo de Boyle, buscando pôr fim à guerra civil pela unificação do corpo político sob um soberano que representa a multitude por meio de autorização, e não de transcendência.
13. Para Hobbes poder e conhecimento se equivalem, de modo que apenas uma conexão exclusiva entre ambos pode encerrar as guerras civis, sendo a matéria inerte e a interpretação simbólica da Bíblia essenciais para impedir que facções invoquem entidades superiores ao soberano.
14. Esse reducionismo aplica-se também à própria república, pois o soberano não invoca direito divino nem transcendência alguma, e mesmo o contrato social resulta de puro cálculo mecânico, sem apelo a Deus, à matéria ativa ou às ideias matemáticas.
15. A confrontação entre Hobbes e Boyle surge quando a Royal Society reintroduz a divisão que Hobbes havia eliminado, ao proclamar opiniões independentes fundadas em experiências de laboratório inexplicáveis, o que para Hobbes reabre o risco de guerra civil ao dividir novamente conhecimento e poder.
A mediação do laboratório
16. A interpretação política do plenismo de Hobbes não bastaria para fundar a antropologia comparada, mas em três capítulos decisivos Shapin e Schaffer passam do mundo das opiniões ao mundo da prática e das redes, traduzindo ideias sobre Deus, o rei e a matéria pelos detalhes de funcionamento de um instrumento.
17. O contextualismo tradicional nunca esclarece como se estabelece o vínculo entre Deus, o rei, o Parlamento e a experiência de um pássaro sufocando na bomba de ar, isto é, como a experiência consegue traduzir e deslocar as demais controvérsias.
18. Enquanto Hobbes evita o trabalho experimental, Boyle força a discussão a passar por detalhes sórdidos de vazamentos e juntas, e o livro de Shapin e Schaffer é empírico por fazer a arqueologia desse novo objeto nascido no laboratório do século XVII.
19. As experiências raramente funcionam bem e a bomba vaza constantemente, de modo que quem não consegue explicar a irrupção dos objetos no coletivo humano não pode ser considerado antropólogo, já que os fatos fabricados em laboratório substituem as ideias e o acordo universal.
20. Hobbes exige uma resposta macroscópica às suas objeções macropolíticas sobre o vazio, mas Boyle responde tornando a experiência mais sofisticada, com uma simples pena de galinha, reduzindo o adversário a uma escala ridícula.
O testemunho dos não humanos
21. A invenção de Boyle aplica ao testemunho das coisas postas à prova no laboratório o velho repertório do direito penal e da exegese bíblica, invocando a prática dos tribunais ingleses para garantir a certeza moral das conclusões experimentais.
22. O repertório de Boyle não é inteiramente novo, mas seu ponto de aplicação é inédito, pois pela primeira vez objetos não humanos, e não apenas humanos ou divinos, passam a ser testemunhas em cortes de justiça transformadas em laboratórios.
23. Para Boyle as experiências de laboratório merecem mais autoridade do que depoimentos humanos não confirmados, como demonstra a experiência da campânula de mergulho, cujos efeitos visíveis sobre corpos inanimados pesam mais do que relatos contraditórios de mergulhadores.
24. A nova Constituição reconhece assim um novo ator: corpos inertes, privados de vontade e de alma, mas capazes de mostrar, assinar e escrever sobre os instrumentos de laboratório, tornando-se até mais fiáveis do que os próprios homens.
25. Shapin e Schaffer levam ao extremo a discussão sobre objetos e mudanças de escala, mostrando como a ciência não se torna universal por si mesma, mas através da extensão e estabilização de uma rede de práticas normalizadas em torno da reprodução da bomba de ar.
O duplo artifício do laboratório e do Leviatã
26. Tratar Hobbes e Boyle simultaneamente revela um princípio de simetria inédito nos estudos sobre ciência, já que ambos criam ao mesmo tempo os principais repertórios modernos de fala sobre o poder e sobre a natureza.
27. Shapin e Schaffer deslocam para baixo o centro tradicional da crítica ao mostrar que a prática científica não se situa nem do lado do objeto puro nem do lado do sujeito puro, mas permanecem hesitantes quanto a como tratar esse meio-termo.
28. Os autores não oferecem resposta final quanto ao tratamento do contexto social, oscilando entre explicações hobbesianas e boylianas do próprio trabalho, culminando na frase final do livro segundo a qual Hobbes teria razão ao afirmar que conhecimento e Estado são produtos das ações humanas.
29. Hobbes, ao contrário, estava errado, pois é justamente ele quem inventa a sociedade monista onde conhecimento e poder se confundem, sendo a invenção política de Boyle mais refinada do que a sociologia da ciência de Hobbes.
30. Hobbes inventa o cidadão calculador nu e a linguagem de que poder equivale a conhecimento, oferecendo um repertório de análise dos interesses humanos que permanece, junto ao de Maquiavel, vocabulário básico da sociologia até hoje.
Representação científica e representação política
31. Levada a simetria até o fim, percebe-se que Boyle cria um discurso político do qual a política deve ser excluída enquanto Hobbes cria uma política científica da qual a ciência experimental deve ser excluída, fundando o mundo moderno em que representação de coisas e de cidadãos permanecem para sempre dissociadas.
32. As duas ramificações do governo criadas por Boyle e Hobbes não têm autoridade senão claramente separadas, sendo o Estado de Hobbes impotente sem a ciência e a ciência de Boyle impotente sem a delimitação precisa das esferas religiosa, política e científica.
33. Hobbes define um cidadão nu e calculador que constitui o Leviatã por meio da autorização coletiva a um representante, deixando insolúvel a questão de se é o soberano ou os cidadãos que efetivamente falam.
34. Boyle define um artefato ainda mais estranho, o laboratório onde máquinas artificiais produzem fatos que, apesar de fabricados, representam a natureza tal como ela é, sendo os cientistas porta-vozes escrupulosos de objetos mudos, porém dotados de sentido.
35. O debate comum entre descendentes de Hobbes e de Boyle oferece os recursos ainda usados hoje: força social e sujeito de direito de um lado, força natural e objeto de ciência de outro, ambos porta-vozes que traduzem mandantes que não podem falar por si.
As garantias constitucionais dos modernos
36. Não se deve concluir que sujeitos e coisas estejam distantes, pois tanto Hobbes quanto Boyle refazem simultaneamente física, teologia, direito e política, situando-se ainda na velha matriz antropológica sem separar força social e mecanismo natural.
37. O paradoxo moderno reside na relação entre o trabalho de purificação, que separa totalmente natureza e cultura, e o trabalho de proliferação de híbridos, que os mistura, cabendo compreender se a purificação é condição da proliferação.
38. Toda Constituição deve ser medida pelas garantias que oferece: o poder natural garante que os homens não fazem a natureza, apenas descobrem seus segredos, enquanto o poder político garante que são os homens, e só eles, que constroem e decidem livremente sua sociedade.
39. Consideradas juntas, e não separadamente, essas garantias se invertem, pois os fatos fabricados no laboratório são apresentados como algo que escapa à fabricação humana, e o Leviatã, apesar de sua construção humana, adquire consistência e duração que ultrapassam quem o criou.
40. Essas duas garantias seriam contraditórias entre si e internamente, não fosse uma terceira garantia constitucional que separa completamente o mundo natural do mundo social e o trabalho dos híbridos do trabalho de purificação, transformando uma simetria evidente em duas assimetrias inconciliáveis na prática.
A quarta garantia: a do Deus barrado
41. Para não restabelecer uma simetria perfeita demais entre as duas garantias, fez-se necessária uma quarta garantia que afastasse Deus para sempre da construção social e natural, ainda que o mantendo apresentável e útil.
42. Um afastamento completo teria privado os modernos de um recurso crítico essencial, de modo que a transcendência infinita de Deus não impede seu uso em casos de conflito entre as leis da natureza e as da sociedade.
43. Reinterpretando temas teológicos cristãos, tornou-se possível fazer jogar simultaneamente a transcendência e a imanência de Deus, inventando a espiritualidade individual que desce ao foro interior sem intervir no foro exterior.
44. Ao repetir três vezes a mesma alternância entre transcendência e imanência para natureza, sociedade e Deus, constrói-se um quadro cruzado que trava todas as possibilidades e permite mobilizar a natureza e coisificar o social sem jamais admiti-lo.
45. A modernidade não se define pelo humanismo, pelas ciências ou pela laicização isoladamente, mas pela produção conjunta desses três pares de transcendência e imanência, cujo trabalho de mediação é tornado invisível e impensável.
A potência da crítica
46. No momento em que se enfraquecem as capacidades críticas dos modernos, convém medir uma última vez sua eficácia prodigiosa.
47. Libertados da hipoteca religiosa, os modernos tornaram-se capazes de criticar o obscurantismo dos antigos poderes por meio das leis da natureza, ao mesmo tempo em que inventavam esses fenômenos no recinto artificial do laboratório, nas primeiras Luzes.
48. A crítica também percorreu o sentido inverso nas segundas Luzes do século XIX, quando a ciência da sociedade passou a distinguir, nas demais ciências, a parte científica da parte ideológica, tratando pensamentos anteriores como ultrapassados.
49. Tornou-se possível combinar as duas críticas, usando ciências naturais contra o poder e ciências humanas contra a dominação sábia, sendo o marxismo o cruzamento mais duradouro dessas duas fontes de indignação moderna.
50. Apoiado ora na transcendência da natureza, ora na imanência da sociedade, o moderno pode criticar tanto crenças irracionais quanto ideologias sábias, invertendo os princípios sem contradição aparente entre impotência diante das coisas e onipotência na sociedade.
A invencibilidade dos modernos
51. A Constituição torna os modernos invencíveis por crer simultaneamente na separação total entre humanos e não humanos e por anulá-la na prática, permitindo responder a qualquer objeção com o argumento contrário.
52. Como diziam os índios sobre a língua fourchue dos brancos, os modernos sempre tiveram dois fers ao fogo, apoiando a força na razão e a razão na força ao separar rigorosamente relações políticas e científicas.
53. As demais culturas-naturezas não poderiam resistir à combinação simultânea das seis fontes críticas, tornando-se pré-modernas por contraste, embora pudessem ter resistido caso essas fontes aparecessem juntas como uma única operação.
54. Os modernos sentiram-se libertados das últimas restrições, acusando os coletivos pré-modernos de misturar indevidamente coisas e humanos, ao mesmo tempo em que remisturavam ambos em escala muito maior.
55. Não é possível acusar os modernos de incredulidade, pois sempre podem recorrer ao Deus todo-poderoso infinitamente distante ou ao Deus íntimo que fala no coração, conforme a acusação que lhes seja dirigida.
56. Os modernos detêm todas as fontes de poder e todas as possibilidades críticas, mas as deslocam com tal rapidez de uma instância a outra que nunca é possível surpreendê-los em flagrante.
O que a Constituição esclarece e o que ela obscurece
57. O mundo moderno nunca funcionou segundo as regras de sua própria Constituição, pois a prática de tradução sempre diferiu das práticas de purificação, diferença já inscrita na própria Constituição.
58. Não existe relação simples entre os traços de um momento histórico e sua modernidade, assim como a leitura revolucionária da Revolução Francesa organiza a historiografia sem definir os próprios acontecimentos de 1789.
59. A modernidade não é falsa consciência, devendo-se reconhecer sua eficácia própria, pois a ideia de Constituição permitiu aos modernos a audácia de mobilizar coisas e pessoas em escala inédita, obtida pela amplificação da mistura, e não pela separação.
60. Consideradas juntas, as garantias se invertem, e o paradoxo se resolve ao crer que tais combinações não têm graves consequências constitucionais, ao contrário dos pré-modernos monistas, que se proíbem essas combinações justamente por saturarem de conceitos os mixtos de divino, humano e natural.
61. A Constituição autoriza a socialização acelerada dos não humanos sem jamais permitir que apareçam como elementos da sociedade real, de modo que quanto menos os modernos se pensam misturados, mais eles misturam.
62. A bomba de ar de Boyle, que poderia parecer uma quimera perigosa por definir simultaneamente as leis da natureza, a ação de Deus e as disputas políticas inglesas, não suscita problema algum porque se acredita apenas descobrir leis naturais, o que amplia a mobilização exatamente na medida em que impede pensá-la.
O fim da denúncia
63. Afirmar que a Constituição, para ser eficaz, precisa ignorar o que permite constitui um desvelamento distinto do exercido pela crítica moderna, pois já não incide sobre os mesmos objetos nem se apoia nos mesmos fundamentos.
64. Recorrendo alternadamente à natureza, à sociedade e a Deus, e opondo constantemente transcendência e imanência de cada termo, o mecanismo da indignação moderna dispõe de seis cortes de apelo para denunciar e criticar.
65. Luc Boltanski e Laurent Thévenot esvaziaram a denúncia moderna em Économies de la grandeur, comparando as diversas fontes de justiça e mostrando como se constroem as acusações, sem denunciar nem desvelar os outros.
66. Esse pequeno deslocamento impede a adesão total ao mecanismo acusatório, já que nem mesmo as ciências humanas conservam o privilégio de discernir os motivos reais sob as aparências, fazendo elas próprias parte da análise.
67. O trabalho de Boltanski e Thévenot completa o movimento previsto por René Girard, segundo o qual os modernos não podem mais acusar de bom coração, embora Girard, ao contrário deles, despreze os objetos ao ver neles apenas efeitos do desejo mimético.
68. Sob o julgamento moral por denúncia sempre funcionou outro julgamento por triagem e seleção, chamado arranjo, negociação ou compromisso, desprezado por não permitir indignação, mas ativo por levar em conta os objetos e as sinuosidades das situações.
Nunca fomos modernos
69. Resta a escolha entre acreditar na Constituição moderna ou estudar simultaneamente o que ela permite e o que proíbe, o que ela esclarece e o que obscurece, deixando de ser inteiramente moderno nesse segundo caso.
70. Afirmar que a Constituição moderna não permite compreender a si mesma poderia sugerir uma posição pós-moderna, mas o pós-modernismo permanece sintoma e não solução, prolongando a crítica sem crer em seus fundamentos.
71. Uma solução diferente surge ao seguir ao mesmo tempo a Constituição e o que ela permite ou proíbe, percebendo-se então que nunca se foi moderno no sentido constitucional, pois a modernidade nunca começou de fato.
72. A Constituição explicava tudo deixando de lado o que estava no meio, tratando os híbridos como simples resíduo, quando na verdade eles compõem quase a totalidade dos coletivos, tanto modernos quanto ditos pré-modernos.
73. Perceber que nunca se foi moderno não implica reacionarismo, pois os antimodernos combatem os efeitos da Constituição sem deixar de aceitá-la inteiramente, defendendo entidades como se realmente existissem na forma que a Constituição lhes atribui.
74. Antimodernos e pós-modernos aceitaram o terreno de seus adversários, abrindo-se assim um terreno mais vasto e menos polêmico, o dos mundos não modernos, tão extenso e desconhecido quanto o Império do Meio.