LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.
A CADEIA DO SER NO PENSAMENTO DO SÉCULO XVIII, E O LUGAR E PAPEL DO HOMEM NA NATUREZA
1. Foi no século XVIII que a concepção do universo como Cadeia do Ser, e os princípios subjacentes de plenitude, continuidade e gradação, alcançaram sua mais ampla difusão e aceitação, o que a princípio parece estranho, dado que muito na cultura intelectual do período parecia hostil a tais pressupostos.
2. Não obstante, nunca houve período em que escritores de toda espécie — cientistas e filósofos, poetas e ensaístas, deístas e teólogos ortodoxos — tanto falassem sobre a Cadeia do Ser, aceitassem mais implicitamente o esquema geral de ideias a ela ligado, ou dele extraíssem mais ousadamente consequências latentes ou aparentes, sendo “a Grande Cadeia do Ser”, depois da palavra “Natureza”, a frase sagrada do século, enquanto Voltaire e o Dr. Johnson lideravam um ataque contra toda a concepção.
3. Não foi provavelmente à influência direta da filosofia grega ou medieval que a concepção deveu sua voga no século XVIII, pois já fora insistida pelos dois filósofos do final do século XVII de maior reputação nos cinquenta anos seguintes, sendo Locke tão explícito quanto Leibniz, embora menos exuberante, ao repetir as antigas teses sobre a ausência de lacunas no mundo corpóreo visível.
4. Addison familiarizou esse aspecto da metafísica platônica até com o público que não lia filósofos e teólogos, mediante referências repetidas no Spectator, afirmando que a Bondade Infinita, sendo de natureza tão comunicativa, parece deleitar-se em conferir existência a todo grau de ser perceptivo, preenchendo todo o abismo entre a planta e o homem com diversas espécies de criaturas em ascensão gradual e insensível.
5. Outro escritor, o clérigo anglicano Edmund Law, não se contentou nem com essa imagem, acrescentando, depois de citar Addison, que dentro de cada espécie devem ter sido gerados tantos indivíduos quantos fossem capazes de coexistir, sendo extremamente provável que cada classe seja tão plena quanto sua natureza admitisse, restringindo o exercício do poder divino apenas a impossibilidade ou inconveniência maior.
6. Entre as muitas aplicações particulares dessas ideias gerais, esta conferência examinará certas deduções feitas a respeito do homem — seu estatuto na escala, sua natureza e as consequências éticas delas derivadas.
A. A Cadeia do Ser e o Lugar do Homem na Natureza.
7. Já se considerou o efeito, sobre a concepção do homem quanto ao seu lugar e importância no sistema cósmico, da crença na infinidade do mundo e na pluralidade de globos habitados, crença que fez menos para diminuir a autoestima da nossa espécie do que se poderia esperar; mas havia quatro outras implicações da noção de Escala do Ser plena e infinitesimalmente graduada que tendiam a rebaixar decididamente a estimativa que o homem faz de sua importância cósmica.
8. Primeiramente, o princípio da plenitude implicava que cada elo na Cadeia do Ser existe não principalmente para benefício de outro elo, mas por si mesmo, ou, mais precisamente, pela completude da série de formas, o que estava em conflito com antiga suposição, altamente lisonjeira ao homem, ainda persistente nos séculos XVII e XVIII: a de que todas as demais criaturas existiriam para o benefício do homem.
9. Fénelon afirma que na natureza não só as plantas mas os animais são feitos para nosso uso, servindo mesmo as feras à cultivo do vigor físico e à preservação da paz internacional, propondo reservas de “animais ferozes” para onde poderiam ir os homens cujas propensões guerreiras precisassem de vazão, poupando-os assim de matar uns aos outros.
10. Contra essa suposição de que o resto da criação é instrumental ao bem do homem, e, ainda que menos obviamente, contra as premissas do argumento teleológico em geral, a lógica da concepção da Cadeia do Ser trabalhou potentemente, como já advertira Galileu ao dizer que arrogamos demais a nós mesmos supondo que o cuidado de nós é a obra adequada de Deus.
11. Descartes foi, contudo, o principal opositor, no século XVII, não só de uma teleologia antropocêntrica mas de toda forma de raciocínio teleológico em ciência, achando a teoria em conflito com fatos óbvios, já que não podemos duvidar que existe uma infinidade de coisas que jamais foram vistas ou compreendidas pelo homem, nem lhe foram de qualquer uso.
12. A maioria dos grandes filósofos do século XVII repete a mesma observação: Leibniz concorda expressamente com Spinoza no teorema non omnia hominum causa fieri, não sendo surpreendente encontrarmos no mundo coisas que não nos agradam, já que sabemos que não foi feito só para nós.
13. Bolingbroke, apesar de sua ostentada agnosticismo, também pressupõe conhecer o desígnio do Autor de toda a natureza, sendo a completude do esquema cósmico como um todo a verdadeira razão de ser do universo, comparando os habitantes sensíveis do globo aos personagens de um drama, dispostos não para os atores, mas para a ação.
14. Segunda consequência: da posição relativa do homem na Cadeia do Ser, comumente dita ser a de “elo médio”, Locke concluía que há mais espécies de criaturas acima de nós que abaixo, sendo estamos em graus de perfeição muito mais remotos do Ser infinito de Deus do que do estado mais baixo de ser.
15. Para o poeta Young, que interpretou literalmente a posição intermediária, isso permitia ao homem elevada opinião de si mesmo; mas para a maioria dos que refletiam sobre essa posição, era motivo adicional de humildade, como observou Sir William Petty, para quem considerar essas escalas de criaturas serve para o homem ver que há milhões de criaturas superiores a ele abaixo de Deus.
16. O filósofo Formey relata impressão semelhante ao familiarizar-se com a concepção da Escala do Ser, percebendo quão pouca razão tinha para se exaltar acima de outros, encontrando-se antes na parte mais baixa da escala, com apenas pequena preeminência sobre criaturas irracionais.
17. No século XVIII, contudo, essa crença começou a assumir forma mais naturalista, como ilustram passagens de Bolingbroke, para quem existe Cadeia do Ser ininterrupta quase do nada até o homem, e provavelmente continuando até naturezas infinitamente abaixo da divina mas muito superiores à humana — não hierarquias angélicas, mas simplesmente habitantes de outros globos.
18. Bolingbroke queria, em suma, ter fé no universo, o que lhe pareceu impossível sem o postulado de que a natureza produziu em algum lugar espécimes de racionalidade melhores que o homo sapiens, não sendo razoável ao homem queixar-se dos defeitos de sua inteligência, pois apenas um segmento da escala existe neste planeta.
19. A mesma noção foi depois elaborada mais alegremente por Kant, para quem a natureza humana ocupa como que o degrau médio da Escala do Ser, igualmente distante dos dois extremos, podendo o homem encontrar contentamento voltando o olhar para os graus inferiores, encontrados em Vênus e Mercúrio, muito abaixo da perfeição humana.
20. Kant descobrira, segundo supunha, razão física para essa distribuição desigual de graus de racionalidade entre os planetas: as funções mentais são condicionadas pela constituição da matéria corpórea associada, sendo necessário que, quanto mais distante o planeta do sol, mais leve e fina seja a matéria dos corpos vivos, para que possam ali subsistir vida e inteligência.
21. Comentário sobre essa selvagem mas agradável especulação seria supérfluo, mas dificilmente se encontraria melhor ilustração do domínio que os princípios da tradição platônica exerciam sobre as melhores mentes do século XVIII, sendo Kant certo de que, em universo razoavelmente ordenado, a maioria dos globos deve ter habitantes conscientes, concluindo com paráfrase dos versos de Pope.
22. Bonnet, em 1764, deriva similarmente do postulado da completude da Cadeia do Ser luz sobre os habitantes de outros globos, sendo lei da natureza que duas folhas, animais ou homens não sejam completamente iguais, o que deve valer igualmente para planetas e sistemas solares, havendo mundos tão imperfeitos que só contêm seres inanimados, e outros tão perfeitos que só contêm classes superiores, onde as rochas são corpos orgânicos e os homens são anjos.
23. Terceira consequência: essa era, porém, motivo de humildade já há muito insistido pela teologia tradicional, que sempre ordenara ao homem andar humildemente diante de seu Deus, mas frequentemente o encorajara a andar orgulhoso entre as criaturas abaixo dele na escala — contudo, ao considerar-se seriamente as implicações do princípio da continuidade, parecia seguir-se que o homem só poderia diferir infinitesimalmente das espécies não-humanas mais próximas.
24. Bolingbroke, argumentando especificamente a partir do princípio da continuidade, também se esforçou por diminuir a excessiva presunção da raça humana, embora achasse que alguns tinham ido longe demais no autorrebaixamento racial, sendo a superioridade do homem apenas de grau, e de grau muito leve.
25. Pope, ao verter essas reflexões em verso, acentuou o aspecto mais edificante da via media de Bolingbroke, traçando a escala das potências sensuais e mentais desde as verdes miríades da relva povoada até a raça imperial do homem, com a barreira sutil entre instinto e razão, sempre separados, sempre próximos.
26. Soame Jenyns busca aliviar essa consequência do princípio da continuidade insistindo nos muitos graus de inteligência dentro da própria espécie humana; embora a diferença psicológica entre os animais superiores e os homens mais baixos seja quase imperceptível, entre estes e os homens mais dotados as gradações são numerosas e a distância larga.
27. Essas afirmações não implicavam, para seus autores ou leitores contemporâneos da primeira metade do século, a consanguinidade entre o homem e os animais próximos na escala, mas essa crença é significativa por minimizar a distintividade da natureza humana, tendo o princípio da continuidade preenchido esse abismo para muitas mentes que não aceitavam a hipótese, então já emergente, da transformação das espécies.
28. Quarta consequência: não bastava que a separação do homem em relação às ordens inferiores da vida se reduzisse a grau quase imperceptível de diferença; a definição do homem como “elo médio” enfatizava especialmente a dualidade peculiar de sua constituição e a discórdia trágico-cômica interior que dela resulta.
29. O homem é, assim, dilacerado por desejos e propensões conflitantes, não em consequência de queda acidental da inocência, mas por exigência do esquema universal das coisas, sendo membro de duas ordens de ser ao mesmo tempo, oscilando entre ambas, sem se sentir plenamente em casa em nenhuma delas — uma singularidade infeliz que Pope apresenta em versos célebres, situando o homem nesse istmo de estado médio, criatura sombriamente sábia e rudemente grande, glória, chiste e enigma do mundo.
30. Haller, apostrofando sua espécie como “infeliz meio-termo entre anjos e feras”, exibe o homem como o mesmo paradoxo cósmico, ostentando razão que nunca usa, julgando por toda parte sem nunca saber por quê, sendo o erro seu conselheiro e ele propriedade do erro.
31. Havia no pensamento do século XVIII, sobretudo após sua metade, outras correntes, não pertinentes ao presente tema, que trabalhavam contra essa moda de autodepreciação racial e prepararam o caminho para as desastrosas ilusões que o século seguinte teria sobre si mesmo; mas a imensa influência do complexo de ideias resumido na concepção cosmológica da Cadeia do Ser tendeu, no período aqui considerado, a tornar o homem convenientemente sensível à sua pequenez no esquema das coisas.
B. Algumas Consequências Éticas e Políticas.
32. Dessa e de outras vertentes da concepção puderam extrair-se, ou ao menos no século XVIII se extraíram, diversas morais práticas.
33. Primeira consequência ética: na parte inicial do século, a mais significativa e característica dessas morais pode ser descrita como um conselho de imperfeição, uma ética da mediocridade prudente — sendo cada lugar na escala necessariamente preenchido e definido por limitações específicas, o dever do homem era manter seu lugar, sem buscar transcendê-lo.
34. Pope foi o principal, embora não o primeiro, apóstolo dessa ética do elo médio, afirmando que a felicidade do homem não está em agir ou pensar além da humanidade, sem poderes de corpo ou alma além do que sua natureza e estado comportam, eco retomado por Rousseau no Emílio, aconselhando o homem a confinar sua existência dentro de si mesmo.
35. Esse temperamento moral expressava-se com frequência na invectiva constante contra o “orgulho”, tão característica de Pope, sendo o orgulho o pecado contra as leis da Ordem, isto é, da gradação, tentativa de contrariar a Causa Universal; o homem deveria, assim, evitar todos os empreendimentos mais vastos da mente, para os quais não foi feito nem equipado.
36. Aqui as duas vertentes do platonismo, distinguidas no início destas conferências, tornaram-se completamente separadas, com uma vencendo a outra; ainda que a razão filosófica principal para o abandono do “caminho para cima” estivesse no próprio princípio da plenitude, sempre igualmente característico da tradição platônica.
37. Segunda consequência ética: a suposição da mediocridade da posição humana no universo, aplicada às faculdades mentais, continha implicação adicional que alguns espíritos mais sombrios ou realistas da época não deixaram de perceber: que criatura tão limitada e tão próxima dos outros animais deve necessariamente ser incapaz de atingir alto nível de sabedoria ou virtude política, não podendo esperar-se grande melhoria no comportamento político dos homens.
38. Inferência análoga foi extraída pelo mesmo autor a respeito da religião: nem pela luz da natureza nem pela revelação pode o homem esperar alcançar muita clareza ou certeza no conhecimento religioso, pois Deus não pode impartir conhecimento a criaturas que ele mesmo fez incapazes por sua natureza e formação, devendo qualquer religião revelada condescender com a ignorância e as infirmidades humanas.
39. Os princípios de plenitude e gradação podiam, assim, servir aos propósitos de uma espécie de apologética pessimista e reversa tanto do status quo político quanto da religião estabelecida, funcionando como amortecedor do zelo reformista, pois os homens não foram feitos para ser anjos e não devemos esperar que se comportem como tal.
40. Um dos críticos de Jenyns, sem negar as premissas, detectou o que julgou ser non sequitur na conclusão, uma “mera trapaça de termos”; embora o homem não pudesse esperar governo ou religião calculados para a primeira ordem de seres criados, nada impedia que alcançasse perfeição relativa, adequada aos propósitos daquele conjunto de seres para cujo uso foram instituídos.
41. O crítico apontou, sem intenção, para pressuposto tácito significativo nessas e em certas outras aplicações do princípio: a peculiaridade do homem está em que, embora seus poderes e realizações sejam limitados pela posição que ocupa na Escala do Ser, ele é capaz de ver além delas e de sentir insatisfação consigo mesmo, do que davam testemunho o santo, o místico e o reformador.
42. O intérprete menos otimista do princípio da plenitude poderia, contudo, replicar que o defeito específico e definidor do homem consiste precisamente em ser a criatura cujo destino é ter visões de perfeições que não pode possuir e virtudes que é constitucionalmente incapaz de alcançar, sendo esta também uma das espécies possíveis de criatura exigida por um universo pleno.
43. Terceira consequência ética: havia mais de uma maneira pela qual os princípios incorporados na concepção cosmológica da Cadeia do Ser podiam ser usados como armas contra o descontentamento social e especialmente contra movimentos igualitários, sendo o universo tido como o melhor dos sistemas, cujo objetivo era atingir o máximo de variedade por meio da desigualdade.
44. Pope não foi de modo algum original ao sugerir essa moral político-social; Leibniz apontara paralelo semelhante entre o melhor dos mundos possíveis e a melhor das sociedades possíveis, perguntando por que as rochas não são coroadas de folhas ou as formigas não são pavões, pois se a igualdade fosse por toda parte exigível, o pobre reivindicaria igualdade contra o rico.
45. O argumento podia trabalhar-se de ambos os extremos; Edmund Law raciocinou que é impossível que todos sejam governantes e nenhum súdito, mostrando esse exemplo como as relações entre criaturas restringem até o Poder infinito, sendo contraditório que todos da mesma ordem se satisfaçam com as mesmas conveniências.
46. A analogia entre o macrocosmo e o microcosmo social foi posta de modo ainda mais completo e ingênuo por Soame Jenyns, que compara o universo a uma família grande e bem regulada, onde todos os oficiais, servos e mesmo os animais domésticos são subservientes uns aos outros em subordinação própria, cada qual desfrutando os privilégios peculiares a seu lugar.
47. Embora essa analogia servisse assim para justificar a complacência daqueles a quem a ordem social existente era bastante confortável, ela foi provavelmente fator relativamente pequeno no pensamento político do século XVIII, devendo-se lembrar outra implicação do esquema aceito do universo que qualificava, sem contradizer, esse modo de apologética conservadora.
O PRINCÍPIO DA PLENITUDE E O OTIMISMO DO SÉCULO XVIII
1. A tese comum dos otimistas do século XVIII era, notoriamente, a proposição de que este é o melhor dos mundos possíveis, fato que, somado à conotação popular do termo “otimismo”, gerou a crença de que seus adeptos seriam pessoas fatuamente alheias às realidades da experiência e da natureza humanas; mas nada no credo otimista exigia logicamente que se minimizassem os fatos habitualmente chamados de males.
2. No fundo, o otimismo tinha muito em comum com o dualismo maniqueísta contra cuja defesa por Bayle tantas teodiceias se dirigiam, tendo também, como reconhecia Leibniz, seus dois “princípios” antagônicos, cabendo à razão divina o papel de “princípio do mal” ao impor impedimentos às intenções benevolentes da vontade divina.
3. Assim, o otimismo setecentista tinha afinidades com o próprio dualismo a que supostamente se opunha, soando por vezes os argumentos de seus defensores estranhamente parecidos com os do pessimista, como ilustra Soame Jenyns ao persuadir-nos da racionalidade admirável do plano cósmico insistindo na necessidade universal do sofrimento.
4. O argumento, em algumas de suas expressões mais ingênuas, tende a suscitar no leitor certa piedade por um Criador embaraçado, infinitamente bem-intencionado mas tragicamente tolhido por “necessidades na natureza das coisas”, como ilustra Jenyns ao descrever a Onipotência obrigada, ao contemplar a criação da humanidade, a afligir a inocência ou ser causa da maldade, sem outra opção.
5. Em suma, os escritos dos otimistas ofereciam abundante base para a exclamação de Voltaire “Vous criez Tout est bien d'une voix lamentable”; sua principal queixa não era que fossem indecentemente alegres, mas que fossem deprimentes demais, tornando os males reais ainda piores ao representá-los como inevitáveis e inerentes à estrutura permanente do universo.
6. Embora a maioria dos escritores otimistas do século XVIII fosse menos radical ou franca em seu determinismo cósmico que Spinoza, o consolo filosófico que ofereciam era, no fundo, o mesmo dele — consolo essencialmente intelectual, produzindo aquiescência racional ao inevitável, ou, em tom mais elevado, devota disposição a ser condenado para melhor demonstrar a razoabilidade do esquema geral das coisas, como aconselha Pope: “Submit!”
7. É verdade que os escritores otimistas se empenhavam em mostrar que o bem vem do mal, mas o que lhes era indispensável estabelecer era que não poderia vir de outro modo; embora discorressem com eloquência sobre a perfeição do Sistema Universal como um todo, essa perfeição não implicava felicidade ou excelência das partes finitas do sistema.
8. Tudo isso pode mostrar-se melhor por análise do argumento em sua sequência lógica, tal como exposto na mais influente das teodiceias do século, o De origine mali (1702) de William King, bispo de Derry e depois arcebispo de Dublin, cuja versão inglesa de 1731, com notas do tradutor Edmund Law, teve ampla circulação.
9. King não começa sua reflexão colocando lentes cor-de-rosa, reconhecendo desde o início a guerra perpétua entre os elementos, os animais e os homens, os erros, misérias e vícios companheiros constantes da vida humana, a prosperidade dos maus e o sofrimento dos justos.
10. A divisão tradicional dos males em três classes — males de limitação ou imperfeição, males “naturais” e males morais — fornece o esquema geral do argumento: não poderia ter havido criação alguma sem a primeira espécie de mal, e a segunda decorre com estrita necessidade lógica da primeira.
11. Na frase do próprio King, “uma criatura descende de Deus, Pai perfeitíssimo, mas do Nada como sua Mãe, que é a Imperfeição”, caráter virtualmente dualista dessa concepção evidenciado pelo fato de que o genitor inferior, apesar do papel puramente negativo implicado por seu nome, é concebido como responsável por peculiaridades aparentemente muito positivas da prole.
12. A questão significativa, porém, não residia nesse raciocínio simples e quase tautológico, pois embora fosse necessário que o mal primeiro de limitação caracterizasse quaisquer outros seres gerados pelo Ser Absoluto, esse mal só se justificaria se se mostrasse que a criação de tais seres necessariamente defeituosos é ela mesma um bem — pressuposto plotiniano que King assume sem hesitar.
13. Essa proposição — expressa em terminologia teológica — era a tese essencial no argumento otimista de King e Law: há inerente na essência divina, como elemento de sua perfeição, um atributo especial de “bondade” que torna necessário que todas as demais essências, até a mais baixa, tenham existência real, na medida do possível.
14. Comprometido por sua própria natureza a impartir ser real a algumas essências imperfeitas, Deus não poderia recusar a dádiva da existência a nenhuma: se Deus pudesse ter omitido os seres mais imperfeitos, era próprio da Bondade infinita escolher o melhor, e daí decorre que os seres mais imperfeitos têm existência, pois convinha não omitir o mínimo bem possível de ser produzido.
15. O fundamento do argumento otimista usual do século XVIII era, portanto, o princípio da plenitude; embora esse princípio já houvesse sido expresso por centenas de escritores antes de King, e fosse base tanto da teodiceia neoplatônica quanto da escolástica, é provável que tenha sido pela reiteração e elaboração no De origine mali que Pope deu lugar fundamental, em seu próprio argumento, à premissa de que “tudo deve ser pleno ou incoerente”.
16. Para os propósitos de uma teodiceia, o princípio da plenitude serviu mais direta e obviamente como “explicação” do “mal de defeito”: as limitações de cada espécie de criatura, que definem seu lugar na escala, são indispensáveis àquela diferenciação infinita das coisas em que consiste a “plenitude” do universo, e portanto necessárias à realização do maior dos bens.
17. Era necessário que a criatura ocupasse a posição que lhe cabia, ou nenhuma; inegavelmente, essas deficiências distintivas trazem muitos inconvenientes àqueles cujo destino é preencher a parte do universo que requer criatura de natureza tão imperfeita — o homem não tem olho microscópico pela simples razão de que homem não é mosca.
18. Mas se o princípio da plenitude só fosse aplicável à explicação do mal “metafísico” de limitação, não teria levado o otimista muito longe rumo a seu objetivo, pois a maioria das coisas que chamamos males dificilmente parece descritível como mera deficiência — mesmo um filósofo platônico com dor de dente dificilmente se convenceria de que sua dor é coisa puramente negativa.
19. Essa necessidade aparece primeiramente no movimento da matéria: era teoricamente possível a Deus ter disposto a matéria de modo a mover-se uniformemente, prevenindo toda contrariedade de movimentos, mas tal sistema, simples e harmonioso, teria sido estéril e inútil.
20. Sendo o lugar do homem na Escala do Ser o de criatura parcialmente material, parcialmente espiritual, ele se acha necessariamente envolvido, e infelizmente afetado, por essas colisões da matéria, tendendo a preocupação otimista com a “plenitude” do mundo orgânico a produzir quadro quase darwiniano ou malthusiano de uma Natureza superlotada de aspirantes à vida.
21. King resume concisamente sua genealogia dos males: a Bondade infinita, ainda urgindo Deus a fazer o melhor, deu existência a criaturas que não podem existir sem imperfeições e desigualdade, o que o levou a criar a matéria e pô-la em movimento, necessariamente acompanhado de separação e dissolução, geração e corrupção, e a unir almas a corpos com afeições mútuas donde procedem dor, tristeza, ódio e medo, todos eles, contudo, necessários — argumento estranhamente próximo de algumas fórmulas com que o budismo primitivo resumiu o credo do pessimismo.
22. Ao contrário do autor da mais popular teodiceia inglesa de meados do século XIX, que encontrou peculiar dificuldade no espetáculo da Natureza “vermelha de dentes e garras”, o típico teodiceísta do século XVIII não se perturbava muito com esses aspectos, servindo-lhe aqui, como alhures, o princípio da plenitude como solvente universal.
23. King aplicou o mesmo raciocínio ao caso especial dos animais domesticados criados para o abate, tema que forneceu a Pope material para versos característicos e detestáveis, sendo inegável que os carnívoros estavam entre as espécies de criaturas antecedentemente possíveis, e se a excelência da Natureza consiste simplesmente em ter o maior número possível de espécies, nada mais precisa ser dito em justificação de sua existência.
24. Mesmo supondo que o critério da bondade do universo consistisse não apenas na diversidade das criaturas, mas na quantidade de joie de vivre nele contida, a criação de feras de rapina ainda se justificaria, segundo argumento adicional de King: os animais deleitam-se na ação e no exercício de suas faculdades, não havendo outra noção de felicidade nem mesmo em Deus.
25. Esse amável e devoto eclesiástico foi levado, no curso de seu esforço para justificar os caminhos de Deus aos homens, a uma concepção de Deus e de valores últimos que soa estranha vinda de um mestre cristão, pois o Deus do De origine mali amava a abundância e variedade da vida mais que a paz e concórdia entre suas criaturas, amando tanto os leões quanto os cordeiros.
26. Trai-se, por vezes, incômoda percepção da incongruência entre essas premissas e certos elementos tradicionais da crença cristã, pois se no paraíso terrestre antes da Queda, e no paraíso celestial que aguarda os eleitos, a maior parte dos males que esses teólogos zelosamente provavam “necessários” estavam de fato ausentes, seguir-se-ia o incômodo dilema de que ou o estado paradisíaco não é bom, ou um “sistema” bom não requer, afinal, tanto mal.
27. O resultado do raciocínio de King não é surpreendente: quem tenta uma teodiceia sem primeiro fechar os olhos a grande parte dos fatos da experiência deve necessariamente tomar por objeto de sua piedade o Deus das Coisas Como São, sendo o princípio da plenitude, tomado como espécie de teoria de valor, resultado natural dessa forçada revisão da noção de bem.
28. As reflexões adicionais de King sobre o problema do mal não nos concernem aqui, pois a concepção da Cadeia do Ser pouco figura nelas, embora pudesse ter figurado com mais consistência, já que o mal moral poderia naturalmente ser considerado caso especial do “mal de defeito”.
29. Bolingbroke não seguiu o arcebispo nisso, derivando a necessidade do mal moral diretamente do princípio da plenitude: se os homens tivessem sido constituídos para seguir sempre a lei ética da natureza, o estado moral da humanidade teria sido paradisíaco, mas não teria sido humano, deixando-se lacuna na ordem das inteligências criadas.
30. Isso levava um passo adiante o argumento que Pope viria a versificar: sendo o melhor dos sistemas necessariamente o mais “pleno” possível, deve haver, na escala da vida racional, posto não só para o homem, mas também, entre os homens, para o tolo e o malfeitor.
31. A teodiceia de Leibniz era, em seus aspectos essenciais, a mesma do precursor inglês, acentuando significativamente, ao resumir com aprovação o argumento principal do arcebispo, o paradoxo teológico nele contido: por que Deus não se absteve inteiramente de criar? A abundância da bondade divina é a razão — quis comunicar-se a si mesmo, preferindo que o imperfeito existisse a nada.
32. Nessa ênfase na implicação de que o Criador do mundo real não pode ser suposto um Deus “delicado” ou melindroso, preocupado apenas com a perfeição — e que, de fato, teria se mostrado menos divino se fosse mais seletivo em seu ato de criação —, a consequência latente desde o início no princípio da plenitude é posta com incomum vivacidade e franqueza, sendo o filósofo alemão mais franco, ardente e alegre que o teólogo anglicano.
33. Algo muito semelhante a isso havia, de fato, sido considerado a essência da razoabilidade tanto pelos teóricos estéticos neoclássicos quanto por multidão de moralistas influentes, cujo objetivo aparente fora produzir estreita aproximação à uniformidade no caráter e comportamento humanos e nas instituições políticas e sociais.
34. A consequência eticamente significativa mais claramente extraída disso por Leibniz é que nem a bondade moral comumente chamada, nem o prazer, é a coisa mais importante do mundo, sendo tanto o hedonismo quanto o moralismo abstrato igualmente contrários à teoria de valor implícita no princípio da plenitude.
35. A esta tese Leibniz retorna repetidamente na Teodiceia: é máxima falsa que a felicidade das criaturas racionais seja o único propósito de Deus, pois nesse caso ele teria escolhido conjunto de possíveis do qual todos os males estivessem excluídos, mas com isso teria faltado ao que é devido ao universo, isto é, a si mesmo.
36. Leibniz acrescenta o argumento estético corriqueiro sobre a indispensabilidade dos contrastes na produção da beleza, mesmo no simples prazer físico do paladar: as coisas doces tornam-se insípidas se nada mais comermos, sendo necessário combiná-las com o azedo e o amargo para estimular o gosto.
37. Assim, esses filósofos sutis e graves teólogos, e os poetas como Pope e Haller que popularizaram seus raciocínios, fundamentaram sua afirmação da bondade do universo, em última análise, na mesma base da criança de Stevenson no berçário: “O mundo está tão cheio de tantas coisas.”
38. Nas exigências de seu argumento rumo a essa conclusão ambiciosa, viram-se constrangidos a atribuir à Razão Divina concepção do bem extremamente diferente daquela mais corrente entre os homens e frequentemente entre os filósofos, sendo assim levados, muitas vezes contra seu temperamento e intenção originais, a imprimir em sua geração teoria revolucionária e paradoxal do critério de todo valor, resumível nas palavras de amante do paradoxo de nossos dias: “Uma coisa apenas é necessária: Tudo. O resto é vaidade das vaidades.” Os resultados disso só se tornariam plenamente aparentes na última década do século.
A CADEIA DO SER E ALGUNS ASPECTOS DA BIOLOGIA DO SÉCULO XVIII
1. Nenhuma história das ciências biológicas do século XVIII pode ser adequada se deixar de considerar que, para a maioria dos homens de ciência do período, os teoremas implícitos na concepção da Cadeia do Ser continuaram a constituir pressupostos essenciais na formulação de hipóteses científicas, sendo aqui examinados três aspectos em que a teoria biológica foi afetada pelos princípios de continuidade e plenitude ou tendeu, por sua vez, a reinterpretá-los.
Primeiro aspecto: a rejeição da noção de espécie
2. Havia na lógica e na história natural de Aristóteles, e portanto na Idade Média tardia, dois modos opostos de pensamento: um que fazia divisões nítidas entre os seres naturais, e outro que tendia a tornar toda a noção de espécie mera divisão artificial sem contraparte na natureza, tendo prevalecido em geral o primeiro na biologia moderna inicial.
3. Duas ideias trabalhavam, contudo, em ambos os séculos, para desacreditar cada vez mais a noção de espécie: a primeira, a vertente semi-nominalista da filosofia de Locke, que admitia “essências reais” conhecidas apenas por Deus e talvez pelos anjos, sendo nossas concepções de espécie meras “essências nominais”, combinações de ideias postas pela mente sem divisão objetiva fixa entre as coisas naturais.
4. Evidente, porém, que o princípio da continuidade tendia igualmente, e ainda mais potentemente, à mesma conclusão, dado o maior peso da tradição por trás dele e a influência tanto de Leibniz quanto de Locke, resultando na rejeição do conceito de espécie por alguns dos maiores naturalistas da época.
5. Buffon, é verdade, logo abandonou essa posição, imaginando ter encontrado na infertilidade dos híbridos prova de que as espécies são realidades objetivas e fundamentais, “os únicos seres da Natureza”, tão antigos e permanentes quanto ela própria, sendo o indivíduo, seja qual for sua espécie, nada no universo.
6. Bonnet retomou, porém, a vertente que Buffon abandonara, repetindo a fraseologia costumeira sobre a continuidade da cadeia e concluindo inequivocamente que não há tal coisa como espécies, sendo nossas classificações puramente nominais, meios relativos às nossas necessidades e às limitações de nosso conhecimento.
7. Goldsmith, autor de compêndio popular de história natural, adotou e ajudou a difundir essa doutrina da inadmissibilidade científica do conceito de espécie, afirmando serem todas as “divisões” entre os objetos da natureza perfeitamente arbitrárias, sendo a gradação de uma ordem de seres a outra tão imperceptível que é impossível traçar linha que marque distintamente os limites de cada uma.
8. O hábito geral de pensar em termos de espécie, bem como o senso de separação do homem em relação ao resto da criação animal, começava assim a desmoronar no século XVIII, época em que, mais que em qualquer período anterior, o princípio da continuidade era contado entre as primeiras e fundamentais verdades.
Segundo aspecto: a busca pelos elos perdidos
9. Mesmo para os biólogos que não rejeitavam explicitamente a crença em espécies naturais, o princípio da continuidade não foi estéril em consequências significativas, levando os naturalistas a procurar formas que preenchessem os “elos faltantes” aparentes na cadeia.
10. Toda descoberta de nova forma podia ser considerada não como revelação de fato adicional desconexo na natureza, mas como passo rumo à completude de estrutura sistemática cujo plano geral já era conhecido de antemão, evidência empírica adicional da verdade do esquema geral das coisas.
11. Foi, aos olhos do século XVIII, grande momento na história da ciência quando Trembley, em 1739, redescobriu o pólipo de água doce Hydra, saudado imediatamente como o há muito buscado elo perdido entre plantas e animais, servindo essa e descobertas semelhantes para fortalecer a fé na plenitude e continuidade como leis racionais a priori da natureza.
12. A busca de organismos ainda não observados que preenchessem essas lacunas foi perseguida com zelo especial em dois pontos da escala: perto de sua base, e no intervalo entre o homem e os grandes símios, observando Bonnet que a natureza parece dar grande salto ao passar do vegetal ao fóssil, mas que essa lacuna provavelmente seria um dia preenchida, como já ocorrera entre animal e vegetal com o pólipo.
13. O programa de descobrir os elos ainda não observados desempenhou papel de especial importância nos primórdios da antropologia; a estreita semelhança na estrutura óssea entre os símios e o homem já era conhecida, mas zoólogos cuidadosos reconheciam soluções aparentes de continuidade nessa região da série.
14. Essa preocupação com a relação do homem com os antropoides deu interesse “filosófico” especial às numerosas descrições dos hotentotes por viajantes do final do XVII e início do XVIII, provavelmente as raças selvagens mais “baixas” então conhecidas, vistas por mais de um escritor como elo entre os antropoides e o homo sapiens.
15. Depois, Rousseau (1753) e Lord Monboddo (1770) deram o passo adicional de afirmar que o homem e os grandes símios são da mesma espécie, sendo a linguagem não originalmente “natural ao homem” mas arte gradualmente desenvolvida por uma variedade dessa espécie, construindo-se assim a continuidade da série já geneticamente.
16. Por volta de 1760 os triunfos dos caçadores de elos perdidos já eram celebrados em verso, e desde meados do século XVIII até a época de Darwin essa caça continuou a atrair não só o interesse de especialistas mas também a curiosidade do público geral, como testemunha o fato de P. T. Barnum ter anunciado, em 1842, “elos conectores” entre foca e pato, entre pássaro e peixe, entre répteis e peixes, entre suas atrações de museu.
Terceiro aspecto: o microscópio e o mundo dos micro-organismos
17. Devemos voltar ao início do grande avanço na ciência observacional que começou com a invenção de microscópios eficientes, figurando este como instrumento importante de descoberta biológica na segunda metade do século XVII, sobretudo através do trabalho de Antony van Leeuwenhoek.
18. A existência de unidades de matéria, orgânica e inorgânica, muito mais diminutas do que o microscópio ainda revelara, fora de fato conjecturada a priori antes de Leeuwenhoek, como em tratado científico de 1664 do escritor Henry Power, para quem os corpos que vemos a olho nu são apenas “proporcionais médios” entre os maiores e os menores corpos da natureza.
19. A mesma lógica que exigia a hipótese da “infinidade de mundos” e de globos habitados exigia essa extensão do reino da vida para baixo, sendo “os dois infinitos” — o infinitamente grande e o infinitamente pequeno — ambos implicados pelas mesmas premissas.
20. Esse segundo alargamento da natureza teve dois efeitos conflitantes sobre a imaginação dos homens: por um lado, havia algo altamente sinistro nele, apresentando o espetáculo lúgubre de um parasitismo universal, do próprio corpo humano infestado de miríades de criaturas predatórias diminutas.
21. Era sobre o lado desagradável do quadro que as mentes mais sombrias preferiam deter-se, servindo bem ao propósito de Pascal de “rebaixar” e aterrorizar o homem, tornando-o vividamente sensível ao seu pequeno lugar no esquema cósmico.
22. Mas a outra reação imaginativa era aparentemente muito mais comum na filosofia e literatura do século XVIII: as descobertas dos microscopistas forneciam nova e deliciosa evidência daquela generatividade insaciável em que, nas filosofias platônicas, se fazia consistir peculiarmente a “bondade de Deus”.
23. As emoções de James Thomson eram mais mistas: por um lado, certo de que os micro-organismos têm seu lugar necessário e “útil” no esquema das coisas, extasia-se com o modo como “a Natureza plena formiga de vida”; por outro, não pode deixar de achar afortunado que a maioria dos animais mais diminutos escape ao olho grosseiro do homem, pois, se os mundos sobre mundos irrompessem sobre seus sentidos, ele se voltaria com repugnância de seus alimentos e ficaria atordoado de ruído na noite silenciosa.
24. Mesmo ao fim do século, o princípio da plenitude e especialmente o da continuidade ainda são reconhecidos por Kant, na Crítica da Razão Pura, como sólidos princípios orientadores para a biologia e outras ciências, embora com as qualificações importantes decorrentes da impossibilidade, implicada pela Filosofia Crítica, de completude detalhada de tal síntese abrangente pelo nosso entendimento.