LÉVY, Pierre. La machine univers. Paris: La Découverte, 1987.
1. A máquina universal constitui uma estrutura subjacente característica do Ocidente, vinculada à sua história, ao ideal democrático, à arte e ao poder industrial e científico, tendo encontrado no computador apenas sua manifestação técnica mais recente.
2. A compreensão da máquina universal no campo artístico exige inicialmente a definição de seu significado matemático.
** Cálculos, algoritmos, máquinas universais **
3. A máquina não se reduz a um mecanismo pesado de transformação material, pois também pode ser concebida como dispositivo capaz de tratar informação mediante a transformação regulada de uma mensagem de entrada em uma mensagem de saída.
4. O tratamento informacional distingue-se do tratamento industrial pela pequena quantidade de energia empregada, embora todo processo industrial também possa ser compreendido como produção de diferenças e imposição de formas à matéria.
5. O cálculo constitui a forma exemplar do tratamento da informação, pois consiste em operações organizadas e reguladas sobre entidades matemáticas, cuja representação física permite mecanizar e automatizar os procedimentos.
6. O conceito de cálculo pode ser ampliado para abranger operações de seleção, classificação, permutação, combinação, comparação, substituição e transcodificação.
7. Os circuitos do computador operam sobre impulsos elétricos que representam os valores binários 0 e 1, permitindo codificar letras, números e tudo aquilo que possa ser expresso por alfabetos ou quantidades.
8. Os trabalhos baseados em organização, combinação ou arranjo de um número finito de elementos podem ser decompostos em sequências ordenadas de operações mais simples.
9. A ampla competência humana permite compreender e executar instruções globais, enquanto os circuitos elementares do computador somente realizam poucas operações sobre 0 e 1.
10. As operações mais comuns são incorporadas aos circuitos da máquina, enquanto planos gerais de cálculo são elaborados para classes inteiras de tratamentos semelhantes, originando a construção de algoritmos.
11. Um algoritmo consiste em uma sequência finita e ordenada de regras, instruções ou operações destinada a resolver uma classe de problemas ou executar determinado tipo de tarefa.
12. A formalização de uma tarefa exige a identificação dos objetos envolvidos, das operações elementares aplicáveis e da ordem precisa de sua execução.
13. A formalização desfaz a aparência familiar das ações, substituindo a percepção global e os polos de significado por uma descrição rigorosa fundada em uma lógica estritamente operatória.
14. Um programa informático é um algoritmo ou conjunto de algoritmos que dirige integralmente a execução automática de uma tarefa dentro de um sistema computacional.
15. Em informática, a máquina ou o autômato designa sobretudo uma estrutura lógica, que pode ser materializada por dispositivos mecânicos, microprocessadores ou sequências de instruções executadas por um operador humano obediente.
16. O modelo de máquina formulado por Alan Turing em 1936 estabeleceu que todo processo decomponível em uma sequência finita e ordenada de operações sobre um alfabeto restrito pode ser executado mecanicamente.
17. A máquina de Turing funciona mediante um número finito de estados, uma fita indefinida dividida em casas binárias, uma cabeça de leitura e uma tabela de instruções.
18. Turing demonstrou ainda a existência de máquinas universais capazes de executar todas as tarefas calculáveis e todos os procedimentos efetivos.
19. A máquina universal pode imitar qualquer máquina particular porque recebe tanto os dados do problema quanto a descrição codificada da máquina destinada a resolvê-lo.
20. A arquitetura proposta por John von Neumann em 1945 incorporou programas e dados em uma memória comum e rapidamente acessível, realizando tecnicamente o princípio da fita da máquina universal de Turing e definindo a estrutura do computador moderno.
21. A máquina universal constitui o antepassado abstrato do computador, enquanto a descrição codificada das máquinas particulares antecipa o conceito de programa informático.
22. A máquina universal, concebida como forma organizadora da arte ocidental, mantém uma relação analógica com o autômato de Turing e pode ser identificada por três características essenciais.
23. A máquina universal apresenta-se como potência de todos os possíveis, orientada para abranger e recapitular a totalidade, inclusive aquilo que ainda não se manifestou.
24. A máquina universal realiza um trabalho formal, sintático ou puramente operatório sobre signos.
25. Os símbolos elementares processados pela máquina universal situam-se abaixo dos limiares da percepção imediata.
** Uma potência de todos os possíveis **
26. A passagem do século XIX ao XX transformou o horizonte artístico ocidental ao confrontar o criador com a multiplicidade das culturas mundiais.
27. A extraordinária expansão dos museus entre os séculos XVIII e XX exprime a progressiva reunião dos testemunhos da natureza e da atividade humana.
28. As artes antigas e extraeuropeias influenciaram decisivamente a pintura moderna, oferecendo aos artistas novos enquadramentos, formas, cores, composições e repertórios simbólicos.
29. A presença física de objetos exóticos somente se converte em influência artística quando o criador reconhece a contingência de sua própria tradição e já se encontra disposto a buscar outras soluções.
30. A difusão técnica das obras colocou o indivíduo contemporâneo em contato com uma diversidade musical e pictórica muito superior àquela conhecida pelos grandes artistas do passado.
31. Determinadas obras modernas condensam universos culturais reduzidos e transformam a diversidade dos estilos em matéria da própria criação.
32. A imersão em um espaço pluricultural favorece o aparecimento de metaliteraturas, metapinturas e metamúsicas voltadas para a multiplicidade das obras, ideias, linguagens e tradições.
33. A pintura florentina do Quattrocento possuía funções religiosas e pedagógicas precisas, ao passo que o pintor contemporâneo perdeu sua função de produtor de imagens populares e passou a repensar explicitamente os modos instituídos de representação.
34. A reprodução técnica altera profundamente a condição de recepção das obras, pois uma composição antes ouvida raramente pode ser repetida indefinidamente por meios mecânicos.
35. O fluxo dos meios de comunicação e o acesso à diversidade cultural impõem ao artista a criação integral de um estilo e de uma tradição próprios.
36. O artista da sociedade informatizada deve ultrapassar a produção de obras isoladas e elaborar sistemas de obras, reinventando-se continuamente fora de qualquer tradição.
** Um trabalho formal sobre signos **
37. A máquina de Turing representa fisicamente um algoritmo e opera exclusivamente sobre símbolos de um alfabeto segundo regras formais, sem considerar qualquer significado ou interpretação.
38. A máquina de Turing constitui o modelo formal de todas as máquinas capazes de calcular a mesma função, independentemente dos dispositivos materiais que a realizem.
39. O funcionamento da máquina é intrinsecamente abstrato e puramente operatório, pois os símbolos processados somente adquirem significado mediante uma interpretação exterior.
40. A concepção da atividade artística como trabalho formal sobre signos constitui uma característica central da modernidade na pintura, na música e na literatura, embora conviva com tendências voltadas para expressão, emoção, espontaneidade e engajamento.
41. Mallarmé concebeu a escrita como operação realizada com palavras segundo a lei interna da linguagem, aproximando a criação poética das experiências de axiomatização, formalização e combinação que conduziriam à teoria computacional.
42. Parte significativa da poesia do século XX orientou-se para uma linguagem sem referência e para a autonomia das estruturas verbais.
43. A escrita contemporânea pode aproximar-se da música e da programação, afastando-se da simples notação da fala ou da narração.
44. O texto literário do século XX aproxima-se de um sistema axiomático capaz de admitir múltiplas concretizações e interpretações.
45. A pintura não figurativa resulta da ruptura progressiva com os códigos convencionais de representação e da busca de novos sistemas de signos.
46. A música revelou-se especialmente apropriada à formalização abstrata porque seu conteúdo não pode ser separado de sua forma.
47. A música do século XX caracteriza-se pela reformulação contínua de sua linguagem e pela importância crescente da formalização.
48. Grande parte da criação contemporânea concentrou-se nas causas eficientes, materiais e formais, em detrimento das causas finais.
49. A arte medieval elegia temas religiosos e simbólicos, representando a fonte suprema do significado e desempenhando funções de instrução, edificação e transmissão de mensagens.
50. A pintura de Cézanne apresenta objetos em sua densidade, volume, forma e cor, sem convertê-los em símbolos, ilusões ópticas ou expressões sentimentais.
51. A delicadeza simbólica da arte medieval e a beleza objetiva da arte moderna permanecem igualmente frágeis e ameaçadas.
** O objeto pulverizado **
52. A máquina de Turing e o computador reduzem toda informação a elementos binários mínimos, independentemente da complexidade dos objetos representados.
53. A literatura moderna realiza uma descida ao imperceptível semelhante à decomposição informática.
54. Claude Simon radicaliza a descontinuidade narrativa ao desenvolver simultaneamente numerosas linhas descritivas e alterná-las em intervalos breves.
55. A arqueologia informatizada substitui o reconhecimento intuitivo de objetos por conjuntos codificados de características submetidos a comparações estatísticas.
56. O programa taxonômico e o arqueólogo que reconhece imediatamente um objeto pertencem a diferentes configurações antropológicas.
57. A pintura europeia moderna percorre todo o campo da experiência visual ao libertar-se de temas privilegiados, escalas fixas, pontos de vista determinados e formas específicas de representação.
58. O cubismo dissolve o objeto em componentes elementares e elimina o sujeito focal que o organizava.
59. A codificação descontínua manifesta-se claramente em Mondrian e na arte cinética, alcançando em Vasarely uma aparência modular semelhante à produção computacional anterior à existência efetiva da arte informatizada.
60. A música contemporânea também abandona a nota convencional como unidade fundamental e passa a operar com componentes acústicos elementares.
61. A máquina universal, definida como operação formal sobre um universo pulverizado de símbolos, oferece um modelo comum aos autômatos calculadores e a determinadas transformações artísticas.
62. A figura da máquina universal estruturava uma parte importante da criação artística contemporânea antes do emprego direto dos computadores.
63. A origem ocidental da máquina universal deve ser investigada historicamente mediante uma comparação diacrônica capaz de revelar suas raízes na cultura europeia.
** A música europeia: tornar-se mecânica **
64. A tradição musical ocidental distingue-se pela criação de um sistema sistemático de notação escrita e pela identificação progressiva da obra musical com um objeto registrado graficamente.
65. Desde a Grécia antiga, a música foi submetida a conceitos abstratos como tom, ritmo, melodia e harmonia.
66. A conservação exata e a transmissão escrita da ideia musical constituem uma particularidade cultural, pois a música antiga era geralmente baseada na oralidade e na improvisação.
67. A cultura grega já realizou uma primeira formalização e universalização abstrata da música por meio de sua projeção sobre um sistema de signos.
68. A notação musical europeia tornou-se progressivamente mais precisa desde os neumas medievais até a partitura clássica.
69. Antes da Renascença, a obra musical era identificada com a execução singular e efêmera produzida pelo intérprete mediante improvisação.
70. O desenvolvimento exclusivo da polifonia ocidental relaciona-se diretamente à precisão da notação e à concepção da obra como objeto escrito.
71. A polifonia conduziu a música europeia do tempo aberto e livre para um ritmo pulsado, medido e quase mecânico.
72. O sistema tonal europeu distingue-se da música modal ao permitir a transposição de uma mesma escala a partir de diferentes graus.
73. O sistema tonal depende da neutralização da música e da relativa independência de seus componentes.
** A música europeia: tornar-se universal **
74. A busca ocidental por um instrumento universal antecede o sintetizador digital e manifesta-se no desenvolvimento do órgão, do piano e da orquestra.
75. A instrumentação europeia afastou-se progressivamente da singularidade física e simbólica dos corpos sonoros para buscar o domínio da totalidade dos sons possíveis.
76. A música europeia possui vocação universal porque não permanece vinculada à mitologia, à cosmologia ou à metafísica de uma cultura particular.
77. O ensino musical institucionalizado em todo o mundo adota predominantemente princípios e notações ocidentais por causa de sua codificação abstrata, explícita e racional.
78. A música ocidental ingressou no domínio da acumulação, da construção objetiva e do progresso ao ser submetida à escrita.
79. A música ocidental favorece de maneira singular a individualidade criadora porque se apresenta como uma coleção aberta de obras escritas capazes de desafiar o tempo.
80. A racionalidade, o universalismo, a evolução contínua e a valorização do indivíduo fazem da música europeia uma concentração de características distintivas da cultura ocidental.
81. As pesquisas musicais do século XX e o uso do computador prolongam uma história iniciada na Grécia antiga.
82. A máquina universal apresenta-se à tradição ocidental simultaneamente como instrumento privilegiado de universalização e como imagem especular na qual essa cultura reconhece progressivamente a própria identidade enigmática.