Paradigma informático

LÉVY, Pierre. La machine univers. Paris: La Découverte, 1987.

1. O emprego crescente de conceitos informáticos, simulações numéricas e algoritmos nas ciências manifesta a formação progressiva de um paradigma do cálculo, constituído menos como doutrina explícita do que como conjunto coerente de metáforas, procedimentos, representações e hábitos metodológicos.

2. O paradigma do cálculo envolve questões ontológicas, metodológicas e epistemológicas acerca da natureza dos sistemas e da finalidade da ciência.

** Cálculo e método: uma nova relação com a experiência **

3. A simulação computacional difundiu-se por disciplinas muito diversas e conferiu caráter experimental a campos anteriormente privados de experimentação direta.

4. As simulações numéricas não constituem experiências diretas sobre os fenômenos, mas operações realizadas sobre seus modelos.

5. A simulação facilita o exame de hipóteses relativas a fenômenos sobre os quais não se pode agir diretamente.

6. Nas ciências experimentais, a simulação introduz um terceiro elemento entre a teoria e os resultados empíricos.

7. As simulações conferem às próprias matemáticas um caráter parcialmente experimental ao confirmar, refutar ou suscitar conjecturas.

8. A capacidade informática de cálculo estatístico, análise de dados e representação visual reforça a orientação empírica e indutiva da pesquisa.

** Limites da simulação numérica **

9. A natureza discreta do cálculo limita sua capacidade de simular adequadamente processos contínuos.

10. As trajetórias espaciais precisam ser continuamente corrigidas mediante observações da posição e da velocidade reais, pois nem mesmo computadores poderosos conseguem determiná-las exatamente apenas com base nas condições iniciais.

11. A simulação também é limitada pelo linguagem utilizada para descrever o sistema, pois a formalização define antecipadamente todos os fatores considerados relevantes.

12. A legitimidade da simulação histórica é problemática porque os modelos contrafactuais isolam determinadas variáveis sob a pressuposição de que todas as demais condições permaneceriam iguais.

13. A história econômica quantitativa sustenta que toda explicação causal já emprega implicitamente hipóteses contrafactuais.

14. A controvérsia sobre a simulação histórica envolve a possível unidade das metodologias científicas.

15. A informática pode conferir às ciências humanas graus inéditos de rigor e exatidão por meio da estatística, da simulação e da formalização.

** Explicar, calcular **

16. A avaliação da simulação exige distinguir a construção de algoritmos e modelos numéricos da elaboração de teorias matemáticas.

17. A simulação busca principalmente reproduzir ou prever o comportamento de um sistema.

18. A matematização procura revelar a estrutura fundamental do fenômeno, identificar seus parâmetros relevantes e torná-lo racionalmente inteligível.

19. Uma teoria pode ser preditiva e, ao mesmo tempo, oferecer uma estrutura explicativa do real.

20. As teorias de Newton e Einstein podem ser aproximadamente equivalentes no plano dos cálculos, mas permanecem radicalmente diferentes quanto às estruturas matemáticas atribuídas à realidade física.

21. Uma teoria matemática não garante necessariamente a previsão, assim como cálculos preditivos podem ser realizados sem teoria ou mediante uma teoria falsa.

22. O computador favorece a simulação operatória, a previsão e o cálculo, reabrindo a questão acerca da finalidade da ciência.

** A formalização do raciocínio científico **

23. A transformação do raciocínio científico em algoritmo pode seguir uma orientação normativa ou uma orientação descritiva.

24. O ideal logicista exige que todas as operações intelectuais realizadas entre os dados iniciais e as conclusões científicas possam ser executadas por um autômato.

25. O logicismo denuncia conclusões das ciências humanas que não resultam de deduções logicamente explicitadas nem de induções probabilísticas corretas fundadas em conjuntos determinados de dados.

26. A programação exige explicitar todas as etapas do raciocínio e tornar públicos os procedimentos empregados.

27. A própria constituição dos dados iniciais pode ser informatizada.

28. O algoritmo não opera diretamente sobre a significação informal dos dados, mas sobre símbolos tipográficos que os descrevem.

29. A testabilidade das conclusões exige que elas sejam formuladas em uma linguagem compatível com o código empregado para descrever os fatos.

30. Bancos de dados e linguagens documentais também promovem a normalização da linguagem científica.

31. A padronização linguística pode contrariar a própria lógica da investigação.

32. A programabilidade do raciocínio reforça a escolha epistemológica pela unidade da metodologia científica.

33. A formalização também pode ser praticada de maneira descritiva e pragmática por especialistas em inteligência artificial.

34. Os sistemas produzidos por essa formalização raramente são completos ou decidíveis.

35. Nas ciências humanas, os raciocínios somente podem ser formalizados por segmentos.

36. A inteligência artificial encontra limites teóricos ao simular o raciocínio científico.

** O neomecanicismo **

37. O paradigma do cálculo não se restringe ao emprego de métodos, pois determinadas correntes científicas concebem seus próprios objetos como máquinas e seus processos como cálculos.

38. O mecanicismo cartesiano explicava os fenômenos mediante figuras, movimentos, contatos, choques e deslocamentos de partes extensas.

39. No século XIX, a máquina a vapor substituiu o relógio como modelo, introduzindo o vocabulário das transformações, dos balanços e da dissipação de energia nos estudos físicos, químicos, biológicos e sociais.

40. No século XX, o computador tornou-se a máquina exemplar e o tratamento da informação passou a representar o mecanismo regulador dos demais.

41. O ideal de especificação absoluta deslocou o mecanicismo para um domínio abstrato de operações rigorosamente definidas sobre objetos precisamente delimitados.

** Na biologia **

42. O neomecanicismo biológico reconcilia a causalidade final com a causalidade eficiente mediante o tratamento da informação.

43. A manutenção da organização dos seres vivos diante da tendência entrópica pode ser compreendida mediante a experiência mental do demônio de Maxwell.

44. A operação informacional consome muito menos energia do que a intervenção direta necessária para aquecer e resfriar os compartimentos por meios mecânicos convencionais.

45. As proteínas celulares desempenham funções comparáveis às do demônio de Maxwell por reconhecerem moléculas segundo suas formas e provocarem seletivamente determinadas reações.

46. Circuitos celulares de inibição e ativação também podem ser descritos como programas dotados de ramificações condicionais que determinam diferentes operações conforme os estados encontrados.

47. A síntese proteica apresenta-se como tradução algorítmica de informação entre dois alfabetos.

48. A tradução genética apresenta caráter circular porque depende das enzimas que ela própria contribui para produzir.

** Neurologia e ciências da cognição **

49. Os conceitos de cálculo e informação permitem atribuir uma base fisiológica a atividades tradicionalmente reservadas à alma ou ao espírito.

50. A neurologia computacional tornou-se teoricamente possível por uma sequência de formalizações.

51. A inteligência artificial e parte da psicologia cognitiva distinguem o nível abstrato dos programas da constituição material que os executa.

** Ontologia ou metáfora? **

52. A descrição computacional dos fenômenos pode ser entendida como analogia, instrumento heurístico, modelo preditivo ou afirmação ontológica.

53. Os fundadores da cibernética identificaram os sistemas vivos e sociais com sistemas de tratamento da informação e conceberam o ser humano como espécie particular de máquina.

54. A biologia molecular descreve a célula como fábrica química regulada ciberneticamente, o ácido desoxirribonucleico como programa codificado e os processos vitais como algoritmos investigáveis.

55. Correntes da biologia teórica também adotam o quadro neomecanicista ao investigar seres vivos mediante conceitos como computador biológico, auto-organização e tratamento informacional.

56. A neurofisiologia computacional concebe o cérebro como máquina e os neurônios como processadores de informação.

57. A ontologia computacional estende-se da biologia e da psicologia à física.

58. O neomecanicismo antecede a difusão dos computadores e responde a problemas teóricos relativos à estabilidade, à vida e à inteligência.

** Reorganização nas ciências **

59. O neomecanicismo aspira à condição de paradigma dominante, mas permanece contestável e contestado.

60. Formalismos contínuos e geométricos ajustam-se dificilmente ao quadro neomecanicista, enquanto as simulações numéricas são compatíveis com a interpretação computacional dos fenômenos.

61. O declínio relativo da embriologia após a Segunda Guerra Mundial pode relacionar-se à dificuldade de sua tradição organicista em reformular seus problemas segundo a linguagem do neomecanicismo.

62. A biologia molecular privilegiou a bactéria porque o mecanismo de síntese proteica a partir da informação genética possui caráter universal e permanece essencialmente semelhante em organismos muito diferentes.

63. O cognitivismo computacional reorganizou teoricamente e institucionalmente a psicologia.

64. O novo mecanicismo incorpora críticas e não constitui um conjunto inteiramente fechado de teorias.

65. O paradigma do cálculo promove o endurecimento formal das ciências humanas e até mesmo da física.

66. Os computadores não impõem necessariamente uma filosofia, mas a informatização favorece orientações indutivistas, instrumentalistas e logicistas.

67. O paradigma do cálculo não coincide integralmente com filosofias científicas anteriores e deve ser compreendido como fenômeno novo.

68. O cálculo passa a ocupar simultaneamente o objeto, o sujeito individual e o sujeito coletivo da ciência.

69. A transformação epistemológica apoia-se em mudanças sociais e institucionais ocorridas desde a Segunda Guerra Mundial.

70. A algoritmização dos saberes, a simulação preditiva e o emprego de linguagens codificadas ultrapassam o campo científico e exprimem uma mutação cultural mais ampla.