Conclusão

LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.

O DESFECHO DA HISTÓRIA E SUA MORAL

1. Iniciamos esta história com a formação das concepções de teologia metafísica que permaneceriam dominantes, embora não sem rivais, no pensamento ocidental por dois milênios — concepções primeiro claramente manifestas na República e no Timeu de Platão e depois desenvolvidas e sistematizadas pelos neoplatônicos —, sendo com uma fase dessa mesma história de teologia metafísica que podemos concluir.

2. O dispositivo que por séculos serviu para mascarar a incongruência das duas concepções foi o simples dito de Platão no Timeu, elaborado no axioma fundamental do emanacionismo — que um ser “bom” deve estar livre de “inveja”, que o mais perfeito necessariamente engendra o menos perfeito e não pode “permanecer em si mesmo”.

3. Com esse dualismo teológico corria, como também já vimos, um dualismo de valores, um outromundano, outro mundanista: se o bem para o homem era a contemplação ou imitação de Deus, isso exigia, de um lado, transcendência e supressão dos meros interesses e desejos “naturais”, e, de outro, piedade para com o Deus das coisas como são, deleite adorador diante do universo sensível em toda sua variedade.

4. Já observamos, no século XVIII, alguns exemplos da ruptura entre os dois elementos desse dualismo; a lógica do próprio princípio da plenitude parecia acarretar a conclusão de que a imitação de um Deus outromundano não poderia ser o bem para o homem ou qualquer criatura, já que a razão ou bondade de Deus exigia que cada grau de ser imperfeito existisse segundo seu tipo distintivo.

5. Nossa preocupação atual é com a culminação dessa última tendência: quando a Cadeia do Ser passou a ser explicitamente concebida não mais como completa de uma vez por todas e eternamente a mesma, mas como gradualmente evoluindo de menor para maior grau de plenitude e excelência, surgiu inevitavelmente a questão de saber se um Deus eternamente completo e imutável poderia ser suposto manifesto em tal universo.

6. Assim, ao emanacionismo e ao criacionismo veio a substituir-se o que melhor se chama evolucionismo radical ou absoluto — o evolucionismo tipicamente romântico do qual L'Évolution créatrice de Bergson é, em grande parte, uma reedição, sendo agora o inferior que precede o superior universalmente, havendo mais no efeito do que estava contido, exceto como potencialidade abstrata não realizada, na causa.

7. Esse desenvolvimento vê-se melhor em Schelling: em boa parte de sua filosofia entre 1800 e 1812, ele ainda tem dois Deuses e portanto duas religiões — a de um Absoluto transcendente ao tempo e eternamente completo, e a de um Espírito-do-Mundo ou Força-Vital lutando, temporalmente limitado, gradualmente autorrealizando-se, sendo esta o aspecto sob o qual aquele se nos manifesta.

8. A nova concepção expõe-se ainda mais audaz e claramente no tratado Ueber das Wesen der menschlichen Freiheit (1809); mesmo aqui restam vestígios do Absoluto neoplatônico, mas Schelling detém-se com predileção na tese de que Deus nunca é, mas está sempre por vir a ser, através da natureza e da história.

9. Ainda assim, o princípio da plenitude, com alguma qualificação, e com ele o determinismo cósmico de Abelardo, Bruno e Spinoza, é mais uma vez afirmado por Schelling: é porque “o ato de autorrevelação em Deus está relacionado à sua Bondade e Amor” que ele é necessário, sendo absolutamente inegável a proposição de que da natureza divina tudo se segue com necessidade absoluta.

10. Não há, portanto, e nunca houve, pluralidade de mundos possíveis; é verdade que no início do processo cósmico havia condição caótica, constituindo o primeiro movimento do Fundamento Primordial, matéria ainda informe mas capaz de receber todas as formas, havendo então “infinidade de possibilidades” ainda não realizadas.

11. O “Deus” mesmo dessa passagem, ver-se-á, ainda retém alguns atributos outromundanos, sendo a necessidade da produção de todas as criaturas possíveis deduzida por argumentos intimamente aparentados à dialética do emanacionismo; contudo, a geração é gradual e sucessiva, e se Schelling levasse a sério sua tese enfática de que Deus é “uma vida” e portanto “sujeito a sofrimento e devir”, não poderia consistentemente sustentar essa concepção de um Absoluto transcendente que não participa genuinamente do processo cósmico.

12. O amigo e discípulo de Schelling, o naturalista Oken, expôs simultaneamente concepções muito semelhantes, com algumas variações, em seu Lehrbuch der Naturphilosophie (1810): “a filosofia da Natureza é a ciência da transformação eterna de Deus no mundo”, tendo a tarefa de mostrar as fases da evolução mundial desde o nada primevo.

13. Esse Absoluto antecedente é descrito nos termos mais inequivocamente negativos: exceto como autoevolvendo-se no tempo, diz Oken, Deus = zero, pura nulidade; todos os números podem, sem dúvida, dizer-se contidos no zero, mas existem “não de maneira real mas apenas ideal, não actu mas apenas potentia”.

14. Essas primeiras manifestações de aproximação ao evolucionismo radical em teologia não passaram sem desafio, tendo vindo o desafio do homem que, duas décadas antes, fora considerado com especial admiração e piedade por quase todos os jovens líderes do movimento romântico alemão: F. H. Jacobi, em seu ensaio Von den göttlichen Dingen (1812), dedicado a ataque veemente a esse novo modo de pensar.

15. A esse ataque Schelling respondeu em escrito polêmico célebre por sua ferocidade, sendo pertinente aqui o fato de que o ataque o levou não a atenuar seu evolucionismo teológico, mas a dar-lhe expressão mais radical e quase irrestrita que antes, repudiando quase inequivocamente a concepção de um Absoluto autossuficiente como Deus da religião.

16. Eis apontada, com a máxima nitidez, a contradição central inerente à lógica do emanacionismo, por tantos séculos persistentemente ignorada: a promessa e potência de tudo quanto a evolução deveria desdobrar poderia dizer-se preexistente desde o início, mas era promessa não cumprida e potência não realizada.

17. Com que fundamentos, diante das objeções de Jacobi, justifica Schelling essa teologia evolutiva? Primeiro, por concordar com o caráter real do mundo de nossa experiência, tal como se revela à observação cotidiana e à visão mais abrangente da ciência natural: o mundo é, precisamente, sistema em que o superior habitualmente se desenvolve a partir do inferior.

18. Além disso, observa Schelling, o fato do mal, a imperfeição do mundo, é irreconciliável com a crença de que o universo procede de um ser perfeito e inteligente ab initio, não tendo resposta os que sustentam essa crença quando perguntados como, de inteligência tão clara, pôde surgir todo tão singularmente confuso quanto o mundo.

19. O erro de Jacobi, observa Schelling, é consequência natural da doutrina lógica da filosofia mais antiga da qual nunca plenamente se emancipou, sendo exemplo culminante dos resultados perniciosos, em metafísica, da aceitação da teoria wolffiana do conhecimento, que baseava tudo no Princípio de Identidade lógico.

20. É nessa introdução de um evolucionismo radical na metafísica e teologia, e na tentativa de revisar mesmo os princípios da lógica para harmonizá-los com concepção evolutiva da realidade, que consiste sobretudo a significação histórica de Schelling, questão dos mais fundamentais e momentosos de toda a filosofia, tanto por sua relação com outros problemas teóricos quanto por suas consequências para a consciência religiosa.

21. Para o próprio Schelling, contudo, a implicação dessa doutrina de um Deus-em-formação não podia ser simples melhorismo evolutivo alegremente otimista; o progresso do mundo, a manifestação gradual ou autorrealização de Deus, é luta contra oposição, devendo haver na natureza original das coisas algum impedimento, algum princípio de retardo, a ser triunfado mas não sem sofrimento e derrotas temporárias.

22. Assim, por fim, o esquema platônico do universo é virado de cabeça para baixo: não só a Cadeia do Ser originalmente completa e imutável fora convertida num Devir em que todos os possíveis genuínos estão destinados à realização grau a grau, mas apenas através de vasto e lento desdobramento no tempo, como agora o próprio Deus é colocado nesse Devir, ou identificado com ele.

23. Mas a inversão do esquema platônico das coisas, especialmente da ordem genética suposta no Timeu e em Plotino, embora converta a Escala do Ser em esquema ideal abstrato, não altera seu caráter essencial: os elementos do antigo complexo de ideias cuja história revisamos permanecem potentes na metafísica evolucionista de Schelling.

A primeira moral filosófica

24. Esse desfecho histórico da longa série de “notas de rodapé a Platão” que temos observado foi também, até onde chegou, o desfecho logicamente inevitável; qualquer que seja o julgamento sobre o raciocínio de Schelling nessa fase de sua filosofia, ele ao menos mostrou a inelutabilidade de uma escolha entre as duas vertentes do platonismo, tornando explícita sua incompatibilidade essencial.

25. Essas proposições parecerão a alguns, hoje, evidentes e quase truísticas, a outros paradoxais e infundadas; as razões para sua aceitação não foram certamente expostas por completo nestas conferências, mas com essas insinuações históricas do argumento devo aqui me contentar — uma moral filosófica da história aqui narrada é, penso, claramente sugerida pelo próprio curso do relato.

A segunda moral filosófica

26. Não é, porém, a única moral sugerida por nossa história: os princípios de plenitude e continuidade, como essa história mostrou, geralmente repousavam, no fundo, sobre fé, implícita ou explícita, de que o universo é ordem racional, no sentido de que nada em sua constituição é arbitrário, fortuito ou casual.

27. Por essa espécie de fé na racionalidade do mundo em que vivemos, grande parte — provavelmente, apesar das recorrentes e poderosas tendências opostas, a maior parte — da filosofia e ciência ocidentais foi, por vinte séculos, animada e guiada, embora as implicações dessa fé raramente fossem plenamente apreendidas.

28. Nem com hipótese menos ampla poderia conciliar-se a crença na completa racionalidade do que é; os princípios de plenitude e continuidade eram consequências legítimas dessa crença — se, entre duas espécies de criatura logicamente igualmente possíveis, e possíveis juntas, uma fosse deixada de fora, ou se a extensão espacial e numérica da natureza fosse fixada em alguma magnitude ou número finito, haveria claramente algum fator arbitrário e fortuito na constituição última do ser.

A história de um fracasso instrutivo

29. Mas a história da ideia da Cadeia do Ser, na medida em que essa ideia pressupunha tal inteligibilidade racional completa do mundo, é a história de um fracasso; mais precisa e justamente, é o registro de uma experiência de pensamento conduzida por muitos séculos por muitas mentes grandes e menores, que agora se pode ver ter tido desfecho negativo instrutivo.

30. A hipótese conflita, em primeiro lugar, com um fato imenso, além de muitos fatos particulares na ordem natural: o fato de que a existência, tal como a experimentamos, é temporal; um mundo de tempo e mudança não pode ser deduzido nem reconciliado com o postulado de que a existência é expressão e consequência de sistema de verdades “eternas” e “necessárias” inerentes à lógica do próprio ser.

31. Uma sucessão temporal, além disso, tem começo ou não tem começo; se se supõe que o processo teve início, a data desse início e sua extensão temporal a parte ante são fatos arbitrários, não podendo haver fundamento racional concebível para o mundo ter irrompido à existência num instante e não noutro anterior.

32. As lutas dos filósofos e teólogos mais racionalistas, comprometidos por razões dogmáticas ou outras com a doutrina de um começo da criação, para lidar com esse problema, oferecem exemplos extraordinários da engenhosidade da mente humana; mas eram lutas para reconciliar duas proposições patentemente irreconciliáveis.

33. Essa última dificuldade foi precisa e espirituosamente expressa em parábola de Royce: se encontrásseis um homem pá em punho na praia, fazendo dique com areia, e admirásseis sua indústria vendo quanto já removera, mas ao perguntar-lhe há quanto tempo trabalhava ele respondesse ter estado ali desde toda a eternidade, seríeis levados a dizer: “Assim seja, amigo, mas deves então ter sido, desde toda a eternidade, um sujeito infinitamente preguiçoso.”

A racionalidade completa como irracionalidade

34. Essa é só metade da segunda moral sugerida por nossa história; a outra metade é que a racionalidade, quando concebida como completa, excluindo toda arbitrariedade, torna-se ela mesma espécie de irracionalidade, pois, significando a realização completa de todos os possíveis compossíveis, exclui qualquer princípio limitador e seletivo.

35. Para dar apenas uma ilustração: a suposição da continuidade das formas, embora implícita nas premissas racionalistas, estava em desacordo consigo mesma; à parte os paradoxos do conceito de continuum matemático, um continuum qualitativo é, de todo modo, contradição em termos.

A contingência como condição do caráter do mundo

36. O mundo da existência concreta, então, não é transcrição imparcial do reino da essência, nem tradução da lógica pura em termos temporais — sendo tais termos, de fato, a negação da lógica pura; tem o caráter, o alcance de conteúdo e diversidade que por acaso tem, não tendo fundamento racional predeterminado desde toda a eternidade de que tipo deveria ser.

37. Nessa questão, os opositores tardo-medievais dos racionalistas estritos em teologia, os adversários setecentistas e dezoitocentistas de Leibniz e Spinoza, e Voltaire e o Dr. Johnson em sua polêmica contra toda a concepção da Cadeia do Ser, devem ser reconhecidos como tendo levado a melhor no argumento.

38. Um aspecto desse desfecho ilustra-se bem numa passagem do Professor Whitehead, que sem dúvida horrorizaria Plotino, Bruno, Spinoza e mesmo Leibniz, pois dá o nome de Deus não à Infinita Fecundidade do emanacionismo, mas ao “princípio de limitação”.

39. Contudo, como muitos exemplos históricos mostram, a utilidade de uma crença e sua validade são variáveis independentes, sendo hipóteses errôneas frequentemente avenidas para a verdade; talvez seja melhor concluir estas conferências lembrando que a ideia da Cadeia do Ser, com seus pressupostos e implicações, teve muitas consequências curiosamente felizes na história do pensamento ocidental — isso, ao menos, espero, ficou suficientemente evidente em nossa longa, ainda que inadequada, revisão do papel que ela desempenhou nessa história.