Modernidade

LATOUR, Bruno. Nous n’avons jamais été modernes: essai d’anthropologie symétrique. Paris: la Découverte, 1997. / LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

** O que é um moderno? **

1. A modernidade possui tantos sentidos quantos são os pensadores ou jornalistas que dela tratam, designando, contudo, todas as definições, de um modo ou de outro, a passagem do tempo, de modo que, pelo adjetivo moderno, designa-se um regime novo, uma aceleração, uma ruptura, uma revolução do tempo, e, quando surgem as palavras moderno, modernização e modernidade, define-se por contraste um passado arcaico e estável, encontrando-se ainda a palavra sempre lançada no curso de uma polêmica, numa querela em que há vencedores e vencidos, antigos e modernos, sendo o termo moderno, portanto, duplamente assimétrico, pois designa uma quebra na passagem regular do tempo e designa um combate em que há vencedores e vencidos.

2. Para retomar o percurso, é preciso reformular a definição de modernidade, interpretar o sintoma da pós-modernidade e compreender por que não se adere mais de corpo e alma à dupla tarefa da dominação e da emancipação, questionando-se se, para abrigar as redes de ciências e técnicas, é preciso remexer céu e terra, respondendo-se que sim, precisamente céu e terra.

3. A hipótese deste ensaio, tratando-se de fato de uma hipótese e de um ensaio, é que a palavra moderno designa dois conjuntos de práticas inteiramente diferentes que, para permanecerem eficazes, devem manter-se distintos, mas que recentemente deixaram de sê-lo, criando o primeiro conjunto de práticas, por tradução, misturas entre gêneros de seres inteiramente novos, híbridos de natureza e cultura, e criando o segundo, por purificação, duas zonas ontológicas inteiramente distintas, a dos humanos, de um lado, e a dos não humanos, de outro.

4. Enquanto essas duas práticas forem consideradas separadamente, permanece-se moderno de fato, isto é, adere-se de bom grado ao projeto da purificação crítica, ainda que este só se desenvolva pela proliferação dos híbridos, cessando-se, contudo, imediatamente de ser inteiramente moderno assim que a atenção recai ao mesmo tempo sobre o trabalho de purificação e sobre o de hibridação, passando então o futuro a se transformar.

5. Que relação existe entre o trabalho de tradução ou mediação e o de purificação constitui a questão que se pretende esclarecer, sendo a hipótese, ainda demasiado grosseira, que o segundo permitiu o primeiro, tornando-se o cruzamento dos híbridos tanto mais possível quanto mais se proíbe pensá-los, paradoxo dos modernos que a situação excepcional em que hoje nos encontramos finalmente permite captar.