LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.
O ROMANTISMO E O PRINCÍPIO DA PLENITUDE
1. É uma das ironias instrutivas da história das ideias que um princípio introduzido por uma geração a serviço de tendência filosófica que lhe era congenial frequentemente se revela portador, sem que se suspeitasse, do germe de uma tendência contrária, destruindo por implicações ocultas o próprio Zeitgeist a que deveria servir, como bem exemplificam os princípios de plenitude e continuidade.
2. Em quase todas as províncias do pensamento iluminista, a suposição dominante era de que a Razão é a mesma em todos os homens e igualmente possuída por todos, devendo a inteligibilidade e aceitabilidade universais constituir o critério decisivo de validade em todas as questões de interesse humano vital.
3. A mesma conotação de universalidade era frequentemente atribuída ao termo proteico “natureza” em sua aplicação ética, na concepção da “lei da natureza” em filosofia moral e política, tendo Cícero já equiparado formalmente “o universalmente aceito” à lex naturae, e os juristas romanos identificado jus naturale com jus gentium.
4. A mesma suposição era manifestamente a raiz de que brotaram a maioria dos princípios da crítica neoclássica, podendo-se citar Longino, para quem se pode considerar sublime, belo e genuíno aquilo que sempre agrada e conquista igualmente toda sorte de homens.
5. É bem lembrado como o Dr. Johnson, sob influência desse princípio, elogiou preposterosamente mal Shakespeare, por seus romanos não serem particularmente romanos nem seus reis especialmente régios, exibindo apenas os traços da “humanidade comum” — a ortodoxia estética e a heterodoxia religiosa daquela época cresceram de raiz comum.
6. A doutrina da superioridade dos antigos era corolário óbvio do mesmo universalismo, pois só os antigos tiveram, por assim dizer, tempo para que o teste da (suposta) aceitação universal lhes fosse aplicado, como observou um escritor menor típico: não é porque Aristóteles e Horácio nos deram as regras da crítica que a elas nos submetemos, mas porque essas regras derivam de obras distinguidas pela admiração ininterrupta de toda a parte mais aperfeiçoada da humanidade.
7. Por dois séculos, os esforços de aperfeiçoamento em crenças, instituições e arte foram, no geral, controlados pela suposição de que o homem, em cada fase de sua atividade, deveria conformar-se o mais possível a um padrão concebido como universal, simples e imutável, tendo Spinoza resumido isso na observação de que o propósito da Natureza é tornar os homens uniformes, como filhos de mãe comum.
8. Houve, em toda a história do pensamento, poucas mudanças de padrões de valor mais profundas e momentosas que aquela ocorrida quando o princípio contrário começou a prevalecer amplamente — quando se passou a acreditar que a diversidade é da própria essência da excelência, e que o objetivo da arte, em particular, é não a perfeição única de forma em número reduzido de gêneros fixos, mas a mais plena expressão possível da abundância de diferença existente, atual ou potencialmente, na natureza e na natureza humana.
9. Não importa muito se aplicamos ou não a essa transformação o nome de “Romantismo”; o essencial é lembrar que a transformação ocorreu e que ela, talvez mais que qualquer outra coisa, distinguiu os pressupostos dominantes da mente do século XIX e do nosso próprio dos do período anterior, consistindo em suma na substituição do uniformitarismo pelo diversitarismo como preconcepção reguladora.
10. A relação dessa mudança com as ideias cuja influência histórica revisamos é o que sobretudo se deseja apontar nesta conferência: la nature est partout la même era a premissa da qual os teóricos estéticos neoclássicos deduziam que a arte deveria ser a mesma entre todos os povos, mas os escritores sobre a Cadeia do Ser — muitas vezes os mesmos autores — reiteravam sem cessar o contrário: que “a Natureza diversifica sua arte de tantas formas quanto possível”.
11. Qualquer esforço do homem para diminuir essa diferença seria, portanto, contrário ao plano cósmico; já vimos Addison encontrar a “bondade de Deus” não menos “na diversidade que na multidão de criaturas vivas”, e Haller extrair explicitamente a moral para o homem: “A felicidade dos mortais quer a diversidade.”
12. Ao fim do século XVIII, devemos lembrar, a ordem cósmica passava a ser concebida não como diversidade estática infinita, mas como processo de diversificação crescente, tendo o Deus cujos atributos ela revelava sido declarado por não poucos grandes escritores um Deus que se manifesta através da mudança e do devir.
13. Não apenas diversidade e inovação perpétua, mas também certa medida de discórdia e conflito haviam sido encontradas pelos filósofos mais estimados do início do século XVIII como implícitas na natureza do bem, quando este era interpretado conforme o princípio da plenitude, representando o argumento tradicional otimista o Artista Cósmico como mais preocupado com plenitude e variedade de conteúdo que com simplicidade e perfeição de forma.
14. Se reconhecemos na mudança do pressuposto uniformitário para o diversitário o traço único mais significativo e distintivo da revolução romântica, é evidente que sempre houvera na tradição platônica princípio tendendo ao Romantismo, enunciado com clareza especial pelos filósofos e poetas filosóficos da chamada Idade da Razão.
15. Havia, de fato, várias outras forças poderosas trabalhando sobre essas mentes, mas a pressão do princípio da plenitude pode ser mostrada como fator maior na grande mudança de pressupostos manifesta nas ideias religiosas e nos ideais morais e estéticos da geração de escritores alemães que atingiu a maturidade entre os anos setenta e noventa.
16. Na filosofia juvenil de Schiller, exposta nas Philosophische Briefe, essas consequências antirracionalistas e diversitárias do princípio são deduzidas com a máxima ousadia, emergindo de premissas platônicas e leibnizianas justificação do temperamento do Sturm und Drang: toda espécie de perfeição deve alcançar existência na plenitude do mundo.
17. Dessas reflexões o jovem filósofo-poeta conclui romanticamente que nem ele nem o amigo a quem confia suas meditações precisam preocupar-se em ter por vezes “confundido as ebulições de seu sangue… com sábia sobriedade”, pois mesmo que toda sua estrutura conclusiva seja tecido infundado de um sonho, o mundo se torna mais rico pela ilusão, e os propósitos do Criador se realizam mais plenamente.
18. A implicação estética também é evidente e não deixada inexpressa por Schiller: o artista humano deve, como o divino, fazer da plenitude na expressão de todos os modos possíveis de ser o propósito de sua atividade, programa a ser realizado gradualmente, à medida que o conteúdo da arte se enriquece através das gerações.
19. No mesmo escrito, o jovem teólogo rejeita formalmente a noção da autossuficiência divina, o princípio aristotélico de que um Deus “não pode ter necessidade de amigos”, respondendo à questão insolúvel de Klopstock em termos que teriam escandalizado a maioria dos grandes teólogos especulativos desde Aristóteles.
20. Em consequência sobretudo da tardia onda de classicismo que varreu a geração alemã mais jovem no fim dos anos oitenta e início dos noventa, essas exuberâncias da juventude de Schiller passaram a parecer-lhe, não falsas, mas unilaterais, tomando forma sua tentativa de complementá-las em suas Letters on the Aesthetic Education of Mankind (1795).
21. Schiller traz de volta assim os dois Deuses de Platão — a Perfeição imutável e autocontida e o Impulso Criativo que busca a realização ilimitada no tempo de todos os possíveis — compartilhando o homem dessas duas características, existindo nele duas tendências para sempre conflitantes: o Formtrieb, exigência de unidade pura, e o Stofftrieb, exigência de diversidade e plenitude de conteúdo particularizado concreto.
22. Embora esses dois elementos estejam em guerra perpétua, ambos são igualmente indispensáveis à excelência de caráter e de arte; a Beleza requer sempre definição de forma, mas esse objetivo deve ser alcançado não pela exclusão de certas realidades, mas pela inclusão absoluta de todas.
23. Nos escritos, a partir de 1796, dos poetas, críticos e moralistas alemães que adaptaram a palavra “romântico” a seus próprios usos, a suposição diversitária está presente de modo penetrante, ligada de perto à concepção de que a tarefa do artista é imitar não simplesmente as obras da Natureza, mas seu modo de trabalhar.
24. Havia, porém, ambiguidade radical e perigosa nessa suposição quando aplicada como regra de arte ou conduta, podendo ser interpretada de duas maneiras que tendiam, na prática, a ser antitéticas: primeiro, como esforço de entrar tão plenamente quanto possível na imensamente variada gama de pensamento e sentimento de outros homens.
25. Foi assim que Wackenroder louvou Allgemeinheit, Toleranz und Menschenliebe na arte: o Espírito Eterno sabe que cada homem fala a língua que Ele lhe proveu, sendo-lhe a igreja gótica tão agradável quanto o templo grego, e a rude música guerreira do selvagem tão cara quanto hinos religiosos compostos com a mais rica arte.
26. A. W. Schlegel, mais de uma década depois, inculcava a mesma disciplina estética exigente e salutar: não se pode tornar conhecedor sem universalidade de espírito, isto é, sem a flexibilidade que nos permite, pela renúncia aos gostos pessoais, transpor-nos ao que é peculiar a outros povos e tempos.
27. Para o artista, distinto do apreciador de arte, esse ideal conduziu ao programa expresso na famosa definição de Friedrich Schlegel da poesia romântica: “die romantische Poesie ist eine progressive Universalpoesie” — universal não no sentido restritivo de buscar uniformidade de normas, mas no sentido expansivo de visar à apreensão de todo modo de experiência humana.
28. Essa vertente do Romantismo era mais harmônica com a nota já observada em conferência anterior — a exigência de transcendência perpétua do já alcançado, de expansão incessante —, devendo a arte romântica ser progressiva além de universal, já que a compreensão universal visada nunca seria plenamente atingível por indivíduo ou geração algum.
29. Mas a idealização da diversidade, o programa de conscientemente emular e mesmo acrescentar à plenitude da natureza, podia, como já dito, ser interpretado de modo bem diverso: se o mundo é tanto melhor quanto mais variedade contém, o dever do indivíduo pareceria ser cultivar e intensificar sua própria diferença em relação aos outros homens.
30. Ambas essas morais altamente dissimilares extraídas do princípio da plenitude são especialmente bem ilustradas por Schleiermacher, em seus Reden (1799) e Monologen (1800), o primeiro podendo ser chamado a primeira tentativa séria e deliberada de formular ética distintamente “romântica”.
31. Schleiermacher não vê essa suposição refutada pela “frequentemente lamentada superfluidade das formas mais comuns da humanidade, sempre retornando inalteradas em mil cópias”, encontrando explicação no princípio da continuidade: a Mente Eterna ordena que as formas em que a individualidade é mais difícil de discernir permaneçam mais próximas entre si.
32. Daí Schleiermacher extrai o corolário ético de que a “uniformidade” no pensamento e caráter é o mal que constitui o primeiro dever do homem evitar: por que, na província da moral, prevalece essa lamentável uniformidade que busca trazer a vida humana mais elevada para dentro de fórmula única e sem vida?
33. Nos Reden, Schleiermacher aplica ambas as interpretações do diversitarismo, invertendo a suposição fundamental comum à Igreja e aos deístas, declarando que a variedade mesmo nas crenças religiosas é desejável e essencial: as diferentes manifestações da religião não podem ser meras subdivisões diferindo apenas em número e tamanho.
34. O Cristianismo é, para Schleiermacher, a mais elevada das religiões positivas, mas sua superioridade reside apenas em sua liberdade de exclusividade, não pretendendo ser universal e governar sozinho sobre a humanidade como religião única, mas produzindo dentro de si variedade ao infinito e vendo com prazer realizado, mesmo fora de si, tudo o que não pode produzir de si mesma.
35. Se tentássemos, à luz da história subsequente, avaliar essas duas vertentes do ideal romântico, a maioria concordaria talvez que ambas contribuíram para consequências felizes e infelizes nas décadas seguintes; a primeira vertente foi a promulgação de imenso aumento no alcance da maioria das artes e ampliação sem precedentes do gosto dos homens.
36. Contudo, tudo isso teve seus perigos: o Stofftrieb tendeu a sobrepujar o Formtrieb, tornando-se a revolta contra a padronização da vida facilmente revolta contra toda a concepção de padrões, pois dizer “Sim” a tudo e a todos é manifestamente não ter caráter algum.
37. Bifurcação semelhante de tendências pode ver-se no outro dos dois elementos do ideal romântico como influência no século subsequente: serviu para promover, em indivíduos e povos, resistência às forças que tendem a obliterar as diferenças que tornam os homens interessantes e valiosos uns para os outros, sendo inimigo perpétuo de das Gemeine.
38. Mais de um grande povo, no curso do último século e meio, tendo primeiro divinizado suas próprias peculiaridades, boas ou más ou ambas, logo passou a suspeitar que não havia outro deus; um tipo de cultura nacional valorizado a princípio por ser próprio veio a ser concebido como algo que se tinha a missão de impor a outros, ou difundir pela maior parte possível da superfície do planeta.
39. Mas corruptio optimi pessima: a descoberta do valor intrínseco da diversidade foi, em ambos os aspectos, e com todos os perigos nela latentes, uma das grandes descobertas da mente humana, não sendo evidência de sua ausência de valor o fato de ter sido, como tantas outras descobertas, voltada pelo homem a usos ruinosos.
40. Não se pode deixar de acrescentar certa pertinência desse tema à memória do homem cujo nome esta cátedra de conferências carrega: William James, qualquer que seja o veredito do futuro sobre algumas de suas teses filosóficas mais técnicas, foi em si mesmo encarnação, em equilíbrio justo e são, dos dois elementos do ideal aqui discutido.