LÉVY, Pierre. La machine univers. Paris: La Découverte, 1987.
** A invenção do cálculo **
1. A produção ocidental da máquina universal, concebida como objeto rigorosamente definido pela lógica matemática, resulta de um percurso histórico singular que conduziu da elaboração do algoritmo à construção de um mecanismo capaz de executá-lo em sua máxima generalidade.
2. A formação do conceito de máquina universal decorre da lenta invenção ocidental do cálculo, cuja cristalização filosófica aparece no primeiro Wittgenstein e cuja realização técnica e científica foi acelerada pela Segunda Guerra Mundial.
** O fio matemático: a demonstração **
3. A contagem antecede amplamente as matemáticas gregas e foi realizada desde a Antiguidade por meio de manipulações concretas, como entalhes, nós, pedras, ábacos, fichas e outros dispositivos anteriores ou concorrentes da escrita numérica.
4. Egípcios e babilônios dominavam, desde o terceiro milênio antes de Cristo, cálculos geométricos e técnicas complexas aplicadas a heranças, comércio, arquitetura e engenharia.
5. As matemáticas egípcias e babilônicas organizavam-se como coleções de problemas acompanhados dos procedimentos necessários à obtenção dos resultados, sem tratados dedutivos ou demonstrações de teoremas.
6. As antigas matemáticas do Oriente Próximo exigiam resultados corretos, mas não a demonstração de verdades necessárias, constituindo um saber procedural e algorítmico no qual se encadeavam operações, e não razões.
7. As matemáticas chinesas apresentaram caráter concreto, operatório e manipulatório semelhante ao das tradições egípcia e babilônica, embora tenham alcançado descobertas geométricas e técnicas algébricas muito mais avançadas.
8. As matemáticas gregas distinguiram-se pela abstração de seus objetos e pela orientação teórica de seus raciocínios.
9. A singularidade grega consistiu menos em inventar a geometria do que em instituir a verdade geométrica mediante a exigência de demonstração racional.
10. A identidade grega formou-se em contraste com a tradição egípcia, pois o conhecimento deixou de ser recebido como herança imemorial e passou a ser novamente fundado em cada geração.
11. A estabilidade milenar do saber egípcio contrasta com o horizonte grego da descoberta, da invenção e do futuro.
12. A liberdade política grega também se definiu em oposição à autoridade persa, pois as cidades autônomas passaram a instituir suas próprias leis sem recorrer exclusivamente à tradição, à monarquia sagrada ou à força tirânica.
13. A democracia modificou profundamente o estatuto da linguagem ao exigir que a palavra se sustentasse por sua própria força argumentativa.
14. A demonstração matemática constituiu simultaneamente uma modalidade de persuasão pública e uma busca de verdade absoluta.
** O fio matemático: da clareza à velocidade **
15. Os gregos transformaram os procedimentos de cálculo em modelo de inteligibilidade racional, tornando possível a posterior formação da ciência moderna.
16. Os Elementos de Euclides constituíram durante séculos o modelo da teoria dedutiva, com termos definidos, axiomas e postulados explicitados e teoremas logicamente derivados em uma arquitetura racional integrada.
17. No século XIX, a descoberta de lacunas na geometria euclidiana e a criação das geometrias não euclidianas transformaram o sentido da axiomática.
18. A evidência das proposições primeiras perdeu sua função fundadora, enquanto a não contradição e a estrutura interna dos sistemas tornaram-se centrais.
19. A valorização da coerência interna dos sistemas relaciona-se ao declínio da referência religiosa absoluta, ao estudo de outras civilizações e ao reconhecimento da relatividade histórica dos valores.
20. A matemática moderna eliminou progressivamente a intuição e separou a consistência lógica da verdade categórica.
21. A formalização completou-se quando as próprias regras de dedução foram explicitadas e tratadas como convenções.
22. A demonstração converteu-se novamente em cálculo, mas em um nível abstrato produzido pela busca ocidental de máxima clareza e fundamentação racional.
23. A semântica de um sistema formal compreende suas possíveis interpretações concretas.
24. A sintaxe de um sistema formal concerne exclusivamente às suas propriedades internas, entre as quais se destacam a consistência, a completude e a decidibilidade.
25. Um sistema é consistente quando não permite derivar simultaneamente uma fórmula e sua negação, satisfazendo a exigência de não contradição.
26. Um sistema é completo quando toda expressão bem formada pode ser demonstrada como verdadeira ou como falsa.
27. Um sistema é decidível quando existe um procedimento efetivo capaz de distinguir as proposições demonstráveis ou refutáveis daquelas que não o são.
28. O teorema de incompletude de Gödel demonstrou que todo sistema formal suficientemente poderoso para representar a aritmética deve ser incompleto, encerrando o projeto de reunir todas as verdades matemáticas em um sistema dedutivo integralmente coerente.
29. Turing abordou a decidibilidade mediante a definição rigorosa de procedimento efetivo e a elaboração do modelo de máquina que recebeu seu nome.
30. A concepção dos computadores prolonga uma linha histórica contínua que une a abstração grega, a exigência de racionalidade, a lógica matemática moderna e a formalização dos algoritmos.
31. A história do cálculo realiza uma inversão pela qual o algoritmo, nascido da busca de um raciocínio transparente, passa a ser valorizado sobretudo por sua eficácia operatória quando executado por um autômato.
32. O conhecimento contemporâneo desloca-se progressivamente para procedimentos efetivos, computação e informação operacional.
** A linhagem lógica **
33. Claude Shannon demonstrou em 1938 a correspondência estrutural entre circuitos elétricos comutadores e a álgebra de Boole, estabelecendo princípios ainda fundamentais para a construção dos componentes computacionais.
34. A informática depende da possibilidade de processos físicos realizarem exatamente operações lógicas.
35. A informática e a inteligência artificial aplicam diversas estruturas da lógica matemática.
36. As teorias lógicas que fundamentam a informática foram formuladas antes dos computadores e constituem o resultado de uma tradição ocidental de muitos séculos.
37. A empresa lógica deve ser reconhecida em toda a sua singularidade histórica e conceitual.
38. A lógica é intrinsecamente singular porque transforma o próprio raciocínio em objeto de análise formal.
39. A lógica formal desenvolveu-se plenamente apenas na tradição originada na Grécia.
40. Algumas escolas chinesas investigaram a contradição, os conceitos e as regras do raciocínio correto, mas permaneceram marginais ou foram historicamente interrompidas.
41. A lógica formal apresentou no Ocidente uma vitalidade e uma continuidade quase ininterruptas de Aristóteles a Russell, incluindo a contribuição arábico-islâmica medieval.
42. A lógica aristotélica resultou de uma longa experiência de debates públicos, reflexão filosófica e rigor matemático.
43. Aristóteles separou da retórica e do diálogo um instrumento destinado exclusivamente à análise da validade formal dos raciocínios.
44. A genealogia da informática encontra um momento decisivo no projeto leibniziano de uma característica universal.
45. Leibniz concebeu uma escrita lógica unívoca, ideográfica e dotada de sintaxe inteiramente racional.
46. O calculus ratiocinator constitui o aspecto operatório da característica universal.
47. As linguagens de programação realizam o ideal leibniziano de uma escrita absoluta, na qual os símbolos não apenas registram o pensamento, mas comandam diretamente operações.
48. Após Leibniz, a lógica procurou substituir as incertezas do raciocínio por cálculos infalíveis sobre signos.
49. Frege realizou o projeto da escrita conceitual unívoca e dotada de regras de inferência inteiramente formalizadas.
50. As teorias dos autômatos, da informação e da cibernética nasceram no ambiente intelectual criado pela lógica matemática, pelo logicismo e pelo formalismo.
** A cibernética **
51. A cibernética participou da construção dos primeiros computadores, estabeleceu fundamentos da inteligência artificial e introduziu categorias lógico-matemáticas nas neurociências.
52. O movimento cibernético surgiu em 1943 com trabalhos dedicados ao comportamento orientado por fins e ao cálculo lógico da atividade nervosa.
53. A explicação cibernética do comportamento finalizado baseou-se na causalidade circular entre organismo e ambiente, formulada como retroação negativa.
54. A identificação do sistema nervoso com uma máquina lógica permitiu atribuir a redes de neurônios formais a mesma capacidade computacional de uma máquina universal.
55. A cibernética norte-americana organizou-se em torno de matemáticos, engenheiros, médicos e cientistas sociais reunidos em encontros interdisciplinares.
** Lógica matemática e teoria da informação **
56. A cibernética nasceu profundamente marcada pela lógica matemática.
57. A formação lógica e matemática de John von Neumann antecedeu seus trabalhos sobre jogos, autômatos e computadores.
58. Turing integrou plenamente o movimento cibernético ao associar lógica matemática, construção de computadores e projeto de cérebros artificiais.
59. Shannon manteve seu interesse pela lógica após demonstrar a equivalência entre circuitos elétricos e álgebra booleana.
60. McCulloch e Pitts orientaram suas pesquisas pela lógica matemática.
61. Bateson aplicou a teoria dos tipos de Russell aos processos de aprendizagem e comunicação, formulando a dupla vinculação segundo o modelo dos paradoxos lógicos.
62. A origem logicista e formalista dos fundadores da cibernética exprime uma visão comum do mundo organizada em torno da lógica.
63. A informação constituiu o segundo eixo da cibernética.
64. A lógica e a teoria da informação encontram-se articuladas pelas noções de operação e codificação.
** A noção de codificação **
65. A lógica moderna pode ser compreendida como progressiva otimização da codificação.
66. A codificação desempenha papel central nos teoremas de Gödel, nas máquinas de Turing, na criptografia e na teoria neuronal de McCulloch.
67. A teoria dos autômatos autorreprodutores de von Neumann fundamentou-se na descrição codificada das próprias máquinas.
68. A importância do código na lógica e nos autômatos deve ser complementada pela análise da operação nas teorias da comunicação e da informação.
** A ideia de operação **
69. A informação pode ser definida como aquilo que permanece invariante em todas as traduções reversíveis de uma mensagem.
70. A percepção pode ser compreendida como mecanismo de abstração de formas invariantes a partir de dados sensoriais variáveis.
71. A forma percebida resulta da aplicação de transformações aos sinais provenientes dos órgãos sensoriais.
72. A cibernética situa o código no centro da lógica e a operação no fundamento da informação, ao mesmo tempo que articula ambas as noções à comunicação e ao cálculo.
73. A teoria da comunicação e a lógica oferecem à cibernética os instrumentos para explicar cientificamente a alma, o espírito ou o observador.
** A alma: definição operacional **
74. A lógica cibernética identifica-se com a teoria dos autômatos e reduz toda proposição científica a processos observáveis ou experiências possíveis.
75. McCulloch analisa a mente como estrutura de acontecimentos psíquicos elementares correspondentes a impulsos binários da rede neuronal.
76. A identificação de impulsos elétricos com proposições baseia-se na correspondência estrutural entre processos físicos e operações lógicas.
77. A distinção entre acontecimentos fisiológicos e psicológicos perde validade no campo cibernético.
78. A alma cibernética corresponde à organização dos cálculos que relacionam as informações recebidas pelos sentidos às informações que comandam os movimentos.
79. Psicologia, neurofisiologia e ciência das máquinas convergem em uma única teoria do tratamento da informação.
80. A consciência não pode ser incorporada à ciência cibernética porque não admite definição operacional capaz de preservar sua essência.
81. A substituição das antigas divisões ontológicas por um campo unificado de eventos permite explicar memória, finalidade, reconhecimento, cálculo e comunicação.
** As premissas filosóficas: o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein **
82. O nascimento de um paradigma científico pressupõe uma nova maneira de compreender o ser, cuja expressão filosófica pode preceder e preparar o imaginário posteriormente desenvolvido pelas ciências.
83. A cibernética recebe influências filosóficas de Leibniz e Kant.
84. A cibernética reformulou os problemas da união entre alma e corpo e da finalidade biológica por meio das categorias de lógica, cálculo, comunicação e informação.
85. O Tractatus apresenta a configuração ontológica correspondente ao desenvolvimento da teoria informacional.
86. A ontologia do Tractatus antecipou filosoficamente a visão de mundo aplicada pelos fundadores da cibernética.
87. A lógica no Tractatus não é apenas teoria do raciocínio correto, mas estrutura transcendental e imagem do próprio mundo.
88. A lógica constitui a essência da comunicabilidade porque delimita simultaneamente o possível, o pensável e o exprimível.
89. A equivalência entre estados de coisas e proposições aproxima os processos físicos das traduções e dos cálculos.
90. O mundo concebido como totalidade dos fatos, e não das coisas, corresponde ao universo da teoria da informação.
91. O universo lógico do Tractatus exclui hierarquias internas e não comporta um sujeito pensante situado entre as coisas e suas representações.
** O indizível **
92. O Tractatus diverge da primeira cibernética ao situar o sujeito nos limites do mundo e identificar o mundo com o próprio sujeito.
93. A segunda divergência entre Wittgenstein e a cibernética concerne à existência e ao estatuto do indizível.
94. O indizível escapa à tradução e ao cálculo lógico, pois não pode ser codificado ou submetido a operações.
95. Uma representação pode figurar uma realidade cuja forma compartilha, mas não pode representar sua própria forma de representação.
96. O meio no qual a representação ocorre permanece inexprimível.
97. A transformação do meio da mensagem em nova informação produziria uma hierarquia potencialmente infinita de linguagens.
98. A estrutura lógica comum às diferentes traduções também pertence ao indizível.
99. Nenhum autômato lógico, neuronal ou eletrônico pode apreender um significado que seja simultaneamente incalculável e inexprimível.
100. O mundo do que acontece e do que pode ser dito exclui tanto a espessura sensível da existência quanto as significações que orientam a vida.
101. A cibernética e a inteligência artificial dependem da ontologia inaugurada pelo primeiro Wittgenstein, mas reduzem o ser humano a um autômato lógico processador de informação.