Bruno Latour (1947-2022)
Gerard de Vries
Bruno Latour é um dos filósofos contemporâneos mais influentes. Seus estudos etnográficos revolucionaram nossa compreensão das ciências, do direito, da política e da religião. Ele nos propõe uma filosofia e uma abordagem das ciências sociais radicalmente novas, baseadas em uma visão realista e materialista do mundo.
Em seus livros fundamentais, ele propunha abandonar as antigas distinções próprias do pensamento “moderno” ocidental – em particular entre natureza e sociedade – em favor de uma nova descrição do mundo em que vivemos. Isso o levou a atribuir uma importância considerável à crise ecológica e ao papel das ciências na democracia.
A “filosofia empírica” de Latour evoluiu ao longo do tempo.
HARMAN, Graham. Prince of networks: Bruno Latour and metaphysics. Melbourne: Re.press, 2009.
Este livro é o primeiro a considerar Bruno Latour como uma figura-chave na metafísica — um título que ele almejou, mas raramente recebeu. Latour há muito tempo ocupa destaque nos campos da sociologia e da antropologia, mas a base filosófica de sua obra continua pouco conhecida. Enquanto seus muitos admiradores raramente se preocupam com questões metafísicas, aqueles eremitas e marginalizados que ainda se dedicam à “primeira filosofia” geralmente não estão familiarizados com Latour. Meu objetivo é aproximar esses dois grupos, expressando as ideias latourianas em termos que dizem respeito à própria estrutura básica da realidade. Quando o centauro da metafísica clássica se une à chita da teoria do ator-rede, sua prole não é uma monstruosidade infernal, mas um potro puro-sangue capaz de nos levar por meio século ou mais. Embora a carreira de Latour tenha se desenrolado em grande parte nas ciências sociais, suas origens residem em uma educação tradicional e rigorosa em filosofia, marcada por um forte cunho jesuíta. Sua escolha de temas, sua sagacidade e seu estilo literário são os de um contemporâneo; no entanto, suas obras constituem uma contribuição para as disputas sobre metafísica que remontam à Grécia antiga.
Como costuma acontecer com os pensadores mais significativos, Latour é atacado simultaneamente por razões opostas. Para os defensores tradicionais da ciência, ele é apenas mais um relativista francês brando que nega a realidade do mundo externo. Mas, para os discípulos de Bloor e Bourdieu, sua relação com os não-humanos faz dele um traidor do realismo clássico fossilizado. Nas próprias obras de Latour, no entanto, essa cansativa disputa entre matéria física objetiva e força social subjetiva dá lugar a um tema mais fascinante: os objetos, que ele geralmente chama de “atores” ou “atantes”. Ao contrário de Heidegger e outros, Latour leva a sério maçãs, vacinas, trens do metrô e torres de rádio como temas da filosofia. Tais atores não são meras imagens pairando diante da mente humana, nem apenas agregados rígidos sobre um estrato objetivo de micropartículas reais, e nem abstrações estéreis impostas a um fluxo pré-individual ou a um devir. Em vez disso, os atores são forças autônomas com as quais é preciso contar, soltas no mundo como duendes e lobos.