História das ideias

LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.

INTRODUÇÃO: O ESTUDO DA HISTÓRIA DAS IDEIAS

1. Estas conferências constituem primariamente uma tentativa de contribuição à história das ideias, termo aqui empregado em sentido mais específico e menos restrito que o de história da filosofia, diferenciando-se sobretudo pelo caráter das unidades de que se ocupa.

2. O corpo total de doutrina de qualquer filósofo ou escola é quase sempre agregado complexo e heterogêneo — composto instável, embora cada novo filósofo, geração após geração, costume esquecer essa verdade melancólica; um dos resultados da busca pelas ideias-unidade nesse composto é o senso mais vivo de que a maioria dos sistemas filosóficos é original antes em seus padrões que em seus componentes.

3. Não se pretende sustentar que concepções essencialmente novas jamais emerjam na história do pensamento, mas tais acréscimos de novidade absoluta parecem bem mais raros do que às vezes se supõe, sendo tarefa do historiador de ideias individuais penetrar através das dissimilaridades de superfície até os ingredientes lógicos, pseudológicos ou afetivos comuns por trás delas.

4. Esses elementos nem sempre, ou usualmente, correspondem aos termos que costumamos empregar para nomear as grandes concepções históricas da humanidade: há quem tenha tentado escrever histórias da ideia de Deus, e é bom que tais histórias existam, mas a ideia de Deus não é ideia-unidade.

5. É a essa ideia anterior, ao mesmo tempo mais fundamental e mais variadamente operante, que o historiador de ideias aplicaria seu método de investigação, interessando-se especialmente pelos fatores dinâmicos persistentes, as ideias que produzem efeitos na história do pensamento, e não tanto pela doutrina formulada, coisa por vezes relativamente inerte.

6. Não é supérfluo observar também que as doutrinas ou tendências designadas por nomes familiares terminados em -ismo raramente são unidades do tipo que o historiador de ideias busca discriminar, constituindo antes compostos aos quais seu método analítico precisa ser aplicado.

7. É próprio e necessário que historiadores eclesiásticos escrevam livros sobre a história do Cristianismo, mas ao fazê-lo escrevem sobre série de fatos cuja unidade é largamente unidade de nome, sendo necessário romper a casca que mantém a massa unida para ver as unidades reais, as ideias efetivamente operantes.

8. Esses grandes movimentos e tendências, esses -ismos convencionalmente rotulados, não são via de regra os objetos últimos do interesse do historiador de ideias, mas apenas seu material inicial; de que tipo são então os elementos, as unidades dinâmicas primárias e recorrentes, que ele busca? São bastante heterogêneos, mencionando-se aqui alguns tipos principais.

Primeiro tipo: pressupostos implícitos

9. Há, primeiro, pressupostos implícitos ou incompletamente explícitos, hábitos mentais mais ou menos inconscientes operando no pensamento de um indivíduo ou geração — as crenças tão evidentes que são antes tacitamente pressupostas que formalmente expressas e argumentadas, os modos de pensar tão naturais e inevitáveis que não são escrutinados com olho de autoconsciência lógica.

10. A suposição de simplicidade combinava-se, em algumas mentes, com certo senso da complexidade do universo e consequente depreciação dos poderes do entendimento humano, o que a princípio pareceria inteiramente incongruente com ela, mas na realidade não era.

11. Locke insistia que o homem deve tornar-se habitualmente consciente das limitações de seus poderes mentais, contentando-se com aquele “entendimento relativo e prático” que é o único órgão de conhecimento que possui, podendo os homens encontrar matéria suficiente para ocupar suas cabeças sem se queixar da estreiteza de suas mentes.

12. Mas embora esse tom de crescente diferença, essa modéstia ostentosa no reconhecimento da desproporção entre o intelecto humano e o universo, fosse uma das modas intelectuais mais prevalentes de boa parte do século XVIII, frequentemente se acompanhava de presunção extrema quanto à simplicidade das verdades necessárias ao homem e a seu alcance.

13. Supondo a natureza humana coisa simples, o Iluminismo também, em regra, supunha simples os problemas políticos e sociais, e portanto fáceis de resolver: livrar a mente do homem de alguns erros antigos, purgar suas crenças das complicações artificiais dos “sistemas” metafísicos, e sua excelência natural se realizaria.

Segundo tipo: motivos dialéticos

14. Essas suposições endêmicas, esses hábitos intelectuais, são frequentemente de tipo tão geral e vago que podem influenciar o curso das reflexões do homem sobre quase qualquer assunto; classe de ideias de tipo aparentado pode ser chamada de motivos dialéticos.

15. Isso se mostra em campos bastante remotos da filosofia técnica, e em filosofia aparece como determinante em muitas outras doutrinas além daquelas costumeiramente rotuladas nominalismo; grande parte do pragmatismo de William James testemunha a influência desse modo de pensar sobre ele, embora no pragmatismo de Dewey desempenhe papel muito menor.

Terceiro tipo: susceptibilidades ao pathos metafísico

16. Outro tipo de fator na história das ideias pode ser descrito como susceptibilidades a diversas espécies de pathos metafísico, causa influente na determinação de modas filosóficas e tendências especulativas tão pouco considerada que não encontra nome reconhecido.

17. Há, em primeiro lugar, o pathos da pura obscuridade, a beleza do incompreensível, que tem, receio, servido bem a muitos filósofos junto a seu público, ainda que inocentes de pretender tal efeito; a frase omne ignotum pro mirifico explica concisamente boa parte da voga de várias filosofias.

18. Esses dois tipos de pathos inerem menos aos atributos que dada filosofia atribui ao universo do que aos atributos que atribui a si mesma — ou que seus devotos lhe atribuem; devem-se dar, por isso, alguns exemplos de pathos metafísico em sentido mais estrito.

19. Os versos de Shelley exemplificam também outra espécie de pathos metafísico, muitas vezes conjugada à anterior — o pathos monista ou panteísta; que dizer que Tudo é Um proporcione a tanta gente satisfação peculiar é, como observou James, coisa bastante intrigante, não havendo nada mais belo ou venerável no numeral um que em qualquer outro número.

20. Distinto do pathos monista é o voluntarista, embora Fichte e outros tenham conseguido uni-los: aqui é a resposta de nossa natureza ativa e volitiva que se desperta pelo caráter atribuído ao universo total com o qual nos sentimos consubstanciais.

Quarto tipo: semântica filosófica

21. Outra parte da tarefa do historiador de ideias, se pretende reconhecer os fatores genuinamente operantes nos grandes movimentos de pensamento, é indagação que se pode chamar semântica filosófica — estudo das palavras e frases sagradas de um período ou movimento, visando esclarecer suas ambiguidades.

Quinto tipo: o princípio específico em estudo

22. O tipo de 'ideia' com que nos ocuparemos é, contudo, mais definido e explícito, portanto mais fácil de isolar e identificar com confiança que os anteriormente mencionados: consiste em proposição ou 'princípio' específico único, expressamente enunciado pelo mais influente dos primeiros filósofos europeus, junto com proposições ulteriores supostas ser seus corolários.

O método: rastreamento através das províncias do pensamento

23. Em segundo lugar, qualquer ideia-unidade que o historiador assim isole, ele busca em seguida rastrear através de mais de uma — em última análise, através de todas — as províncias da história em que figura em grau importante, sejam elas chamadas filosofia, ciência, literatura, arte, religião ou política.

24. A voga do chamado “jardim inglês”, que se espalhou tão rapidamente pela França e Alemanha depois de 1730, foi, como mostraram M. Mornet e outros, a ponta fina da cunha do Romantismo, ou de um tipo de Romantismo, sendo o Deus do século XVII, como seus jardineiros, sempre geometrizante, ao passo que o Deus do Romantismo era aquele em cujo universo as coisas cresciam selvagens e sem poda.

25. Embora a história das ideias seja, nesse sentido, tentativa de síntese histórica, isso não significa que seja mero conglomerado, e menos ainda que aspire a unificação abrangente de outras disciplinas históricas; ocupa-se apenas de certo grupo de fatores na história, e apenas na medida em que se pode vê-los operar naquilo comumente considerado divisões separadas do mundo intelectual.

26. A maioria dos professores de literatura talvez admitisse prontamente que ela deve ser estudada sobretudo por seu conteúdo de pensamento, sendo o interesse da história da literatura em grande parte como registro do movimento das ideias que afetaram a imaginação, emoções e comportamento dos homens.

27. Por outro lado, os que investigam ou ensinam a história da filosofia às vezes têm pouco interesse numa ideia quando ela não veste trajes filosóficos completos, propensos a desconsiderar seus desdobramentos ulteriores nas mentes do mundo não filosófico; mas o historiador de ideias, embora frequentemente busque a emergência inicial de uma concepção em sistema filosófico ou religioso, buscará suas manifestações mais significativas na arte e sobretudo na literatura.

Terceiro princípio: contra a departamentalização por nacionalidades

28. Terceiro: em comum com o chamado estudo da literatura comparada, a história das ideias expressa protesto contra as consequências frequentemente resultantes da divisão convencional dos estudos literários e outros históricos por nacionalidades ou línguas.

29. Assim que o estudo histórico da literatura é concebido como investigação minuciosa de qualquer processo causal, deve inevitavelmente desconsiderar fronteiras nacionais e linguísticas, pois nada é mais certo que grande proporção dos processos a investigar desconsidera essas linhas.

Quarto princípio: as ideias no pensamento coletivo

30. Quarto: outra característica do estudo da história das ideias, tal como se deseja aqui definir, é que se ocupa especialmente das manifestações de ideias-unidade específicas no pensamento coletivo de grandes grupos de pessoas, não apenas nas doutrinas de pequeno número de pensadores profundos.

31. Alguns estudantes sentem-se repelidos ao serem chamados a estudar escritor cuja obra, como literatura, está hoje morta, ou tem valor extremamente ligeiro segundo os padrões estéticos presentes; mas se o historiador da literatura deve ocupar-se de tais questões, o escritor menor pode ser tão importante quanto — muitas vezes mais importante que — os autores hoje considerados obras-primas.

Quinto princípio: os processos de mudança intelectual

32. Finalmente, é parte da tarefa eventual da história das ideias aplicar seu próprio método analítico distintivo na tentativa de compreender como novas crenças e modas intelectuais são introduzidas e difundidas, ajudando a elucidar o caráter psicológico dos processos pelos quais mudanças na voga das ideias ocorrem.

O programa das conferências

33. Estas conferências pretendem exemplificar, em pequena medida, esse tipo de investigação histórico-filosófica, discriminando não uma ideia única e simples, mas três ideias tão estreita e constantemente associadas, ao longo da maior parte da história ocidental, que frequentemente operaram como unidade, produzindo concepção conjunta expressa por termo único: “a Grande Cadeia do Ser”.

Três advertências

34. A primeira advertência relaciona-se ao próprio programa esboçado: o estudo da história das ideias está cheio de perigos e armadilhas, tendo seu excesso característico, pois, visando à interpretação e unificação, pode facilmente degenerar em espécie de generalização histórica meramente imaginativa.

35. As outras advertências dirigem-se aos ouvintes: nosso plano de procedimento exige que tratemos apenas de parte do pensamento de qualquer filósofo ou época, não devendo essa parte jamais ser confundida com o todo, nem confinaremos nossa visão somente às três ideias conectadas que são o tema do curso.

36. Finalmente, é evidente que, ao tentar relatar assim a biografia de uma única ideia, faz-se pesada exigência à catolicidade dos interesses intelectuais dos ouvintes, sendo obrigatório considerar episódios na história de várias disciplinas geralmente supostas ter pouco em comum entre si.

37. A história da filosofia e de todas as fases da reflexão humana é, em grande parte, história de confusões de ideias, não sendo exceção a essa regra o capítulo aqui examinado, o que a alguns de nós não a torna menos interessante nem menos instrutiva por isso.

38. Embora a busca humana de inteligibilidade na natureza e em si mesmo frequentemente, como a busca de alimento do rato enjaulado, não tenha encontrado fim, perdida em labirintos errantes, mesmo os erros iluminam a natureza peculiar, os anseios, as dotações e as limitações da criatura que neles incorre.

39. Aqueles que não se importam com a história natural do homem em sua atividade mais característica, que não têm curiosidade nem paciência para seguir o funcionamento de outras mentes procedendo de premissas que não compartilham, devem em justiça ser advertidos de que grande parte da história aqui contada lhes será sem interesse.